Eleonora de Toledo e a moda feminina italiana de meados do século XVI

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Desde o princípio, o homem sentiu a necessidade de preservar as sua feições de forma que durassem por toda a eternidade. Nas antigas civilizações, a arte da escultura foi dominada com quase perfeição. Os romanos, por exemplo, conseguiam reproduzir na rocha até mesmo os poros da pele. Com a ascensão do cristianismo, a pintura de imagens de santos passou a ser cultivada entre as elites da época. Apenas reis e altos membros da nobreza tinham seus retratos pintados. Essa situação, contudo, sofreu uma transformação no período do renascimento cultural, quando a burguesia passou a contratar artistas para retratarem cenas do cotidiano do lar burguês, como podemos observar na famosa tela de Jan van Eyck, exibindo o casal Arnolfini (1434). A peça é uma obra prima do realismo e demonstra a preocupação das pessoas daquela época com a imortalidade da sua imagem. Quando um retrato dito de Estado era pintado, um pouco de propaganda também era inclusa no trabalho de arte, conforme ficou evidente nas telas de Hans Holbein, François Clouet e Agnolo Bronzino. Este último se tornou famoso por seus quadros de membros da família italiana Médici, entre os quias, Eleonora de Toledo.

Nascida em 1522, Eleonora Álvarez de Toledo e Osorio era uma nobre espanhola, filha do vice rei de Nápoles, Dom Pedro Álvarez de Toledo, marquês de Villafranca. Em 1539, Eleonora casou-se com Cosmo I de Médici, duque de Florença e grão-duque da Toscana, com que teria onze filhos. No seu famoso retrato pintado por Agnolo Bronzino (c. 1545), Eleonora, acompanhada por um de seus herdeiros, usa um vestido de brocado de veludo, tecido a fios de prata e enfeitado por uma estampa de arabescos em veludo preto sobre cetim branco, adornado com ouro. O traje, por sua vez, não deixa dúvidas quanto à posição que ela ocupava na sociedade e só era usado por Eleonora em eventos oficiais, uma vez que seus vestidos do dia-a-dia eram mais simples e despojados. No século XVI, as roupas eram usadas como um elemento de distinção entre as classes sociais. O uso de algumas cores, como o púrpura, ou certas peles, como o arminho, era apenas permitido a membros da realeza. Com efeito, na Itália essa distinção era definida pela qualidade do tecido usado na costura e dos materiais de alfaiataria.

À esquerda, o retrato de Eleonora de Toledo acompanhada de seu filho, pintado por Agnolo Bronzino. À direita, uma reconstrução do vestido usado por ela no mesmo retrato.

À esquerda, o retrato de Eleonora de Toledo acompanhada de seu filho, pintado por Agnolo Bronzino. À direita, uma reconstrução do vestido usado por ela no mesmo retrato.

Detalhe da estampa do vestido que Eleonora de Toledo usa no seu retrato. O tecido,jjá bastante desgastado pelo tempo, é adornado por arabescos de veludo preto sobre cetim branco. O brocado de ouro foi parcialmente removido.

Detalhe da estampa do vestido que Eleonora de Toledo usa no seu retrato. O tecido,já bastante desgastado pelo tempo, é adornado por arabescos de veludo preto sobre cetim branco. O brocado de ouro foi parcialmente removido.

Durante os anos do seu casamento, Eleonora gozou de alta popularidade em Florença, apesar de uma certa resistência inicial por parte dos florentinos, devido à nacionalidade espanhola da esposa de Cosmo I. Ela não só promoveu a arte como também foi patrona de muitos artistas. Mantinha trabalhando para si nada menos que 10 tecelões, para costurarem fios de ouro e prata no seu vestuário, conforme ficou registrado nos ricos vestidos que ela usa em seus retratos, onde a retratada passa para o admirador um ar de serenidade. Era uma mulher bastante religiosa e financiou a construção de muitas igrejas. Adorava viajar de um palácio para outro e, segundo dizem, costumava interferir nos assuntos políticos do marido que, por sua vez, confiava bastante nela. Durante as ausência de Cosmo, Eleonora chegou a assumir o cargo de regente. Logo, muitos peticionários descobriram que ela era a chave para se chegar ao grão-duque da Toscana. Morreu em Pisa, no ano de 1562, após ter contraído malária. A enorme falta de cálcio nos seu ossos também contribuiu para que sofresse uma grande quantidade de problemas de saúde.

No século XIX, quando o túmulo da família Médici foi aberto pela primeira vez, foi encontrado o esqueleto de uma mulher entre 36 e 46 anos de idade, medindo aproximadamente 1, 58 m. Ela usava um vestido de cetim branco sob um corpete de veludo carmesim, meias de seda vermelha e uma rede para cabelos enfeita com pérolas, bastante parecida com a que Bronzino havia pintado no retrato de Eleonora. A análise do material, por sua vez, não deixou dúvidas quanto à identidade do corpo. Em uma miniatura pintada no ano de 1556, é possível ver Eleonora usando um corpete muito parecido com o que foi encontrado na sua tumba. A peça é bordada a fios de ouro e prata, aplicados a detalhes de veludo marrom, que ligam a saia ao corpete. Devido ao processo de decomposição do corpo, o vestido se encontra em estado muito frágil, de modo que não é possível adaptá-lo em um manequim sem comprometer a integridade do tecido. Contudo, a partir do que restou dele, é possível recriá-lo de forma bastante precisa.

