Maria de Saxe-Coburgo-Gota: a rainha mais influente da história da Romênia – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A virada do século XIX para o XX foi bastante complicada para a família real romena e seus parentes na Europa. Com a morte da rainha Vitória, em 1901, os grandes impérios globais comandados por seus netos começaram a brigar entre si, arrastando o mundo para a Primeira Grande Guerra, em 1914. Poucos meses após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria, em Sarejevo (no dia 28 de junho), Fernando e Maria foram aclamados rei e rainha consorte da Romênia na Câmara dos Deputados, em 11 de outubro. O velho Carol I, favorável à entrada no conflito ao lado da Alemanha, havia falecido no dia anterior. Como a “paz do mundo foi despedaçada”, conforme descreveu a própria Maria, ela então convenceu seu marido a prestar apoio às potências da Tríplice Entente. Sua participação ativa nos assuntos de Estado fez com que o historiador A. L. Easterman concluísse que não era Fernando quem de fato governava, e sim a sua esposa. A política de neutralidade, antes desejada pelo Conselho da Coroa, já não era mais uma opção, uma vez que isso não significava que o reino estaria imune às bombas da Guerra. Nas palavras da princesa Ana Maria Callimachi, amiga da soberana: “como princesa herdeira, [Maria] tinha sido popular; como rainha, era mais amada”.

Fotografia oficial de Maria de Saxe-Coburgo-Gota como rainha da Romênia.

Em 17 de agosto de 1916, o rei Fernando assinou um tratado com a Entente e, no dia 27 do mesmo mês, o país declarou formalmente guerra contra o império Áustro-Húngaro. Algumas mudanças na corte tiveram que ser feitas em decorrência disso: todos os criados alemães que trabalhavam no Palácio de Cotroceni foram demitidos, a menos que decidissem permanecer no emprego na condição de “prisioneiros”. Seguindo o exemplo de suas primas casadas com outros monarcas europeus, Maria vestiu os hábitos da Cruz Vermelha e prestou serviço como enfermeira, atendendo soldados feridos em hospitais de campanha, muitos dos quais haviam lutado na sangrenta Batalha de Turtucaia. Infelizmente, em meio às atrocidades cometidas durante a guerra, o rei e a rainha também experimentaram a dor da perda: seu filho de três anos, Mircea, morreu de febre tifoide, em 2 de novembro de 1916. Por volta dessa época, tropas austríacas conseguiram invadir Bucareste, fazendo com que a corte se instalasse na cidade de Iaşi, capital da região da Moldávia. Enquanto permanecia de pé, a Romênia servia como amparo para os russos, que estavam sofrendo sérias derrotas na frente oriental de combate contra os alemães. Essa situação mudou drasticamente com a Revolução do ano seguinte.

Em fevereiro de 1917, o regime czarista foi derrubado. Os Romanov, que haviam governado o vasto império russo por mais de 300 anos, estavam destituídos do poder. Para Maria, cuja mãe era uma grã-duquesa, a notícia da prisão da família imperial foi um grande choque. Era comum que as duas famílias passassem os verões juntas, na Crimeia. A rainha era prima em primeiro grau tanto de Nicolau II, através de sua mãe, quanto de Alexandra Feodorovna, por meio de seu pai. Por sua vez, Maria gostava bastante do imperador: “Algo parecia derreter no coração quando alguém olhava para ele”, escreveu em suas Memórias. Contudo, ela não podia deixar de responsabilizá-lo pelo que aconteceu com o país. Para a monarca, Nicolau era inapto para o exercício do poder e a czarina, com sua devoção cega por Rasputin, fora a verdadeira responsável pelo declínio da dinastia Romanov. Com a saída dos russos do conflito após a vitória dos bolcheviques, em outubro, isso significava que a Romênia estava cercada por inimigos em todos os lados e sem conseguir contar com o auxílio de seus aliados. Para desgosto da rainha Maria, o rei Fernando fora obrigado a aceitar os termos humilhantes do Tratado de Bucareste, pelo qual a Romênia se rendia aos seus inimigos.

