Próximas até no infortúnio: o parentesco entre Mary Stuart, Maria Antonieta e Dona Leopoldina

 Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A História dita tradicional prezou por ilustrar os feitos de grandes homens do passando, relegando às mulheres a um papel quase secundário. Com frequência, ouvimos falar mais de reis do passado ou de líderes militares, do que de suas companheiras. Algumas delas, quando lembradas, o são mais por seus defeitos, em detrimento das suas virtudes. Das soberanas trágicas de nossa história, nenhuma é mais famosa que Maria Antonieta de Habsburgo-Lorena. Decapitada em 16 de outubro de 1793, em meio à fase do Terror da Revolução Francesa, sua imagem passou por uma série de transformações e até hoje há quem a considere a maior de todas as responsáveis pelas misérias da França, mesmo que seus gastos nãos consumissem sequer 1/6 do tesouro nacional. Antonieta passou então para a posteridade como uma gastadeira e esposa adúltera. Situação semelhante foi vivida 200 antes por outra rainha da França, Mary Stuart, que, por sua vez, também era rainha da Escócia e pretendente à coroa inglesa. Acusada de traição, Mary foi decapitada por ordens de sua prima, Elizabeth I, em 8 de fevereiro de 1587, ganhando depois de sua morte a fama de conspiradora e, inclusive, assassina de maridos. Quantas coisas em comum essas duas mulheres possuem: ambas tiveram uma juventude dourada, passaram por dificuldades semelhantes e tiveram o mesmo fim. Contudo, a relação entre Mary Stuart e Maria Antonieta ultrapassa a mera casualidade. Ela também é sanguínea, conforme veremos no texto a seguir.

Stefan Zweig, autor de duas célebres biografias sobre Mary Stuart e Maria Antonieta, respectivamente, costumava se referir a elas como “irmãs na desgraça”. Antonia Fraser, igualmente biógrafa das soberanas, também não resistiu em relacionar o destino delas, sendo uma das primeiras a explorar o parentesco que as unia. A linhagem passou através da neta de Mary, Elizabeth Stuart (1596-1662), que se casou com Frederico I, rei da Boêmia (1596-1632). Elizabeth e Frederico (também chamado de “o rei do inverno”) tiveram vários filhos, entre eles Charles I Louis (1617-1680), eleitor da Palatina, casado com Charlotte de Hesse-Kassel (1627-1886), de quem se divorciou anos mais tarde. A filha deste casal, princesa Elizabeth da Palatina (1652-1722), uniu-se em matrimônio com um membro da casa de Orléans, uma das famílias mais prestigiosas da França. Seu marido, o duque Felipe I (1640-1701), era o filho mais novo do rei Luís XIII e irmão de Luís XIV, o “rei Sol”.  A filha de Felipe, batizada de Elizabeth Charlotte (1676-1744) em homenagem à mãe, foi dada em casamento ao duque Leopoldo de Lorena (1679-1729). Elizabeth e Leopoldo, por sua vez, viriam a ser os avós paternos Maria Antonieta. Dessa forma, entre Mary Stuart e a última rainha da França podemos contar sete gerações de nobres que estavam diretamente ligados a quase todas as casas reais europeias.

Árvore genealógica simplificada mostrando o parentesco entre Mary Stuart e Maria Antonieta.

Árvore genealógica simplificada mostrando o parentesco entre Mary Stuart e Maria Antonieta.

Os pais de Maria Antonieta, Imperador Francisco I (1708-1765) e Imperatriz Maria Teresa (1717-1780), A Grande, se casaram em 12 de fevereiro de 1736. Dessa união, nasceram cerca de 17 crianças, das quais 12 sobreviveram à infância (uma boa quantidade, se considerarmos as altas taxas de mortalidade infantil da época). Entre os filhos do casal, encontravam-se Maria Carolina, futura rainha de Nápoles, e Leopoldo de Habsburgo-Lorena, futuro imperador Leopoldo II. Essas duas personagens, por sua vez, eram avós da arquiduquesa Carolina Josefa Leopoldina, que mais tarde seria a primeira Imperatriz consorte do Brasil. Durante vários séculos, os Habsburgos austríacos desenvolveram uma política de casamentos com o intuito de fortalecer o império, ligando-o a outras potências estrangeiras. Assim, Maria Carolina foi dada em casamento ao rei Fernando I das Duas Sicílias (1751-1825), da mesma forma como Maria Antonieta se uniu ao Delfin da França, Luís Augusto, futuro Luís XVI. O casamento de Leopoldina com o herdeiro dos Bragança, Pedro, que desde 1808 residia no Brasil, foi um dos mais ousados enlaces matrimoniais já negociados pela casa imperial austríaca. Leopoldina não só descendia de grandes reis, como também de rainhas poderosas, como sua bisavó, Maria Teresa, além da própria Mary Stuart e também de Isabel I de Castela. Através desta arquiduquesa e de seu marido¹, o sangue das maiores dinastias europeias passou a correr na veia da nossa família imperial.

