“The Crown” culpou a rainha Mary pela morte dos Romanov. A história real é outra!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Nos últimos anos, as redes sociais levantaram a discussão acerca de uma suposta rivalidade entre a rainha Mary e a imperatriz Alexandra. O suposto antagonismo entre as duas soberanas foi levantado pela quinta temporada de “The Crown”, série de sucesso da Netflix sobre a vida e o reinado de Elizabeth II. No episódio “Ipatiev”, um recorte temporal mostra a consorte do rei George V aconselhando o marido a não oferecer asilo diplomático para o czar e sua família, o que teria selado o destino funesto dos Romanov. Mas as coisas não ocorreram exatamente assim.

A série “The Crown”, da Netflix, criou uma história de rivalidade inexistente entre a Czarina Alexandra Feodorovna e a Rainha Mary. Imagem gerada por I.A.

A rainha Mary era cinco anos mais velha do que a imperatriz Alexandra. Nasceu no Palácio de Kensington e foi criada sob os auspícios da rainha Vitória, que era prima de sua mãe, a duquesa Maria Adelaide de Cambridge. Sua família era muito endividada e, numa ocasião, precisou se mudar da Itália para fugir de seus credores. Porém, conseguiram dar uma excelente educação para Mary, a mais velha de quatro irmãos, que desde cedo adquiriu um senso de responsabilidade e dever. Seu amor pela arte, cultivado no tempo que viveu na Itália, seria de grande importância para a catalogação da Coleção Real.

De volta à Inglaterra, ela fez sua estreia na temporada londrina, chamando a atenção da rainha Vitória entre as demais debutantes. Naqueles anos, a monarca queria arranjar o casamento do herdeiro do trono britânico, o príncipe Albert Victor, duque de Avondale, com sua prima em primeiro grau, a princesa Alix de Hesse. Mas a jovem recusou a oferta de casamento, alegando que tinha pelo primo apenas um carinho fraternal e que não queria ser forçada a se unir em matrimônio com ele. Essa decisão deixou o coração do príncipe partido, uma vez que ele era apaixonado pela prima.

Então a rainha Vitória, famosa casamenteira real, procurou por outra noiva para o neto. A filha de sua prima, a princesa Mary, parecia uma ótima candidata, já que não possuía ambições dinásticas de outro reino estrangeiro. Albert Victor pareceu gostar da escolha e os dois ficaram noivos no final de 1891. Porém, o compromisso não duraria muito tempo, já que o príncipe faleceu de influenza no ano seguinte.

A czarina Alexandra e a rainha Mary sempre mantiveram uma relação respeitosa e amigável. Imagem gerada por I.A.

Seu irmão, o príncipe George, passou então para o segundo lugar na Linha de Sucessão ao trono. Mais uma vez, a rainha Vitória quis que Alix se casasse com George e, mais uma vez, ela se recusou, para frustração da avó. Tampouco George queria se unir em matrimônio com a prima. Vitória então cogitou a possibilidade dele se casar com outra de suas primas, a princesa Maria de Saxe-Coburgo-Gota. O herdeiro recusou mais essa pretendente. Surpreendendo a todos, ele pediu a mão da noiva de seu finado irmão em casamento. Ela aceitou e os dois se uniram em matrimônio no ano de 1893.

Na crença popular, a rivalidade entre Mary e Alix teria surgido a partir do despeito da primeira, por ter sido preterida com relação à outra duas vezes. Mas isso não passa de boatos. Alix de Hesse estava, na verdade, apaixonada pelo czarevich Nicolau, com quem se casou em 1894. Inclusive, ela estava presente no casamento de George e Mary, um ano antes, e foi uma das damas de honra. As duas jovens se conheciam desde a infância: Alix passava longas temporadas com a avó, a rainha Vitória, na Inglaterra, e Mary frequentava os mesmos círculos familiares. Em cartas, Alix chamava Mary de “sweet May” e as duas trocavam presentes nos aniversários.

Como seu primo George e Nicolau eram muito amigos na juventude, faziam constantes visitas um ao outro. Em 1894, os recém-casados George e Mary visitaram os Romanov em São Petersburgo. Em 1896, Nicolau e Alexandra retribuíram a visita e ficaram em Balmoral com a rainha Vitória. Mary e Alexandra passeavam juntas, comparavam filhos, conversavam sobre moda e joias. A rainha Vitória registrou em seu diário que as duas noras “se davam muito bem”. Até 1909, as famílias mantiveram visitas frequentes. Alexandra presenteou Mary com um ovo Fabergé em 1901. Mary retribuiu com um broche de safiras da Coleção Real quando Alexei nasceu, em 1904.

A czarina Alexandra e seu filho Alexei, em 1905. Imagem digitalmente colorida por Klimbim.

Contudo, quando a sombra de Rasputin pairou sobre a família, a rainha Mary teria desaprovado a presença dele no Palácio de Inverno e em Tsarskoe Selo. Mas ela não estava sozinha nesse pensamento. A correspondência entre Mary e sua tia, a imperatriz-viúva Maria Feodorovna, mostra que ambas temiam pela reputação da czarina. Em 1914, durante a última visita de Alexandra à Inglaterra para o batismo do príncipe John, Mary tentou alertá-la discretamente sobre os boatos que corriam na Europa. Alexandra, defensiva, atribuiu as críticas à inveja. Foi o primeiro e único desentendimento registrado entre as duas. Mesmo assim, continuaram trocando cartas formais até 1916.

Muitos dos parentes da família, que não entendiam a conexão do mujique com a família imperial, aconselharam o afastamento de alguém tão rude, um famoso charlatão, da companhia da imperatriz. A presença de Rasputin colocava sobremaneira a reputação da monarquia russa em risco. Outra das primas de Alexandra, Maria da Romênia, chegou a culpar a czarina e sua devoção a Rasputin pela queda dos Romanov.