Tendo se oposto veementemente ao Tratado, que violava a soberania nacional, foi dito que Maria era “verdadeiramente o único homem na Romênia”. Um pensamento sexista, mas que traduz o patriotismo da rainha e sua vontade de permanecer lutando. Não à toa, o conde de Saint-Aulaire, ministro francês, disse que Maria “abraçou a guerra como outra pessoa pode abraçar a religião”. A situação mudou favoravelmente após a entrado dos Estados Unidos no conflito ao lado da Entende, fazendo com que a Alemanha capitulasse em 11 de novembro de 1918. Graças à persistência de Maria junto a Fernando, a Romênia teve um assento garantido entre os vencedores na Conferência de Paz, em Paris. As regiões da Bessarábia e da Bucovina voltaram a fazer parte do território romeno e uma assembleia, realizada no dia 1 de dezembro, ratificou a união da Transilvânia com o Reino Antigo. A ideia de uma “Grande Romênia”, tão acalentada desde o século X, passou a tomar corpo. “O sonho de România Mare parece estar se tornando realidade… é tudo tão incrível que mal me atrevo a acreditar”, escreveu a rainha. Ela e Fernando retornaram para Bucareste em clima de grande celebração: “um dia de ‘entusiasmo selvagem e delirante’, com as bandas caindo e as tropas marchando e o povo aplaudindo”.

Retrato da rainha Maria da Romênia, pintado em 1924 por Philip de László.

Nesse período, a rainha contraiu gripe espanhola, uma epidemia que estava rapidamente se espalhando por todo o mundo, deixando um rastro de pessoas mortas. No seu diário, ela se descreveu como “um ser mudado, miserável e fraco, levado à beira do desespero por tanta dor de cabeça e terrível doença que me tirou minhas forças”. Uma vez recuperada, partiu com seu marido para a Conferência de Paris, onde foi aclamada pelo povo francês. Em seguida, atravessou o Canal da Mancha em direção à Inglaterra, sua terra Natal. A convite de seu primo, o rei George V e da rainha Mary de Teck, o casal de monarcas da Romênia se instalou no Palácio de Buckingham. “Foi uma tremenda emoção chegar a Londres e ser recebida na estação por George e May”, escreveu Maria. Fazia muito tempo que a soberana não pisava em território britânico, onde pôde rever seus parentes, visitar o túmulo de sua avó e passear pelos locais de sua infância. Infelizmente, a Grande Guerra trouxe perdas irreparáveis para a família real: Nicolau II da Rússia, Alexandra Feodorovna e seus filhos foram assassinados em julho de 1918, incluindo a grã-duquesa Elizabeth, nascida princesa de Hesse. O kaiser Guilherme II, por sua vez, teve mais sorte do que seus parentes destronados. Embora destituído do poder, ele conseguiu manter a vida e suas propriedades da Alemanha.

Em 1922, Fernando e Maria foram oficialmente coroados de acordo com os ritos da Igreja Ortodoxa, na “Catedral da Coroação”, construída na cidade de Alba Iulia especialmente para comemorar a união da Transilvânia com a Romênia. Todas as filhas dos soberanos estavam presentes na cerimônia: as princesas Isabel, Maria “Mignon” e Ileana. Por meio dos esforços dinásticos da mãe, elas haviam feito casamentos com outras famílias reais do continente: Isabel se tornou rainha da Grécia, graças ao seu matrimônio com Jorge II; Mignon se tornou esposa do rei Alexandre I da Iugoslávia; já Ileana se uniria ao arquiduque Antônio Carlos da Áustria-Toscana. Para felicidade de Maria, seu filho mais velho, o príncipe herdeiro Carol, havia se separado de sua primeira esposa, Ioana Maria Valentina “Zizi” Lambrino (com quem teve um filho) e se unido em segundas núpcias com a prima, a princesa Helena da Grécia e da Dinamarca. Todos, incluindo o príncipe Nicolau, estavam presentes quando sua mãe entrou ricamente paramentada na Catedral, usando uma magnífica coroa em estilo Art Nouveau, feita pela joalheira parisiense Falize. A peça foi inspirada na coroa da rainha Milica Despina e custou 65.000 francos, pagos pelo Estado por meio de uma lei especial.

Nos próximos anos, o rei e a rainha partiram em turnê por vários países. Visitaram novamente a França, passando também pela Suíça, Bélgica e pelo Reino Unido. Uma vez na Inglaterra, o rei George V disse que “além dos objetivos comuns, que perseguimos, há outros e queridos laços entre nós. Sua Majestade a Rainha, minha querida prima, é britânica”. De sua parte, Maria declarou que estar de volta à sua terra natal foi “um grande dia para mim, de sentimentos doces, felizes e ao mesmo tempo gloriosas emoções de voltar como rainha ao meu próprio país, para ser recebida oficialmente, com toda honra e entusiasmo”. Ela sentiu “seu coração inchar de orgulho e satisfação”, enquanto lágrimas escorriam por seus olhos e as palavras eram caladas por um nó na garganta. Pouco depois, foi a vez de visitar a América do Norte, onde a soberana havia sido capa da revista Time, edição de 4 de agosto de 1924. Sua presença animou sobremaneira ao grupo das sufragistas, que enxergavam na rainha da Romênia um exemplo de força feminina: “uma mulher cuja inteligência havia arquitetado muitos golpes de Estado” e “que havia usado os dons dados a ela para promover todos os bons propósitos”. Sua passagem por Nova York, na companhia de seus filhos Nicolau e Ileana, havia sido o ponto mais alto da turnê, provocando na rainha o desejo de retornar em breve.

