Elizabeth Bathory: a história por trás da lenda da “condessa sanguinária” – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

De uma infância marcada pela violência para um casamento arranjado, Elizabeth Bathory podia pelo menos se congratular pelo fato de ser uma bela mulher, com muitos atrativos, que mais tarde seriam usados como desculpa pelas autoridades para explicar o porquê de camponeses locais procurarem emprego nos seus castelos. As criadas se sentiam particularmente interessadas pelas promessas de bons dotes de casamento que eram feitas às suas famílias. Aos bandos, elas afluíam ao castelo da condessa, para servi-la em tudo o que fosse preciso. Porém, esse estado de encanto não duraria para sempre. Há uma passagem bastante peculiar no mito criado em torno da chamada condessa de sanguinária, que lança um pouco de luz sobre as razões pelas quais ela teria se tornado tão obcecada com sua aparência depois dos 40: diz-se que certo dia, enquanto estava em um passeio a cavalo, encontrou no caminho uma velha senhora. A condessa, ricamente paramentada em cima da montaria, começou a debochar da simplicidade e da velhice da caminhante. Desconsiderando a posição da nobre que lhe insultava, a anciã respondeu que um dia Elizabeth seria tão idosa quanto ela. Não se sabe ao certo se essa falácia é verídica, como tudo o mais em torno do folclore criado sobre Elizabeth, mas é certo que em determinada fase de sua vida a condessa começou a se preocupar mais com sua aparência física, que já começava a apresentar os sinais do tempo.

Cópia de um retrato original perdido da condessa Elizabeth Bathory.

De acordo com a crença geral, numa noite, Elizabeth estava a ser arrumada por suas criadas para a refeição. Como acontecia quase todos os dias, era preciso que ela aparecesse no salão impecável. O cabelo era preso num toucado decorado com pérolas, enquanto as mechas da frente eram frisadas para dar um formato de ondas. Apenas criadas qualificadas para esse serviço podiam se aproximar da condessa, uma vez que ela não suportava ser tocada pelas outras servas. Uma delas lhe puxou sem querer os cabelos enquanto os escovava. Enraivecida, Elizabeth lhe esbofeteou com tanta força que arrancou sangue da moça, que consequentemente respingou na mão da condessa. Enquanto  enxugava a mancha ela pensou que, á medida em que o líquido vermelho coagulava, este revitalizava a cor de sua pele e suavizava as manchas que aparecem com a idade. Encantada com esse novo “cosmético”, a condessa teria encontrado no sangue de suas servas uma forma de se manter constantemente jovem e atraente. Tornaram-se famosos na época os boatos de que  Elizabeth Bathory, no seu castelo, costumava se banhar no sangue de sua criadagem, composta na maioria por moças entre 12 e 20 anos.

Durante todo o dia, um batalhão de jovens costureiras e camareiras giravam em torno da condessa, sempre em silêncio, com medo de despertar a ira de sua senhora. Qualquer sinal de trabalho mal feito, uma pérola mal atada à bainha de seu vestido, era motivo de ultraje e ela frequentemente castigava a responsável pelo descuido. Diz-se que sua cúmplice, Dorkó, cortava a pele entre os dedos da “infratora” para a punir por sua falta de jeito. Algumas histórias são ainda mais assustadoras e incluem pontas de alfinetes espetadas nos seios da criadas. Essas torturas podiam durar mesmo dias, provocando a morte das vítimas.

Um ferreiro, bem pago e aterrorizado por ameaças, forjara no segredo da noite uma incrível peça de ferraria de um manejo particularmente difícil. Era uma gaiola cilíndrica de lama de ferro brilhantes presas por argolas. Parecia destinada a alguma coruja enorme. Mas o interior era guarnecido de pontas aguçadas. Chegada a hora, e sempre à noite, erguia-se o engenho até o teto, com a ajuda de uma polia. Era dali que saíam os gritos que despertavam os monges que ficavam em frente e suscitavam a sua cólera contra aquela maldita casa protestante (PENROSE, 1992, p. 110).

