As rainhas na obra de George R. R. Martin: Cersei Lannister, a rainha regente.

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No ano de 267 d.C. (depois da Conquista), Lorde Tytos Lannister morreu. Seu herdeiro de 25 anos, Tywin, assumiu então o posto do pai como Senhor de Rochedo Casterly, Escudo de Lannisporto e Protetor do Oeste. Em toda a história de Westeros, nenhum homem foi tão implacável quanto Lorde Tywin, Mão de três reis. Tendo perdido a mulher durante o parto de seu último filho, Tywin pelo menos podia encontrar algum conforto no fato de ter um sucessor varão de seu próprio sangue e uma filha, a quem muitos chamariam de a mulher mais linda dos sete reinos. Loura, de pele alva, bochechas rosadas e intensos olhos verdes, Cersei Lannister foi moldada desde cedo pelo pai para se tornar a consorte do príncipe Rhaegar Targaryen, embora nunca tenha sido desposada pelo mesmo. Em vez disso, se tornou a mulher do rei Robert I Baratheon. Após a morte dele, governou como rainha regente durante a minoridade de seus filhos, em meio a um cenário de conspirações e assassinatos que fizeram o reino sangrar. A personagem de Cersei Lannister, criada por George R. R. Martin para sua série de livros “As Crônicas de Gelo e Gogo”, se parece em muitos aspectos com outras soberanas da antiguidade clássica e do renascimento europeu que (em alguns casos) ficaram famosas pela sua beleza luxuriante e índole cruel. Voltemos agora a nossa atenção para esse assunto. 

Ilustração de Magali Villeneuve para Cersei Lannister.

Ilustração de Magali Villeneuve para Cersei Lannister.

No primeiro volume da obra de Martin, “A Guerra dos Tronos”, o leitor certamente se chocou com um fato envolvendo a rainha consorte e seu irmão-gêmeo, Sor Jaime Lannister da Guarda Real: os dois mantinham uma relação incestuosa. Dessa união, nasceram os príncipes Joffrey, Myrcella e Tommen, tidos como descendentes legítimos do rei Robert, embora muitos duvidassem que aquelas três crianças louras e de olhos verdes pudessem ser filhos daquele soberano corpulento, de cabelos pretos e olhos de um azul intenso. Cansada de permanecer nas sombras enquanto seu marido deixava o governo nas mãos do pequeno conselho, a rainha decidiu agir. Antes que Ned Stark, Mão do rei, pudesse revelar a Robert o segredo de sua esposa, Cersei ordenou que o vinho do seu marido fosse adulterado enquanto ele caçava. Drogado e sem o domínio perfeito dos seus sentidos, o soberano foi morto por um javali, deixando seu amigo Ned como regente. Infelizmente, a rainha se mostrou mais ardilosa que o Senhor de Winterfell: não só rasgou o decreto real que o nomeava para o cargo da regência, como também conseguiu culpa-lo por traição. Porém, o que ela não esperava era que seu filho, Joffrey, se mostraria impiedoso quanto ao tratamento dispensado ao Stark, ordenando a sua decapitação. Assim teve início uma guerra com drásticas consequências para as personagens da trama.

O desenrolar dos acontecimentos que culminaram na disputa entre os Lannister e os Stark lembra os eventos da chamada Guerra das Duas Rosas (1455 – 1485), conflito protagonizado por duas famílias que disputavam pelo trono inglês: os Lancaster (rosa vermelha) e os York (rosa branca). Talvez por isso, a maioria dos entusiastas da série de livros de George R. R. Martin procuram enxergar nesse contexto as possíveis influências do autor para a criação da personagem Cersei Lannister, como, por exemplo, as rainhas Margarida de Anjou e Elizabeth Woodville. Esposa do rei Henrique IV, Margarida era bem-nascida e com um caráter tão implacável quanto o da filha de Lorde Tywin. Teve um papel de destaque na Guerra das Duas Rosas, sendo uma das líderes da facção dos Lancaster. Seu marido, o rei, era considerado um homem fraco e, alguns dizem, impotente, o que levou muitos a questionarem a legitimidade de seu filho, Eduardo de Westminster. Vencedora de algumas batalhas, Margarida não demonstrou misericórdia ao ordenar a decapitação dos líderes da facção rival: Ricardo, duque de York, e o conde de Salisbury. Todavia, seu reinado durou pouco, pois logo em seguida o filho de Ricardo, Henrique, assumiu a liderança do partido da rosa branca e após algumas batalhas, tomou o trono. A rainha e o seu filho, por sua vez, conseguiram refúgio na corte de Luís XI da França.

Margarida de Anjou (esuqerda) e Elizabeth Woodville (direita).

