Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor – Parte V

PARTE V – “Deus Salve Ana, rainha da Inglaterra

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

O segundo encontro entre Henrique VIII e Francisco I foi concebido de forma a beneficiar ambos os reinos. Não só o rei inglês partilharia das pretensões de Francisco contra o imperador Carlos V, como receberia o apoio francês na anulação de seu casamento com Catarina de Aragão. Foi então organizada uma grande cerimônia em Calais, na qual um grupo de damas mascaradas dançou perante os monarcas. Entre elas, mademoiselle Boullan, reconhecida por Francisco e escolhida pelo mesmo para ser seu par. Era a primeira vez, desde que deixou a corte onde serviu à rainha Cláudia de Valois, que Ana Bolena via o soberano de França, um homem conhecido por sua luxúria e vaidade. Porém, aquela conjunção entre os dois reinos se mostrou infrutífera para Henrique, pois Clemente VII mostrava-se relutante em sua decisão de liberar a sentença de anulação do casamento, fazendo assim com que o soberano agisse clandestinamente. Com um título de marquês nas mãos, Ana Bolena tinha quase certeza de que seu destino estava traçado. Era apenas questão de tempo até tornar-se rainha da Inglaterra.

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Papa Clemente VII, por Sebastiano del Piombo.

Ao longo de 7 anos de espera, é provável que Ana Bolena tenha se permitido algumas brincadeiras eróticas com Henrique VIII, a fim de manter a atenção e o desejo dele voltados para si. Um método muito utilizado pelas mulheres para não engravidarem era o chamado coitus interruptus, ou seja, quando, no ato sexual, o homem estivesse prestes a ejacular, ele retirava seu membro da genitália feminina, impedido assim que sua parceira engravidasse. Dessa forma, não é impossível que o rei e sua Lady tenham feito amor, porém tomando cuidado para que ela não carregasse em seu ventre mais um bastardo real (algo que Henrique não queria). Segundo Antonia Fraser, “por volta do fim da primeira semana de dezembro de 1532, a lady marquês de Pembroke ficou grávida (isto para presumir uma gestação de nove meses para a criança que nasceu no dia 7 de setembro do ano seguinte). Em princípios de janeiro, ela deve ter desconfiado – ter tido a esperança – disso (2010, p. 252). De volta à corte inglesa, Ana Bolena estava em estado de graça. Declarou para Thomas Wyatt em alto e bom som para que todos escutassem que desejava comer uma maçã, pois “há três dias que tenho uma vontade louca de comer maçãs”. Wyatt olhou-a com espanto, mas Ana desatou a rir e continuou falando:

“Sabeis o que isso significa, na opinião do Rei?”

O olhar atônito de Wyatt fê-la rir tão alto que muitos se voltaram para eles, o que lhe aumentou a alegria. “O Rei diz que é sinal de que estou grávida!” E aqui a sua hilaridade foi tão ruidosa que todos, inclusive Wyatt, a contemplaram penosamente surpresos.

“Mas não é verdade, não é verdade!” E rindo loucamente Ana voltou-se e fugiu, deixando todos pasmados e constrangidos (apud HACKETT, 1950, p. 244).

Henrique, que não queria ter seu herdeiro nascido antes do casamento, apressou-se em organizar o matrimônio com a filha de Sir Thomas. De acordo com a crença popular, eles se casaram secretamente no dia 25 de Janeiro de 1533, no de Palácio de Whitehall. Segundo Carolly Erikson (1986, p. 193), nenhum dos convidados para a cerimônia sabia que aquilo se tratava de um casamento secreto. De acordo com os despachos de Chapuys para a Espanha, estavam presentes na ocasião os pais da noiva, seu irmão e duas damas de companhia.

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Henrique VIII e Ana Bolena possivelmente se casaram em 25 de janeiro de 1533.

