O Refúgio dos Romanov: Palácio Alexandre é reaberto após anos de restauração!

O Palácio favorito do czar Nicolau II – o lar para a qual ele se retirou após sua abdicação ao trono – era uma das residências mais amadas pelos Romanov. Seus cômodos eram preenchidos com livros, arte e tesouros acumulados durante gerações pela família imperial russa. Agora, depois de anos de pesquisa e de um custoso trabalho de reconstrução nas suas câmaras privadas, o Palácio foi restaurado e aberto para visitação pública, desde fevereiro de 2022.

Para tanto, os curadores utilizaram como fonte fotografias antigas e pinturas, enquanto tentavam recriar a decoração do Palácio Alexandre de acordo com sua aparência original, simulando detalhes e objetos que foram dispersados ao longo dos anos e atualmente se encontram em exposição em museus e coleções privadas. O resultado do processo, por sua vez, oferece um olhar mais intimista dentro da vida cotidiana do czar Nicolau II, da imperatriz Alexandra Feodorovna e de seus cinco filhos: Olga, Tatiana, Maria, Anastásia e Alexei.

Usando fotografias antigas como fonte, curadores de museus conseguiram recriar os cômodos privados do czar Nicolau II e da imperatriz Alexandra Feodorovna no Palácio Alexandre.

A associação próxima do Palácio com os membros da última família de governantes da monarquia russa representou um dilema para os líderes da antiga União Soviética, uma vez que eles não pretendiam enaltecer um passado que havia sido violentamente rejeitado. Como consequência, a residência permaneceu abandonada – por uma curto período ela foi transformada em museu, assim como numa base de operações para o governo. Observe ao longo desse texto como sua sorte cresceu e decaiu ao longo do século passado.

Em 15 de março de 1917, depois de uma grande derrota para as forças militares germânicas, acompanhada da escassez de alimentos pelo país e de uma revolta aberta nos setores do exército imperial, o czar Nicolau II da Rússia abdicou do seu trono, pondo assim um fim aos 300 anos de governo da Dinastia Romanov. Ele assinou uma proclamação, aceitando o título de “Coronel” do Governo Provisório da Rússia e em seguida se retirou para o Palácio Alexandre, a bela mansão construída por Catarina II, a Grande, em 1792. Sua esposa, Alexandra Feodorovna, e os cinco filhos do casal já o aguardavam lá.

Situado a 15 milhas ao sul de São Petersburgo em Tsarskoe Selo, o antigo lar de veraneio oferecia uma simbólica distância física dos tumultos da cidade. Com efeito, Nicolau fez do Palácio sua principal residência exatamente por essa razão, logo depois dos catástrofes políticos de 1905, que culminaram com um chacina de milhares de pessoas às portas do Palácio de Inverno, episódio esse que ficou conhecido como “O Domingo Sangrento”. Membros das tropas imperiais atacaram e assassinaram multidões de pedintes, assim como de manifestantes.

Porém, o que antes era um agradável retiro para Nicolau acabou se transformando em uma prisão. Guardas armados com rifles vigiavam cada movimento da família imperial. O czar deposto tinha permissão apenas para manter um pequeno contato com o mundo lá fora para fazer suas atividades diárias, tais como caminhadas pela área do parque, que eram estritamente controladas. Em agosto daquele mesmo ano, ele e sua família foram movidos para a Sibéria e em seguida para os Montes Urais. Na madrugada de 17 de julho de 1918, eles foram executados juntamente com seus servos e atendentes.

Nicolau II sendo vigiado por guardas armados, depois de sua abdicação ao trono.

Com efeito, Nicolau e Alexandra adoravam viver no Palácio Alexandre e seu prédio, conforme dito anteriormente, estava intimamente associado com sua vida conjunta. A construção é circundada por uma área extensa na qual o casal costumava caminhar e fazer piqueniques com seus pequenos filhos. Eles plantavam jardins e entretinham seus amigos, longe dos olhares do público e de outros membros da corte imperial. Além disso, eles fizeram diversas mudanças em sua estrutura, como a instalação de fiação elétrica, a criação de quartos mais aconchegantes e menos formais, incluindo um decorado em estilo art nouveau bastante prático. Assim como as outras residências imperiais, o Palácio Alexandre também era um símbolo da soberania dos Romanov. Mas, por outro lado, também era um lar confortável para a família.

Outros membros da família imperial também adoravam o Palácio Alexandre. Catarina II, a Grande, encomendou sua construção em 1792 como um presente para seu neto mais velho, o futuro czar Alexandre I. Uma vez imperador de Todas as Rússias, Alexandre passou a propriedade para seu irmão e sucessor, o czar Nicolau I, que, por sua vez, comissionou várias reformas e redecorações, passando lá o máximo de tempo possível com sua família. Quando Nicolau ascendeu ao trono em 1825, a Palácio foi legado para uma sucessão de herdeiros do imperador. Um deles era o czar Alexandre III, cuja esposa, Maria Feodorovna, dera à luz ao herdeiro do casal naquele edifício, o futuro Nicolau II, em 1868.

Um vislumbre de como era o Palácio Alexandre, em 1839 (Heritage Images / Getty Images).

