Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor – Parte VI.I

Parte VI.I Julgamento e execução

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

É difícil dizer até que ponto os acontecimentos dos primeiros meses de 1536 influenciaram na queda de Ana Bolena em fins de abril daquele ano. A cronologia de acontecimentos que interferiram nesse processo já vem sendo discutida há muito tempo pelos principais historiadores do período. É possível, portanto, dizer que quando as comemorações do primeiro de maio estavam acontecendo (com o torneio de justa), a rainha não sabia absolutamente de nada do que estava sendo feito, embora pudesse sentir o cerco se fechando ao seu redor. No domingo de 30 de abril, o músico Mark Smeaton havia sido preso na torre de Londres após confessar que mantinha relações sexuais com sua senhora, além de indicar os nomes de Weston, Norris e Brereton como amantes da mesma. Segundo informações de uma testemunha ocular, o simplório tocador de alaúde havia sido convocado à casa do secretário Cromwell e lá fora torturado por dois lacaios com o intuito de fazer-lhe confessar justamente algo que seu inquisidor desejava ouvir.

Retrato Póstumo de Ana Bolena, por artista desconhecido.

Retrato Póstumo de Ana Bolena, por artista desconhecido.

Um dia depois, enquanto o rei e a rainha presidiam o torneio em Greenwich, Henrique recebera uma mensagem de conteúdo misterioso. Após ler tal missiva, levantou-se e partiu do lugar sem sequer despedir-se da esposa (da mesma forma que fizera com Catarina de Aragão em 1531). Fizera-se, entretanto, acompanhar-se de    Norris, que estaria competindo com o irmão da rainha neste dia. Durante o percurso, notificou o cavalheiro das acusações feitas por Smeaton no domingo passado; apesar dos protestos de inocência por parte do mesmo, fora levado para a torre. Lá, os presos foram novamente interrogados. O mais estranho nesse processo foi que o próprio irmão da rainha, George Rochford, também havia sido capturado. As provas contra ele foram oferecidas pela própria esposa, Jane Parker, que não possuía um casamento estável com o marido e sempre teve um dom especial para intrigas. De acordo com suas declarações, seu marido mantinha relações incestuosas com a rainha. Podemos supor muitos motivos que levaram essa senhora a levantar tal calúnia: talvez sentisse inveja da amizade entre Ana e George, ou talvez estivesse com medo de cair em desgraça junto com a família do Cônjuge. De um jeito ou de outro, seu testemunho fora fundamental para a queda da rainha.

Após ter interrogado os prisioneiros da torre e os membros do séquito de Ana, Cromwell pode finalmente concluir um ato de acusação contra ela, e tão logo o apresentou ao rei. Em tal documento, era possível identificar os amantes da soberana e ainda por cima as datas com que ela se relacionara com eles. De acordo com as conclusões do secretário,

Ana tivera procedimento licencioso fazia já quase três anos. Um mês apenas depois do nascimento de Isabel, era acusada de infidelidade com Norris. Dizia-se que enganara Henrique. Com Brereton a 16 de Novembro, de novo com Norris a 19, ainda com Brereton a 8 de Dezembro de 1533. Cinco meses depois era acusada de alternar, com curiosa regularidade, Smeaton e Weston: e finalmente, enquanto Smeaton, Weston, Brereton e Norris continuavam a fazer parte de seu círculo íntimo muito tempo depois que ela cessara de conceder-lhes os seus favores, suspeitava-se que se entregara a seu irmão, precisamente na solenidade da semana de natal, e quando se achava em estado da adiantada gravidez (HACKETT, 1950, pag. 285).

Infelizmente, o rei parece que não ponderou as informações que acabavam de lhe ser passadas por seu secretário e acatou como verdadeiros todos aqueles crimes de adultério. Um aspecto bastante singular do caráter de Henrique é que ele tinha o costume de acreditar com convicção naquilo que lhe era propício: anos antes, por desejo de separar-se de Catarina, passara a justificar esse anseio com base no fato de que esse matrimônio era contrário à lei de Deus; agora queria livrar-se de Ana sob a acusação de que ela era uma adúltera.

Retrato póstumo de Ana Bolena, mostrando-a na época de sua queda (artista desconhecido - final do século XVI).

Retrato póstumo de Ana Bolena, mostrando-a na época de sua queda (artista desconhecido – final do século XVI).

