Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor – Conclusão

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Conclusão – Ana Bolena, uma trágica heroína dos tempos modernos.

Ana Bolena, por artista desconhecido (final do séc. XVI)

Ana Bolena, por artista desconhecido (final do séc. XVI)

Até que ponto um homem é capaz de chegar para satisfazer suas pretensões? Qual é o limite dos poderes de um rei? Em tempos de monarquia absolutista, acreditava-se que o soberano era um representante de Deus na terra, e que sua autoridade e direito de reinar emanava dos céus. Sua vontade era lei, e quem a contrariasse ou interferisse o curso dos acontecimentos seria duramente castigado. Sem dúvida, Ana Bolena pode comprovar por si mesma que “a cólera do rei, era a morte”. Tanto ela quanto os outros cinco homens que morreram dois dias antes de 19 de maio de 1536 nada mais eram do que joguetes nas mãos de indivíduos despretensiosos e prontos conseguirem aquilo a que estavam dispostos a ter, machucando a quem tivesse de machucar para isso, “groigne qui groigne”¹. Mas quem poderia prever que em 1533, quando Ana Bolena carregava o presuntivo herdeiro varão da coroa em seu ventre, os acontecimentos tomariam rumo tão catastrófico? Talvez só a própria rainha estivesse ciente disso, ou talvez não.

O fato é que ela foi uma mulher impressionante, talvez uma das mais interessantes das seis esposas de Henrique VIII. Seu desempenho e obstinação, em um mundo governado por homens, marcaram a História para sempre. Mas que foi feito dela, após pagar o preço máximo por seus atos? Os despojos do que um dia fora a mulher mais desejável da corte inglesa foram transladados para uma sepultura insalubre, indigna da posição que um dia ocupara. Ana Bolena não morreu como rainha da Inglaterra, uma vez que seu casamento com Henrique fora declarado inválido desde o princípio. Todavia, se nunca estivera casada com o rei, como poderia ter cometido adultério? Ao olhar contemporâneo, essa é uma das maiores falhas do processo levantado contra a mesma. Seria executada não como soberana, mas como senhora Marquês de Pembroke. Entretanto, é possível presumir que aquele a quem outrora chamara de marido, resguardara um pouco de misericórdia para com aquela mulher. Em vez de sofrer uma morte dolorosa na fogueira, mademoiselle Boullan seria decapitada por um espadachim francês. O golpe da espada foi tão rápido e silencioso que apenas em um piscar de olhos, a dama já estava morta. Não obstante, o saco de moedas com que pagara ao carrasco fora custeado pelo próprio rei.

Retrato de Ana De Cléves executado por Hans Holbein. Segundo fontes, Henrique considerou a pintura por demais lisonjeira.

Retrato de Ana De Cléves executado por Hans Holbein. Segundo fontes, Henrique considerou a pintura por demais lisonjeira.

Alguns diziam que seu espírito jamais encontrou paz após a morte, vagando pelos lugares que marcaram a sua vida. Outros, que era uma bruxa; que conquistara o rei através de sortilégios; que em todo aniversário de sua execução, várias lebres corriam descontroladas pelos campos (a lebre era tida como um dos símbolos da feiticeira). A partir daí a história se tornou lenda, acrescentando um “quê” a mais de misticismo em sua figura. Mas às vezes os acontecimentos se mostram demasiado irônicos, pois quis o destino que o grande sucessor de Henrique VIII não fosse o garoto por quem tanto lutara, mas uma menina: Elizabeth, sua filha com Ana Bolena. Após a morte da mãe, a pequena órfã era considerada uma bastarda, tal como sua meia-irmã Maria. Dez dias depois da execução da ci-devant rainha, o rei se casou com Jane Seymour, a quem mais tarde chamaria de sua “verdadeira esposa”. Jane cumpriu com suas obrigações como rainha consorte, dando ao marido um herdeiro para o trono, mas logo após o parto contraiu febre puerperal e morreu em seu leito de parturiente poucos dias depois. Ela, assim como suas duas antecessoras, fora vítima de sua condição biológica, da mesma forma que as outras três mulheres que ascenderiam ao trono da Inglaterra como esposas do “Grande Harry”.

Provável retrato de Catarina Howard, prima de Ana Bolena também decapitada por adultério em princípios de 1542 (pintado por Hans Holbein).

Provável retrato de Catarina Howard, prima de Ana Bolena também decapitada por adultério em princípios de 1542 (pintado por Hans Holbein).

Em 1540, o rei desposou uma princesa alemã, outra Ana, filha do duque de Cléves. Dois anos se passaram desde a morte de Jane Seymour, e os ministros do rei decidiram que era hora de unir a Inglaterra em uma aliança que prejudicasse as pretensões do Imperador Carlos V. Todavia, Henrique não gostara daquela moça de comportamento alienígena ao seu. Sentira-se enganado pelo retrato que Holbein pintara dela e que o apresentara antes que o monarca a conhecesse pessoalmente. Destarte, despejara toda a sua cólera nos ombros de Thomas Cromwell, já que fora ele o arquiteto do casamento. Quatro anos após planejar a queda de Ana Bolena, agora era a vez do secretário de rei perder a cabeça. Com apenas seis meses de matrimônio, o arcebispo Cranmer mais uma vez decretava inválida a união do soberano, para que ele contraísse bodas com Catarina Howard, uma dama com menos de vinte anos e que era prima de sua segunda esposa. A pobre jovem também teria um trágico fim, ao contrário de sua antecessora, que aceitara o divórcio sem nenhuma objeção e fora agraciada pela bondade de Henrique pela sua atitude. Em 1541 os ministros do rei, temendo a influência do duque de Norfolk sobre o mesmo, reuniram provas contra a nova rainha, acusando-a de adultério. Seu destino fora o mesmo dos traidores: a decapitação.