O problema surgiu quando a Revolução Russa eclodiu em fevereiro e a monarquia foi deposta. A irmã da czarina, Victoria, princesa de Battenberg, escreveu uma carta ao rei pedindo para que Alexandra e Elizabeth fossem trazidas com segurança para a Inglaterra, pois ela estava disposta a se responsabilizar pela família. O próprio George ofereceu asilo diplomático aos Romanov, da mesma forma como sua avó, a rainha Vitória, falecida em 1901, oferecera a tantos monarcas destronados no continente.

A coroação do rei George V e da rainha Mary, em 1911.

A princípio, George V ofereceu asilo diplomático ao núcleo principal da família imperial, que incluía o czar Nicolau II, a czarina Alexandra, as quatro grã-duquesas e o czarevich Alexei. Porém, um sentimento de antipatia popular cresceu diante da ideia da presença da imperatriz em território nacional, uma vez que ela era chamada pejorativamente de “espiã alemã”. Esqueceram, porém, que Alix passou a maior parte de sua juventude no Reino Unido e foi criada como uma princesa inglesa. Mary chegou a comentar com sua dama de companhia, Lady Airlie, que “a pobre Alix sempre foi mais inglesa que alemã”, mas nada podia fazer publicamente.

Diante dos protestos, o governo do Primeiro-Ministro Lloyd George interrompeu as negociações com o governo menchevique. Afinal, o medo de que a presença dos Romanov pudesse suscitar uma Revolução de Trabalhadores na Inglaterra, como aconteceu na Rússia, era grande. Assim, George V retirou formalmente a oferta de asilo, uma vez que a Coroa não podia se indispor com o gabinete ministerial. Como se pode observar, a rainha Mary não teve parte nessa decisão. Ela estava muito ocupada nesse período, visitando hospitais de campanha e famílias carentes, para fortalecer o vínculo da monarquia com seus súbitos. Em particular, confidenciou à irmã da czarina que se sentia “impotente e de coração partido”.

Outras famílias reais, com quem os Romanov eram aparentados, também se encontravam diante do mesmo impasse. O rei e a rainha da Romênia, Fernando e Maria de Saxe-Coburgo-Gota, primos de Nicolau e Alexandra, haviam sido conquistados pelo Império Austro-Húngaro. A Grécia, onde o primo de Nicolau, Constantino I, era rei, também era alvo de agitações populares. A Espanha e a Noruega, onde as primas de Alexandra, Vitória Eugénia e Maud, eram rainhas consortes, também não puderam ajudar. Nem mesmo a Dinamarca, cujo primo de Nicolau, Christian X, era rei, conseguiu oferecer asilo aos Romanov.

A rainha Mary em 1952.

Assim, a família imperial ficou entregue à própria sorte e se tornou um fardo para o governo menchevique, que a moveu em segurança para a Sibéria, para protegê-la do ódio popular. Porém, quando os bolcheviques tomaram o poder em outubro de 1917, quaisquer tratativas de resgate para os Romanov foram interrompidas. O novo governo não estava disposto a entregar Nicolau II para qualquer um de seus primos, nem mesmo para o kaiser Guilherme II, com quem os bolcheviques assinaram o armistício, com receio de que o czar, uma vez livre, pudesse liderar uma contrarrevolução fora da Rússia.

O destino da família imperial foi selado no dia 17 de julho de 1918, com a execução do núcleo principal dos Romanov. Em 31 de agosto de 1918, o rei George V recebeu um relatório dizendo que toda a família imperial russa tinha sido morta. Para a prima, Victoria, irmã de Alexandra, o monarca escreveu:

“Cara Victoria, May [a rainha Mary de Teck] e eu lamentamos profundamente por você o trágico fim de sua querida irmã e seus filhos inocentes. Mas talvez para ela, quem sabe, tenha sido melhor assim, pois após a morte do querido Nicky ela não teria desejado viver. E as lindas meninas podem ter sido salvas de algo pior que a morte nas mãos daqueles monstros horríveis. Meu coração está com você”.

O rei George V, porém, conseguiu resgatar sua tia, a imperatriz-viúva Maria Feodorovna, suas primas, as grã-duquesas Xenia e Olga, bem como os filhos delas. Anos depois, Mary mandou colocar um retrato de Alexandra em seu escritório particular no Palácio de Buckingham e usou luto fechado por meses após a confirmação das mortes. Quando o rei completou seu Jubileu de Prata, em 1935, ele declarou publicamente sobre a rainha Mary: “devo mais a ela do que consigo expressar”.

Não havia rivalidade. Havia duas mulheres presas ao dever, à tradição e às decisões de homens. Uma morreu fuzilada num porão em Ecaterimburgo. A outra viveu para ver o mundo desabar e precisou fingir que estava tudo bem.

Referências Bibliográficas:

EDWARDS, Anne. Matriarch: Queen Mary and the House of Windsor. London, UK: Rowman & Littlefield Publishers, 2014.

KING, Greg. La última emperatriz de Rusia: vida y época de Alejandra Feodorovna. Tradução de Aníbal Leal. Buenos Aires, Argentina: Javier Vergara Editor, 1996.

MASSIE, Robert K. Nicolau e Alexandra: o relato clássico da queda dos Romanov. Tradução de Angela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

POPE-HENNESSY, James. The Quest for Queen Mary. Editado por Hugo Vickers. UK: Zuleika, 2019.

POPE-HENNESSY, James. Queen Mary: 1867-1953. London, UK: George Allen and Unwin Limited, 1959.

RAPPAPORT, Helen. As irmãs Romanov: a vida das filhas do último tsar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016.

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