Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor – Parte IV.II

Parte IV.II – “De Dover à Calais”.

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Com a partida de Catarina de Aragão da corte, Ana Bolena definitivamente tornou-se rainha em tudo, menos no nome. Segundo relatos de contemporâneos, a referida dama não possuía o comportamento que se esperava de uma fidalga: tinha a língua ferina, gostava de desafiar os outros intelectualmente, e era dada a explosões de raiva quando alguma coisa lhe contrariava[1]. Antonia Fraser[2] salienta que esse gênio explosivo pode ser um traço que Ana Bolena herdara de seu pai. Por exemplo: de acordo com os  relatos do embaixador imperial Chapuys em outubro de 1530, Sir Thomas havia caluniado o Papa e os cardeais de tal forma, que o enviado de Carlos V se sentiu forçado a se retirar da sala. Esse gênio, apesar de tudo, era mais aceitável em um homem que em uma mulher, e em breve Ana teria motivo para ficar mais preocupada e irritada: Mary Talbolt, mulher do então conde de Northumberland, se queixou acerca da validade de seu matrimônio, partindo do princípio de que seu marido tinha um pré-contrato com a favorita do rei[3].

Anne Boleyn

Ana Bolena, por artista desconhecido

A questão do casamento pré-contratado era bastante delicada: um casal, que jurasse em nome de Deus se unir no sagrado estado do matrimônio, perante testemunhas, estava comprometido, e só a intervenção de uma autoridade eclesiástica poderia desfazer o acordo, mediante concessão das duas partes. Porém, se os noivos copulassem antes da cerimônia, então estavam casados aos olhos de Deus, e ninguém, a não ser o Papa, poderia desfazer essa conjunção. Sendo assim, se Ana Bolena e Henry Percy estiveram prometidos um ao outro, e em seguida feito amor, nesse caso estariam casados e a dama não mais estaria livre para o rei[4]. Quando esse escândalo vazou, logo os agentes de Henrique VIII recorreram ao conde de Northumberland para interroga-lo. Ele, por sua vez, negou que tivesse mantido qualquer envolvimento contratual ou carnal com a filha de Sir Thomas, para grande alívio do rei, que em 1532 já estava a aproximadamente 6 anos esperando para se casar com aquela mulher.

Thomas Cromwell

Thomas Cromwell, secretário de Henrique VIII (por Hans Holbein).

Muitos dos responsáveis pelos boatos envolvendo mademoiselle Boullan foram os espanhóis, fiéis partidários da rainha, entre eles Eustace Chapuys. Homem poucos anos mais novo que Catarina de Aragão, Chapuys era um católico convicto e grande detrator de Ana. Em suas crônicas a Carlos V, podemos ver com frequência ele se referindo a ela com termos e adjetivos nada amigáveis[5]. Isso valeu àquela dama uma má reputação em todo o continente europeu, enquanto Catarina era vista como a injustiçada. Segundo Frank Dwyer:

A influência de Ana sobre o rei era cada vez maior, o povo a odiava e estava começando a odiar Henrique também. Nos bastidores, Cromwell organizava seus espiões e sua polícia secreta, engabelando, pressionando, subornando, conspirando e colocando seus homens em postos importantes para persuadir o parlamento a apoiar o divórcio do rei…[6].

Não obstante, o rei, por sugestão de Thomas Cranmer, um clérigo relativamente desconhecido, encomendou o caso da anulação de seu casamento a todas as universidades do continente e demais igrejas protestantes, na esperança de que apoiassem a sua causa[7]. O resultado, contudo, foi bastante ambíguo: a maioria dos teólogos julgou de acordo com a vontade de seus chefes políticos, mesmo tendo sido subornados pela Inglaterra[8].

Em 1532, o soberano estava disposto a se encontrar com Francisco I para negociar uma nova paz e lhe pedir que intercedesse em seu favor junto ao Papa. O encontro entre os dois reis seria organizado na cidade de Calais (uma possessão inglesa na França). Para a ocasião, Ana não iria somente como dama da corte: Henrique a investiu com o título de marquês de Pembroke e ao pai dela com o de conde de Wiltshire. Não obstante, o rei solicitou de Catarina as joias de rainha da Inglaterra para adornar a nova favorita[9]. Depois de muito protelar, a outrora rainha aceitou entregá-las, mas mesmo assim as nobres francesas, como a irmã de Francisco, Margarida d’Angoulême e a rainha Eleonor (sobrinha de Catarina de Aragão), se recusaram a comparecer ao evento[10]. Henrique teria respondido que pouco o importava, pois já estava farto de mulheres espanholas (uma referência à sua esposa e à de Francisco).

Martim Lutero

Martinho Lutero

Não obstante, a figura de Thomas Wyatt logo voltou a estar envolvida em escândalos juntamente com a de Ana, o que mais uma vez a deixava numa situação difícil. Para desfazer os boatos de que sua amada e Thomas Wyatt tinham sido amantes, o rei resolveu convida-lo para a viagem. Em sua poesia podemos encontrar ainda referências ao seu amor não correspondido pela favorita do monarca: “E agora sigo em brasas que precisam ser extintas. De Dover para Calais, contra a minha vontade…” [11]. Aquela viagem à França seria de fundamental importância para o rei e sua Lady, pois ali, acredita-se, poriam término a 6 longos anos de espera. Depois de Calais, tudo estaria mudado.

Notas:

[1] ALMEIDA, Ana Paula Lopes Alves Pinto de. Op.cit. p. 6

[2] FRASER, Antonia. Op.cit. p. 229

[3]Idem. p. 171

[4] “Até que ponto foi, de fato, o namoro de Percy com Ana Bolena?”, questiona Antonia Fraser. Se um pré-contrato fosse consumado, adquiria a validade de um casamento. Contudo, ressalta a historiadora, alguns beijos e carícias que, por sua vez, levassem às chamadas preliminares amorosas, mas que parassem por aí, significava que não havia um compromisso. A virgindade técnica, por assim dizer, era um fato muito mais preocupante para as mulheres daquele período. Ibid. p. 172

[5] Os relatos de Eustace Chapuys se constituem numa importante fonte para se estudar os acontecimentos do período, desde que levemos em consideração sua natural tendência imperialista. Ele serviu na corte da Inglaterra por mais de 16 anos como embaixador de Carlos V e nesse tempo criou uma eficiente rede de serviço secreto. Ibid. 225

[6] DWYER, Frank. Op.cit. pp. 58-59

[7] FRASER, Antonia. Op.cit. p. 224

[8] A Universidade de Paris apresentou um veredicto positivo, pois o divórcio interessava a Francisco I, que queria criar hostilidades entre Henrique VIII e Carlos V. Na Itália, os eruditos se dividiram, enquanto os da Espanha foram totalmente contra. A maioria das opiniões em Oxford e Cambridge, por sua vez, foi a favor do rei. Idem. p. 236

[9] Quando os emissários do rei solicitaram a Catarina as joias da coroa, ela negou-se afirmando que não entregaria as peças para “uma pessoa que é uma vergonha para a cristandade e está trazendo escândalo e desgraça para o rei”. Ibid. p. 249

[10]Ibid. p. 248

[11]Ibid. p. 174

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