Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Parte II – De volta à corte Inglesa

Provável retrato de Ana Bolena, por artista desconhecido

O retorno de mademoiselle boullan à Inglaterra esteve estritamente ligado aos planos de casamento que seu tio, Thomas Howard (então conde de Surrey) e o Cardeal Wolsey (chanceler do reino) estavam a fazer entre ela e Jaime, filho de Piers Butler, conde de Ormonde. Não obstante, o início da segunda década do século XVI foi marcado pelas hostilidades entre Henrique VIII e Francisco I, logo após as comemorações do “Campo do tecido de ouro”. A questão do matrimônio, por sua vez, afigurou-se como uma tentativa de apaziguar as ambições de Sir Thomas Bolena à herança da mãe, Margaret (filha do velho conde de Ormonde, que morreu tendo apenas duas filhas, fazendo com que um primo distante, Piers Butler, reivindicasse a patente). Ao que parece, o pai de Ana ainda não estava satisfeito por ter aberto mão do título, em troca de algumas posses.

Nesse processo, é importante também colocar que era desejo do próprio Henrique que a união entre ambos os jovens, com idades aproximadas, se procedesse. Em outubro de 1521, Wolsey escreveu ao rei de Calais uma carta na qual dizia que quando regressasse à corte “dedicar-me-ei em pleno ao aperfeiçoamento desse casamento” (LOADES, 2010, pag. 128). Naquele tempo, Jaime Butler era membro da casa do cardeal, enquanto a noiva, juntamente com outros cortesãos, retornaria de França, e passaria a integrar o séquito da Catarina de Aragão. Sua primeira aparição na corte de que se tem registro foi numa peça teatral ao lado de damas influentes, como a ci-devant rainha da França, Mary Tudor (agora duquesa de Suffolk), em que representou o papel de perseverança, aprisionada com outras virtudes numa fortaleza guardada por damas que simbolizavam alegoricamente os vícios humanos. O rei, que se sabe um grande admirador de tais frivolidades, participou da dramatização disfarçado de cavaleiro, e liderava o assalto ao castelo, ao que se seguiu uma simulação de luta na tradição borgonhesa, e de um baile, com paços de dança coreograficamente elaborados.

Mary Tudor, rainha da França e depois duquesa de Suffolk, por artista desconhecido.

Qual a aparência de Ana Bolena quando de seu retorno é outro fator de discussão entre seus principais biógrafos. Se tomarmos como referência os retratos da mesma, perceberemos ali uma moça que não se enquadrava nos padrões estéticos daquele período, que valorizava mulheres loiras e de olhos azuis. Segundo David Loades,

“… O aspecto de Ana nesta fase foi descrito ou recordado por muitos escritores, que discordam em considera-la favoravelmente ou não, mas que são unânimes em certos aspectos. Ela não era de uma beleza deslumbrante, mas tinha uma sexualidade eletrizante: ‘Muito eloquente e graciosa, e razoavelmente bem-parecida’, escreveu um contemporâneo que a conhecia bem, apesar de se tratar de um padre que dificilmente comentaria os seus atrativos…” (LOADES, 2010, pag. 129).

Porém, a descrição mais confiável provém de um diplomata veneziano que estava presente na corte inglesa na época: “Não é uma das mulheres mais bonitas do mundo, tem estatura média, compleição escura, pescoço cumprido, boca larga, um peito não muito saliente e olhos que são negros e lindos…” (LOADES, 2010, pag. 129). Antonia Fraser, em seu livro “As seis mulheres de Henrique VIII”, discorre acerca da possibilidade de Ana ser usuária de cosméticos, preparados a partir de urtiga, folhas de hera, cinabre, enxofre e açafrão, para clarear sua tez cor de oliva e os cabelos, que eram muito escuros, geneticamente herdados de sua avó irlandesa.

James Butler, por Hans Holbein, o jovem.

Contudo, o que fascinava os rapazes na compleição física de Ana Bolena era o fato de que, nas palavras de Eric Ives, “ela irradiava sexo” . Passara tantos anos na corte do rei Francisco que quando retornou, fora descrita como mais francesa do que inglesa. Seus modos coquetes, aliados à maneira de vestir-se, contribuíam para uma opinião como essas acerca de sua personalidade. Além disso, sabia tocar diversos instrumentos e manter uma conversa interessante por várias horas, tanto em sua língua natal, como em francês. Porém, os homens sentiam-se também intimidados pelo seu caráter, dotado de fortes opiniões, o que, por sua vez, desagradavam-nos. As negociações de casamento com Jaime Butler simplesmente não foram adiante, ora por que o conde de Ormonde precisou retornar para a Irlanda a fim de resolver um entrave político, ora por que Sir Thomas não estava satisfeito com o acordo pré-nupcial. Todavia, “a jovem e viçosa donzela” já estava enamorada de um dos grandes herdeiros do reino, de quem, suspeita-se, teria extraído uma promessa de matrimônio: Henry Percy, filho do quinto conde de Northumberland.

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