Ana estava cada vez mais orgulhosa de sua barriga protuberante. Havia engravidado do rei de forma rápida, exaltando assim sua fertilidade em detrimento da de Catarina. Em 23 de maio daquele ano, o novo arcebispo de Canterbury, Thomas Cranmer (nomeado ao cargo pelo papa Clemente VII, que pensou com isso estar apaziguando o temperamento de Henrique) proclamou nula a união do rei com a filha de Isabel e Fernando, com base no fato de que Catarina havia consumado seu primeiro casamento com Arthur e que, portanto, ela não era rainha da Inglaterra, mas sim “princesa viúva de Gales”. 5 dias depois, o arcebispo declarou a união de Henrique VIII com Ana Bolena válida.Assim que soube do ocorrido, o Papa se apressou em decretar nula a conclusão de Cranmer, alegando que o caso ainda estava sendo avaliado em Roma. Mas Henrique não mais se importava com as decisões de Clemente. Durante todo o seu reinado procurou agir em nome da fé católica, e agora a mesma lhe voltava às costas em um assunto tão importante como esse.

O estado de espírito do rei era tão entusiasta, que logo começou a preparar a coroação de Ana Bolena. Cada detalhe foi meticulosamente planejado, desde os aposentos da nova rainha na Torre de Londres, até o percurso que faria na cidade rumo à abadia de Westminster. Para reafirmar a nobreza de sangue de Ana, foi apresentada uma árvore genealógica dela, em que se poderiam encontrar duques, condes, e até mesmo um rei. Dessa forma, pretendia-se “limpar” a linhagem da dama, incluindo membros da alta nobreza, tornando-a, assim, numa boa candidata ao posto de consorte real. Ainda existem alguns detalhes de sua coroação: sabe-se que na ocasião ela estava de cabelos soltos, com um vestido de cor púrpura, e a cerimônia seguiu todo o protocolo imposto às rainhas de Inglaterra. Poetas, músicos e demais artistas se puseram a trabalhar para que tudo corresse bem; carpinteiros e vidraceiros trataram logo de eliminar os vestígios de Catarina de Aragão dos palácios e demais residências reais, substituindo seu símbolo, a romã de Granada, pelo falcão coroado de Ana Bolena. Conta-se uma história de que Ana Bolena fez questão de usar a barcaça de Catarina para subir o riu Tâmisa rumo à Torre de Londres, onde todos os reis e rainhas permaneciam um dia antes da coroação. Henrique, por sua vez, teria ficado nada contente ao saber que sua nova esposa eliminou todos os vestígios de Catarina gravados na barcaça.

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Procissão de coroação de Ana Bolena

Esse relato, contudo, foi oferecido pelo duque de Norfolk ao embaixador Chapuys. Como o nobre vivia aflito com a possibilidade de uma ameaça imperial, então é provável que sua versão dos fatos não seja imparcial. A população londrina se mostrou hostil à sua nova soberana, não lhe fazendo as devidas homenagens enquanto ela desfilava pela cidade. Estava claro que ainda amavam a rainha Catarina e não aceitariam “a rameira do rei” no lugar antes ocupado por uma princesa espanhola. Mas, dado ao seu estado de gravidez, as pessoas passaram a interessar-se por sua figura. Era consenso geral de que Ana Bolena carregava em seu ventre um sucessor varão para apaziguar o país. Até mesmo os principais astrólogos afirmaram que um menino estava a caminho. De acordo com David Loades,

A rainha que era também mãe de um herdeiro varão era duplamente afortunada. Não tinha só cumprido o seu dever mais elevado – tinha também aumentado a autoridade do marido a um nível incalculável e demonstrado que Deus via favoravelmente o seu governo. O papel de uma rainha consorte dependia então até certo ponto de sua condição de mulher, mas também variava com as circunstâncias e com a sua própria personalidade (LOADES, 2010, p. 14).

Se fosse bem sucedida na tarefa de uma consorte real, então estaria provado que Deus via com bons olhos o novo casamento do rei, mas se o contrário acontecesse então todo o esforço que fora feito até então se mostraria infrutífero. Na época, porém, todos estavam na expectativa de que os desejos do rei se cumpririam e que uma grande surpresa os esperava.

Referências Bibliográficas:

DWYER, Frank. Os Grandes Líderes: Henrique VIII. Tradução de Edi G. de Oliveira. – São Paulo: Nova Cultural, 1988.

ERIKSON, Carolly. Ana Bolena: Un Amor Decapitado. Tradução de León Mirlas – Buenos Aires: Atlántida, 1986.

FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. 2ª edição. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

HACKETT, Francis. Henrique VIII. Tradução de Carlos Domingues. – São Paulo: Pongetti, [1950].

LOADES, David.  As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV-XVII). Tradução de Paulo Mendes. – Portugal: Caleidoscópio, 2010.

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