O pessoal e o político: os dois corpos de Elizabeth I da Inglaterra

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Uma das soberanas mais famosas da História da humanidade, a rainha Elizabeth I da Inglaterra (filha de Henrique VIII com Ana Bolena), quando sucedeu sua irmã em outubro de 1558 possivelmente não fazia ideia de como seu nome se transformaria em lenda e como sua imagem estaria para sempre vinculada a uma época de grandes descobertas e avanço artístico. Por meio dela, o mundo teria um forte exemplo de que mulheres também eram capazes de sentar em um trono, com uma coroa na cabeça, globo e cetro nas mãos, e ser tão, ou até mesmo mais populares que muitos monarcas do sexo masculino. Rainha de uma era dourada, Elizabeth enfrentara árduas provações até chegar ao poder, e outras tantas para nele ser manter. Tendo sido vítima de inúmeros complôs para derrubá-la do governo, e também para assassiná-la, conseguira manter-se firme e forte na incumbência do cargo que, segundo se acreditava, havia lhe sido destinado por Deus. Dessa forma, provara que até mesmo na morte, seu reflexo permaneceria aceso na mente das pessoas. Destarte, o presente texto tem por objetivo apresentar esta impressionante mulher, despida dos vários ornamentos simbólicos da monarquia, com os quais se utilizara para preservar seu corpo pessoal, em detrimento do corpo político.

Lady Elizabeth aos 13 anos de idade, atribuído a William Scrots

Lady Elizabeth aos 13 anos de idade, atribuído a William Scrots

A vida pessoal de Elizabeth sempre constituiu um fascínio para muitos biógrafos e romancistas, que por meio de falácias da segunda metade do século XVI, tentaram explorar a figura de uma rainha mais frágil, humana e amante, diferente da soberana opulenta e séria que aparece em seus próprios retratos. Desse modo, é curioso perceber que 410 anos após sua morte, ela ainda permaneça um dos grandes enigmas da História. Como, então, decifrar a mulher por trás de todos os paramentos monárquicos? Talvez essa possa parecer uma pergunta difícil de responder, mas nem tanto. A partir do momento em que Elizabeth percebe que não se casaria, observamos o afastamento do seu “eu” interior e o consequente soerguimento de seu “eu” político, majestoso, santificado, e, portanto, inatacável. Essa discussão sobre a teoria dos dois corpos do rei é amplamente trabalhada por Peter Burke, que ao tomar como exemplo a figura de Luís XIV (o “rei sol”), demonstra que havia dois tipos monarcas concentrados em um mesmo corpo: um deles dizia respeito ao privado, mais frágil e devoto dos vícios carnais; o outro era o monarca absoluto, cujo direito de governar emanava de Deus, único ser para quem devia a justificação de seus atos. Sendo assim, é possível dizer que para se enxergar uma Elizabeth mais vulnerável, faz-se imprescindível um olhar atento para os primeiros anos de sua vida, quando era considerada uma bastarda e filha de mãe adúltera.

Nascida do movimento da reforma protestante em Inglaterra, Elizabeth fora criada sob os preceitos religiosos da fé de seu pai, que havia rompido com o papado para desposar a mãe da mesma. Com efeito, a vinda daquela princesa representou uma frustração para Henrique VIII, uma vez que este desejava um varão para sucedê-lo ao trono. Todavia, nem mesmo por isso a educação da menina fora rejeitada. Após a execução de Ana Bolena, e a posterior declaração de bastardia, Elizabeth cresceu sob os auspícios de excelentes preceptores, que a instruíram na arte da retórica, filosofia, religião, ciências, além do estudo do grego, latim, e muitos outros idiomas. A mais viva descrição de sua erudição provém de Roger Ascham, que em 1562, quando ela já era rainha, escreveu o seguinte para seu amigo John Sturm:

Eu estava presente um dia quando ela respondeu ao mesmo tempo a três embaixadores, o imperial, o francês, e o sueco, em três línguas: italiano a um, francês ao outro, latim ao terceiro; facilmente, sem hesitação, com clareza, e sem ficar confusa, sobre os vários assuntos suscitados, como é habitual no discurso deles (ASCHAM, 1562, apud DUNN, 2004, pag. 103).

A partir do relato de seu professor, fica explícita uma via do caráter da própria rainha: a exibição de sua figura pública por meio de seus dotes intelectuais. Por sua vez, essa seria uma característica que Elizabeth manteria por toda a vida.

Robert Dudley, conde de Leicester e possível amante de Elizabeth.

Robert Dudley, conde de Leicester e possível amante de Elizabeth.

