O Pé de Lótus: quando quebrar o pé era sinônimo de beleza!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Na China antiga, quebrar os pés era sinônimo de beleza. A mãe de uma menina de 5 ou 6 anos pegava os pés da filha, dobrava quatro dedos para baixo, esmagava-os contra a sola e depois enfaixava bem apertado com tiras de pano. Com o tempo, os ossos se quebravam e o crescimento do membro parava. Isso se repetia todos os dias, por dois anos. Era o famoso “pé de lótus”.

O objetivo era caber num sapato de 8 a 10 cm. Parecer um botão de lótus fechado. Quanto menor o pé, mais desejável a mulher. Chamavam de “lótus dourado” se tivesse 7 cm. Com 10 cm já era “lótus de ferro”. Feio. Difícil de casar.

A prática começou no século X, entre dançarinas da corte. Diz a lenda que uma concubina imperial amarrou os pés com seda e dançou sobre uma flor de lótus dourada para o imperador. Ele adorou. A elite copiou. Em dois séculos, virou regra. Mulher de família rica tinha que ter pé quebrado. Virou status. Pé normal era coisa de camponesa. De mulher que precisava andar e trabalhar.

Como faziam: molhavam o pé em água quente com ervas, massageavam, quebravam os dedos, dobravam para dentro, enfaixavam bem forte. As unhas encravavam. Infecção era comum. Muitas perdiam dedos por gangrena. Outras morriam. As que sobreviviam andavam aos tropeços, apoiadas em bengalas ou carregadas. Não podiam correr. Não podiam fugir. E esse era o ponto. Pé de lótus prendia a mulher em casa. Virou símbolo de delicadeza, fragilidade, obediência. E de fetiche. Homem chinês achava erótico.

O costume desceu para o povo. Mãe pobre quebrava o pé da filha achando que assim ela casava melhor, subia de vida. Só que aí a menina não conseguia trabalhar na roça. Família passava fome. Mas o pé pequeno valia mais que comida.

Senhora chinesa desenfaixando seus pés de lótus, com menos de 10 cm!

Até a imperatriz Cixi tentou parar. Mulher mais poderosa da China, governou o império Qing por quase 50 anos. Era manchu. Nunca teve os pés atados e chamava a prática de bárbara. Em 1902, depois da humilhação da Rebelião Boxer, baixou um edito imperial proibindo o pé de lótus. Queria modernizar a imagem da China para o Ocidente. Não adiantou. Era uma manchu mandando em costume han milenar, num império que já estava ruindo. Na corte dela ainda circulavam mulheres de pés quebrados. O edito virou letra morta.

O governo tentou de novo em 1912, com a República. Também não adiantou. Só foi morrer de verdade com Mao Tsé-Tung, depois de 1949. O Partido Comunista caçou, multou, humilhou quem insistia. Dizia que pé de lótus era atraso feudal. As últimas mulheres com pé quebrado nasceram nos anos 1930. Hoje devem ter 90, 100 anos. Vivem em vilarejos. Escondem os sapatos minúsculos.

Durou mil anos. Mil anos de meninas gritando enquanto a mãe quebrava os dedos de seus pés e apertava a faixa. Tudo por 8 centímetros de “beleza”. Tudo para caber num padrão que o homem inventou e chamou de charme.

A gente olha e pensa: que barbárie. Aí lembra do salto 15, da costela tirada, do botox que paralisa, da cinta que não deixa respirar. Cada século teve seu pé de lótus. Só mudou o molde.

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