Em sua recente biografia, publicada esse ano, sobre a primeira Imperatriz do Brasil, o pesquisador Marsilio Cassotti conseguiu muito bem identificar o parentesco entre Leopoldina e Maria Antonieta. A última rainha da França era tia-avó da esposa de Pedro I. Antonieta considerava Maria Carolina a sua irmã favorita e, ao longo dos anos, elas trocaram retratos e várias correspondências. Inclusive, quando crianças, constantemente eram confundidas, pois as pessoas as achavam muito parecidas (embora concordassem que Maria Antonieta era a mais bonita das duas). Depois que Carolina viajou para Nápoles, as irmãs não mais se viram com frequência. Após a Revolução ter estourado e condenado Antonieta à Guilhotina, Maria Carolina tomou verdadeiro pavor pelos franceses e chegou até mesmo parar de conversar francês, mas não por muito tempo, visto ser aquela a língua diplomática da Europa. Com certeza Leopoldina, nascida em 1797, ouviu falar da rainha da França através dos lábios de sua avó, e guardou da trajetória de vida dela um profundo aprendizado, que seria de fundamental importância nos anos em que viveria no Brasil. Graças à sua astúcia, ela colaborou para que o território nacional não se fragmentasse, a exemplo das colônias espanholas, e impediu que uma revolução liberal devastasse o país.

Árvore genealógica simplificada de Dona Leopoldina.

Árvore genealógica simplificada de Dona Leopoldina.

Não resta dúvida que Dona Leopoldina triunfou onde sua tia-avó, Maria Antonieta, e sua antepassada, Mary Stuart, falharam. Por um momento, a rainha da Escócia poderia ter reunido em sua cabeça a coroa de três países, mas quis o destino que sua sina fosse outra. Reinando num país dividido por clãs e não tendo ao seu lado conselheiros experientes, Mary, apesar de tudo, encarou seu fardo com estoicismo e até na morte provou ser uma soberana. Sua descendente, Maria Antonieta, pôde sentir na pele o mesmo desespero de ter uma morte por decapitação. Ambas compartilharam um final trágico e ainda hoje possuem admiradores, assim como detratores. Santas para uns, inescrupulosas para outros, Mary Stuart e Maria Antonieta seguem como dois catalisadores de atenção por onde quer que seus nomes sejam mencionados. Quanto a Leopoldina, infelizmente é lembrada pela grande maioria devido à sua vida infeliz, provocada pelos casos extraconjugais do marido, e não pela sua atuação política. É triste perceber que essas três soberanas, ligadas tanto pelo sangue quanto pelo infortúnio, continuem tendo suas histórias deturpadas por uma propaganda que valoriza mais o desvelamento de segredos de alcova do que a força e a determinação que cada uma delas demonstrou nos momentos mais difíceis de suas vidas.

 Notas:

¹ D. Pedro I também descendia de Mary Stuart, através de Charles I da Inglaterra. Saiba mais nesse texto publicado pelo blog parceiro, Tudor Brasil. CLIQUE AQUI!

Referências Bibliográficas:

CASSOTTI, Marsilio. A biografias íntima de Leopoldina. Tradução de Sandra Martha Dolinsky. – São Paulo: Planeta, 2015.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2009.

_. Mary Queen of Scots. – New York: Delta, 2001.