Contudo, houve muitos momentos em que escândalo, paixão e intrigas foram adicionados no contexto do corpo político da soberana. É através deles, que encontramos suas falhas e medos. Em 1547, quando da morte do rei Henrique, Elizabeth havia sido readmitida na linha sucessória depois de sua irmã Maria. Assim, passara a se tornar um alvo politicamente vantajoso para um casamento. Vivendo com a madrasta, a garota, aos 15 anos, envolvera-se num difamatório caso envolvendo Thomas Seymour, então casado com Catarina Parr. Segundo se conta, a viúva de Henrique VIII teria surpreendido o marido aos beijos com a enteada sentada em seu colo. Verdade ou não, o fato é que a relação entre as duas mulheres esfriou. Após a morte da madrasta, a jovem se viu em um arriscado complô arquitetado por Seymour, que acabaria custando a vida deste. Na época, Elizabeth apresentara perfeita compostura ante seus algozes, rebatendo vivamente qualquer acusação de que pudesse estar envolvida com Thomas num plano para derrubar a regência do trono. Mesmo em tenra idade, a moça obteria uma valiosa lição sobre os perigos da corte e de como contorná-los. Todavia, essa estava longe de ser a mais perigosa das empreitadas por que passaria até chegar ao trono de seus ancestrais.

Entretanto, se quisermos olhar mais atentamente para os amores da soberana, devemos procurar pela figura de Robert Dudley, conde de Leicester. Esse, além de qualquer outro, fora apontado como a maior paixão da vida de Elizabeth. Os dois conheceram-se ainda muito jovens, e estiveram presos na torre de Londres durante o reinado de Maria I. Os vínculos entre ambos eram muito fortes, devido ao fato de compartilharem diversos interesses, seja por erudição ou cavalaria. Quanto subira ao trono em 1558, a mulher de 25 anos já havia absorvido muitas experiências ao logo de sua mocidade: declarada ilegítima, vivera sob os temores da ira do próprio pai; depois seu nome estivera ligado ao escandaloso caso de Thomas Seymour; em 1555 tinha sido encarcerada pela irmã, acusada de traição. Não obstante, as muitas prerrogativas que distribuía ao conde de Leicester, acabaram por fazer com que os súditos pensassem que por trás de todo esse favoritismo havia uma paixão incontida, que daria origem a inúmeros boatos por toda a Europa. Muitos foram os romances e filmes que trouxeram esse relacionamento como mote principal, exagerando assim aos olhos do público algo que na verdade poderia se tratar de mero amor cortês. Com efeito, no momento em que Elizabeth toma as rédeas do Estado e confronta com a difícil situação da economia e do exército inglês, torna-se evidente que sacrifícios pessoais deveriam ser tomados, e entre eles a própria privacidade. Aqui, o corpo político começava a ganhar a batalha contra o “eu” individual.

Em uma sociedade que desacreditava a mulher na política, a tarefa de Elizabeth era então mais tortuosa do que a das demais cabeças coroadas pelo continente. Segundo David Loades,

Deus tinha-a criado mulher, mas em vez de considerar esse aspecto uma desvantagem, Isabel via-o como um desafio excitante, pois Deus também lhe tinha dado astúcia e uma sexualidade que lhe permitia manipular os homens bastante convencionais com quem tinha de lidar. Para Isabel não havia questões ‘impróprias para mulheres’; o que se passava era que uma mulher tinha de gerir a situação de um modo bastante diferente (LOADES, 2010, pag. 225-26).

O corpo político e o "eu" individual: Elizabeth e Mary (respectivamente).

O corpo político e o “eu” individual: Elizabeth e Mary (respectivamente).

Seguindo a linha de raciocínio do autor, é possível notar como aquela monarca transformara sua própria fraqueza em um escudo. A questão do sexo para Elizabeth deixa então de ser uma imperfeição para se tornar um elemento que a diferenciava dos políticos. Sem negar sua condição feminina, ela jogava com essa realidade para explorar os pontos vulneráveis de seus adversários. Era uma mulher que, apesar de ocupar um cargo preferível aos homens, reconhecia sua “inferioridade” sem deixar, contudo, de se apropriar de elementos e falas dignas de um rei. Entretanto, mesmo no campo de atuação feminino, Elizabeth tinha uma séria oponente concentrada na figura da rainha dos escoceses. A rivalidade entre as duas, por sua vez, revela muitos dos sentimentos ocultos da grande soberana inglesa.

