Duas Rainhas, um destino: paralelos entre Elizabeth I e Elizabeth II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Na história da Inglaterra, poucos monarcas se comparam à rainha Elizabeth I, que reinou entre 1558 e 1603, e sua homônima, Elizabeth II, que usou a coroa entre 1952 e 2022. Ao lado da rainha Vitória, essas soberanas ajudaram a definir o sentimento de nação e pertencimento, em períodos de rápidas mudanças e transformações no panorama geopolítico. Além disso, existem muitos paralelos entre a monarca do século XVI e sua sucessora no século XX.

Tanto Elizabeth I quanto Elizabeth II descendiam do rei Henry VII, fundador da Dinastia Tudor, que surgiu vitoriosa com o término da Guerra das Duas Rosas, em 1485. 432 anos depois, o avô de Elizabeth II, o rei George V, também fundou uma Casa Real, mudando o nome da Dinastia de Saxe-Coburgo-Gota para Windsor, a partir das cinzas da Primeira Guerra Mundial. Seu objetivo era aproximar mais a monarquia dos seus súditos. Os Tudor permaneceram no trono por 118 anos, enquanto os Windsor possuem 109 de tradição. Enquanto os primeiros governavam de fato, os segundos apenas reinam, devido à Revolução Parlamentar ocorrida no século XVII.

Não se esperava que nenhuma das duas rainhas herdasse o trono, já que elas vinham em terceiro lugar na Linha de Sucessão. O rei Henry VII tinha um filho mais velho, Arthur, príncipe de Gales, que morreu em 1502, abrindo caminho para o suplente, Henry VIII. Já o filho mais velho de George V era David, príncipe de Gales, que chegou a ascender ao trono após a morte de seu pai, em 1936, adotando o nome de Edward VIII. Seu reinado, porém, foi curto, pois com menos de um ano ele abdicou, passando a coroa para seu irmão, o rei George VI, pai de Elizabeth II.

De acordo com o Ato de Sucessão de 1543, Elizabeth I era a terceira herdeira do rei Henry VIII, logo atrás de seus irmãos, o rei Edward VI e a rainha Mary I. Os dois morreram sem descendentes, fazendo com que Elizabeth, aos 25 anos em 1558, se tornasse soberana. Algo parecido ocorreu em 6 de fevereiro de 1952, quando o rei George VI faleceu. Na ocasião, sua filha e herdeira estava no Quênia, em visita diplomática. Ela embarcou como princesa no dia 31 de janeiro de 1952 e regressou à Inglaterra como rainha reinante, também com a idade de 25 anos.

Na ocasião, o primeiro-ministro Winston Churchill saudou a sucessão da nova rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha com as seguintes palavras: “Famosos foram os reinados das nossas rainhas. Alguns dos maiores períodos da nossa história transcorreram sob seus cetros. Agora nós temos uma segunda rainha Elizabeth, que também ascendeu ao trono aos 25 anos, e nossos pensamentos são transportados de volta há 400 anos para a magnífica figura que governou e, de muitas formas, corporificou e inspirou a grandeza e genialidade da era elisabetana”.

Elizabeth II, porém, deixou claro que não queria ser comparada com a sua antepassada Tudor que, nas suas palavras, “governou como déspota e nunca se casou”. Elizabeth I era filha de Anne Boleyn, segunda esposa do rei Henry VIII. Em quase 45 anos de reinado, ela jamais escolheu um consorte e morreu sem filhos. Já Elizabeth II era casada com o príncipe Philip da Grécia e da Dinamarca e teve quatro filhos com ele, entre os quais uma filha, a quem deu o nome de Anne, atual Princesa Real.

Elizabeth I mandou executar sua prima, Mary Stuart, rainha deposta da Escócia e pretendente ao trono na Inglaterra, em 1587, por supostamente se envolver em conspirações para assassinar a soberana inglesa. Quando Elizabeth morreu sem filhos, em 24 de março de 1603, a coroa passou para o filho de Mary, o rei James VI da Escócia, que se tornou James I da Inglaterra. Elizabeth II descendia diretamente de James através da neta dele, Sophie de Hanôver. Em 1707, o Ato de União deu origem ao Reino Unido da Grã-Bretanha. Ele foi modificado em 1922 para Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, depois que a Irlanda do Sul se tornou uma República.

Com efeito, Elizabeth I governava, ao passo que os poderes de Elizabeth II eram apenas representativos. A primeira jamais saiu da Inglaterra, enquanto a segunda foi a monarca que fez mais viagens internacionais. Foi durante o reinado da soberana do século XVI que o Império inglês começou, com suas primeiras colônias na América do Norte. Já Elizabeth II assistiu ao desmonte desse grandioso império, que deu lugar à Comunidade Britânica de Nações. Elizabeth I morreu com 69 anos, enquanto Elizabeth II com 96, em 8 de setembro de 2022.

Luva que Elizabeth I utilizou na sua coroação (esquerda), em 15 de janeiro de 1559, ao lado da luva utilizada por Elizabeth II quatro séculos depois. A peça apresenta um padrão delicado, no qual se pode distinguir uma esfera armilar, símbolo do conhecimento, bordada em fios prateados. Reparem também no comprimento dos dedos da primeira rainha, que eram muito longos. Elizabeth I tinha mais de 1,70 m, sendo considerada uma mulher muito alta para a época.

Apesar disso, durante seu reinado de 70 anos (o mais longo da história britânica), Elizabeth II fez largo uso da imagem de sua homônima no século XVI, inaugurando monumentos em sua homenagem e, inclusive, plantando um carvalho no mesmo lugar da antiga árvore, debaixo da qual Elizabeth I soube que era rainha, em 1558. Vários filmes e séries sobre Elizabeth I também foram produzidos durante o reinado de Elizabeth II, estabelecendo assim uma conexão entre as duas eras elisabetanas, como dois períodos de apogeu da monarquia e de identificação da soberana com seu povo.

Referências Bibliográficas:

DUNN, Jane: Elizabeth & Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

HARDMAN, Robert. Isabel II: vida de una reina, 1926-2022. Barcelona: Editorial Planeta, 2022.

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KELLEY, Kitty. Os Windsor: radiografia da família real britânica. Tradução de Lina Marques et. al. Sintra, Portugal: Editorial Inquérito, 1997.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

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STARKEY, David. Elizabeth: apprenticeship. London: Vintage, 2001.

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