A romântica vida da “Jovem Rainha Vitória” (2009)

A era vitoriana sempre esteve presente no imaginário popular como um dos momentos de maior efervescência política e cultural, marcada tanto pela revolução industrial, como pelo imperialismo. Nesse contexto, a imagética da rainha Inglesa foi de fundamental importância, pois mesmo que sem poderes governamentais, ela agia como uma figura de proa para uma civilização expansionista. Vitória do Reino Unido passaria aos olhares da posteridade como uma soberana em eterno pranto pelo marido morto, sempre vestindo cores escuras, e fechada para as demais frivolidades de outrora. Contudo, consiste num exercício muito interessante pensar como era a vida da herdeira antes de vir a torar-se o símbolo de uma nação, quando ela passava seus dias presa a um sistema de regras projetado para a sua segurança, e esperando um dia tomar as rédeas do próprio destino. Tal situação foi muito bem demonstrada por um dos filmes de maior apelo aos primeiros anos da monarca: “The Young Victoria” (A jovem rainha Vitória), de 2009.

Mark Strong como Sir John Conroy, e Miranda Richardson como a duquesa de Kent.

Mark Strong como Sir John Conroy, e Miranda Richardson como a duquesa de Kent.

Quantas garotas não sonhariam em serem princesas, residirem em luxuosos palácios, e comparecerem a grandes bailes? Mas quantas delas gostariam de abrir mão de sua privacidade em prol dos interesses do Estado? Esses questionamentos nos trazem à tona um leque de discussões acerca das desigualdades sociais que permearam a Grã Bretanha no século XIX, assim como também as funções que cabiam às jovens filhas de pais, ricos ou pobres, daquele tempo. Esse clima de insatisfação e desejo pelo desconhecido foi o ponto de partida para que Jean-Marc Vallée dirigisse o maior clássico dos tempos modernos sobre a juventude da Rainha Vitória. Como personagem principal, a atriz escolhida para interpretá-lo foi ninguém menos que Emily Blunt (mais conhecida pelo seu papel em “O diabo veste Prada” – 2006). Blunt atendeu muito bem às características físicas de Vitória em sua adolescência, e transcendeu perfeitamente para as telas a inexperiência e a teimosia da soberana em seus primeiros anos de reinado.

Quando se torna a próxima na linha sucessória ao trono, a princesa perde o domínio de suas vontades para a duquesa de Kent, sua mãe (vivida por Miranda Richardson, muito cotada para filmes de terror e suspense) e o conselheiro desta, Sir John Conroy (Mark Strong). Todavia, o ano de 1837, quando a trama se inicia de fato, traria muitas reviravoltas na vida destes personagens. Acontece que o rei, Guilherme IV (Jim Broadbent) tinha pouco tempo de vida, e seu único medo era morrer deixando a sobrinha de 17 anos com idade insuficiente para reinar. Um dos aspectos mais interessantes até então no enredo, é a formação de uma verdadeira rede de interesseiros que queria controlar a herdeira do trono, incluindo o rei Leopoldo I da Bélgica (Thomas Kretschmann) e o primeiro ministro inglês, Lorde Melbourne (Paul Bettany – conhecido por seus papeis em filmes de ficção, como “O código da Vinci”).

Paul Bettany como o Primeiro Ministro Lord Melbourne.

Paul Bettany como o Primeiro Ministro Lord Melbourne.

Quase todos os cenários do longa-metragem oferecem como pano de fundo, palácios e jardins.  Aliado a essa excelente fotografia, estão o figurino (que venceu o Oscar 2010) e a maquiagem. Em diversos momentos, o telespectador terá a impressão de ver todos àqueles nobres retratados em quadros do século XIX, se movendo e dotados de falas dinâmicas. A cena do aniversário do rei, por exemplo, é uma dos pontos mais altos da produção, com toda taça, mesa, ou cadeira, simetricamente posicionada. Não obstante, a relação que os cortesãos mantinham entre si é um dos destaques desse momento, pois ali vemos amigos confabulando com inimigos, e vice versa. Nesse processo, só a princesa Vitória parecia estar alheia aos interesseiros dos que se sentavam ao seu lado. O único conforto dela era a sua ama, baronesa Louise Lehzen (Jeanette Hain), que a tratava com todo um cuidado maternal que a duquesa não proporcionava à filha. Porém, Vitória tinha encontrado uma pessoa por quem seu coração batera mais forte: o primo, príncipe Albert.

