Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor – Parte IV.II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Parte IV.II – “De Dover à Calais”.

Ana Bolena, por artista desconhecido.

Com a partida de Catarina de Aragão da corte, Ana Bolena definitivamente tornara-se rainha em tudo, menos no nome. O desejo que Henrique mantinha pela favorita era tamanho, que aceitava inclusive os repentinos ataques de humor dela. Segundo relatos de contemporâneos, a referida dama não possuía o comportamento que se esperava de uma fidalga: tinha a língua ferina, gostava de desafiar os outros intelectualmente, e era dada a explosões de raiva quando alguma coisa lhe contrariava. Acredito que boa parte desses modos tão singulares foi despertada a partir do momento em que ela fora privada de suas pretensões de casamento com Henry Percy. Todavia, o fantasma do antigo romance logo voltaria a lhe assombrar. Mary Talbolt, mulher do então conde de Northumberland, se queixara acerca da validade de seu matrimônio, partindo do princípio de que seu marido tinha um pré-contrato com a favorita do rei.

A questão do casamento pré-contratado era bastante delicada: um casal, que jurasse em nome de Deus a se unir no sagrado estado do matrimônio, perante testemunhas, estava comprometido, e só a intervenção de uma autoridade eclesiástica poderia desfazer o acordo, mediante concessão das duas partes. Porém, se os noivos copulassem antes da cerimônia, então estavam casados aos olhos de Deus, e ninguém, a não ser o bispo de Roma (o papa), poderia desfazer essa conjunção. Sendo assim, se Ana Bolena e Henry Percy estiveram prometidos um ao outro, e em seguida feito amor, nesse caso estariam casados, e a dama não mais estaria livre para o rei. Quando esse escândalo vazou, logo os agentes de Henrique VIII recorreram ao conde de Northumberland para interroga-lo. Todavia, ele negou que tivesse mantido qualquer envolvimento marital com a filha de Sir Thomas, para grande alívio do rei, que em 1532 já estava a aproximadamente seis anos esperando por aquela mulher. Não obstante, a figura de Thomas Wyatt logo voltaria a estar envolvida em escândalos juntamente com a de Ana, o que mais uma vez a deixava numa situação difícil.

Martinho Lutero.

Muitos dos responsáveis pelos boatos envolvendo mademoiselle boullan foram os espanhóis, fiéis partidários da rainha, entre eles Eustace Chapuys. Homem poucos anos mais novo que a filha de Isabel e Fernando, Chapuys era um católico convicto e grande detrator de Ana. Em suas crônicas a Carlos V, podemos ver com frequência ele se referindo a ela com termos e adjetivos nada amigáveis. Isso, por sua vez, valeu àquela dama uma má reputação em todo o continente Europeu, enquanto Catarina de Aragão era vista como a injustiçada. Segundo Frank Dwyer:

“… A influência de Ana sobre o rei era cada vez maior, o povo a odiava e estava começando a odiar Henrique também. Nos bastidores, Cromwell organizava seus espiões e sua polícia secreta, engabelando, pressionando, subornando, conspirando e colocando seus homens em postos importantes para persuadir o parlamento a apoiar o divórcio do rei…” (DWYER, 1988, pag. 58-59).

Não obstante, o rei recorreu a todas as universidades do continente e demais igrejas protestantes para validarem sua causa. Martinho Lutero, que anos antes fora criticado pelo próprio Henrique por meio de um livro que este escreveu (“Em defesa dos sete sacramentos”), se recusou a apoiar o divórcio. Porém, em 1532, o soberano estava disposto a se encontrar com Francisco I de França para negociar uma nova paz e lhe pedir que intercedesse em seu favor junto ao papa.

Thomas Cromwell, por Hans Holbein.

O encontro entre os dois grandes reis seria organizado na cidade de Calais (uma possessão inglesa na França). Para a ocasião, Ana não iria somente como dama da corte: Henrique a investira com o título de Marquês de Pembroke, e ao pai dela com o de conde de Wiltshire. Não obstante, Henrique solicitara de Catarina as joias de Rainha da Inglaterra para adornar a nova favorita. Depois de muito protelar, a ci devant rainha aceitou entregá-las, mas mesmo assim as nobres francesas, como a irmã de Francisco, Margaret d’Angoulême (outrora amiga de Ana) e a rainha Eleonor (sobrinha de Catarina de Aragão), se recusaram a comparecer ao evento. Henrique teria respondido que pouco o importava, pois já estava farto de mulheres espanholas (uma referência à sua esposa e à de Francisco). Para desfazer os boatos de que sua amada e Thomas Wyatt tinham sido amantes, o rei resolve convida-lo para a viagem. Em sua poesia podemos encontrar ainda referências ao seu amor não correspondido pela favorita do monarca:

“E agora sigo em brasas que precisam ser extintas. De Dover para Calais, contra a minha vontade…” (apud FRASER, 2010, pag. 174).

Aquela viagem à França seria de fundamental importância para o rei e sua Lady, pois ali, acredita-se, poriam término a seis longos anos de espera. Depois de Calais, tudo estaria mudado.

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