Depois da Revolução, o Palácio Alexandre ficou abandonado por um breve período após a partida da família imperial, até que foi convertido em um museu, orfanato e centro de recuperação para soldados convalescentes. Até a Segunda Guerra Mundial, sua estrutura permaneceu praticamente inalterada, quando os alemães se apoderaram dele na sua marcha para São Petersburgo. Os nazistas transformaram o Palácio em um quartel-general para seus oficiais, que saquearam a maioria das obras de arte e objetos pessoais que se encontravam no local. Alguns dos tesouros mais valiosos, porém, conseguiram ser retirados pelos soviéticos antes da ocupação pelas forças de Hitler. A carga preciosa fora enviada dentro de um vagão em direção à Sibéria. Outros itens, contudo, permaneceram escondidos dentro de um porão.

Com o término da Guerra, o Palácio Alexandre foi novamente transformado em um museu, mas por um curto período. Pouco depois, ele foi entregue para a Marinha Soviética, que o usou como sede da academia de 1950 até o início da década de 1990. Outras residências imperiais, como o imponente Palácio de Inverno e o Palácio Catarina, foram devidamente restauradas e transformadas em museus pelo governo soviético. Porém, o Palácio Alexandre permaneceu fechado para o público, principalmente por causa de sua associação com os últimos Romanov. Embora tivesse sobrevivido à Segunda Guerra, mantê-lo se tornou uma questão particularmente delicada para os líderes do país.

Depois da Revolução Russa, o Palácio Alexandre foi usado como Museu, Orfanato, Centro de Recuperação para soldados feridos e até como “Spa de Saúde), que oferecia bailes noturnos.

Durante anos, as autoridades soviéticas sustentaram a falácia de que não havia restado muito do legado dos Romanov que pudesse ser preservado no edifício. Segundo eles argumentaram, seus quartos tinham sido despojados de toda a mobilha e alas inteiras foram danificadas durante o conflito, tornando-as irreconhecíveis. Contudo, restauradores tanto de dentro quanto de fora do país pressionavam o governo para entrar no prédio e assim iniciar seu processo de reconstrução. Um deles, Bob Atchison, natural do Texas, nos Estados Unidos, fez desse projeto o objetivo principal de sua carreira.

No ano de 1975, ele voou até São Petersburgo e, conforme descreveu, “entrou clandestinamente no edifício”. Bob ficara encantado com o que vira: “Passei pelos guardas consegui imediatamente observar que vários detalhes arquitetônicos permaneceram intactos”. Conforme ele disse ao portal Town & Country, numa recente entrevista por telefonema: “Alguns dos quartos foram preservados ou cuidadosamente restaurados. Estava longe da perda total que os guias soviéticos contaram aos turistas ocidentais”.

Durante muitas ocasiões, Atchison retornou à cidade e conseguiu fazer amizade com Anatoly Mikailovich Kuchmov, o famoso curador que supervisionara o traslado da maioria dos objetos de valor dos palácios em São Petersburgo, antes dos ataques nazistas. Kuchmov gentilmente ofereceu a Atchison alguns álbuns de fotografias, que foram digitalizadas pelo restaurador e postumamente publicadas em um site criado e mantido por ele até hoje. “Num momento em que [as autoridades] diziam que o Palácio foi destruído e nada fora salvo. Tínhamos todas essas fotos de seus interiores que mostravam que realmente estava lá”.

Sala de Jogos do Palácio Alexandre devidamente restaurada!

Com o fim da União Soviética, o interesse em torno do Palácio ganhou novo fôlego, especialmente com o achado dos remanescente humanos da família imperial. Em 1996, o World Monuments Fund (Fundo Mundial de Monumentos) doou um valor de 150.000 dólares para ajudar na restauração do telhado do edifício. Outros doadores privados, como o próprio Atchison, fizeram contribuições para o processo de reparação e, dessa forma, pequenas partes do prédio, como o Salão de Retratos, a Sala de Desenho de Mármore e o Salão Semicircular, foram abertas ao público. Em 2014, o governo russo se comprometeu com uma enorme restauração, que fora concluída no verão de 2021.

O trabalho demandou anos de pesquisa meticulosa, feita por historiadores e curadores de várias parte do mundo. Tapetes, tapeçarias e gravuras foram que antes enfeitavam suas pareces foram recriadas à mão e novos pisos de madeira foram colocados para combinar com aquele que os pesquisadores podiam contemplar através das fotografias antigas da família. Se, durante o período soviético, a preocupação dos zeladores locais era evitar a associação do local com Nicolau II, os restauradores de hoje fizeram o caminho oposto, trazendo de volta à vida os detalhes de sua existência ali. “Eles fizeram um trabalho notável”, disse Bob Atchison. “Eu só queria que Kuchmov estivesse vivo para vê-lo”.

O trabalho de restauração, porém, continua. Agora, os curadores voltam sua atenção para os quartos de hóspedes e aqueles que eram ocupados pelos servos na ala oeste do prédio. Atualmente, o Palácio Alexandre faz parte dos conjunto arquitetônico do Museu e Patrimônio do Estado de Tsarskoe Selo, cujo site oferece um guia com calendário para agendamento de visitas.

Texto traduzido e revisado por Renato Drummond Tapioca Neto

Fonte: Town & Country – Acesso em 30 de agosto de 2022.

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