Na madrugada de dois de Maio, Ana Bolena recebera uma mensagem na qual era convocada a comparecer diante o Conselho, presidido pelo duque de Norfolk. Lá ficou sabendo de que estava sendo acusada de adultério e de que devia tomar a barca rumo à Torre. Empalidecida pela falta de cortesia dos pares do reino, ela replicou: “Ser rainha e ser tratada assim é uma coisa nunca vista”. A condução que a levaria à sua prisão chegou por volta das duas da tarde. Sendo transportada em plena luz do dia e sob os olhares de uma incrível multidão, ela finalmente avistou os portões do recinto. Ao aportar, fora recepcionada pelo guardião do lugar, mestre Kingston, a quem perguntou:

– “Mestre Kingston, tenho de ir para um torreão?”. Ao passo que ele respondeu:

– “Não, Senhora, ireis para o aposento que ocupaste no tempo da vossa coroação”

Agradecida pela gentileza de seu carcereiro, Ana exclamou que “é bom demais pra mim. Jesus tenha piedade de mim” (apud HACKETT, 1950, pag. 287). Em seguida, caiu de joelhos, em um choro que depois se transformou numa gargalhada incontida, que surpreendeu a todos ali presentes.

Contudo, a rainha não podia deixar de se preocupar com seu irmão, de quem não soubera o paradeiro desde o dia anterior. Quando questionou Kingston se este sabia alguma coisa de George, ele respondeu que o havia deixado em York Place, mas na verdade ele tinha sido levando também para a torre pouco antes do meio dia. Uma vez encarcerada, Cromwell designou algumas camareiras chefiadas pela mulher de Kingston para relatar todos os atos de Ana no quarto de sua coroação, agora transformado em cela. Segundo tais senhoras, em alguns momentos a prisioneira era tomada por fortes sentimentos de desespero, para depois cair em uma gargalhada descontrolada. Todas as palavras que saiam de sua boca eram relatadas ao secretário do rei para que fossem usadas no julgamento. Na opinião de Antonia Fraser:

Por que se considerava essencial livrar-se da rainha Ana de uma vez? A resposta esta no comportamento de sua antecessora. Certa vez, o rei e seus ministros tinham previsto uma retirada digna da rainha Catarina do palco, possivelmente para um convento. Em vez disso, tinham enfrentado sete anos de protesto, assumindo formas tão variadas como uma ameaça imperialista do exterior e apoio pessoal a Catarina dentro do país. Não dariam a mesma oportunidade a Ana Bolena (FRASER, 2010, pag. 327).

Ana Bolena na barca atravessando os portões da Torre, por Millar Watt.

Ana Bolena na barca atravessando os portões da Torre, por Millar Watt.

Como estava convicto de que mademoiselle Boullan não poderia lhe dar um herdeiro varão, o rei não queria mais uma ex-esposa causando problemas justo quando a morte acabava de lhe livrar da primeira. Tornou-se então um fato de que Ana Bolena precisava desaparecer, para que não se tornasse uma pedra no caminho das pretensões dinásticas de Henrique VIII.

No dia 4, Sir Francis Weston e William Brereton foram finalmente presos. Novas provas foram levantadas: dizia-se que a rainha havia conspirado com Norris para assassinar o rei e depois casar-se com ele, o que logicamente implicava num crime de alta traição. Pouco antes do acontecido, o dito fidalgo havia contraído bodas com a prima da rainha, Madge Shelton. De acordo com os relatos, Ana se tinha impacientado com a demora do casamento e então proferiu as comprometedoras palavras: você lucraria com a morte de uma pessoa, pois se algo mau acontecesse ao rei, você procuraria me conquistar”. No entanto, esse diálogo, que poderia ter se sucedido de forma despretensiosa, fora transformado em uma arma no inquérito estabelecido contra a rainha. No dia 8, Thomas Wyatt, antigo admirador de Ana, também fora preso, mas logo foi solto por falta de provas mais conclusivas. Quatro dias depois, os três membros da câmara do rei, mais o tocador de alaúde Mark Smeaton, foram julgados culpados e condenados a serem enforcados até quase morrer, eviscerados, depois castrados e por fim esquartejados¹. O julgamento de Ana e de seu irmão, por sua vez, seria realizado no dia 15 no Grande Salão da Torre de Londres.

