D. Inês de Castro: uma trágica heroína do imaginário popular

Por: João Mendes-Pinto

Dª Inês era filha natural do nobre galego D. Pedro Fernandez de Castro e neta do rei de Castela; era prima em 2º grau do príncipe herdeiro D.Pedro, filho de D. Afonso IV e neto de D. Dinis. Após a morte prematura do pai foi educada no castelo de Albuquerque (Castela) por Afonso Sanches, filho natural do rei D.Dinis, pelo qual este tinha grande estima, perante o ódio do filho legítimo D. Afonso IV. Senhora de grande beleza, veio para Portugal em 1340 como dama de companhia de Dª Constança, primeira esposa do futuro D. Pedro I de Portugal, o qual iniciou com ela uma relação extra-matrimonial e lhe concedeu doações, ainda em vida da rainha. Após a morte de Dª Constança, em 1345, a relação tornou-se mais sólida, correndo na corte o boato de que teriam casado secretamente.

Gravura fictícia, representando o casamento secreto de D. Pedro I de Portugal com Inês de Castro.

Gravura fictícia, representando o casamento secreto de D. Pedro I de Portugal com Inês de Castro.

A relação de parentesco, o receio de interferências da poderosa família dos Castro tanto na política de Portugal como na do reino de Castela, e talvez o ódio de D. Afonso IV pelo mentor de Dª Inês, Afonso Sanches, convenceram o rei a aceitar o parecer dos conselheiros Alvaro Gonçalves, Pedro Coelho e Diogo Lopes Pacheco, condenando Dª Inês à morte. O assassínio, perpetrado pelos próprios conselheiros a 7 de Janeiro de 1355 na quinta do Infante em Coimbra, aproveitando uma ausência deste, desencadeou uma guerra civil entre pai e filho, que terminou por intercepção da rainha-mãe Dª Beatriz com grandes cedências de poder do rei para com o D. Pedro .

Rei em 1357 após a morte do pai, D. Pedro I de Portugal não cumpriu a promessa feita no tratado de paz de perdoar aos assassinos de Dª Inês, tendo conseguido através de uma troca de refugiados políticos com Castela a prisão de Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves, os quais mandou matar sob tortura; Diogo Lopes Pacheco, avisado, fugiu para França.

Inês de Castro com seu filho ajoelhada perante D. Afonso IV, pedindo misericórdia para o príncipe D. Pedro (por Eugénie Servières 1786-1820).

Inês de Castro com seu filho ajoelhada perante D. Afonso IV, pedindo misericórdia para o príncipe D. Pedro (por Eugénie Servières 1786-1820).

Tendo sido o rei D. Pedro I homem de hábitos desregrados e de grande promiscuidade sexual, pode-se atribuir à literatura literatura, já com Camões mas sobretudo a partir do séc. XVIII, o mito dos amores com Dª Inês. No entanto Pedro, em vida, deu provas do maior desgosto pela morte de Inês. Já rei jurou terem casado, o que se revelava de grande importância dinástica pela legitimação de dois filhos do casal, D.João e D. Dinis organizou impotentíssimas exéquias que transportaram os restos mortais da rainha de Coimbra para o Mosteiro Real de Alcobaça; para os acolher mandou fazer uma arca tumular que é o mais belo exemplar do gênero existente em Portugal, com altos-relevos lindíssimos de autores desconhecidos, e na qual existe a única representação fidedigna de Inês, que escolhi para este trabalho recusando imagens fantasiosas do classicismo ou do romantismo; suportando o peso do túmulo podem-se ver escupidas na pedra as cabeças dos três algozes, com corpos de animais. Para si mandou fazer uma arca tumular idêntica que colocou exatamente em frente, para que no Juízo Final ao levantarem-se dos mortos os dois se reencontrassem imediatamente. Atrás da sua cabeça mandou representar, numa roseta de pequenos altos-relevos de enorme qualidade artística, exatamente a sua história de amor. Os túmulos foram vandalizados pelos soldados franceses de Massena em 1810 mas ainda conservam grande beleza. Já o mito de o rei ter obrigado os cortesãos a beijarem a mão do cadáver não tem nenhum fundamento histórico.

Detalhe da efígie de D. Inês de Castro esculpida em seu túmulo.

Detalhe da efígie de D. Inês de Castro esculpida em seu túmulo.

O mito dos amores de Pedro e Inês faz hoje parte da cultura portuguesa em geral, e da cidade de Coimbra em particular. No entanto assinala-se que, paralelamente a uma tradição literária presente através dos séculos nos maiores nomes da literatura portuguesa (Garcia de Resende, Camões, António Ferreira ou a contemporânea Agustina Bessa Luis, entre outros) também existiu até ao início do século XX no Norte do país uma tradição popular pouco abonatória, que chamava «uma castro» a uma mulher antipática e intriguista.

Principais fontes:

Benevides, Francisco da Fonseca, Rainhas de Portugal. Lisboa, 1879

Javierre, Aura, D. Pedro I, in Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão.

Louro, Maria Lucília Estanco, Casto, Inês in Dicionário de História de Portugal, coordenado por Joel Serrão.

Saraiva, António José, Porque Morreu Inês de Castro in Histórias Que o Tempo Apagou, série televisiva 8/12/2012.

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4 comentários sobre “D. Inês de Castro: uma trágica heroína do imaginário popular

  1. A primeira tragédia clássica portuguesa, de António Ferreira, foi baseada na vida de Inês de Castro;. É de 1587 e se chama A Castro. Podiam fazer um filme, não é?

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