Foi relatado que no porão do castelo da condessa se encontrava uma jaula suspensa movimentada com o auxílio de roldanas, na qual a vítima era presa e levada na direção de uma parede com estacas finas que perfuravam lentamente sua carne até rasgá-la. A lenda diz que Elizabeth ficava sentada embaixo desse aparelho, esperando o banho de sangue que caía como consequência da mutilação. Foram poucas as criadas que conseguiram fugir e muitas as que foram capturadas.

Depois da morte de seu marido, Elizabeth adquiriu o hábito de viajar constantemente para Viena. Como viúva, se tornou uma mulher economicamente emancipada, que administrava seu próprio dinheiro. Nos retornos, ela geralmente pernoitava no castelo de Forchtenstein, propriedade da família Esterházy. Num sala reservada do castelo, é possível ver alguns retratos da família Bathory, entre eles o de Elizabeth. O quadro mal pintado esconde a maioria dos traços faciais da condessa, que aparece numa pose rígida, a mão esquerda segurando as pregas da saia e a direita sobre o tampo de uma mesa. Muitas cópias foram feitas a partir desse retrato, todas elas de qualidade duvidosa. Depois de alguns dias no castelo, ela retornava para sua propriedade de Csejthe, onde Dorkó e Jó Ilona, suas cúmplices, supostamente mantinham encarceradas na lavanderia moças em grupos de sei ou oito, para satisfazer os caprichos da proprietária do recinto. Ficzkó, acusando de ser cúmplice no assassinato das criadas, disse no inquérito movido contra Elizabeth anos depois:

Elas amarravam as mãos e os braços das moças bem apertado com corda de Viena, e batiam nelas até a morte, até que seus corpos estivessem inteiramente negros como o carvão e que suas peles se rasgassem. Uma suportou mais de duzentos golpes antes de morrer. Dorkó cortava seus dedos um a um com uma cisalha, e em seguida furava as suas veias com uma tesoura (apud PENROSE, 1992, p. 200).

Segundo o depoimento de Ficzkó, depois de mortas, uma velha senhora as enterrava nas redondezas das propriedades da família. O Depoente disse que a própria condessa participava das sessões de tortura e recompensava bem os seus ajudantes. “Mandava que as levassem para a neve, nuas, e que derramassem água gelada sobre elas; ela mesma derramava água em cima delas, e elas morriam por causa disso” (apud PENROSE, 1992, p. 201).

Castelo de Forchtenstein, onde Elizabeth costumava pernoitar durante suas viagens a Viena.

O depoimento de Ficzkó, contudo, deve ser considerado com cautela. Afinal, confessar seus crimes ao lado da condessa era uma forma de apelar para a misericórdia dos juízes. Era mais fácil jogar a responsabilidade em Elizabeth como mandante das mortes, para assim conseguir comutar sua pena. À medida que seus assassinatos aumentavam, as histórias de uma condessa sanguinária se espelhavam mais rapidamente, fazendo com que as filhas de camponeses e jovens plebeias não mais procurassem trabalho nos domínios dos Bathory. Segundo Valentine Penrose:

Uma após outra, as aldeias ao pé dos castelos da Hungria se recusavam a deixar partir as suas jovens. Os ardis de Dorkó, Jó Ilona e Kateline Beniezcy não estavam dando resultado: nenhuma nova descoberta. Era em vão que prometiam roupas novas, que faziam faiscar a glória de servir uma família ilustre. Agora era preciso tentar as negociações em regiões ainda inexploradas, tão afastadas às vezes, que um mês se passava antes que a jovem camponesa chegasse a Csejthe. As velhas não ousavam ir duas vezes à mesma aldeia. Os rumores se espalhavam junto com o campo de busca. Ouvia-se também falar de assassinatos que a condessa conseguia cometer até mesmo na casa de seus hospedeiros (1992, p. 125).

