“Prisioneira de Luxo”: Mary Stuart recebia tratamento de rainha durante seu cativeiro inglês!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 1568, Mary Stuart conseguira fugir do castelo de Lochleven, no qual fora encarcerada pelos lordes confederados da Escócia, e cruzado a fronteira com o reino da Inglaterra em busca do auxílio de sua prima, a rainha Elizabeth I. No ano anterior, as forças de Mary e de seu terceiro marido, James Hepburn, IV conde de Bothwell, haviam sido derrotadas por uma aliança de facções insurgentes, lideradas pelo meio-irmão da monarca, o conde de Moray. Forçada a abdicar do trono em favor de seu filho de 1 ano, James, a rainha da Escócia, então com 26 anos de idade, encontrava-se numa posição muito perigosa. Se permanecesse em Lochleven, corria o risco de ser assassinada por algum de seus inimigos. A França, um país em que ela fora rainha consorte, também não era uma opção viável, devido aos conflitos religiosos entre sua família materna, os Guise, com os huguenotes (essas guerras de religião culminaram com o massacre de São Bartolomeu, quatro anos depois). Foi então para Elizabeth que Mary pediu proteção, na esperança de que juntas pudessem sufocar os rebeldes escoceses e restaurar a legítima rainha no trono. O que ela não sabia, porém, é que estava trocando um cativeiro por outro.

Mary Stuart foi forçada a abdicar do trono da Escócia, após ser derrotada por lordes rebeldes em 1567 (Fine Art Images/Heritage Images/Getty Images).

Uma vez na Inglaterra, Mary Stuart requisitou uma audiência com a rainha Elizabeth I. Porém, este pedido lhe foi negado. A menos que ficasse provada sua inocência no assassinato de seu segundo marido, Henry Stewart, Lorde Darnley, Mary não teria permissão de ver ou se aproximar da prima. Um julgamento foi arranjado e provas foram apresentadas. Dentre elas, as famosas “cartas do baú”, guardas dentro de um cofre de prata, nas quais Mary se dirigia a Bothwell em termos muito íntimos, mesmo sendo uma mulher casada. O conteúdo também demonstrava que ela tinha conhecimento de que algum atentado contra a vida de Darnley estava sendo tramado, mas que não desejava saber de maiores detalhes. Contudo, apenas cópias das missivas foram apresentadas no tribunal, com o texto possivelmente adulterado. Como o julgamento não chegou a um veredito favorável nem tampouco desfavorável para a ré, ela então recebeu permissão para permanecer na Inglaterra, sob a custódia da rainha, embora sem ser admitida em sua presença. Assim transcorreram os próximos 19 anos da vida de Mary Stuart, quando outras provas envolvendo seu nome numa conspiração para assassinar Elizabeth apareceram. Um segundo julgamento fora arranjado em 1586, do qual a trágica rainha da Escócia não escaparia com vida.

O relacionamento tenso entre Elizabeth e Mary continua fascinando muitas pessoas. Embora a história não registre nenhum encontro entre as duas, ambas mantiveram uma diligente correspondência, em que se tratavam como irmãs em vez de primas. Quando o nome da rainha da Escócia começou a ser usado em diversos esquemas contra a integridade e segurança da soberana inglesa, Mary Stuart deixou de ser uma protegida para se tornar em uma potencial inimiga da Coroa e, como tal, deveria ser cuidadosamente vigiada. Nas mãos dos inimigos de Elizabeth, Mary seria uma poderosa arma, devido aos seus inquestionáveis direitos sucessórios ao trono ocupado pela prima. Portanto, foi-lhe negada permissão para retornar à França (mesmo que os Valois não fizessem muito caso de sua presença por lá), ou de migrar para qualquer potência católica no continente, como a Espanha de Felipe II, principal ameaça contra o reino de Elizabeth. Por outro lado, se engana quem pensa que Mary foi tratada como uma prisioneira comum. Pelo contrário! A documentação comprova que a rainha da Inglaterra providenciou instalações, criadagem e refeições para Mary dignas de uma soberana ungida, embora destronada por seus próprios súditos. É o que podemos constatar a partir da leitura de documentos inéditos, preservados na Biblioteca Britânica.

Despesas de 1585 para Mary Stuart, rainha da Escócia, detalhando muitos artigos de luxo. Fotografia: 12174/Biblioteca Britânica.

