“Uma infância muito infeliz”: a primeira juventude da rainha Vitória

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Vitória do Reino Unido se tornou o maior símbolo do imperialismo britânico. É difícil imaginar o século XIX sem evocar automaticamente a sua figura: a de uma soberana eternamente em luto pelo marido, infeliz e ao mesmo tempo dominadora. Ela foi a última representante de uma poderosa dinastia de reis, os Hannover, que sucederam os Stuart no governo da Grã-Bretanha em 1714. Símbolo de uma nação, ela marcou uma fase de florescimento intelectual e artístico, cujas raízes se estabeleceram inclusive nos trópicos, no reinado de D. Pedro II do Brasil. Mas nem tudo na vida de um membro da realeza é um mar de conforto, como geralmente se pensa. A rainha demonstrou que ser uma princesa real não é tão bom quanto algumas pessoas acreditam.Vitória descreveu sua infância com as palavras “muito infeliz”, uma vez que “precisava reprimir sentimentos muito violentos”. Não tinha irmãos nem irmãs por perto, nem muito menos chegou a conhecer o pai, Edward, duque de Kent, que morreu alguns meses depois do seu nascimento. Além disso, “circunstâncias infelizes fizeram com que não me sentisse à vontade com minha mãe e não me encontrasse, com ela, em situação de intimidade e de confiança”.

Edward, duque de Kent, pai da Rainha Vitória (por Sir William Beechey).

Com efeito, Vitória não exagerava ao descrever sua primeira juventude com estas palavras. Na opinião de sua biógrafa, Anka Muhlsten, ela foi literalmente concebida “por encomenda” para dar continuidade à dinastia que na segunda década dos anos 1800 passava por uma crise de sucessão: George III, rei da Grã-Bretanha e de Hannover, um pequeno Estado alemão, era pai de quinze filhos, dos quais sete meninos e cinco meninas sobreviveram à infância. Contudo, desde 1811 que o trono era governado por seu filho mais velho e herdeiro, também chamado George, devido a uma doença que atingiu o monarca e que alguns definiram como loucura. O príncipe, por sua vez, tinha uma filha, Charlotte, que faleceu em novembro de 1817 em decorrência de um parto mal sucedido. Com sua morte, estabeleceu-se um sério problema na sucessão da coroa, uma vez que nenhum dos outros filhos do rei George III haviam produzido descendentes legítimos para o torno. Para resolver esse impasse, em 1818 os herdeiros do rei resolveram contrair matrimônio com outras princesas, entre eles Edward, que desposou Vitória de Saxe-Conurgo, viúva e mãe de duas outras crianças, Carlos e Feodora.

Nascida às 4 horas e 15 minutos da manhã do dia 24 de maio de 1819, Vitória era a terceira na linha sucessória do trono, quando a morte prematura de suas duas primas lhe deu o primeiro lugar. Seus pais, contudo, não tinham uma boa relação com os familiares. Conforme ressaltou Deirdre Shearman:

A despeito de darem uma herdeira para o trono inglês, Edward e a esposa permaneceram impopulares entre os parentes reais. O duque de Kent nunca chegou a desfrutar da afeição de seus pais e seu irmão, o príncipe regente, simplesmente o odiava. Por seu lado, a duquesa era tida em baixa conta por causa da sua terrível dificuldade em aprender o inglês e considerada “demasiadamente da alemã” (SHEARMAN, 1987, p. 11).

Como destacou a biógrafa, muitos membros da família real deixaram claro seu desejo de que Vitória de Saxe-Coburgo deveria retornar para a Alemanha, levando consigo o marido, a filha recém-nascida e os outros dois filhos. Edward, porém, estava disposto a lutar pelo trono e decidiu permanecer na Inglaterra para assegurar a posição da princesinha na linha sucessória.