Mary Stuart possuía inúmeros atributos físicos que deixavam sua prima muito aquém dela mesma. Nunca tendo sido uma beldade, Elizabeth reconhecia a vitória de Mary no campo da estética, embora a superasse como governante e estadista. A rainha dos escoceses constantemente deixava-se guiar pelos próprios instintos, e por isso incorreu em uma série de atitudes que acabaram por lhe tirar o trono. Dessa forma, é possível dizer que uma era a antítese da outra: enquanto Elizabeth deixava seu corpo político falar mais alto, sua prima era o “eu” individual, aventureira e apaixonada. Entretanto, Mary Stuart fora capaz de dar à coroa um herdeiro, enquanto a rainha da Inglaterra não passava de um “tronco estéril” (segundo palavras da mesma). Mas uma virada de sorte faria o curso dos acontecimentos mudarem, com a sequente execução da rainha da Escócia (1587) e o fracasso da “invencível” armada de Felipe II (1588). Derrotando a seus inimigos sem temer a sombra da própria morte, Elizabeth com suas atitudes mostrara-se uma fiel seguidora das palavras de Maquiavel, quando este diz que:

Não deve ser, portanto, crédulo o príncipe nem precipitado e não deve amedrontar-se a si próprio, e proceder equilibradamente, com prudência e humanidade, de modo que a confiança demasiada não o torne incauto e a desconfiança excessiva não o torne intolerável”(MAQUIAVEL, 2011, pag. 66).

Destarte, poucos foram os homens que usufruíram da confiança da rainha, apesar dela ter estendido sua graça a muitos cortesãos. Dessa forma, mostrara-se uma mulher condescendente, sem ser com isso uma tola.

É após a derrota dos espanhóis que a cultura inglesa floresce sobre os auspícios da rainha. Dessa fase, surge o teatro elisabetano, com nomes como William Shakespeare e Ben Jonson. À luz do renascimento tardio, a Inglaterra vai se libertando do regime feudal e se tornando cada vez mais parecida com o império que se tornaria dois séculos depois. Nesse aspecto, a figura de Elizabeth tinha um papel fundamental, uma vez que todos os eventos populares, desde apresentações de peças, construções arquitetônicas e cortejos públicos tinham por função elevar sua imagem acima das demais. Era a Gloriana, a nova Débora, imortalizada nos versos de Edmund Spencer:

Ela é a poderosa Rainha das Fadas,

Cujo belo retrato ostento no meu escudo,

É a flor da graça e da castidade,

Reconhecida em todos os cantos do mundo,

Minha vida, minha suserana, minha Soberana, minha querida…

(apud LOADES, 2010, pag.239).

O Corpo Político: quadro pintado em 1601 da rainha Elizabeth I, retratando-a jovem e imponente,quando na verdade na época estava velha e cansada do fardo da coroa.

O Corpo Político: quadro pintado em 1601 da rainha Elizabeth I, retratando-a jovem e imponente, quando na verdade na época estava velha e cansada do fardo da coroa.

Durante os últimos anos de sua vida, os dois corpos da soberana continuavam a combater entre si. Enquanto de um lado Elizabeth brigava com o privado para resolver suas querelas com o conde de Essex, último de seus favoritos, do outro era a monarca de quase 70 anos de idade que desejava ser retratada sempre jovem pelos pintores, para que sua imagem de grande majestade passasse para a História totalmente despida de fraquezas. Todavia, tantos anos de luta acabaram por cobrar seu preço, e o fardo da coroa começava a pesar nos ombros daquela mulher. Os modos e os costumes da nova geração já não eram mais os mesmos, e, com efeito, a figura da rainha passava a simbolizar uma época passada. No início de março de 1603 suas forças iam se esvaindo, na medida em que ela se recusava a receber assistência médica e reconhecer que estava morrendo. Os dedos começaram-lhe a inchar e em 11 de março o anel da coroação fora preciso ser cerrado, pois já lhe entrava na carne. Era como “se o seu casamento místico com o reino se tivesse quebrado” (CHASTENET, 1976, pag. 279). Adentrado o vigésimo dia do mês, Elizabeth permanecia em pé, com receio de se deitar, dormir e nunca mais acordar. No dia 24, porém, falecia a última princesa do Renascimento, fundadora da Inglaterra moderna. Em seu último suspiro, fora o corpo humano da rainha que morrera, mas não o seu “eu” político, que era divino, e, portanto, permaneceria vivo para sempre.

Referências Bibliográficas:

BURKE, Peter. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV.  – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.

CHASTENET, Jacques. A Vida de Elizabeth I de Inglaterra. Tradução de José Saramago. 2ª edição. São Paulo: Círculo do Livro, 1976.

DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. – Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

LOADES, David. As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV – XVII). Tradução de Paulo Mendes. – Portugal: Caleidoscópio, 2010.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução, prefácio e notas de Lívio Xavier. – [Ed. Especial]. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

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Um comentário sobre “O pessoal e o político: os dois corpos de Elizabeth I da Inglaterra

  1. Obrigada ao administrador da página Rainhas trágicas.
    Estou adorando conhecer as histórias destas mulheres extraordinárias.
    Gratidão pelo seu tempo em pesquisas.

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