Recentemente, a instituição recebeu uma série de manuscritos, contendo o detalhamento financeiro dos custos para manter a rainha deposta da Escócia. Os papeis, referentes à década de 1580, oferecem informações minuciosas sobre o que Mary consumia, entre outras regalias concedidas a ela enquanto esteve cativa na propriedade de Wingfield Manor, em Derbyshire e no castelo de Tutbury, em Staffordshire. Em entrevista ao site Observer, Andrea Clarke, curadora principal da biblioteca de manuscritos medievais e modernos, classificou o cativeiro de Mary como “prisão de luxo”. Segundo ela, os documentos recém-adquiridos “fornecem um instantâneo realmente colorido da existência de [Mary] na prisão. A comida listada é incrível, desde o básico – pão, manteiga, ovos – até uma enorme variedade de aves, peixes e carnes, alguns dos quais eu nunca tinha ouvido falar e me diverti procurando”. Clarke, que também foi curadora de uma recente exposição na Biblioteca Britânica, intitulada Elizabeth and Mary: Royal Cousins, Rival Queens, dedicou-se ao estudo das tensões no relacionamento entre as duas monarcas, que envolveu tramas de espionagem e traição, dentro de um contexto profundamente marcado por litígios religiosos entre católicos e protestantes, enquanto a Europa mergulhava em guerra civil.

Com efeito, nos rolos de pergaminhos, redigidos a punho por escribas profissionais, podemos observar os gastos com a manutenção de Mary, feitos entre dezembro de 1584 e fevereiro de 1585. Naquele período, ela havia sido transferida para a custódia de Sir Ralph Sadler. Conforme escreveu Andrea Clarke, “a correspondência oficial de Sadler para a mesma época revela a pressão que ele sofreu para pagar o preço o mais barato possível… As contas podem ter sido elaboradas precisamente para informar esse exercício de corte de custos”. Geralmente, o guardião da rainha escocesa arcava a partir de seu próprio bolso com as despesas pessoais de Mary e, em seguida, enviava um ofício para a Coroa, detalhando cada gasto. Muitos dos homens que ficaram responsáveis por hospedar Mary Stuart se endividaram bastante para manter a entourage da rainha, incluindo criadagem, damas de companhia e seus cavalos. Nem sempre, porém, o Tesouro Real os ressarcia da forma correta. A dieta de Mary durante esses anos de prisão incluía alimentos como carne de vaca, carneiro, vitela, javali e aves, assim como bacalhau, salmão, enguia e arenque temperado com açafrão, gengibre e noz-moscada; bebidas como vinho e cerveja. Laranjas, azeitonas, alcaparras, amêndoas e figos também estavam entre as suas delícias favoritas. As sobremesas incluíam marmelada, biscoitos de cominho e frutas conservadas em calda.

Os custos para manter Mary Stuart encarcerada representavam uma enorme soma. Eles incluíam não apenas suas despesas domésticas, como também salários de criados e damas de companhia e até tratamento veterinário para seus cavalos.

Não obstante, em cada um dos castelos e mansões para as quais Mary fora movida, seu dossel de Estado costumava ser erguido, como se ela ainda fosse uma rainha reinante. Este, por sua vez, só foi retirado no final de 1586, após sua condenação por alta traição contra a prima e então substituído pela própria monarca deposta por uma cruz, simbolizando sua devoção católica. Cada refeição feita por Mary e seu reduzido séquito incluía uma variedade de 16 pratos. Não à toa, ela adquiriu muito peso nos anos de cativeiro, uma vez que atividades físicas, como caminhadas e cavalgadas, nem sempre lhe eram permitidas. Apesar disso, Mary possuía seus próprios cavalos e as despesas para com os animais listam objetos como lanternas, alimentos como feno e até mesmo veterinários e medicamentos para seus cuidados. Já suas despesas domésticas, conforme se pode ler no manuscrito, incluíam “esteira para o alojamento da rainha” e sabão “para lavar a roupa de cama da rainha”, juntamente com os salários do pessoal responsável por “remendar, cromar e limpar as armaduras” e “armar e fazer as camas”. Porém, o texto não deixa margem para dúvidas acerca do estado de cativeiro da soberana: 40 soldados selecionados pela Coroa Inglesa eram pagos mensalmente para vigiar sua real prisioneira dia e noite, até a sua morte!

Fonte: The Guardian – Acesso em 08 de novembro de 2022.

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