A primeira aparição pública da filha do duque de Kent, por ocasião de seu batismo, foi também motivo de discussão entre o pai da criança e seu irmão, o príncipe regente. Edward queria batizar a filha com o nome de Vitória Georgina Alexandrina Carlota Augusta, mas George, furioso com o fato de seu irmão mais novo ter produzido uma herdeira para o trono, vetou o uso de todos os nomes tradicionais da família real inglesa. Permitiu apenas o nome Alexandrina (escolhido em homenagem ao padrinho da criança, o czar Alexandre I da Rússia), concedendo também, depois muita insistência por parte do duque, o nome Vitória, mas sob os seguintes termos: “dê-lhe também o nome da mãe; porém, este não deverá preceder o nome do imperador da Rússia”. A princesa foi então batizada como Alexandrina Vitória. Ainda no berço, o pai já percebia o seu caráter forte e decidido, ao afirmar que “a pequena é mais uma filha de Hércules que uma filha de Vênus”. Porém, ele não viveria tempo suficiente para ver a menina dar os seus primeiros passos e se transformar numa garota robusta e corajosa: acometido de um forte resfriado que se intensificou violentamente, Edward faleceu em 23 de janeiro de 1820, quando a filha tinha somente oito meses de idade.

Vitória de Saxe-Coburgo-Saalfeld e sua filha, Vitória (artista desconhecido).

Vitória de Saxe-Coburgo-Saalfeld e sua filha, Vitória (artista desconhecido).

A morte do duque de Kent marcou o início de uma fase bastante difícil na vida de sua esposa e de sua filha. Logo elas ficaram à deriva de muitas intrigas políticas da corte e vítimas da má vontade do príncipe regente. Esse quadro se agravou ainda mais quando, seis dias após a morte do duque de Kent, faleceu o rei George III, deixando o trono de uma vez por todas a seu filho mais velho, coroado como George IV. O novo monarca, entretanto, não foi capaz de recusar à duquesa viúva de Kent o direito de residir no palácio de Kensington, localizado próximo ao Hyde Park. Lá, Vitória de Saxe-Coburgo se instalou com seus três filhos em aposentos do andar térreo “horrivelmente escuros e sinistros”, como lembrou a rainha Vitória alguns anos mais tarde, afirmando também que nas horas vagas ela e os irmãos costumavam caçar baratas para se distrair. A casa ainda incluía dois personagens que se tornaram marcantes da primeira juventude da futura monarca: a baronesa Lehzen, uma luterana convicta e totalmente devotada aos filhos da duquesa, e o Controlador John Conroy, antigo membro da guarda pessoal do finado duque.

De seu pequeno mundo recluído, a pequena Vitória praticamente não tinha contato com a corte. Ela e sua família viviam em péssimas condições financeiras, agravadas pelas dívidas deixadas pelo duque de Kent. Não tinha amigos ou muito menos parentes afetuosos, exceto Leopold, seu tio, que pagou pela sua educação e aconselhou sua mãe a permanecer na Inglaterra, apesar das dificuldades, para que a filha crescesse como uma criança inglesa e assim não colocasse em risco o direito dela ao trono. Em 25 de novembro de 1828, quando tinha então nove anos de idade, Vitória escreveu uma carta muito afetuosa ao futuro rei da Bélgica, na qual dizia:

Meu tio querido, envio-vos meus melhores votos por vosso aniversário; penso com frequência em vós e espero rever-vos logo, pois vos amo muito […]. Faz muito calor na Itália? Aqui está tão ameno que saio todos os dias. A saúde de Mamãe é aceitável e a minha, muito boa. Vossa sobrinha afeiçoada, Vitória (apud MUHLSTEIN, 1999, p. 15).

As cartas endereçadas ao tio são geralmente recheadas de afeto. Nas respostas, ele a aconselhava aos estudos e, mais tarde, a instruía nas sutilezas da vida política.

Leopold logo assumiu perante a sobrinha o lugar de pai, vago desde a morte do duque de Kent. Mas se por um lado Vitória era instada por seu tio a perseverar nos estudos, por outro sua mãe e John Conroy tinham planos bem diferentes para ela. A duquesa se tornou bastante dependente do Controlador e juntos eles elaboraram o “Sistema Kensington”, um plano de educação para a princesa que buscava prevenir com que ela fosse influenciada por outros que não sua mãe e o fiel ajudante. Todas as pessoas que estabelecessem alguma espécie de contato com Vitória eram mantidas sob constante vigilância e jamais poderiam visita-la sem que um terceiro indivíduo estivesse presente, observando. “Embora essa intensa vigilância houvesse impedido Vitória de usufruir das vantagens da vida social”, esclarece Deirdre Shearman,“havia uma sólida razão política para isola-la da corte. Essa era a única forma segura de dissocia-la das histórias de deboches e licenciosidades que haviam arruinado a reputação da família real”. Dessa forma, quando chegasse o momento de apresenta-la como herdeira do trono, a princesa deveria ter um caráter irrepreensível e transmitir uma imagem de moralidade sem sombra de mácula.