Ana Bolena na torre, por Edward Cibot.

Ana Bolena na torre, por Edward Cibot.

Corajosa e orgulhosa como sempre, a rainha se dirigiu com calma aos pares do reino, chefiados pelo seu tio, duque de Norfolk, e entre os quais se encontrava sua paixão de outrora: Henry Percy. Apesar de ter feito uma brilhante defesa, na qual alegava sua inocência diante daqueles horríveis crimes que atacavam mais sua fidelidade conjugal que qualquer outra coisa, ela foi considerada culpada e sentenciada a morrer decapitada ou queimada na fogueira conforme a vontade do rei. Logo depois foi a vez de seu irmão. Todos achavam que ele seria exonerado da culpa, já que as provas de incesto careciam de maior fundamento. Quando confrontado com sua acusação, ele se dirigiu à corte de juízes: “Com base no depoimento de apenas uma mulher, os senhores estão dispostos a acreditar que cometi esse grande pecado”.  Entretanto, Lorde Rochford cometeu o despautério de ler em voz alta uma suposta alegação de sua irmã quanto ao marido, na qual se dizia “que o rei era incapaz de copular com sua mulher e não tinha nem habilidade nem virilidade”. Era uma afronta direta à pessoa do monarca, e isso contribuiu para que o júri o condenasse o réu à morte em circunstâncias iguais às de sua irmã. No dia seguinte, o Arcebispo Cranmer declarou o casamento do rei com Lady Ana inválido desde o princípio, com base no fato dele ter mantido relações carnais com a irmã da mesma, Maria (mais uma vez a justificativa do levítico era utilizada para livrar Henrique de um casamento indesejado).

No dia 17, debaixo da janela da cela da em que estava presa, os cinco homens com os quais fora acusada de manter relações sexuais, foram executados². Quando à própria Ana, seria decapitada por um espachim francês no próximo dia, mas por algum motivo o carrasco se atrasou, dando à vítima mais algumas horas de vida. Kingston havia relatado que a ci-devant­ rainha havia se queixado do atraso e ainda fazia piada do ocorrido: “ouvi dizer que o carrasco é muito hábil, e eu tenho um pescoço tão fino!” Logo depois, começo a rir-se.  Na manhã de sexta (dia 19), vestindo um manto de arminho sobre uma túnica, e um vestido de damasco escuro e uma anágua vermelha, Ana subiu no patíbulo armado em frente à Torre Branca, e proferiu o seguinte discurso para os espectadores presentes na ocasião:

Bom povo Cristão, venho aqui para morrer, de acordo com a lei, e por ela fui julgada para morrer, e por isso não direi nada contra ela. […] Não venho aqui para acusar qualquer homem, nem falar nada a respeito daquilo de que fui acusada. […] Eu rezo e peço a todos vocês, bons amigos, que rezem pela vida do rei, meu senhor soberano e de vocês, que é um dos melhores príncipes na face da terra, e que sempre me tratou tão bem. […] Dessa forma, eu me despeço deste mundo, e de vocês, e imploro para que rezem por mim (apud WEIR, 2010, pag. 281).³

A Execução de Ana Bolena, por Jan Luyken (cerca de 1664 - 1712)

A Execução de Ana Bolena, por Jan Luyken (cerca de 1664 – 1712)

Em seguida, ela pagou ao carrasco pela sua execução um total de 24 libras, ajoelhou-se, e enquanto encomendava sua alma a Deus, recebeu o golpe de misericórdia, que calou para sempre sua oração. Em seguida, tiros de canhões foram disparados, para anunciar que a vítima finalmente partira para a imortalidade. Ninguém se importava; ninguém além de poucas serviçais se interessou e dar um destino digno a seu corpo. Ela partira deste mundo deixando no ar seus medos e desilusões, num verdadeiro eco de misticismo que se propagaria para muitas gerações a posteriori.

Notas:

¹ Todos os acusados, exceto Mark Smeaton, alegaram até o fim sua incência.

² Ao subir no patíbulo, George Bolena disse aos espectadores para “Terem fé em Deus e não nas vaidades do mundo; pois se eu tivesse feito isso creio que teria continuado em vida como vós” (apud HACKETT, 1950, pag. 291).

³ Traduzido da obra em inglês pelo administrador

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