Alberto de Saxe-Coburgo-Gota foi o grande amor da rainha Vitória, com quem ela se casaria, teria filhos, e prantearia por anos a morte. Na pele deste está Rupert Fried (“Orgulho e Preconceito”), com aparência mais madura para se adequar ao personagem. Enquanto distantes um do outros, os primos trocavam extensa correspondência e parece que o diretor quis dar muito enfoque a isso, à escrita apaixonada e repleta de afeto. Porém, o amor dos dois dividiria espaços na tela com grandes entraves políticos entre os membros adversários do parlamento, cada um com seus próprios motivos para influenciar a rainha.  A cena da coroação de Vitória foi magnífica, com cada detalhe perfeitamente trabalhado, de forma a aludir aos retratos originais da ocasião. No faustoso baile que houve em seguida, percebe-se uma mudança notável nos penteados ostentados pelas damas, que deixaram um pouco de lado os volumosos cachos, e passam a adotar cada vez mais flores e plumas em seus figurinos.

Figurino impecável para a reconstituição cinematográfica da coroação da rainha Vitória.

Figurino impecável para a reconstituição cinematográfica da coroação da rainha Vitória.

A elevação da princesa ao posto de soberana mudara completamente a forma como as coisas andavam anteriormente, pois ela não mais se submeteria aos caprichos da mãe e de Conroy. Vitória passa então a achar que é dona do próprio destino e a se confrontar com decisões que nunca tomara antes, que, por sua vez, se mostrariam desastrosas para sua imagem. Em verdade, o filme ressalta como ela fora criada para ser dependente dos outros em todos os aspectos, e quando se viu na posição de dar ordens, não soube conduzir suas atitudes com sabedoria. Era precisava então alguém que a ajudasse nessa tarefa, e um marido seria perfeito para isso. Mas que pretendente escolher? Uma das decisões mais sábias do personagem, tanto no filme como na vida real, fora desposar o príncipe Albert. Nesse aspecto, o enredo esclarece bem que a proposta de matrimônio deveria vir da rainha e não do príncipe, uma vez que ela também estava fazendo uma escolha por seu reino.

Cena do casamento da Rainha Vitória com o Príncipe Albert.

Cena do casamento da Rainha Vitória com o Príncipe Albert.

A partir desse ponto, o longa-metragem (produzido por Martin Scorsese) passa a enveredar por um lado romântico da vida da rainha, explorando as peculiaridades da relação do casal. Em nível de curiosidade, muitos aspectos da intimidade do dois são baseados nos diários de Vitória, incluindo os momentos de felicidade e as brigas em que se envolviam. Todavia, o príncipe teria que dividir as atenções da mulher com Lorde Melbourne, a quem não suportava. Tampouco a rainha queria dar ouvidos aos conselhos políticos do marido, talvez por desconfiança de que ele estivesse agindo em prol dos interesses do rei Leopoldo e da Bélgica (o filme ainda enfoca como Albert fora preparado para conquistar a prima para assim agir como um intermediário entre a Inglaterra e seu país. No entanto, seu amor pela esposa acabou por desencorajá-lo a seguir em frente). Outro dilema enfrentado pelo príncipe em sua nova morada era a figura da baronesa, que fazia questão de lembra-lo constantemente de que ele era um estrangeiro tentando modificar padrões de vida hierarquizados naquela sociedade.

Só após ouvir os conselhos da rainha viúva (Harriet Walter), é que Vitória decide dar maior liberdade ao marido para mudar o que achasse necessário na administração do palácio de Buckingham (cujos aposentos foram utilizados para as gravações) e no funcionamento da criadagem. Contudo, a soberana logo se desgostaria com as intervenções do cônjuge em assuntos estatais, sabendo o quanto ele odiava o primeiro Lorde Melbourne. O que o enredo deixa transparecer para o telespectador nessa fase final da trama é que a rainha, embora casada e grávida, ainda mantinha-se presa a muitos aspectos de sua infância e dependente de pessoas que queriam manipulá-la emocionalmente. Desde então, seu consorte empreendera uma verdadeira missão ao tentar mostrar para ela o quanto que pessoas muito próximas suas, queriam na verdade manter certo gozo de privilégios que, por sua vez, acabava por distanciar o relacionamento dos dois.

