Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor – Parte V.III

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Parte V.III – O Prelúdio do fim.

Retrato póstumo de Ana Bolena.

Retrato póstumo de Ana Bolena.

O ano de 1535 começou em estado de tensão para os reais personagens dessa trama. Era evidente que o rei estava se desinteressando aos poucos pela sua rainha, que, por sua vez possuía escassos amigos na corte e muitos inimigos, inclusive entre os comuns. Enquanto isso jazia nas celas da torre o Bispo Fisher e o humanista Thomas More, que aguardavam no conforto da fé que acreditavam verdadeira o dia em que seriam julgados pelos pares do reino. Não obstante, Henrique começava a dar sinais de sua periódica impotência, frustrando assim as pretensões de Ana de engravidar durante o inverno daquele ano. Ela e sua família precisavam que o rei se mantivesse entretido, enquanto ela não dava à coroa o tão esperado herdeiro. Além do mais, seria perigoso que ele tomasse por conta própria uma nova amante, que representasse uma facção oposta à dos Bolena. Sendo assim, fora escolhida uma moça ligada à rainha pelo sangue e que estava a serviço de sua casa naqueles tempos: sua prima Margaret Shelton, carinhosamente apelidada de “Madge”.

Entretanto, a prima “Madge” (que se dizia ter lindas covinhas de sorriso no rosto) não estava apenas encarregada de estimular sexualmente o rei. A rainha a incumbiu pessoalmente de conversar com Lady Mary sobre as afáveis disposições de sua ama para com ela. A jovem, naquele ano, já contava com 18 anos de idade e apresentava muito do caráter e obstinação intrínsecos à mãe espanhola. Em janeiro de 1536, depois de demasiadas tentativas, Ana Bolena enviou uma carta à sua aia na qual dizia:

“[…] Senhora Shelton, peço-vos que não façais mais nenhum esforço para demovê-la do seu capricho, porque a mim ela não pode fazer bem nem mal. Cumpri os vossos deveres para com ela, segundo as ordens do Rei, como estou certa de que fazeis e fareis, e aconteça o que acontecer achareis sempre em mim a vossa boa senhora, ANA R.” (apud HACKET, 1950, pag. 277).

Tal missiva continha muitas ameaças à ex-princesa, de que quando Ana tivesse um filho, “o que espero que será em breve, sei o que acontecerá com ela”. Tampouco Henrique VIII se mostrava satisfeito com o comportamento de sua filha. Ele esperava submissão total perante seus desígnios, algo que a jovem não estava disposta a passar por cima de sua consciência para ceder.

Henrique VIII, em 1535, por Joos Van Cleve.

Henrique VIII, em 1535, por Joos Van Cleve.

Em meados de 1535, a cólera do rei estava se fechando em torno de seus opositores. Para acentuar ainda mais o seu estado de espírito, o Papa Paulo III resolvera elevar o Bispo Fisher à categoria de cardeal, e, dessa forma, averiguar se Henrique VIII teria coragem de assassinar um príncipe da igreja. Em tom sarcástico, o soberano havia respondido que quando o chapéu cardinalício chegasse “Fisher o usaria em cima dos ombros” (o bispo fora executado em Tower Hill a 22 de junho). Contudo, havia ainda More e seus escrúpulos, que muito além de representar um afronta à autoridade real, denotava um embate entre duas ideologias de vida: a antiga (católica) e a nova (protestante). Destarte, o humanista havia sido acusado de se corresponder com a monja de Kent, que há pouco tempo atrás tinha sido executada por alta traição ao profetizar contra a sorte do rei. Diante do veredito de culpabilidade, Thomas More teria dito à corte jurídica que “embora vossas senhorias tenham sido os juízes que me condenaram na terra, nós poderemos encontrar-nos depois jubilosamente no céu para a nossa salvação eterna. (apud HACKETT, 1950, pag. 263). Há seis de julho de 1535, sua cabeça rolou perante os olhos de uma multidão pasmada, depois de ter pronunciado as breves palavras de que morria “como um leal súdito do rei, mas que Deus vinha em primeiro lugar”.

A execução de More chocou todo o continente europeu e contribuiu para diminuir a popularidade do rei. Ana fazia o que podia para lhe aquietar a mente, apresentando-o a novos livros de reformistas e se empenhando na educação da pequena Elizabeth. Porém, seu estado de espírito também não era dos mais pacíficos: o rei havia se cansado de Madge Shelton e voltara seus olhos para outra dama do círculo da rainha, uma mulher sem muitos atrativos físicos e de comportamento modesto, Jane Seymour. A prova disso consiste no fato de que no itinerário daquele ano tinha sido acrescentado um lugar no Wiltshire conhecido como Wolfhall, onde residia a família Seymour. Foi lá que mademoiselle boullan pode avaliar de perto sua rival. Entretanto, Eric Ives diz-nos o seguinte:

“Não há, portanto, nenhuma razão para suspeitar de alguma fenda no casamento real, logo após o casal ter deixado os Seymours. Na verdade à medida que 1535 avançava e chegava ao fim, Ana começou a ter esperanças de que seu maior desafio estava prestes a ser cumprido – quando viesse a primavera, haveria um príncipe” (IVES, 2010, pag. 293).¹

Os anseios da rainha poderiam ser comprovados pela carta que enviara à sua amiga Margarida de Angoulême (irmã de Francisco I), de que seus dois maiores desejos eram revê-la e dar um herdeiro varão para a coroa.

O Falcão coroado, símbolo de Ana Bolena.

O Falcão coroado, símbolo de Ana Bolena.

Todavia, o caráter da lady ainda se mostrava implacável. Estava demonstrando abertamente seus ciúmes para com a figura do marido. Em uma ocasião, por exemplo, ofendera sem querer o embaixador francês com suas histéricas gargalhadas. No entendo, o motivo das mesmas não eram devido à presença do emissário, e sim ao fato de que o rei “tinha saído com a desculpa de conversar com um amigo, mas no caminho se tinha detido ao encontrar uma de suas amantes”. Henrique estava ficando cada vez mais aborrecido com essas cenas protagonizadas pela rainha, não obstante todos os esforços que ela fazia para agradá-lo. Enquanto isso chegou aos ouvidos do embaixador imperial Chapuys notícias de que Catarina de Aragão jazia moribunda em seu leito no castelo de Kimbolton, acometida de uma forte febre e de quem acreditavam que não restara muito mais tempo de vida. Quando chegara o natal, diziam que estava sucumbindo. Todavia, as festas de ano novo estavam a todo vapor na corte, principalmente após a notícia de que Ana Bolena estava mais uma vez grávida.

Notas:

¹Traduzido da edição da obra em inglês pelo administrador.

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