Margarida de Anjou (esuqerda) e Elizabeth Woodville (direita).

As maquinações de Margarida de Anjou para recuperar o trono inglês não pararam por aí. Em 1470, ela e seus aliados obtiveram nova vitória sob as forças de Eduardo IV, mas um ano depois foram mais uma vez derrotados e a rainha encarcerada na Torre de Londres, destituída de todos os seus poderes régios. A outra personalidade à qual muitos estabelecem um paralelo com Cersei Lannister é a esposa do próprio Eduardo IV (que possui muitas semelhanças com Robert Baratheon – que entrou em guerra contra a coroa e tomou o trono das mãos dos Targaryen –, como o amor pela bebida e pelas mulheres). Tal como Cersei, Elizabeth Woodville era loura e possuía uma beleza radiante que enfeitiçou o rei. Contudo, diferentemente da esposa de Robert, Elizabeth não descendia de uma linhagem que se pudesse chamar de nobre e, além do mais, já era viúva e mãe de dois filhos quando se casou com Eduardo. Após a morte repentina do marido, seu irmão mais novo, Ricardo, assumiu as funções de Lorde Protetor, dada à minoridade de seu sobrinho, Eduardo V. Pouco tempo depois, Ricardo conseguiu com que o casamento de seu irmão com Elizabeth fosse declarado inválido (e consequentemente, toda a sua descendência, ilegítima), assumindo ele mesmo trono. Após a morte de seus filhos sob circunstâncias suspeitas, a rainha-viúva passou para o lado dos Lancaster, que finalmente venceram os York em 1485, com a derrocada de Ricardo III.

As similaridades entre Cersei Lannister com Margarida de Anjou e Elizabeth Woodville terminam aí. Para entender corretamente a extensão dos seus poderes como rainha regente é preciso olhar para outro reino, a França, repositório de grandes soberanas que governaram durante a minoridade de seus filhos, como Catarina e Maria de Médici e Ana D’Áustria. Em tese, uma rainha consorte só poderia governar na ausência de um rei adulto. Mas antes disso, gostaria de convidar o leitor a olhar com um pouco mais de atenção para outras duas soberanas da antiguidade clássica que até agora foram praticamente desprezadas dentro desse quadro comparativo estabelecido entre Cersei e outras rainhas europeias: Agrippina (a Jovem) e Messalina. Em algumas ocasiões, George R. R. Martin deixou explícito o seu fascínio pelo império romano. Desse modo, não seria surpresa se algumas das antigas imperatrizes romanas tivessem lhe servido de influência, especialmente a quarta esposa do imperador Cláudio, que compartilhava com Cersei o mesmo crime: o de ter envenenado o marido. Agrippina (a Jovem) pertencia a uma das dinastias mais poderosas de Roma, a Júlio-claudiana. Era neta do Imperador Tibério e irmã de Calígula, tendo passado à história com adjetivos nada elogiosos, tais como “ambiciosa”, “violenta” e “dominadora”, três palavras que poderiam ser perfeitamente usadas para definir o caráter de Cersei Lannister. Assim como a esposa do rei Robert, Agripina desejava arduamente o poder e sabia que só poderia conquista-lo através de seu filho, Nero.

Busto de Agripina (à esquerda) e retrato de Catarina de Médici (direita).

Busto de Agripina (à esquerda) e retrato de Catarina de Médici (direita).

A única que enxergava claramente as intenções de Agrippina era a outra consorte de Cláudio, Messalina. Esta última também possui algumas coisas em comum com Cersei, para além de um temperamento explosivo e língua ferina. Messalina foi a terceira esposa de Cláudio e uma mulher conhecida pela sua promiscuidade e apetite sexual insaciável, tendo uma porção de amantes. Inclusive, chegou a conspirar para a morte do marido, mas logo suas intenções foram desmascaradas. Ela foi então sentenciada à morte e seu nome retirado de todos os lugares públicos. Em “As Crônicas de Gelo e Fogo”, Cersei não só mantinha um relacionamento extraconjugal com seu irmão Jaime, como também com o primo Lancel Lannister e outros dois membros da Guarda Real, os irmãos Kettleback. Logo todo o reino ficaria ciente desses casos, embora Cersei, a princípio, não tivesse dado importância a isso. No que tange a Agrippina, já tendo conseguido com que Cláudio nomeasse Nero como seu herdeiro, restava a ela deixar o caminho livre para seu filho governar. Assim, a imperatriz teria envenenado o imperador para que seu filho pudesse assumir o governo. Se pararmos para pensar, Joffrey Baratheon possui muitos traços do caráter de Nero, especialmente sua propensão para a crueldade e violência, das quais a própria Agrippina foi vítima. Como mãe do novo imperador, ela temia que outras mulheres pudessem exercer influência sobre ele, notadamente sua nora, Poppea. A mesma preocupação era compartilhada por Cersei, que não parou de conspirar em prol da queda da esposa de seu filho, Margaery Tyrell.