ZWEIG, Stefan. Maria Antonieta. Tradução de Medeiros de Albuquerque. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

_. Mary Stuart. Tradução de Alice Ogando. 12ª edição. Porto-Portugal: Livraria Civilização, 1969.

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13 comentários sobre “Próximas até no infortúnio: o parentesco entre Mary Stuart, Maria Antonieta e Dona Leopoldina

  1. Parabéns pelo texto sucinto e rico, ao mesmo tempo, Renato.
    Mais uma vez, deu um show.
    Estou pensando em comprar essa biografia de Leopoldina escrita pelo Cassoti. Vale a pena? Não é um “mais do mesmo”?
    Abraço!
    Sucesso!

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    • Obrigado, Leonardo. Ainda não terminei de ler a biografia escrita pelo Cassotti, mas estou gostando muito. Ele explora a infância de Leopoldina e as relações políticas dos Habsburgo como poucos souberam fazer. Super recomendo!

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  2. Olá, Renato Drummond,
    Muito bom seu post! Parabéns pela pesquisa feita com livros especializados no tema.
    Estou começando a ler o livro de Stefan Sweig sobre Maria Antonieta e me surpreendi em ver o livro nas suas referências. Peguei o livro por acaso na estante da Biblioteca da UFRN e estou achando muito interessante. Depois me chamou a atenção o elogio de Freud para Sweig. O que você achou do livro?
    Fiquei curioso em conhecer essa nova biografia de Marsílio Cassotti, a qual tomei conhecimento aqui no rainhas tragicas tb!
    Dom Pedro I era um homem bastante inteligente, tanto é que se tornou o nosso Bolívar, como afirmou o historiador Pedro Calmon. Ele tinha uma visão de longo alcance e seu legado foi conseguir lutar pela nossa independência, a qual não foi pacífica, como prega os nossos livros didáticos. O outro legado dele foi a integração nacional (tirando a Guerra da Cisplatina).

    No entanto, D. Pedro era um homem dividido entre dois mundos – tinha um pé no Brasil e outro em Portugal – e essa “indecisão” custou-lhe a coroa. O fato de quatro países disputarem a figura de Dom Pedro – Brasil, Portugal, Espanha e Grécia – mostra que dispunha de credibilidade internacional, seja pelo fato de ser um Bourbon, seja por defender ideias liberais (mais em Portugal do que no Brasil). Só que obviamente, ele não podia estar em 4 países ao mesmo tempo! rsss

    Apesar de tudo, o fato é que Leopoldina Habsburgo era uma mulher que tinha muito mais estudo, erudição e preparo para governar um país que o marido e talvez se tivesse governado o destino – sobretudo na crise econômica – do Primeiro Reinado quem sabe seria outro.

    Abraço e parabéns pelo didatismo das duas árvores genealógicas de Mary Stuart, Maria Antonieta e Maria Leopoldina – com destaque tb para Maria Tereza, da Áustria! – 3 “Marias” Trágicas!!! (Embora Leopoldina não seja Maria de nascimento..)

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    • Fico muito feliz que tenha gostado, Cabral.
      Leopoldina era uma mulher muito instruída e com mais preparo para governar do que o marido. Segundo Oberacker, cogitou-se a possibilidade de destronar Pedro e proclamar Maria da Glória Imperatriz reinante, com sua mãe como regente. Mas Dona Leopoldina rejeitou veemente isso.
      O livro do Stefan Zweig é uma das biografias mais conceituadas da Maria Antonieta, pois aborda uma discussão que vai além da história: é psicanalítica. Estou gostando da biografia do Marsílio Cassotti, embora alguns pontos estejam me desagradando. Mais tarde, farei uma resenha sobre ela.
      Abraço!

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  3. Muito oportuno este artigo, já que estou quase finalizando a leitura do livro de Marsilio Cassotti. Realmente a Imperatriz Leopoldina foi a idealizadora de nossa independência. Obrigada

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  4. Pingback: Três Mulheres, Um Destino – Inês de Castro, Catarina de Aragão e Carlota Joaquina | Tudor Brasil

  5. Renato, tenho suas Rainhas Trágica, gostei muito da sua narrativa e o seu livro é um um livro para consulta.Rico em informação. Tenho 75 anos, sou amante de História, e aprendo todo dia com você.Aplausos para sua competência.

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