A (des)construção da imagem de Ana Bolena

ALMEIDA, Ana Paula Lopes Alves Pinto de. Ana dos mil dias: Ana Bolena, entre a luz e a sombra da reforma henriquina.  – Porto, Portugal: [s.n.], 2009.

Objetivando desvelar a mulher por trás do estereótipo, Ana Paula L. A. P. de Almeida, em sua dissertação de mestrado “Ana Bolena entre a luz e a sombra da Reforma Henriquina” da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, avalia como a segunda esposa de Henrique VIII, (rei da Inglaterra entre os anos de 1509 -1547) trilhou seu caminho de simples dama da corte à de senhora da nação, destacando que nesse processo muitas interpretações acerca de seu comportamento (equivocadas na maioria delas) contribuíram para uma visão negativa da mulher em questão. Com base nessa logística, a autora divide seu trabalho em três partes, cada qual com respectivos tópicos, onde ela procura narrar a trajetória de tão extraordinário ícone da História inglesa, e a cada uma delas, aponta os adjetivos depreciativos que a macularam, tais como “coquete”, “vulgar”, e “adúltera”, e tenta desconstruí-los no decorrer da dissertação.

Ana Bolena, por artista desconhecido.

Ana Bolena, por artista desconhecido.

A primeira parte, batizada simplesmente de “O início”, trata da juventude de Ana Bolena, principalmente seu ingresso na corte de Margarida da Áustria (regente dos países baixos), até a ida para França, onde seria dama de companhia da rainha Maria Tudor, e da sucessora desta, Cláudia de Valois. Nesse momento inicial da obra, a autora já demonstra preocupação em avaliar quais eram os anseios daquela garota que muito sedo saiu da ilha nórdica para o continente, ganhado assim forte experiência cultural e diplomática. É interessante observar como Ana Paula recorre ao uso da narrativa romanesca pra embasar seus argumentos, aliados de obras de cunho teórico e biográfico. Dentre elas, podemos destacar os romances históricos “The Other Boleyn Girl” (escrito por Philippa Gregory) e “The Secret Diary of Anne Boleyn” (de Robin Maxwell). Este último, por sua vez, teria forte influência no capítulo seguinte.

Findado a primeira parte, na próxima, intitulada “Ana e o Rei”, a autora já vem abordando o regresso da jovem ao seu país natal e o conseguinte interesse do rei pela sua pessoa. Nesse ponto, não raro temos citações da trama de Robin Maxwell, justificados pela referência a documentos do período em foco (século XVI). Dessa forma, exemplifica como até mesmo os romancistas abordam a temática da construção da imagem de Ana Bolena. Por exemplo, em “The Secret Diary of Anne Boleyn”, a autora deste optou por tratar a representação do personagem principal de forma mais delicada, sem deixar de levantar, contudo, a suspeita de que Ana Bolena era adepta às práticas da feitiçaria, enquanto que em “The Other Boleyn Girl”, podemos observa-la dotada de um caráter mais perspicaz, maquiavélico e de ressentimento.

Sendo assim, revela Almeida, notam-se como as visões acerca da segunda esposa de Henrique VIII variam de uma obra para outra, seja ela um romance histórico ou uma biografia. Mas qual destas é que mais se aproxima da real? É possível descamar todas essas interpretações até chegar à mulher de fato? Eis as intenções da autora desta presente dissertação. Não obstante, ela recorre a filmes e séries televisivas para exemplificar ainda mais seus argumentos. É o caso de “The Other Boleyn Girl” (baseado no livro de Philippa Gregory, já apontado acima) e “The Tudors”, onde vemos, respectivamente, no primeiro uma rainha amargurada e desesperada por um filho, e noutro uma mulher com profundo apelo sexual. De acordo com as colocações da autora, podemos avaliar que o foco para surgimento dessas múltiplas concepções acerca de um único personagem se deu a partir do momento em o rei, passando por cima dos desejos dos súditos, movia todos os seus recursos para torná-la sua esposa, resultando na cisão entre a igreja inglesa e o papado.

Folha de Rosto da Dissertação de Mestrado de Ana Paula Lopes Alves Pinto de Almeida.

Folha de Rosto da Dissertação de Mestrado de Ana Paula Lopes Alves Pinto de Almeida.

Os ingleses amavam Catarina de Aragão e não queriam a “prostituta do rei” (outro rótulo empregado a Ana) ocupando o lugar da primeira no trono. As mulheres foram as principais defensoras da causa da Catarina, pois movidas também por interesses pessoais, temiam que seus maridos fizessem com elas o mesmo que Henrique VIII fizera com a rainha. É interessante notar, também, como a autora busca no seio de documentos antigos, fatos que comprovam o quanto o monarca era apaixonado pela filha de Sir Thomas Bolena, ao mesmo passo em que lança mão de registros que atestam o desprazer que os espanhóis e a corte papal nutriam para com os interesses da coroa inglesa. Foram estes, em sua maioria, os responsáveis por disseminar por toda Europa uma imagem negativista construída em torno de Ana Bolena, que, em vista dos empecilhos impostos ao seu matrimônio, tentava aproximar mais o rei dos ideais da reforma.

Ana tornou-se, então, a primeira consorte protestante de Inglaterra e usou de sua influência junto ao marido para nomear membros que partilhassem de seus preceitos ao conselho privado. É o caso, por exemplo, de Thomas Cromwell (mais tarde responsável por causar a ruína dos Bolena, inclusive da nova rainha), para o cargo de ministro, e de Thomas Cranmer como arcebispo da Cantuária. A partir daí, observamos não apenas a Ana Bolena de temperamento explosivo, como era particularmente vista pelas aias, mas também uma soberana preocupada com o destino de seu país. Por ser uma mulher culta, legou patronato para muitas instituições e, conforme nos diz Almeida, devotada aos interesses políticos da nação. Porém, não cumprira o principal dever de uma consorte: dar um herdeiro ao trono.

À medida que Henrique frustrava-se com a escolha de sua segunda esposa, têm-se o início da fama de bruxa e adúltera que a marcou profundamente. Esse é o assunto da terceira e última parte do trabalho, (“Final/’Finale”) quando a queda de Ana Bolena foi fundamental para a deterioração de sua imagem. Ana Paula esclarece que a campanha negativa que se iniciou contra a ex-rainha, aliada às acusações fajutas que os ministros do rei forjaram para livrarem-se dela, foram responsáveis pela consequente difamação de tão singular personalidade. Nem mesmo sua filha, Elizabeth I, quando de sua ascensão ao governo, se interessou em eximi-la de toda a culpa que lhe fora creditada. Só séculos depois, foram que os historiadores resolveram resgatar do campo de interpretações errôneas a figura desta incrível mulher e coloca-la em seu devido lugar ao lado de tantas outras, responsáveis por transformações marcantes no período em que viveram.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduando em História – UESC

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