The Young Victoria (2009)É um filme que a todo o momento encanta o telespectador, pois não se preocupa tanto em estabelecer uma narrativa pesada, mas algo agradável aos olhos de quem vê. Quando assistido pela segunda e/ou terceira vez, então se percebe o esforço constante da produção em desfazer, por meio da imagética, o apelo fúnebre que a figura de Vitória passou a exibir após a morte do marido. Como isso, objetiva resgatar do esquecimento a vida e os dissabores de uma rainha que, a priori, era inexperiente, teimosa, mas também cheia de charme e romantismo. Sob esse aspecto, o diretor Jean-Marc Vallée pode não ter alcançado a plenitude de seus interesses, mas com certeza deu um passo decisivo para que outros prossigam de onde ele parou: expor a vida íntima de uma dos maiores ícones do século XIX.

Confira o Trailer do filme:

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduando em História – UESC

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8 comentários sobre “A romântica vida da “Jovem Rainha Vitória” (2009)

  1. Uma brilhante reconstituição de época. Uma aula de história das mais eficazes. Tudo está em seu devido lugar em atuações excelentes! Nota 10. José.

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  2. Acho esse filme muito lindo, a reconstrução histórica, tanto da Rainha Vitória e do príncipe Albert, e conseguiu passar a ideia da importância dos conselheiros e da sorte dela de ter conseguido encontrar um marido integro e que a auxiliava em reinar na Inglaterra e que a amava e a respeitava de verdade.
    Lindo texto. ❤

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  3. Esse blog foi mesmo um achado!!! Ganhei o fim de semana! Tem todos as rainhas que gosto e ainda cita os melhores filmes sobre suas vidas. Assisti todos. Parabéns! Belo trabalho! Serei leitoras assídua.

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  4. Olá Renato, primeiramente parabéns pelo Blog nota 10! Não sei se você já viu ou talvez vá assisitir a nova série sobre a Rainha Victoria que foi lançada este ano e é claro a aguardada ´´The crown´´ da netflix, sobre Elizabeth II. O que você acha dessas produções?

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  5. Acredito que nem mesmo os monarcas, quando estes relapsos, deveriam ter filhos. Alexandrina Victoria e Albert eram pessoas que tiveram uma infância extremamente problemática e não tratada. Há rumores de que Victoria fosse filha ilegítima de Conroy, devido a ocorrência da hemofilia e a ausência de porfiria; claro que a monarca devia saber disso e isso se deve ao fato de ter se apegado a sua educadora e babá e rejeitado sua mãe veementemente até esta morrer. Do outro lado, seu “amado” Albert fora abandonado pela mãe que escolheu deixar a família para viver um romance e fora banida e proibida de ver seus filhos até sua morte, o que evidentemente deixou sequelas em Albert, que era criança. Tanto Victoria, quanto Albert, eram problemáticos e acredito que histórias de amor verdadeiro (se é que existem, de fato) são construídas em maturidade e amor próprio, o que o casal aparentemente frustrado com a infância difícil que tiveram não demonstravam ser pessoas maduras. Ainda que fossem considerados como cultos e criaram a “era vitoriana”, viveram suas fantasias exclusos de seus próprios filhos. Victória chegou a compara-los com sapo e sentia repugnância ao amamenta-los. Sem contar que, claro, eles foram designados a babás, mas quando cresceram Albert e Victória se tornaram pais opressores. Eduardo teve um regime de educação forçado quando criança e adulto chegou a ser acusado pela própria mãe de ter matado o pai de desgosto, quando este soube de comportamentos do filho porque tivera um caso com uma atriz e foi persegui-lo e acabou morrendo um mês depois de febre tifoide. Victoria não era de fato uma boa mãe, muito pelo contrário. Os documentos e registros de seu reinado deixaram registros. Sua família (prole) parece ter sofrido devido a este casamento basado em carências e frustrações mal resolvido. Não acho que seja uma história de amor e a vejo como uma rainha egoísta que colocava seus interesses em primeiro lugar e que foi tirana com seus filhos. Claro que os filmes a enaltecem e não mostram isso, mas fantasiam para criar histórias de amor.

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