Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor – Parte IV.I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Parte IV.I – A queda do Cardeal.

Ana Bolena, segundo esboço de Hans Holbein.

Enquanto a boa rainha Catarina tentava com unhas e dentes manter a sua posição, e a herança da filha, pelo menos podia ter um regozijo ao ver seu outrora arque inimigo caindo em desgraça. Wolsey estava ficando cada vez mais sem recursos e a quem apelar, pois o rei (acredita-se que também influenciado por Ana Bolena) o estava responsabilizando pelo insucesso do tribunal legatício, dissolvido por ordem de Clemente VII em julho de 1529. O grande caso do rei havia sido transferido a Roma, e só após as conclusões, ele seria declarado livre ou não para se casar. Em outubro daquele ano, após ter sido negligenciado pelo soberano em inúmeras ocasiões, o cardeal finalmente perdeu o seu poder. Quando o novo embaixador Imperial veio para a Inglaterra, a rainha teria lhe dito que não apresentasse suas credenciais a Wolsey (como era de costume), porque a situação dele estava muito difícil. Todavia, o ex-chanceler do reino possuía inimigos muito mais poderosos do que Catarina de Aragão ou mademoiselle boullan, que lucrariam muito com a ruína deste, como os duques de Norfolk e Suffolk.

A situação do Cardeal Wolsey já ficara bastante complicada quando em cinco de julho, fora selado o tratado de Cambrai (ou “Paz das Danas”, em virtude de ter sido intermediado por Louise de Sabóia, mãe de Francisco I, e Margaret da Áustria, tia de Carlos V), entre os Franceses e os Habsburgos. A Inglaterra, por sua vez, ficara politicamente isolada. Desesperado, o prelado se refugiara em seu palácio de York Place, mas em breve o rei lhe desferiria o golpe final. De acordo com Antonia Fraser:

“A ascensão do cardeal fora demorada e dura, com diligência, paciência e serviço árduo acompanhando cada passo. Sua queda foi rápida. Uma série de golpes brutais tirou-lhe os poderes, a começar com o procurador-geral em 9 de outubro, que o acusou de praemunire, ou seja, exercer os poderes de legado papal em território do rei, depreciando, assim, a autoridade do rei…” (FRASER, 2010, pag. 223).

A morte do Cardeal Wolsey.

Não obstante, o grande selo de chanceler lhe fora tirado pelos duques; seus belos palácios e bens luxuosos lhe foram confiscados pela coroa, como o próprio York Place (rebatizado de Withehall) e Hampton Court. O cardeal passara então a vaguear pela suas residências menores em Esher, onde adoeceria gravemente.

Em carta ao seu ex-secretário, Cromwell, que agora estava a serviço de Henrique, Wolsey rogava para que o desagrado de Ana Bolena não fosse tão grande como imaginava. A partir disso, percebe-se como aquela dama estava à frente dos assuntos do rei, tanto que enviara ninguém menos que Henry Percy, seu romance passado, para notificar ao prelado de que ele seria preso e julgado por alta traição. Porém, em 29 de novembro de 1530, quando seguia para Londres, sua vida terminara.  Como comemoração, Sir Thomas Bolena oferecera um grandioso banquete, com um espetáculo no qual o cardeal descia ao inferno. Sua queda deixara grandes lacunas na vida política da corte, que logo foram sendo preenchidas, como, por exemplo, o cargo de chanceler, que passara para as mãos de Sir Thomas More, advogado e erudito inglês mais conhecido por seu trabalho “A Utopia”, em que descrevia uma sociedade justa e igualitária, algo não muito adequado ao contexto da Inglaterra naqueles tumultuosos anos.

Sir Thomas More, que substituiu Wolsey no cargo de Chanceler (por Hans Holbein).

Incapaz de obter uma decisão firme do papa, Henrique VIII decidiu agir dentro de suas possibilidades. Na medida em que substituía seus ministros, entrara em contato (por intermédio de Ana Bolena) com “A obediência do Homem Cristão”, de William Tyndale, que afirmava a primazia do rei em seus domínios, e não do papa. Sendo assim, qualquer um que negasse sua soberania, tanto em assuntos de Estado, quando em religiosos, seria acusado de praemunire. Essa medida fora apresentada ao soberano por Thomas Cromwell, seu novo secretário, e logo recebeu a aprovação dos clérigos e do parlamento, temerosos de que pudessem desfrutar do mesmo fim que o Cardeal Wolsey. Enquanto isso, Henrique rejeitava cada vez mais a esposa. Consta ainda de que teria brigado com Ana, enciumada, a respeito do fato de a rainha ainda continuar a fazer camisas pra ele. Era evidente, então, de que ela queria mais provas da devoção do rei. Na manhã de 11 de julho de 1531, o rei e sua Lady saíram de Windsor para cassar, deixando um ordem expressa de que Catarina deveria abandonar o palácio, com séquito reduzido, e que não mais teria permissão de escrever para o rei, ou ver sua filha, a não ser que concordasse com a anulação do casamento, o que ela não estava disposta a aceitar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s