As rainhas na obra de George R. R. Martin: o poder das mulheres (Conclusão)

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Sucesso mundial, a série de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo”, escrita por George R. R. Martin, povoou as mentes dos leitores com personagens inesquecíveis e criaturas fantásticas, habitando um continente dividido por sete reinos. Westeros tem de quase tudo um pouco do nosso mundo, desde sua paisagem, religião e até mesmo a hierarquia social. A corte de Porto Real é um verdadeiro palco para conspirações e intrigas protagonizadas por reis e rainhas, lordes e ladys. É o cenário ideal para mulheres como Margaery Tyrell, a rainha consorte, e Cersei Lannister, a rainha regente, disputando pela posse do rei-menino, Tommen Baratheon. Enquanto isso, do outro lado do mar estreito, Daenerys Targaryen, a rainha reinante, se prepara para retornar com fogo e sangue, e acabar de uma vez por todas com o jogo dos tronos. Westeros é também o lar de outras mulheres empoderadas, como Asha Greyjoy e Arianne Martell; de guerreiras como Brienne de Tarth, Arya Stark e Ygritte, ou donzelas sonhadoras como Sansa; de sacerdotisas como Melisandre e amantes como Shae e Ellaria Sand. Mas principalmente é o lugar de mães, como Catelyn Stark, cuja maior preocupação é ver a segurança e a felicidade dos filhos. São várias mulheres no meio de uma única luta. Várias faces de um mesmo rosto feminino que clama por igualdade e respeito dentro da sociedade. Voltemos então a nossa atenção para o poder das rainhas em Game of Thrones.

Quando o primeiro volume de “As Crônicas de Gelo e Fogo” foi lançado, em 1996, o público de leitores já não mais queria ler estórias de donzelas encantadas, esperando por um herói mítico ou coisa do tipo. Queriam consumir livros onde a mulher não era mais o agente passivo do enredo e sim a protagonista, aquela que faz e acontece, fosse ela vilã ou heroína, virgem ou prostituta, e por aí vai… Queriam, acima de tudo, personagens femininas que refletissem as próprias preocupações do mundo moderno, realistas e imperfeitas e, portanto, originais. George R. R. Martin ofereceu isso ao seu público, ao construir um cenário em que o regime de governo era a monarquia e a sociedade, não muito diferente da nossa, impunha papeis distintos para homens e mulheres. Sendo assim, a irreverência das personagens acima citadas consiste justamente por quebrar essa distinção, atuando em ambientes onde até então só haviam sido explorados, prioritariamente, pelos caracteres masculinos, como é o caso de Margaery, Cersei e Daenerys. Essa última, descendente da maior dinastia de reis que o mundo já viu, recebeu do destino a maior de todas as missões: ser a primeira rainha reinante de Westeros. Ela deve triunfar onde sua ancestral, Rhaenyra Targaryen, falhou e provar que pode ser uma boa governante. Para tanto, ela possui a coragem das mulheres de sua família, especialmente de um caso em particular: Visenya.

Da esquerda para a direita: Margaery Tyrell, Cersei Lannister, Visenya Targaryen e Daenerys Targaryen. Ilustrações de Elia Fernández.

Da esquerda para a direita: Margaery Tyrell, Cersei Lannister, Visenya Targaryen e Daenerys Targaryen. Ilustrações de Elia Fernández.

As mulheres Targaryen são ótimos exemplos da força feminina na saga. Visenya Targaryen, a irmã/esposa de Aegon I, o Conquistador, é o melhor deles. Montada no seu dragão, Vhagar, e empunhando a espada de aço valiriano “irmã negra”, sua presença foi fundamental na guerra de conquista de Westeros. Linda, sexy e perigosa, dizia-se que ela se sentia tão bem dentro de uma cota de malha quanto em um vestido de seda. Sobreviveu a seus dois irmãos mais novos e fez de seu filho, Maegor, rei, em detrimento dos descendentes de Rhaenys. As mulheres Targaryen de gerações posteriores não eram guerreiras como a irmã mais velha de Aegon I, mas possuíam tanta coragem e astúcia quanto. Entre elas, Rhaenyra. Contrariando o costume ândalo, que dava precedência à linhagem masculina, Viserys I decidiu nomear sua filha como herdeira do trono e princesa de Pedra do Dragão. Dessa forma, as sementes para o episódio que posteriormente ficou conhecido como a “Dança dos Dragões” já estavam plantadas. Para defender seu direito ao trono após a morte do pai, Rhaenyra deu início a uma verdadeira guerra contra seu meio-irmão, Aegon II. Ambos morreram em decorrência do conflito e desde então a possibilidade de uma mulher vir a ocupar o Trono de Ferro foi descartada pelo Grande Conselho. Era grande o medo de que outra “Rhaenyra Targaryen” chegasse ao poder.

