Queimada Viva! – A tragédia de Sophie Charlotte, irmã da imperatriz Sissi

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Proibida de casar com o homem que amava, trancada num sanatório por suposta “perversão sexual” após trair o marido com o médico, e carbonizada aos 50 anos num dos piores incêndios da Belle Époque: Sophie Charlotte da Baviera, a irmã mais nova de Sissi, viveu uma sucessão de tragédias dignas de romance gótico. Princesa, duquesa, paciente psiquiátrica e mártir, ela morreu em 4 de maio de 1897 no Bazar de la Charité, em Paris, ajoelhada em oração enquanto ajudava outras mulheres a escapar das chamas. Cunhada da princesa Isabel do Brasil, Sophie passou pela corte da Saxônia, por palácios ingleses e por um sanatório austríaco antes de virar santa popular. Esta é a história completa da Wittelsbach que a realeza europeia por muito tempo preferiu esquecer.

Nascida em 22 de fevereiro de 1847 no Castelo de Possenhofen, na Baviera, Sophie Charlotte era a nona filha do duque Maximiliano José e de Ludovika da Baviera. Criada longe da corte, teve infância livre ao lado da irmã Elisabeth, a futura imperatriz da Áustria. Pianista talentosa e soprano promissora, Sophie compunha e sonhava com o teatro. As perspectivas matrimoniais melhoraram depois que Sissi se casou com Franz Joseph em 1854. A família apostou em uni-la ao primo, o rei Ludwig II da Baviera. Em 1867, o noivado foi anunciado com pompa. Durante as sessões de fotos, Sophie se apaixonou pelo fotógrafo burguês Edgar Hanfstaengl.

O rei Ludwig II da Baviera e sua prima, Sophie Charlotte, na época de seu noivado. Ela estava apaixonada pelo fotógrafo! (Imagem colorida digitalmente).

O romance proibido veio à tona por cartas interceptadas. Cinco cartas de amor de Sophie para Edgar foram publicadas décadas depois pela filha dele, Erna Hanfstaengl. Em uma delas, datada de 1867, ela confessava: “Eu te amo tanto, meu Edgar, tanto, que negligenciei vergonhosamente meus deveres para com meu pobre rei.” Ludwig II, que até então escondia suas próprias tendências homoafetivas, usou o escândalo como pretexto e cancelou o noivado em outubro de 1867, humilhando Sophie publicamente. A princesa entrou em depressão profunda e cogitou entrar para um convento. Mas esse destino não era sequer cogitado por sua família, que por meio do casamento reforçou suas conexões com o Sacro-Império, o reino da Itália, o reino da Saxônia, entre outros principados. Assim como suas irmãs, Sophie tinha um papel importante a desempenhar nesse jogo de alianças matrimoniais. Seus sentimentos pessoais não eram levados em consideração.

Depois do noivado cancelado, a família apresentou outros pretendentes para abafar o escândalo. Entre eles estavam o arquiduque Ludwig Viktor da Áustria, irmão de Franz Joseph I e conhecido por sua homossexualidade, o futuro Luís I de Portugal e o duque Philipp de Württemberg, primo em primeiro grau de seu futuro marido. Sophie recusou todos eles, decidida a não se casar sem amor. Para curar a melancolia e afastá-la de Munique, foi enviada em 1868 para uma temporada na corte de sua tia Amalie Auguste da Baviera, rainha consorte da Saxônia, no Palácio Real de Dresden. A rainha Amalie, irmã de sua mãe Ludovika, era figura central da aristocracia católica alemã. Foi lá, num baile no Zwinger, que Sophie conheceu o príncipe Fernando de Orléans, duque de Alençon, neto do destronado rei Luís Felipe dos Franceses.

O pretendente acabou agradando Sophie e o casamento arranjado aconteceu em 28 de setembro de 1868, na capela do Castelo de Possenhofen. Como os Orléans estavam exilados na Inglaterra desde 1848, o casal foi viver na Bush House, Teddington, uma mansão alugada às margens do Tâmisa. Depois de se mudaram para a Orleans House, em Twickenham, eles começaram a passar algumas temporadas no Castelo de Randan, na França, propriedade dos Orléans. Sophie e Fernando tiveram dois filhos: a princesa Louise, nascida em 1869, e o príncipe Emmanuel, em 1872. O casamento, porém, era frio. Sophie detestava o sogro, o autoritário duque de Némours, que controlava a casa e morava com eles. Sofria de melancolia, insônia e crises nervosas constantes, agravadas pelos invernos ingleses.

Sophie Charlotte, duquesa na Baviera e duquesa de Alençon (Fotografia digitalmente colorida).

Por laços de matrimônio, Sophie se ligou à família imperial brasileira, já que ela era concunhada de D. Isabel, Princesa Imperial do Brasil, que era casada com Gastão de Orléans, conde d’Eu, irmão mais velho de Fernando, marido de Sophie. As cunhadas se encontraram várias vezes. Em todas as viagens que Isabel e Gastão fizeram à Europa, a princesa brasileira visitava Sophie, por quem nutria profunda admiração. Depois que a família imperial foi banida do Brasil, em 1889, e passou a viver na França, as duas se viram com alguma frequência. Compartilhavam a mesma devoção católica ultramontana e o interesse por obras de caridade.

