Requinte até na hora de dormir: a suntuosidade do quarto de Maria Antonieta, última rainha da França!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Na madrugada de 6 de outubro de 1789, um gendarme ensanguentado irrompia pela porta da divisão dos guardas, direto para a câmara de Maria Antonieta. “Salvai a rainha. Estão vindo matá-la”, dizia o oficial com a voz embargada. Imediatamente, as camareiras trataram de arrumar sua senhora, cobrir sua chemise com um manto e então passaram por uma escadaria secreta, que dava acesso a um corredor que levava ao quarto do rei. Pouco depois, uma turba de mercadoras, peixeiras e lavadeiras entrava no ambiente vazio e esfaqueava o rico colchão de plumas da cama, rasgava os cortinados e arruinava o rico dossel do leito. “Queremos o sangue e as tripas da rainha”, bradavam elas, enquanto a soberana batia desesperadamente nas portas do quarto de seu marido, temendo pela própria vida. Depois daquela terrível manhã do dia 6, Maria Antonieta nunca mais entraria em sua câmara para os cerimoniais do Lever e do Coucher. Hoje em dia, talvez seja difícil para um visitante do requintado Palácio de Versalhes imaginar uma cena como essa, principalmente após a extensa restauração pela qual os aposentos da rainha passou.

A imponente cama com dossel no quarto em que Maria Antonieta dormia. A rainha redecorava com frequência seus apartamentos em Versalhes, para se adequar ao seu gosto extravagante. Uma porta secreta ao lado da cama dá acesso ao seu aposento privado, onde ela se isolava com um pequeno grupo de amigas. O espaço também serve como passagem para os apartamentos do rei, por meio de para uma escadaria secreta e um corredor. Foto de David Leventi.

Uma visão mais completa do quarto de Maria Antonieta, após a restauração. Todos os dias, a soberana se levantava e se vestia na frente da corte, numa cerimônia conhecida na época como Lever.

Os apartamentos de Maria Antonieta em Versalhes foram projetados originalmente no século XVII para a rainha Maria Teresa da Espanha, consorte do rei Luís XIV. O conjunto de aposentos é composto por quatro cômodos: o quarto de dormir, a câmara dos nobres, a antecâmara da mesa real e a divisão dos guardas. Em seu tempo de vida, Antonieta fez algumas modificações na decoração e na estrutura dos quartos, com a ajuda do seu arquiteto, Richard Mique, para deixá-los mais modernos e de acordo com seu gosto. A esposa de Luís XVI tinha fama de ser uma das mulheres mais extravagantes da Europa e seus aposentos refletiam não apenas o seu estilo de vida, como também a sua posição social. Quase 220 anos após a sua morte na guilhotina, em 1793, foram gastos mais de 500 milhões de euros (o maior investimento do Palácio desde os tempos do Rei Sol), para deixar os quartos o mais próximo possível da época em que Antonieta entretinha seu círculo privado e era arrumada, penteada e empoada “na frente de todo o mundo” (como certa vez se expressou em carta para sua mãe, a imperatriz Maria Teresa da Áustria).

Obviamente, o quarto de dormir era o coração do conjunto de apartamentos da rainha e era onde Maria Antonieta passava a maior parte do seu tempo, quando não estava no Petit Trianon ou cumprindo suas funções oficiais na corte. Naquele espaço, nasceram nada menos que vinte príncipes e princesas da França, entre os séculos XVII e XVIII, e foi onde faleceram as rainhas Maria Teresa, em 1683, e Maria Leszczynska, em 1768. É possível encontrar referência a essas duas soberanas na decoração dos cômodos, embora o estilo de Maria Antonieta prevaleça em quase todos os cantos. Quando ela chegou na França para se casar com o delfim Luís Augusto, em 1770, os apartamentos passavam então por uma reforma, pensada especialmente para recebê-la. Como a esposa de Luís XV havia morrido dois anos antes, a jovem Antonieta herdou não apenas os seus ricos aposentos, como também a sua vasta coleção de joias e de obras de arte. Imagens do período foram utilizadas durante o processo de restauração, para deixar o ambiente bastante parecido com a atmosfera do rococó.

A restauração do quarto de Maria Antonieta foi feita de acordo com documentos originais do século XVIII. Em destaque, um busto da soberana, virado de frente para sua cama.