Na França do século XIV, a lei sálica terminantemente proibia que mulheres herdassem o trono. Embora não existisse em Westeros uma lei como essa, o precedente de Rhaenyra acabou assustando o conselho real, que dava sempre preferência à linhagem masculina. Para acabar com esse receio, Daenerys Targaryen (descendente de Rhaenyra) terá que quebrar o precedente, impondo em todo o reino o princípio da primogenitura adotado em Dorne, pelo qual o filho ou filha mais velho(a) herda os bens da família. Em “O Festim dos Corvos”, quarto volume da saga, o leitor se deparou com as “serpentes de areia”, filhas de Oberyn Martell, e com a princesa Arianne Martell, herdeira de Dorne. O plano de Arianne e suas primas consistia em aplicar o princípio da primogenitura e coroar a princesa Myrcella como rainha reinante, devido ao fato dela ser mais velha que Tommen. A intenção de Arianne era deixar a facção dos Lannister dividida, o que ela não acabou conseguindo. Neste mesmo livro, também observamos Asha Greyjoy brigar pelo seu direito à cadeira de Pedra do Mar, na assembleia dos homens livre. Como filha de Lorde Balon Greyjoy, ela queria pôr um fim às guerras de seu povo e levar paz para Pyke e as outras Ilhas de Ferro. Embora não tendo convencido seus conterrâneos, Asha não desistiu do seu direito e, tal como Arianne Martell, está disposta a insistir na sua herança.

Da esquerda para a direita: Arianne Martell, Asha Greyjoy, Brienne de Tarth e Melisandre de Asshai. Ilustrações de Elia Fernández.

Da esquerda para a direita: Arianne Martell, Asha Greyjoy, Brienne de Tarth e Melisandre de Asshai. Ilustrações de Elia Fernández.

O sentimento de autopreservação característicos nestas duas personagens é também o escudo de Brienne de Tarth, que passou boa parte dos livros 3 e 4 cavalgando pelas terras fluviais, vestida em armadura e cota de malha. Brienne se rebelou contra seu destino e optou por dar um rumo diferente à sua vida. Não era uma mulher atraente e tampouco levava jeito para os afazeres domésticos. Então, aprendeu tudo o que um jovem cavaleiro deveria saber, desde como montar, a empunhar um escudo e usar uma espada. Diferentemente da donzela de Tarth, as mulheres que não sabiam “lutar como homens” precisaramm encontrar outras formas de sobreviver. As amantes, por exemplo, fazem da sedução a sua arma, como é o caso das personagens Shae e Ellaria Sand; ou então, escolhem o domínio da Fé. Nessa última possibilidade, temos como exemplo as Septãs e a sacerdotisa do Deus da Luz, Melisandre, que exerce bastante influência sobre o pretendente ao trono, Stannis Baratheon. No nosso mundo, durante a idade média, quando a Igreja Católica era a grande senhora feudal, a religião era o único meio pelo qual uma mulher comum podia ser adorada. Nem todas tinham a sorte de nascer no meio da nobreza. Nesse caso, para aquelas que não vieram ao mundo numa posição vantajosa como Cersei Lannister e Margaery Tyrell, as escolhas eram bastante limitadas. Muitas se conformavam com o papel de mãe e esposa e assim viviam até o resto dos seus dias.