Edição de 4 de agosto de 1924 da revista americana Time, como a rainha Maria da Romênia na capa.

Enquanto a soberana estava em turnê no exterior, em 1927 a saúde do rei Fernando começou a dar fortes sinais de fraqueza. Para sua grande aflição, o príncipe herdeiro, Carol, causara uma crise dinástica ao recusar publicamente seus direitos ao trono, deixando seu filho Mircea como sucessor presuntivo da Coroa. A ausência de um monarca adulto quando o tempo chegasse constituia um medo muito grande, uma vez que os territórios conquistados pela Romênia após a Primeira Guerra poderiam facilmente ser anexados pelos países vizinhos. Quando a rainha Maria finalmente chegou da América, a morte de seu marido era iminente. Fernando padecia de câncer no intestino e, em mais de uma ocasião, esteve à beira de perder a vida. Finalmente, no dia 20 de julho, ele deu seu último suspiro nos braços da esposa. “Estou tão cansado’ foram suas últimas palavras e quando ele ficou tão quieto em meus braços uma hora depois, eu sabia que deveria agradecer a Deus por ele, pelo menos. Isso foi descanso mesmo”, escreveu a rainha sobre a partida de seu companheiro por 26 anos. Imediatamente, seu neto, Mircea, o sucedeu no trono. Uma regência foi então formada em nome no pequeno rei, conforme previsto no Ato de Sucessão.

A rainha, entretanto, se recusou a fazer parte do Conselho da Regência. Por essa razão, sua reputação sofreu um abalo entre o povo. A princesa Ileana, inclusive, acusou a mãe de estar arquitetando um golpe para tomar o poder. Na verdade, Maria ansiava desesperadamente pelo retorno de seu primogênito, Carol, que vivia no exterior com sua amante, Magda Lupescu. Em 1928, ele conseguiu anular seu casamento com a princesa Helena, alegando incompatibilidades entre ambos. Dois anos depois, ele chegou a Bucareste, onde declarou diante do Parlamento que o Ato de Sucessão de 1927 estava anulado. A partir de então, ele foi reconhecido como rei Carol II da Romênia. Aliviada pelo regresso de seu filho, a rainha-mãe o aconselhou a retornar para a princesa Helena, fazendo dela sua rainha consorte. Carol, por sua vez, refutou deliberadamente tal ideia e tratou de afastar Maria de qualquer papel significativo em seu reinado. Desolada pela rejeição do filho, a monarca começou a se dedicar à escrita de suas Memórias, que causaram verdadeiro alvoroço na época. A monarca havia seguido o exemplo de sua avó e de sua tia Helena do Reino Unido, dedicando-se com afinco à escrita de livros. No total, ela publicou 34 títulos em prosa e poesia, entre eles As Máscaras.

Publicado em Portugal pela editora Guimarães, As Máscaras apresenta na sua introdução uma nota dos editores, que resume perfeitamente o prestígio que a soberana desfrutava em seu tempo de vida:

A rainha Maria da Romênia é, sem dúvida, a mais popular soberana europeia contemporânea. A simpatia que o seu nome goza no mundo inteiro vem do sentido humano, despretensioso, que ela dá à sua vida, desprezando os preconceitos inúteis de que se cercam a maioria dos outros reis. Descendente duma família de artistas, ela própria é uma grande artista, uma notável escritora, como o demonstram os seus romances e livros de Memórias (1942, p. 4).

Contudo, foi com a publicação de The Story of My Life, em 1934, que a soberana causou enorme rebuliço entre a família real. Afinal, a obra expunha o ponto de vista de Maria sobre os principais nomes e acontecimentos que marcaram sua vida até aquela fase.

Pratos comemorativos da coroação de Fernando e Maria, em 1922. As imagens foram pintadas por Philip Alexius de László.

 

Ao editar suas Memórias, a rainha inaugurava no século XX um estilo literário que ganharia muitos adeptos entre outros membros da realeza, como Edward VIII em Vida de um rei e Diana, princesa de Gales, com o lançamento do livro bombástico escrito por Andrew Morton, em 1992. The Story of My Life rendeu um comentário elogioso de ninguém menos que Virgínia Woolf. A célebre autora de Orlando e Mrs. Dalloway escreveu o seguinte:

Graças à sua caneta, ela conquistou a liberdade. Ela não é mais uma rainha em uma gaiola. Ela percorre o mundo, livre como qualquer outro ser humano para rir, repreender, dizer o que quiser […]. Mas quais serão as consequências se essa familiaridade entre eles e nós aumentar? Podemos continuar fazendo reverências e reverências para pessoas que são iguais à gente?