No inverno de 1886-1887, após contrair escarlatina e difteria, Sophie viajou a Munique para se tratar na clínica do renomado Dr. Franz Glaser, especialista em doenças nervosas. Na clínica, Sophie, então com 39 anos, iniciou um caso com o médico, 15 anos mais novo. Dizem que o médico, também casado, teria chegado a pedir o divórcio de sua esposa para viver seu romance com a duquesa. Mas, quando o duque de Alençon descobriu as cartas apaixonadas entre os dois, tomou medidas drásticas. Para evitar um divórcio que mancharia a Casa de Orléans, ele conseguiu com que os médicos declarassem sua esposa como mentalmente instável. Entre os nomes que confirmaram o laudo, estava o do próprio Dr. Franz Glaser. Com aval da família da Baviera, Sophie foi internada à força em junho de 1886 no Sanatório de Maria-Grün, em Graz, na Áustria. O diagnóstico: “histeria, erotomania e perversão sexual”.

O sanatório era famoso pelo tratamento brutal concedido a mulheres com o diagnóstico de Sophie. Por 7 meses, ela sofreu hidroterapia com banhos gelados, isolamento total, camisa de força e privação de visitas. Só saiu em janeiro de 1887, considerada “curada”. De volta ao marido, passou a morar entre o Castelo de Mentelberg, no Tirol, e o Hôtel de Alençon, em Paris, na Avenue d’Iéna, nº 27. Dedicou-se à filantropia para expiar o que chamava de “pecados”. Virou terciária dominicana como Irmã Maria Madalena e passou a financiar hospitais, orfanatos e a Obra dos Tabernáculos Pobres. Seus últimos anos foram de intensa vida religiosa. Vivia de forma quase monástica, dormia num catre, usava cilício e fazia longos retiros no Convento das Dominicanas de Neuilly. Visitava doentes e distribuía esmolas pessoalmente pelas ruas de Paris, algumas vezes acompanhada da princesa Isabel.

Manchete do periódico francês “Le Petit Journal”, estampando o incêndio no Bazar de la Charité, em 4 de maio de 1897.

Em 4 de maio de 1897, estava como voluntária no Bazar de la Charité, evento anual da aristocracia católica para arrecadar fundos para os pobres. O bazar funcionava num galpão de madeira na Rue Jean-Goujon, decorado com tecidos, papel machê e alcatrão para imitar uma rua medieval. A atração principal era um cinematógrafo dos irmãos Lumière. Por volta das 16h20, o éter usado na lâmpada do cinematógrafo explodiu. As chamas atingiram o cenário de madeira e alcatrão e se alastraram em segundos. Havia 1.200 pessoas, a maioria mulheres da alta sociedade e freiras. O pânico foi imediato.

Os homens presentes fugiram primeiro, bloqueando a única saída estreita. Sophie Charlotte estava no estande das dominicanas. Testemunhas como a viscondessa de Beaumont relataram que a duquesa recusou-se a sair. “Salvem as jovens primeiro”, teria dito, empurrando noviças e vendedoras para fora. Quando a estrutura começou a desabar e ela percebeu que não conseguiria se salvar, começou a ajoelhar e a rezar o terço. Isso foi testemunhado por uma freira dominicana que escapou por último. Morreu carbonizada. O incêndio durou menos de 20 minutos, mas matou 126 pessoas, sendo 118 mulheres. O corpo de Sophie só foi identificado dias depois pelo dentista Dr. Isaac Davenport, que reconheceu suas obturações de ouro. Dizem que a princesa Isabel, desesperada, ajudou na identificação ao reconhecer parte das vestes carbonizadas da cunhada, um pedaço do hábito dominicano que Sophie usava sob o vestido.

Tinha 50 anos. O marido, Fernando, nunca se recuperou e morreu em 1910. Foi sepultada na Capela Real de Dreux, na França. O Bazar de la Charité foi criado em 1885 pelo barão de Mackau para unir a elite católica em obras de caridade. A tragédia chocou a Europa e expôs o machismo da época: a imprensa culpou as vítimas por “histeria coletiva”. O evento marcou o fim da Belle Époque e acelerou leis de segurança contra incêndio. Sophie, condenada em vida por amar quem não devia, entrou para a história como mártir. Sua irmã Sissi seria assassinada um ano depois, em 1898.

Referências Bibliográficas:

CORTI, Egon Conte. A imperatriz Elisabete (Sissi). Tradução de Mário e Celestino da Silva. Rio de Janeiro: Casa Editora Vecchi, S/A.

HAMANN, Brigitte. The reluctant empress: a biography of empress Elisabeth of Austria. 4ª ed. New York: Ullstein, 1997.

KANN, Robert A.  A history of the Habsburg Empire (1526-1918). New York: Barnes & Noble Books, 1992.

WHEATCROFT, Andrew. The Habsburgs: embodying empire. Great Britain: Viking, 1995.

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