Vestido usado por Eleonora de Toledo no seu funeral, em 1562.

Vestido usado por Eleonora de Toledo no seu funeral, em 1562.

Detalhe do corpete.

Detalhe do corpete.

O corpete foi feito em forma de V e costurado na parte traseira com laços que atravessavam pequenos anéis de cobre e se cruzavam de formas alternadas. As seções de trás da saia foram costuradas de forma a criar mais volume do que na parte da frente. Foram feitas inserções triangulares dos lados para dar a ela uma forma de cone, que era típica da moda feminina italiana de meados do século XVI. Curiosamente, não havia quaisquer vestígios de manga. Como não foi encontrado na parte superior do corpete buracos para as mangas serem atadas, isso significa que a peça fora feita para ser usada por baixo de um sobretudo, conforme podemos observar na miniatura de artista desconhecido, onde Eleonora, já em idade um pouco avançada, foi retratada usado um corpete muito similar (se não o mesmo). Com base nessas características, a desenhista Janet Arnold conseguiu recriar a peça de forma tridimensional, dando assim uma ideia de como ela teria sido.

O vestido, por sua vez, corresponde à mesma descrição contida no Medici Guardaroba: “corpete e saia de cetim branco com uma faixa de veludo marrom borda em ouro e prata”. Foi entregue em agosto de 1562, quatro meses antes da morte da duquesa, sendo o último vestido feito para ela. Não se encontra na lista de inventário feita após a sua morte, o que comprova que o traje descrito é o mesmo que foi usado no seu funeral. Hoje, ele se encontra preservado na Galleria del Costume do Palazzo Pitti, e constitui num dos dois vestidos florentinos, pertencentes ao período de 1540-1580, que sobreviveram até os dias atuais. Com efeito, observou-se que entre os anos em que o retrato de Eleonora foi pintado por Bronzino, em cerca de 1545, e o  de sua morte, em 1562, a moda feminina sofreu poucas evoluções em Florença.

Retrato de Eleonora de Toledo, por artista desconhecido. Na imagem, ela usa o mesmo corpete com o qual foi sepultada, em 1562.

Retrato de Eleonora de Toledo, por artista desconhecido. Na imagem, ela usa o mesmo corpete com o qual foi sepultada, em 1562.

À esquerda, o desenho do vestido de Eleonora de Toledo feito por Janet Arnold para o livro

À esquerda, o desenho do vestido de Eleonora de Toledo feito por Janet Arnold para o livro “Patterns of Fashion”. Ao lado, uma recriação do mesmo, com as mangas inclusas.

Por baixo do vestido de cetim branco, Eleonora usava com corpete vermelho, atado por dezoito ganchos. Essa peça, contudo, encontra-se bem preservada. Como a duquesa emagreceu muito nos seus últimos anos de vida, é possível que o corpete vermelho tenha sido vestido em seu corpo para dar mais volume ao outro de cetim branco que estava por cima. Um detalhe curioso, proveniente da análise do material, é que o vestido fora feito para uma dama de 1,70 m (bastante alto para uma mulher do renascimento mediterrâneo). Contudo, como a exumação dos ossos de Eleonora provou, ela media cerca de 1,58 m, de modo que ela precisaria usar sapatos plataforma para que a saia se adaptasse corretamente ao comprimento de suas pernas. Esse era um recurso muito utilizado pelas mulheres da nobreza europeia do século XVI. Como a maioria das damas daquele período era de estatura pequena, então o uso dos saltos era não só um adereço de moda, como também um tipo de extensão do próprio corpo.

Vestido de cetim carmesim que possivelmente pertenceu a Eleonora de Toledo ou uma de suas damas. A peça se encontra exposta no Palazzo Reale, em Pisa.

Vestido de cetim carmesim que possivelmente pertenceu a Eleonora de Toledo ou uma de suas damas. A peça se encontra exposta no Palazzo Reale, em Pisa.

O outro vestido florentino que data desse período proveio de um mosteiro em Pisa e, durante anos, foi usado para vestir uma estátua da Virgem Maria. É feito de veludo e seda carmesim, enfeitado com fios metálicos em um padrão decorativo. Ao contrário do vestido usado por Eleonora de Toledo em seu funeral, este encontra-se bem preservado e, na medida do possível, foi restaurado sem comprometer sua forma original. Alguns especialistas argumentam que ele pertenceu à própria Eleonora, dada à similaridade entre a referida peça e outros trajes usados pela duquesa (especialmente com o vestido de cetim branco com que ela foi enterrada), ou a alguma de suas damas de companhia, já que o traje não foi listado entre os outros contidos no Medici Guardaroba. Mas qualquer que seja a resposta, é inegável que o estilo da esposa de Cosmo I de Médici influenciou na confecção da peça, o que demonstra o extremo bom gosto de Eleonora de Toleno e sua influência na moda feminina italiana de meados no século XVI.

Referências:

ANÉA. Extant Italian Dresses. Acesso em 26 de maio de 2015.

ECO, Umberto (Org.) História da Beleza. Tradução de Eliana Aguiar. 3ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2013.

LIMA, J. Leia. Eleonora di Toledo. 2012. Acesso em 26 de maio de 2015.

TEPLIS, Michelle. The ideal Women behind a portrait. 2014. Acesso em 26 de maio de 2015.

THOMAS, Joe A. Fabric and Dress in Bronzino’s portrait of Eleanor of Toledo and Son Giovanni. 1994. Acesso em 26 de maio de 2015.

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