Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor – Parte I.I

Parte I.I – Os anos franceses

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Se discorrer sobre a infância de Ana Bolena e suas atividades na corte da arquiduquesa Margarida da Áustria já é tarefa complicada, investigar os sete anos que passou na França constitui-se num campo ainda mais especulativo. Eric Ives (2010, p. 27), autor da biografia mais completa (atualmente) sobre a segunda esposa de Henrique VIII, aponta para o fato de que seu nome não constava na lista de damas que partiram com Mary Tudor para Paris em outubro de 1514, mas apenas o de sua irmã, Maria. Não obstante, as circunstâncias que fizeram Ana permanecer a serviço da rainha Cláudia são ainda mais misteriosas. Provavelmente, os atributos da jovem chamaram a atenção da consorte do novo rei, Francisco I: nos países baixos ela tornou-se extremamente notável na dança, uma arte que era muito apreciada nos grandes centros renascentistas; seu francês estava muito mais sofisticado; era inteligente e esforçada, inclusive em atividades caseiras, como corte e costura. Enfim, o conjunto dessas habilidades recomendou aquela adolescente ao séquito de aias de Cláudia de Valois.

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Retrato póstumo de Ana Bolena quando jovem. Início de século XVII. Artista desconhecido. Hever Castle, Kent.

Entretanto, para uma dama ser bem sucedida na corte de França, especialmente uma com a idade tão precoce como a de Ana Bolena, era preciso dominar o jogo do amor cortês, que, em tese, incluía demonstrações de cordialidades entre uma mulher e um homem. Mas na nova monarquia do rei Francisco, as coisas eram muito mais extravagantes, e o que era para ser apenas uma forma de demonstrar amizade diferenciada, acabou desencadeando uma série de escandalosos casos sexuais e extraconjugais. Carolly Erikson diz-nos o seguinte:

Para uma menina, constituía-se uma educação temerária observar o tumultuoso e sensual jogo galante entre ambos os sexos e o alto preço do temor e dor que as mulheres logo pagavam. Na realidade, Ana devia conhecer, na idade adulta, todo o alcance dessas modas eróticas, toda a variedade do amor, desde a amizade até o prazer (ERIKSON, 1986, p. 33).

Sendo assim, não deve ter sido raro para a filha de Sir Thomas Bolena presenciar separações de casais que muitas vezes resultavam em morte, especialmente da mulher. Era preciso muito autocontrole e perspicácia para dominar o jogo de amor cortês em França, e provavelmente Ana possuía tal atributo, uma vez que não chegou ao conhecimento dos historiadores nenhum desvio de sua conduta nos anos em que passou na corte do rei Francisco.

De acordo com IVES (2010, p. 30), existe ainda uma possibilidade de Ana Bolena ter conhecido Leonardo da Vinci, um dos maiores nomes do renascimento, quando este, a convite e pensionado pelo rei, chegou a Amboise, no ano de 1516. Também é aceitável de que tenha acompanhado Cláudia e Louise de Savóia (mãe do rei) na jornada cerimonial de boas vindas a Francisco I, depois de sua vitória em Marignano, em outubro de 1515. Outro evento de que Ana provavelmente tomou parte foi no triunfo pessoal da rainha em maio de 1516, quando ela foi coroada em Saint Dennis e em seguida, quando fez sua entrada estatal em Paris. Sabe-se também que estabeleceu laços amigáveis com Margarida D’Angoulême, futura rainha de Navarra e irmã do rei, uma mulher muito culta e que mais tarde ficou conhecida por ser uma defensora do protestantismo. Para a maioria dos biógrafos de Ana, a figura de Margarida exerceu uma forte ascendência sobre a personalidade de mademoiselle Boullan, principalmente por ser uma defensora da influência feminina. Mais tarde, em 1535, Ana se referiu a Margarida como “uma princesa que sempre amara de verdade” FRASER, 2010, p. 165).

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“O campo do tecido de ouro”

A educação de Ana Bolena, inclusive, a credenciava a agir como intérprete nas missões inglesas em França, como, por exemplo, em 22 de dezembro de 1818, quando houve um banquete dado na Bastilha para a delegação de Henrique VIII, que estava a negociar o casamento de Delfim com a filha do rei Tudor. Outra grande ocasião em que ela pôde mostrar sua utilidade foi no “Campo do tecido de ouro”, que celebrou o encontro entre os monarcas da França e da Inglaterra, de 7 a 23 de junho d 1520. É possível que sua mãe e irmãos também estivessem presentes na ocasião, visto que Sir Thomas Bolena agia como embaixador. Entretanto, ainda é muito cedo pra dizer que Henrique teria se encantado por ela em tal ocasião. Naquele tempo, porém, Ana era uma jovem que acabava de entrar na casa dos 20 (caso adotemos 1501 como a data de seu nascimento), uma idade ideal para que a mulher fosse escalada pela família para um casamento vantajoso, tal qual aconteceu com Maria Bolena. E o noivo já estava em vista: James Butler, filho de conde de Ormonde.

CONTINUA…

Referências Bibliográficas:

ERIKSON, Carolly. Ana Bolena: Un Amor Decapitado. Tradução de León Mirlas – Buenos Aires: Atlántida, 1986.

FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. 2ª edição. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

IVES, Eric W. The life and death of Anne Boleyn: ‘the most happy’. – United Kingdom: Blackwell Publishing, 2010.

LINDSEY, Karen. Divorced, Beheaded, Survived: A Feminist Reinterpretation of the Wives of Henry VIII. – Cambridge, M A: Da Capo Press, 2013.

WEIR, Alison. Mary Boleyn: the mistress of kings. – New York: Ballantine Books, 2011.

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