Isabel de York, a Matriarca de uma Dinastia – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Parte II –O passo decisivo

Com a tomada do trono inglês por Ricardo III, o partido de York ficara dividido. Muitos o responsabilizavam pela assumida morte dos príncipes na Torre, o que, por sua vez, só fez fortalecer a facção dos Lancaster, e de seu principal pretendente: Henrique de Richmond. Aqueles que desejavam ver o “usurpador” destronado sugeriram a Henrique que se casasse com Isabel, fortalecendo assim a sua própria pretensão, visto que agora ela era a sucessora direta da casa de seu pai. Entretanto, essa negociação dificilmente teria se mantido sem o apoio da rainha viúva, Elizabeth Woodville. Provavelmente, ela (ainda em cativeiro em Westminster), trocara cartas com seu outrora rival na qual se comprometia a apoiá-lo, se em troca ele aceitasse a mão de sua primogênita em matrimônio. De fato, Henrique (que estava na França), jurou solenemente na Catedral de Rennes, em Dezembro de 1483, que quando o momento fosse propício, desposaria Isabel de York. Contudo, a proposta logo esfriou, pelo menos nas aparências. Naquele inverno, a filha “ilegítima” do rei[i] estava na corte servindo como aia da nova rainha, Ana Neville, de quem se dizia ser muito próxima. Todavia, Ricardo estava cada vez mais decidido a manter a sobrinha por perto, com medo de prováveis conspirações envolvendo a mesma.

Ricardo III, por artista desconhecido.

Ricardo III, por artista desconhecido.

Com efeito, outro detalhe que fica sem resposta concreta nessa presente narrativa (como quase tudo na vida de Isabel de York) seria a reação da princesa à proposta de casamento com Henrique de Richmond. Com certeza deve ter sido bem menos realista e estimulante que o consórcio com o Delfim da França, mas, segundo algumas estórias românticas, é provável que os dois tenham mantido uma correspondência clandestina, mesmo após Elizabeth Woodville ter parcialmente desistido da empresa, porém, não sobreviveu qualquer prova que corrobore tal afirmação. Outra falácia que carece de maior fundamente consiste no rumor que se instaurou na corte após a morte de Ana Neville, de que Ricardo III pretendia tomar a própria sobrinha em segundas núpcias. Entretanto, David Loades desmente essa possibilidade ao dizer que “uma sobrinha bastarda dificilmente seria uma noiva adequada” (LOADES, 2010, pag. 87). Fala ainda esse autor que, na época, os boatos foram tão persistentes que o rei fora impelido a emitir um comunicado oficial desmentido tal sugestão.

Enquanto isso, Isabel de York era enviada para SheriffHutton (em Yorkshire),onde permaneceria durante todo o verão de 1485. Contudo, mesmo afastada da corte, não é impossível de que ela estivesse ciente da vitória decisiva de Richmond sob as tropas de Ricardo III em Bosworth, a 22 de Agosto.[ii] Após da morte do “usurpador”, Henrique fora formalmente declarado rei, e assim como outros monarcas antes dele, ordenou a prisão de todos os pretendentes ao trono, como Eduardo, Conde de Warwick, e a própria Isabel. Mas, na medida em que o primeiro fora enviado para a Torre, a jovem fora mais uma vez devolvida à custódia da mãe. Em uma assembleia reunida a sete de Novembro, o parlamento rogara ao novo soberano para que honrasse seu compromisso com Isabel, “a filha do rei Eduardo IV”.[iii]Apesar de nenhum registro formal confirmar, é quase certo que a princesa tenha recebido como herança de seu pai o Ducado de York, recebendo, portanto, os rendimentos que lhe cabiam como duquesa. Entretanto, a concessão do título à princesa não era apenas mera formalidade, mas sim um passo decisivo para torna-la numa noiva em potencial para o rei da Inglaterra. E assim o foi! Henrique respondera positivamente à petição do parlamento e após alguns prolongamentos, a cerimônia tivera seu lugar 18 de janeiro de 1486, ministrada pelo Cardeal Bourchier, Arcebispo da Cantuária.

 

Todavia, o casamento não foi seguido imediatamente pela coroação, provavelmente devido ao fato de Henrique ter questões mais urgentes para resolver, ou por depressa se ter percebido que Isabel estava grávida, uma vez que Arthur nasceria cerca de oito meses depois. Não obstante, Loades sugere ainda outra justificativa para tanto, ao dizer que,

“… Também é possível que o rei não desejasse enfatizar as credenciais reais de sua consorte nesse momento, pois a seu ver já o tinha feito suficiente no casamento. Em vez disso, o rei partiu no que seria provavelmente uma investida difícil (e até perigosa) para norte, para o centro do apoio a Ricardo. Entretanto, a rainha retirou-se para Winchester, onde, com a mãe e as irmãs, parece ter sido hóspede da rainha-mãe, Margarida Beaufort” (LOADES, 2010, pag. 88).

Isabel de York (artista desconhecido).

Isabel de York (artista desconhecido).