Com efeito, se engana quem pensa que a figura da mãe em “As Crônicas de Gelo e Fogo” é menos poderosa. Não é à toa que ela se constitui numa das sete divindades adoradas em Westeros. Na série de livros, a proteção materna é melhor exemplificada através das personagens da rainha regente e de Catelyn Stark. Cersei é uma mulher extremamente super-protetora com a sua prole. Quando Joffrey começou a se emancipar do domínio da mãe, vemos então uma fase de histeria na vida da rainha, intensificada após a morte do primogênito. Cersei não estava disposta a correr o mesmo risco com Tommen e empregou todos os seus recursos para afastar a nora, Margaery Tyrell, do convívio dele. Catelyn, por sua vez, nutria o sonho de reagrupar os membros de sua família e juntos voltarem para Winterfell. Porém, em decorrência da guerra, não teve escolha a não ser apoiar Robb, chegando inclusive a firmar alianças políticas em benefício do Rei do Norte. Depois do fatídico “casamento vermelho”, uma nova Catelyn ressurgiu do mundo dos mortos para se vingar dos assassinos de sua família. Seu coração, antes maternal, agora é gélido; o amor cedeu ugar ao ódio. Mal imagina Lady Stoneheart que seus outros filhos continuam vivos e um deles, Arya, está em vias de se tornar uma guerreira tão habilidosa quanto Brienne. Seus sonhos nunca foram como os da irmã mais velha, Sansa, que a princípio só queria ser a esposa de um herói digno de canções.

Da esquerda para a direita: Catelyn Stark, Arya Stark, Sansa Stark e Ygritte. Ilustrações de Elia Fernández.

Da esquerda para a direita: Catelyn Stark, Arya Stark, Sansa Stark e Ygritte. Ilustrações de Elia Fernández.

Semelhante a Daenerys, a personagem de Sansa Stark sofreu uma grande transformação ao longo dos livros. Tendo presenciado a decapitação do pai e sofrido nas mãos de Joffrey Baratheon e Cersei Lannister, ela está aprendendo a conseguir o que quer dos homens não pelo confronto direito, mas fazendo-os acreditar que são eles que estão no comando. Sem dúvida podemos esperar ainda grandes coisas vindas dessa personagem. Não posso deixar de falar também das mulheres do povo livre, especialmente de Ygritte. Nas terras de além da muralha, onde as regras de convívio social dos homens do Sul não existem, as mulheres gozam de plena liberdade, tal como os homens. Comandam tropas e se deitam com quem querem, até que um guerreiro se mostre mais corajoso e as sequestre. Se o indivíduo tiver sorte, então sua prisioneira se tornará sua companheira. Há ainda as ditas “esposas de lança”, tão boas com o armamento quanto qualquer outro. Foi cercado por um grupo delas que Mance Rayder partiu para Winterfell, disfarçado de cantor, com a intenção de resgatar a suposta Arya Stark. No caso de Ygritte, assim como Sansa, ela é ruiva (“beijada pelo fogo”), e não desistiu até fazer o casto Jon Snow quebrar os seus votos da Patrulha da Noite. É uma personagem cheia de vivacidade e de coragem. Pena que durou apenas por dois livros.

Ao longo dessa série de posts, evidenciei como George R. R. Martin, possivelmente, bebeu na fonte da história para compor as figuras de Margaery Tyrell, Cersei Lannister e Daenerys Targaryen. Através das mãos de um escritor, realidade e fantasia podem se misturar, oferecendo ao leitor um painel rico e colorido do nosso mundo. As rainhas em “As Crônicas de Gelo e Fogo” carregam em si muito das nossas próprias soberanas, como Catarina de Aragão, Margarida de Anjou e Cleópatra. Cada uma delas, de certa forma, contribuiu para o nascimento de suas parceiras no ramo da ficção. Perigosas e virtuosas, as personagens femininas de criadas por Martin expressam a força e a coragem das mulheres do mundo real. Inconformadas com a condição de inferioridade imposta durante séculos de tradição, elas lutam por seu próprio espaço, dentro de uma sociedade misógina, que confinava as esposas e as filhas no espaço privado, reservando o público apenas aos maridos e os filhos. São mulheres guerreiras, apaixonantes e apaixonadas, que buscam a paz em meio à guerra, a felicidade em meio à tristeza, o amor em meio ao ódio. São rainhas, princesas, esposas, amantes, sacerdotisas, hereges, adversárias e amigas. Verdadeira luta entre opostos que extrapola os mundos da ficção e se perpetua dentro de cada ser humano. As mulheres em “Game Of Thrones” são reais. Podemos vê-las inclusive no seio de nossas próprias famílias. Só basta querer enxergar!