Infelizmente, boa parte da mobilha do quarto da rainha foi saqueada durante os anos da Revolução Francesa. A maioria acabou parando em outros palácios espalhados pela Europa e, de vez em quando, alguma casa de leilões anuncia a venda de um objeto que outrora pertencera àquele espaço. Na câmara dos nobres, por exemplo, a rainha Maria Leszczynska costumava passar tardes à fio, entretida com as fofocas do seus círculo de amigas, rivalizando com a imponente Madame de Pompadour. Maria Antonieta, por sua vez, reformou a sala usada por sua antecessora e a deixou mais alegre, com móveis novos escolhidos à dedo. Ali, a esposa de Luís XVI costumava confabular com suas amigas, a princesa de Lamballe e a duquesa de Polignac. Mal sabiam as três que a imprensa do período vendia histórias escabrosas sobre o círculo de companheiras supostamente lésbicas da rainha, que satisfaziam seus desejos sexuais. A curiosidade em torno dos ambientes ocupados por Maria Antonieta gerou falácias que perduram até os dias de hoje, como a polêmica frase dos brioches.

A restauração dos apartamentos de Maria Antonieta custou mais de 500 milhões de euros (o maior investimento do Palácio de Versalhes, desde o tempo do Rei Sol).

Já a antecâmara da mesa real, era onde a soberana tomava as suas refeições, apesar de tradicionalmente o rei e a rainha comerem juntos, na sala da mesa real (localizada no prédio ao lado), diante da presença dos nobres que viviam no Palácio. Essa era uma parte importante do cerimonial da corte de Versalhes. Apenas a família real e os príncipes de sangue tinham o direito de se sentar na mesa junto com o casal de monarcas, enquanto estes eram servidos por condes, marqueses e barões. O protocolo foi uma forma que Luís XIV havia encontrado anos antes para controlar a nobreza insubordinada, de acordo com a hierarquia dos títulos. Quando Maria Antonieta não tomava o desjejum na mesa real, ela então usava sua própria antecâmara. Enquanto a rainha comia, conversava com suas amigas e dormia, um grupo de gendarmes ficava sempre à postos, dia e noite, na divisão dos guardas, para protegê-la. Talvez este cômodo, que dá acesso ao quarto de dormir da soberana, seja o único que ainda mantenha sua decoração original do século XVII.

Nestes espaços, Maria Antonieta costumava entreter um grupo seleto de amizades, reunido na câmara dos nobres.

Uma curiosidade a respeito da cama da rainha, onde ela dera à luz seus quatro filhos com Luís XVI: ela foi refeita, seguindo a orientação de documentos antigos. Não se trata, portanto, de uma peça 100% original. Após a Revolução Francesa, o Palácio de Versalhes ficou em situação de completo abandono. Dessa forma, muita coisa se perdeu com o tempo, incluindo a rica tapeçaria e os ornamentos da cama com dossel da rainha. A primeira restauração do quarto de Maria Antonieta se deu durante o reinado de Luís Felipe de Orléans. Após a implantação da Terceira República, em 1870, equipes de restauradores continuaram a mexer no ambiente, alterando muito de sua aparência original. Apenas em 2019 os apartamentos de Antonieta foram reabertos ao público, recuperados com materiais similares aos originais da época. Apesar disso, seu quarto não pode ser considerado o mais suntuoso da Europa, como pensavam as mercadoras que o destruíram no dia 6 de outubro de 1789. Abaixo, relacionamos alguns exemplos que podem te surpreender. As imagens são do fotógrafo David Leventi, para a revista Town&Country!

Quarto do rei Ludwig II da Baviera, em Herrenchiemsee, Herreninsel, Alemanha. O monarca construiu castelos tão extravagantes, incluindo este, feito com base na arquitetura de Versalhes. A obra ficou conhecida com o “Rei dos Conto de Fadas”. Mas, seus hábitos de gastos falidos (entre outras excentricidades) lhe renderam um apelido mais duradouro: Rei Louco. Foto de David Leventi.

Quarto em Chatsworth House, Derbyshire, Inglaterra. No século XVIII, podemos dizer que o Lord Chamberlain eram os primeiros a passar a mão nos móveis de reis falecidos. Foi assim que o quarto duque de Devonshire acabou ficando com o beliche de damasco de George II, que teria morrido nele. Foto de David Leventi.

Robert Walpole não era um rei, mas como primeiro primeiro-ministro da Inglaterra ele se considerava merecedor de uma cama tão fabulosa para sua casa em Houghton Hall (Norfolk, Inglaterra). Só as guarnições de veludo e dourado custam R£ 1.200. Isso foi em 1732; hoje seriam mais de 300 mil. Foto de David Leventi.

Fontes:

MÁXIMA. A incrível remodelação dos aposentos de Marie Antoniette em Versalhes. 2019 – Acesso em 08 de abril de 2024.

TOWN&COUNTRY. Did Marie Antoinette Have the Best Bedroom in Europe? 2024 – Acesso em 08 de abril de 2024.

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