A presença da mãe de Henrique VII é muito significativa. Ela assumira uma série de tarefas e responsabilidades que cabiam por seu posto a Isabel de York. No entanto, esta soberana parece não ter se incomodado com a atuação da sogra em nenhum aspecto, ou pelo menos não dispomos de fontes confiáveis para tanto. Sabemos, porém, que Elizabeth Woodville não era muito amiga de Margarida Beaufort, e para que o estado de tensão entre ambas não prejudicasse Isabel, se refugiara em Bermondsey, no ano de 1487.

Quando a rainha viúva morrera, em 1492, todas as suas filhas estavam presentes em sei leito, exceto Isabel. Conta-se que Margarida criara uma espécie de interesse possessivo por sua nora, o que, por sua vez, pode ter ofendido a mãe desta. Entretanto, apesar da fertilidade de Isabel ter se igualado à de sua mãe, diferenciava quanto à saúde dos filhos. Ao nascimento de Arthur (em 19 de Setembro de 1486), por exemplo, seguira-se uma forte febre, mas aparentemente não se cria que as vidas da mãe ou da criança corressem perigo. A madrinha do batizado fora a própria Elizabeth Woodville, mas, afora a chegada tardia do Conde de Oxford (outro padrinho), muito pouco se conhece dos detalhes dessa cerimônia. Durante o verão de 1487, Henrique VII estava demasiado preocupado com a rebelião que terminara em Stoke em 16 de Junho. Logo após, partira para a Irlanda a fim de lidar com uma turba de insatisfeitos, liderados por Lambert Simnel. Só após retornar, é que coroara formalmente a sua consorte, em 26 de Novembro de 1487, numa cerimônia que seguiu à risca todos os protocolos exigidos para uma ocasião tão solene como esta. Desse ponto em diante, Isabel fora vista apenas a tratar de seus assuntos particulares.

Destarte, muita pouca certeza ainda temos acerca do sustento financeiro da rainha, uma vez que os registros da época não são consistentes. Além do já referido ducado de Iorque, há possibilidades de que ela herdara as terras do condado de March (em Herefordshire), já que parecia ser detentora de tais propriedades inerentes a esse patrimônio em Setembro de 1486. O que corrobora essa afirmação é o fato de que o parlamento a autorizara arecolher em benefício próprio todos os tipos de rendas que lhe eram devidas. Após sua coroação, fora-lhe atribuída ainda a concessão formal de uma série de terras e outras propriedades que outrora tinham pertencido à sua mãe. Segundo David Loades,

“O papel político independente de Isabel é também obscuro. Numa ocasião um dos rendeiros de Gales apelou junto dela contra uma ação arbitrária tomada pelo tio do rei, Jasper, Duque de Bedford. Em vez de passar esta queixa ao rei, como seria de esperar, a rainha tratou dela sozinha, e escreveu uma carta contundente a Jasper, que aprece ter tido o efeito desejado”. (LOADES, 2010, pag. 91).

Retrato póstumo de Margarida Beaufort, por Rowland Lockey.

Retrato póstumo de Margarida Beaufort, por Rowland Lockey.

Como membro de destaque da casa real, a opinião da rainha não podia ser ignorada, mas como suas táticas parecem terem sido recatadas, pouco chamou a atenção dos comentadores. Sabe-se também que exercera forte influência nos destinos matrimoniais dos irmãos, como no caso de sua irmã Cecília que se casou em Novembro de 1487 como o tio ilegítimo de rei, João, Visconde Welles.

Por outro lado, não dispomos da mesma quantidade de informações sobre as atividades de Isabel. Ao que tudo indica, foi uma consorte modelo, caridosa para com os pobres, porém sempre ligada à figura de Margarida Beaufort, ora como patrona das letras, ora como arauto da religião. No tocante às artes, sua presença é ainda mais modesta: adorava o teatro, mascaradas, e outras festas desse gênero, além de ter talento para o desenho e algumas noções de arquitetura. Porém, apesar de ter recebido uma excelente educação, pouca influência exerceu na escolha de tutores para os filhos, ficando esse papel restrito nas mãos do rei. Todas essas características permite-nos dizer que Isabel de York não era a figura apagada que observamos em seus retratos. À primeira vista, pode simplesmente parecer uma rainha com outra qualquer, mas tivera uma função importante na vida do reino e de seu marido. Infelizmente, sua devoção às obrigações de uma consorte (especialmente na concepção de herdeiros para o trono) logo cobraria seu preço.


[i] Após Ricardo III conseguir com que o casamento entre Eduardo IV e Elizabeth Woodville fosse declarado inválido, as filhas nascidas da união entre ambos ficaram conhecidas como “as filhas ilegítimas de Eduardo”.

[ii] No final, quase todas os lordes abandonaram Ricardo III e se juntaram ao exército de Henrique da casa de Lancaster.

[iii] Ficou claro que a partir da tomada do trono por Henrique VII, Isabel teve seu estatuto de bastardia revogado, porém, nada fora dito quanto a ela ser a herdeira de seu pai.

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