Em outras palavras, Woolf dizia que, com todos os mistérios da realeza desvelados pela publicação (incluindo seus rituais, a vida doméstica no Palácio e as relações tensas com outras casas dinásticas), como então um regime como a monarquia, que se mantém por meio da força da tradição, poderia sobreviver? Sem dúvidas, o lançamento de The Story of My Life foi uma catástrofe para o reinado de Carol II.

A última vez em que mãe e filho foram vistos publicamente juntos foi por ocasião do Dia da Independência, em 1933. Na época, o rei, cuja popularidade estava em baixa, temia uma tentativa de assassinato por membros da resistência e usou sua mãe como uma espécie de escudo contra qualquer atentado. Enciumado pelo carinho que os romenos demonstraram pela rainha-mãe, Carol quis expulsá-la do país, algo que Maria não estava disposta a fazer. Ela partiu para sua propriedade, o Castelo de Bran, localizado no sul da Transilvânia e depois para seu palácio em Balchik. Também visitou sua filha Ileana na Áustria, que estava proibida de pisar em solo romeno por seu irmão, e passou uma temporada na companhia de “Mignon” e de seu genro Alexandre na Iugoslávia. Em 1937, porém, as forças da rainha começaram a se esvair de seu idoso corpo. Ela foi diagnosticada com cirrose hepática, embora nunca tenha mantido o hábito de tomar bebida alcoólica. Na busca por recuperação, ela viajou para clima ensolarado da Itália, onde se encontrou com seu filho, o príncipe Nicolau. Em seguida, partiu para Dresden, mas não obteve melhora em seu quadro clínico. Sem esperanças de viver por mais tempo, ela pediu para voltar para a Romênia. O rei Carol II, porém, lhe recusou uma passagem de avião. Tampouco ela aceitou um voo médico oferecido por Adolf Hitler. Em vez disso, optou por seguir de trem.

Retrato de Maria de Saxe-Coburgo-Gota, rainha-viúva da Romênia, pintado por Philip László dois anos antes da morte da soberana, ocorrida em 1938.

Dois anos antes da morte da soberana, Philip László pintara o retrato final da monarca. Na tela, a modelo usa um vestido preto e uma Tiara Kokoshnik, muito valorizada na corte dos Romanov, além de colares de pérolas naturais. Maria faleceu aos 62 anos, em 18 de julho de 1938, no Castelo de Pelişor, diante da presença de seus filhos mais velhos, Carol e Isabel, e de seu neto, Mircea. O corpo da monarca foi levado dois dias depois para a sala de visitas branca do Palácio Cotroceni, em Bucareste. Um magnífico funeral de Estado foi organizado para aquela que foi chamada de “Mãe dos Feridos” e “Rainha Soldado”. Três dias de luto nacional foram decretados, para que o povo pudesse se despedir apropriadamente de Maria. Depois disso, o cortejo fúnebre seguiu até a estação de trem, levando o caixão coberto de flores em direção ao Mosteiro Curtea de Argeş, onde foi sepultado. De acordo com o desejo da própria rainha, seu coração foi sepultado na capela de Stella Maris, em Balchik. Mas, com a Segunda Guerra Mundial, a região passou para a Bulgária. Então, a princesa Ileana mandou construir uma nova capela para abrigar o coração da mãe, no Castelo de Bran. Maria de Saxe-Coburgo-Gota foi a última rainha consorte da Romênia e uma entre três das cinco netas da rainha Vitória que se casaram com reis e mantiveram sua posição após a Primeira Guerra Mundial.

Referências Bibliográficas:

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

CADBURY, Deborah. Queen Victoria’s Matchmarking: the royal marriages that shaped Europe. New York: Public Affairs, 2017.

CARTER, Miranda. Os três imperadores: três primos, três impérios e o caminho para a Primeira Guerra Mundial. Tradução de Manuel Santos Marques. Alfragide, Portugal: Texto Editores, 2010.

GILL, Gillian. We two: Victoria and Albert: rulers, partners, rivals. New York: Ballantine Books, 2009.

PACKARD, Jerrold M. Victoria’s daughters. New York: St. Martin Press, 1998.

SAXE-COBURGO-GOTA, Maria de. As Máscaras. Portugal: Guimarães, 1942.

SAXE-COBURGO-GOTA, Maria de. The Story of my Life. United States of America: Independently published, 2019.

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