Princesa Vitória aos quatro anos de idade, por Stephen Poyntz Denning.

Princesa Vitória aos quatro anos de idade, por Stephen Poyntz Denning.

O estudo de línguas estrangerias também constituía um elemento central, se não o mais importante, na educação de Vitória. “Educada entre uma mãe que nunca esteve à vontade em inglês e uma governanta alemã, ela, no entanto não era bilíngue, pois não tinha direito de usar o alemão em casa”. Para Anka Muhlsten, essa precaução decorria do temor da duquesa de que sua filha não fosse considerada bastante inglesa para os padrões do período. “Se aprendeu a exprimir-se em alemão, nunca esteve segura de sua língua escrita” (MUHLSTEIN, 1999, p. 15). Por outro lado, falava e escrevia muito bem em francês, tanto que anos mais tarde pôde manter uma importante correspondência com Luís Felipe, rei dos franceses, e depois com Napoleão III. Já o italiano, este ela aprendeu cantando (uma de suas paixões) com um dos mais célebres tenores de seu tempo, Lablanche, que lhe deu aulas por mais de vinte anos. Completava seu quadro de estudos aulas de filosofia, história e literatura. Vitória também tinha uma coleção de autógrafos, para a qual recebeu a ajuda de seu tio Leopold, que lhe enviou uma carta de Luís XIV da França, sua “grande admiração”, bem como outras de Mme. De Sevigné e Racine.

Com efeito, o ano de 1835 marcou o início de um verdadeiro drama na vida dos personagens da presente narrativa: o rei Guilherme IV, que sucedeu seu irmão George no trono em 1830, estava morrendo. Vitória, no entanto, não havia completado 18 anos, o que tornava a possibilidade de uma regência cada vez mais possível. O plano de John Conroy era que a mãe da princesa, a duquesa viúva de Kent, assumisse as funções de soberana até a maioridade da filha. Como o estado de dependência de Vitória de Saxe-Coburgo para com o seu Controlador era demasiado, então Conroy passou a cultivar a possibilidade de exercer influência no governo regencial. O criador do Sistema Kensington logo tratou de tirar do caminho todos aqueles que, na sua opinião, poderiam atrapalhar seus planos, como a meia-irmã da princesa, Feodora, que desfrutava de muita intimidade junto à herdeira do trono. Imediatamente, o Controlador tratou de casa-la com o príncipe de Hohenlohe-Langenburg para assim despacha-la de uma vez por todas do convívio doméstico. Porém, a partida de Feodora do palácio provocou a aproximação de outra pessoa que se tornou bastante importante para Vitória: a baronesa Louise Lehzen, que cuidou a jovem até ela completar 18 anos de idade.

Tomar conta da herdeira do trono, contudo, não era uma tarefa fácil e exigia muita responsabilidade. A princesa, conforme mencionado anteriormente, possuía um caráter bastante forte, além de obstinado e em certas ocasiões, explosivo. Lehzen, por seu lado, amava Vitória e se dedicou a ajuda-la a domar o temperamento difícil. O mesmo não se podia dizer do relacionamento da duquesa de Kent com o rei Guilherme. Devido a uma série de desentendimentos, o distanciamento entre eles só tendia a crescer. Como afirma Deirdre Shearman:

O ponto central das desavenças era o fato de Guilherme IV desejar que Vitória, agora herdeira oficial do trono, tomasse parte nas funções da corte. No entanto, para Conroy e a duquesa de Kent isso representava um óbvio perigo: a princesa começaria a se tornar independente da mãe e do Sistema Kensington, e, assim, seus planos de ascender ao poder correriam o risco de se desintegrar (SHEARMAN, 1987, p. 18).