Estando muito velho e doente, Henrique precisa de alguém com quem dissipar seus infortúnios, e a família Seymour não tardou em arranjar uma candidata ideal para o posto de rainha, uma viúva de 32 anos e que já tinha certa experiência em cuidar de maridos enfermos: Catarina Parr. Era uma protestante convicta e defensora da causa da reforma, e apesar de suas crenças lhe terem causado alguns problemas futuros, viveu com o rei até a morte dele, em janeiro de 1547. A partir daí, Henrique fora sucedido pelo seu filho com Jane Seymour, que ascendeu ao trono do pai sob a nomenclatura de Edward VI tendo apenas nove anos de idade. Infelizmente, o jovem príncipe era de compleição debilitada e morreu seis anos depois, deixando a coroa para a herdeira de Catarina de Aragão. Em seu desejo de trazer a Inglaterra de volta á crença da mãe, Maria I mergulhou o país nas chamas da inquisição, causando por isso grandes tumultos internos na população. Seu casamento frustrado com Felipe da Espanha (filho do imperador), aliado às falsas gravidezes por que passou, acabou por exaurir suas forças², capitulando em 1558 deixando para a meia-irmã um país destroçado pelo conflito civil. Elizabeth herdara não somente um Estado fraco, mas também as dívidas e querelas de três reinados anteriores. Mas as provações por que passara na infância e adolescência, juntamente com a refinada educação que recebera, prepararam-na para o papel de soberana de uma nação orgulhosa de si mesma.

Anel pertencente a Elizabeth I, em cujo fecho se esconde a efígie da rainha e a de sua mãe.

Anel pertencente a Elizabeth I, em cujo fecho se esconde a efígie da rainha e a de sua mãe.

Com Elizabeth I, a Inglaterra teve um de seus mais notórios monarcas. Ela fortalecera a marinha, a moeda, além de estabelecer preciosos contratos mercantis com os reinos vizinhos. Em 1588 derrotara a armada espanhola de Felipe II, o que fez com que os ingleses se tornassem os verdadeiros senhores das águas nórdicas. Sua gestão fora chamada de a Idade de Ouro e a decisão da mesma de nunca se casar, valera-lhe o epíteto de a “Rainha Virgem”. Após sua morte em 1603, tendo governado por aproximadamente 45 anos, a dinastia Tudor terminou. Não era só o fim de uma Era, mas também o desmoronamento do absolutismo naquela ilha, que estava então sob o domínio dos Stuarts. Hoje, o poder da realeza inglesa em nada se assemelha aos dos tempos de Henrique VIII, mas é realmente curioso que sob a filha de Ana Bolena e de tantas outras soberanas, ficou provado que o governo das mulheres era tão eficaz, ou inclusive mais magnânimo que o dos homens. Poucos sabemos do interesse de Elizabeth por sua mãe. Ela nunca se prontificara em restaurar a reputação da segunda mulher de seu pai. Contudo, um pequeno artefato seu nos mostra o carinho que a rainha guardava pela sua progenitora: em um pequeno anel de pedras preciosas, fora adicionado um fecho que ocultava a efígie de duas mulheres; uma delas se trata logicamente da soberana, mas na outra podemos ver uma dama de capelo inglês, rosto oval, maçãs do rosto salientes como as de Elizabeth, além de lábios carmim que revelavam um encantador sorriso de Mona Lisa; se trata de ninguém menos que Ana Bolena.

Placa no chão do altar da Capela de São Pedro ad Vincula, indicando o túmulo de Ana Bolena.

Placa no chão do altar da Capela de São Pedro ad Vincula, indicando o túmulo de Ana Bolena.

Os ossos de mademoiselle Boullan só foram descobertos em 1877, durante reformas na capela de Saint-Peter ad Vincula. Após um estudo antropológico, concluiu-se que se tratava da rainha decapitada. Mesmo alguns autores discordarem da descoberta³, só podemos louvar a atitude daqueles que se prontificaram a dar um sepulcro razoavelmente digno para aquela mulher, devolvendo-lhe o título de Rainha da Inglaterra. A quem a considere uma mártir; outros, apenas uma pessoa vil, cujo desígnio era apenas arruinar a vida de seus inimigos. A verdade é que mesmo quase quinhentos anos após sua morte, Ana Bolena ainda continua tendo cruéis detratores, mas também aqueles que a defendem com ardor. Seria um equívoco dizer aqui que se não fosse por ela, Henrique jamais teria se separado de Catarina de Aragão ou rompido com a Igreja Católica. Todavia, a ascensão e queda desta senhora fora um marco divisor de águas, e como tal um estudo detalhado acerca da vida desse misterioso personagem torna-se necessário. Jamais conseguiremos desvendar todos os segredos que ela carregara para a cova, mas pelo menos podemos nos forçar à tentativa de estudá-la em toda a sua magnitude.

Notas:

¹ “Ainsi sera, groigne qui groigne” (Assim será, doa a quem doer – esse era um dos lemas de Ana Bolena)

² Segundo estudos recentes, acredita-se que Maria I era portadora de um tumor.

³ Alison Weir, em seu livro “The Lady in The Tower”, discorda das conclusões dos peritos da época pelo fato de terem observado que o esqueleto tinha um pescoço curto, enquanto Ana Bolena fora descrita em sua época como tenho um pescoço longo.

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