Para tentar acabar com esses boatos, Elizabeth Bathory tentava passar um ar de normalidade em seu castelo. As refeições e danças oferecidas a membros da região seguiam o seu curso normal. Sua filha mais velha, Ana, se casou em 1604, cinco meses depois da morte do pai, com o nobre Miklós Zrinyi. A outra filha, Katerine, ficou noiva de György Druget, que descendia de uma das nobres famílias que haviam partido da França para a Hungria, em decorrência das guerras. A própria condessa podia ser vista passeando de carruagem pelas estradas vizinhas, como se nada de errado estivesse acontecendo consigo e sua família.

Com efeito, as famílias das moças desaparecidas começaram a bater nas portas do castelo, pedindo informações sobre o paradeiro das jovens. “Ela morreu”, foi a resposta que deram a uma mãe aflita pela falta de notícias da filha, que trabalhava para a condessa. A senhora imediatamente foi prestar queixa do acontecido às autoridades. “Os juízes, no processo, e o rei Matias, em suas cartas, consideraram como uma circunstância agravante o fato de que esses crimes tenham sido cometidos ‘contra o sexo feminino” (PENROSE, 1992, p. 145). A partir desse momento, as coisas começariam a se complicar para Elizabeth. Como não conseguia mais recrutar criadas para servi-la, voltara-se para a nobreza. Foi quando cometeu seu maior deslize, assassinando alguém de seu próprio círculo social e alegando como causa da morte o suicídio. No seu depoimento, Ficzkó contou que “em Kéresztúr mataram uma certa senhora vienense; as velhas escondiam e enterravam os cadáveres e eu ajudei a enterrar um em Podolié, dois em Kéresztúr, um em Sárvár” (PENROSE, 1992, p. 200). As autoridades locais não acreditaram nas desculpas oferecidas pela condessa e sua criadagem e, em dezembro de 1610, expediram uma ordem de investigação.

Ruínas do castelo de Csejthe, onde Elizabeth permaneceu encarcerada pelo resto de seus dias.

Durante mais de três dias, as autoridades se ocuparam do processo de Elizabeth. “O ato de acusação contra Bathory impressionou o Parlamento. E o que suscitou a maior indignação foi saber que a ‘Dama de Csejthe’ não se contentava com o sangue de camponesas, mas precisava também do sangue das filhas de gentis-homens húngaros” (PENROSE, 1992, p. 178). Entretanto, a investigação também foi movida por fins políticos, já que a Coroa há muito procurava uma justificativa para confiscar as terras da condessa, devido às dívidas contraídas para com seu finado marido. No dia 6 de janeiro de 1611, o tribunal se reuniu para julgar o caso. Elizabeth foi presa, assim como seus cúmplices e declarada culpada por todos os crimes creditados à sua pessoa. A maior prova do inquérito foi um suposto caderno onde ela anotou o nome de aproximadamente 650 vítimas (testemunhas também alegaram ter encontrado corpos de pessoas nas proximidades de sua residência). Como era membro da alta nobreza, Elizabeth não teve o mesmo fim que seus ajudantes, que foram condenados à morte. Ao contrário deles, ela deveria passar o resto de seus dias emparedada numa torre de seu castelo, sem qualquer janela ou porta, apenas um pequeno buraco por onde lhe passavam comida e água. Seus outros castelos foram divididos entre seus filhos, enquanto a chamada “condessa sanguinária”, permaneceu trancafiada nas sombras para sempre.

Leia a primeira parte clicando aqui!

Referências Bibliográficas:

ALVES, Daniel. Serial-Killers: A Condessa Sanguinária. 2011. Acesso em 05 de Outubro de 2012.

PIZARNIK, Alejandra. A condessa sangrenta. Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro – São Paulo: Tordesilhas, 2011.

PENROSE, Valentine. Erzsébet Báthory a Condessa Sanguinária. Tradução de Helder Moura Pereira. – Lisboa: Assírio & Alvim, 2004

Filmografia:

The Countess” (2009) – X Film International Home Entertainment

Um comentário sobre “Elizabeth Bathory: a história por trás da lenda da “condessa sanguinária” – Parte II

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s