Sendo assim, a duquesa tratou de criar uma série de barreiras entre a filha e a corte, para desapontamento do rei. Ela o Conroy organizaram diversas excursões pela Grã-Bretanha para que a princesa se familiarizasse com o país que um dia iria governar.

Sir John Conroy, por Henry William Pickersgill.

Sir John Conroy, por Henry William Pickersgill.

A vida de Vitória tornava-se cada vez mais triste e solitária: ela percebia as tentativas de Conroy de afastar a baronesa Lehzen do seu convívio pelo fato dela ter se tornado demasiadamente íntima da princesa. Vitória tampouco se interessava pelas querelas entre sua mãe e o rei. Quando ela completou 17 anos, a questão de seu casamento começou a ser discutida. O tio Leopold providenciou a visita de outros dois sobrinhos à filha de sua irmã, Eernest e Albert. Ao pai dos jovens, Vitória escreveu em 23 de maio de 1836 que os primos eram “muito amáveis, muito bons, muito gentis e de uma extrema alegria, como convém a gente jovem”. Porém, Albert, o mais jovem dos dois, lhe parecia “extremamente bonito” (apud MUHLSTEN, 2000, p. 20). Quem não gostou muito do interesse que a princesa demonstrava pelo primo foi John Conroy. Mas suas esperanças de exercer alguma influência no reinado de Vitória ruíram quando ela completou 18 anos, dispensando assim a possibilidade de uma regência. Houve inclusive uma ocasião em que foi apresentado à herdeira, acamada e enfraquecida pelo tifo, um documento redigido pelo Controlador no qual ela se comprometia a emprega-lo como secretário particular assim que assumisse o trono. Vitória, por sua vez, se recusou terminantemente a assinar o papel.

John Conroy estava ficando cada vez mais desesperado, especialmente depois de receber notícias de que a saúde do rei, que em 1837 já tinha 72 anos, estava visivelmente piorando. Vitória escreveu em seu diário no dia 18 de junho que “o pobre rei, dizem, não pode viver mais do que umas poucas horas”. Dois dias depois a resistência do monarca chegava ao fim. No dia 20, a princesa deixou em seu inseparável diário um relato de como recebeu a notícia da morte de Guilherme IV:

Às seis horas fui acordada por mamãe, que me disse que o arcebispo de Cantuária e o Lorde Conyngham estavam lá e queriam me ver. Saí da cama e fui à minha sala de estar contígua (vestida de camisola) – sozinha – e os encontrei. Lorde Conyngham, então, colocou-me a par de que meu pobre tio, o rei, não estava mais entre nós, tendo expirado aos 12 minutos para as 2 horas daquela madrugada e que, consequentemente, eu era rainha (apud SHEARMAN, 1987, p. 21).

Com essas palavras, Vitória anunciava uma mudança drástica em seu destino. Deixava de ser a princesa para se tornar Rainha da Inglaterra. O passado de tristezas e restrições ficava para trás, pois uma nova fase de sua vida estava para começar.

Referências Biliográficas:

MUHLSTEIN, Anka. Vitória: retrato da rainha como moça triste, esposa satisfeita, soberana triunfante, mãe castradora, viúva lastimosa, velha dama misantropa e avó da Europa. Tradução de Maria Lúcia Machado. – São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SHEARMAN, Deirdre. Rainha Vitória. Tradução de Achille Picchi. – São Paulo: Nova Cultural, 1987.

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3 comentários sobre ““Uma infância muito infeliz”: a primeira juventude da rainha Vitória

  1. Firme, a atitude da jovem rainha de 18 anos ao dispensar Conroy e ao marginalizar a mãe. Algo influenciada por Stockmar – tio Leopoldo da Bélgica mas o encanto de Lord Melbourne tudo superou. Nós em Portugal acompanhamos a Rainha Vitória pela amizade pessoal com a nossa Dª Maria II, filha de D. Pedro (Iº do Brasil e IVº de Portugal) e portanto irmã do vosso D. Pedro II. Ambas casadas com primos Saxe-Coburgo as duas rainhas correspondiam-se muito.

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  2. Ótima descrição sobre a infância da rainha Vitória, texto claro e dinâmico muito bom. Sou leitor do blog a um tempo, se posso chama-lo assim, é mais um santuário de divinas descrições de fatos históricos. Parabéns!

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