Referências Bibliográficas:

CANDIDO, Antonio; et.al. A personagem de ficção. – 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2011.

MARTIN, George R. R.; DOZOIS, Gardner (orgs.). O príncipe de Westeros e outras histórias. – Rio de Janeiro: Saída de Emergência, 2015.

MARTIN, George R. R.; GARCÍA JR., Elio M.; ANTONSSON, Linda. O mundo de gelo de fogo: história não contada de Westeros e de as crônicas de gelo e fogo. – São Paulo: Leya, 2014.

MARTIN, George. R. R. As crônicas de Gelo e fogo. – São Paulo: Leya, 2012. 5 vols.

_. O cavaleiro dos sete reinos. – São Paulo, Leya, 2014.

Imagem de capa: As mulheres em Game of Thrones, por Leann Hill

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8 comentários sobre “As rainhas na obra de George R. R. Martin: o poder das mulheres (Conclusão)

  1. Excelente conclusão!! Não vejo a hora da Sansa colocar para fora toda a sua força e dominar melhor a sua própria vida. E o crescimento da Arya também é muito empolgante. Mas a Brienne, ela é incrível!!!

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  2. Amei demais esses posts!! Já estava esperando q vc fizesse essas comparações históricas com as personagens femininas do Martin. Achava q só eu via Cleópatra na Daenerys, a maioria sempre a comparou muito à Alexandre o Grande. Visenya <333, a Dinastia Targaryen sempre teve mulheres incríveis, é por isso q é a minha casa preferida dos livros. Arianne cortada brutalmente e burramente pela série, mas jamais esquecida, ela e as Serpentes de Areia (que a série tbm conseguiu estragar) foram as melhores coisas de Festim dos Corvos.

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    • De fato Cleópatra VI foi uma rainha com uma história muito interessante, mas muita gente esquece das histórias das grandes faraós que o Egito já teve. Olha o exemplo de Hatchepsut, que mulher massa: filha de um grande faraó, teve que casar com um meio irmão cujo governo foi fraco e depois que ficou viúva governou o Egito por quase 20 anos com grande prosperidade e riqueza – tanto que, decerto por inveja, tentaram apaga-la da história depois de sua morte. Olha a história da faraó Nitócris, que segundo Heródoto foi a primeira do Egito e sua vingança aos assassinos de seu irmão. Entre outras, inclusive. Enfim, a história foi contada por homens, apesar de ter sido feita também por grandes mulheres. Precisamos resgata-las. E parabéns pelo texto.

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  3. Parabéns! As comparações e os textos são simplesmente sensacionais! É muito prazeroso para qualquer fã da saga (re)conhecer as possíveis influências que capítulos da nossa própria história exercem não somente sobre as complexas tramas e maquinações que movimentam as terras do Mundo de Gelo e Fogo, mas também sobre as personalidades das icônicas personagens das rainhas aspirantes ao poder. Percebe-se que o autor foi bem cuidadoso ao moldar os símbolos femininos, assim como você foi ao destrinchar as semelhanças entre as figuras fictícias e as factuais.
    Pessoalmente, apesar de admirar a sutileza com que Margaery Tyrell representa sua peça no tabuleiro, estou mais ansioso para saber o desfecho que o desenvolvimento de Sansa Stark em uma potencial jogadora terá.
    Novamente, parabéns! Continue com os ótimos textos.

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  4. Eu adoro as mulheres de George R.R Martin. Ninguém pode negar definitivamente o sucesso do a GoT HBO , estou surpreso toda a produção por trás da série. No começo eu não estava convencido de que ela, mas como a história progrediu, eu realmente se tornou um fã. E é fechar a temporada seguinte e não pode esperar. Sucesso está assegurado. Eu amo o elenco.

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