O medo de Agrippina e Cersei pode ser justificado pelo fato de que ambas trabalharam meticulosamente para conseguir o poder através de seus respectivos filhos, de modo que elas temiam que outra pessoa viesse e tomasse tudo aquilo que haviam conquistado (o que acabou acontecendo). Mesmo no contexto da França do século XVI, Catarina de Médici usou de vários artifícios para manter as esposas de seus filhos afastadas do poder enquanto ela, a rainha regente, governava. Por muitos anos, Catarina permaneceu à margem das decisões de estado, presa a um casamento infeliz e constantemente humilhada pela presença das amantes de seu marido, Henrique II. Após a morte do mesmo, ela tinha nas mãos a oportunidade de afastar suas rivais e reinar durante a minoridade dos filhos. Catarina era uma mulher implacável e governou a França com mãos de Ferro, passando à história sob olhos não muito bondosos, especialmente após os eventos que culminaram na fatídica noite de São Bartolomeu (em 23 de agosto de 1572), quando milhares de protestantes huguenotes foram massacrados. Curiosamente, Cersei usou os religiosos para derrubar a nora nas atenções do rei-menino, Tommen. Mas, diferentemente de Catarina, a rainha regente de Westeros caiu na sua própria cilada e se tornou ela mesma uma vítima das suas conspirações.

Lena Headey como Cersei Lannister na segunda temporada de "Game of Thrones" (2012).

Lena Headey como Cersei Lannister na segunda temporada de “Game of Thrones” (2012).

No quinto volume da saga, “A Dança dos Dragões”, após ter sido presa pelo Alto Septão, Cersei confessa os seus crimes de adultério (exceto com Jaime) e fez a caminhada de penitência, saindo do Septo de Baelor rumo à Fortaleza Vermelha. Com os cabelos e pelos raspados, ela andou nua pelas ruas de Porto Real, seguida por uma multidão que lhe dirigia impropérios e lhe jogava excrementos. Até mesmo esse episódio encontra respaldo na Guerra das Duas Rosas, quando uma das amantes do rei Eduardo IV, Jane Shore, foi forçada por Ricardo III a caminhar pelas ruas de Londres descalça, usando apenas uma camisa de linho. A maior diferença entre Cersei Lannister e as demais rainhas regentes da França, acredito, consiste do fato de que a mãe de Joffrey e Tommen Baratheon fazia uma grande ideia de si mesma, ignorando suas limitações. Cersei (que apesar de tudo é uma figura de mulher bastante forte) enxergava a si própria como uma versão feminina de seu pai e, como ele, pretendia governar os sete reinos de forma implacável. Seu erro foi colocar o próprio ego na frente das questões de Estado, provocando assim uma série de desastres. Após os acontecimentos de “A Dança dos Dragões”, o futuro da personagem permanece bastante incerto. Destituída de seus poderes régios, a rainha regente ainda aguarda pelo julgamento da Fé Militante. Caso se saia vitoriosa, então penso que os leitores ainda podem aguardar muitas surpresas vindas de sua parte. De outra forma, suas conspirações e intrigas podem chegar a um derradeiro ponto final.

Referências Bibliográficas:

CRAVERI, Benedetta. Amantes e rainhas: o poder das mulheres. Tradução de Eduardo Brandão. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

LOADES, David.  As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV-XVII). Tradução de Paulo Mendes. – Portugal: Caleidoscópio, 2010.

MARTIN, George R. R.; GARCÍA JR., Elio M.; ANTONSSON, Linda. O mundo de gelo de fogo: história não contada de Westeros e de as crônicas de gelo e fogo. – São Paulo: Leya, 2014.

MARTIN, George. R. R. As crônicas de Gelo e fogo. – São Paulo: Leya, 2012. 5 vols.

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3 comentários sobre “As rainhas na obra de George R. R. Martin: Cersei Lannister, a rainha regente.

  1. Quando eu li seu post de introdução, e vi o seu paralelo entre a Cersei e a Catarina de Médici, a primeira coisa que veio me mente foi que ambas dão muito importância para profecias, e que na tentativa de não realizá-las acabam criando caminho para elas acontecerem de verdade.
    Sobre a Catarina, imagino a retórica do Nostradamos, por que foi conselheiro dela e as suas profecias ainda são temidas por muitas pessoas.
    Ótimo texto!!

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