Elas fizeram história! – 10 mulheres que tomaram nas mãos as rédeas do próprio destino

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A partir da década de 1960, com a ebulição dos movimentos sociais, as mulheres se tornaram sujeitos de estudo para as ciências sociais. Silenciadas durante séculos por uma história escrita do ponto de vista masculino, pesquisadoras de todas as partes do mundo passaram a se dedicar com afinco ao estudo das vidas de suas ancestrais, apresentando assim uma versão diferente da narrativa oficial que era impressa nos livros escolares. A despeito do apego a uma visão mais tradicionalista do tempo vivido, hoje não se pode negar a importância que as mulheres tiveram e continuam exercendo nas mais diversificadas áreas. Sejam rainhas, princesas, pintoras, escritoras, atrizes, plebeias ou negras escravizadas, elas se destacaram no mundo dos negócios, na política, nas artes, lideraram revoltas contra o sistema colonial e assim construíram sua própria trajetória. Mulheres como Eufrásia Teixeira Leite, a princesa Isabel de Orléans e Bragança, a atriz Lily Elsie, a pintora Catherine Duchemin ou a escravizada Mary Thomas, entre outras, lutaram contra as estruturas patriarcais da sociedade e conseguiram deixar seu nome escrito no tempo através de seus feitos e obras. Sendo assim, essa matéria apresenta 10 perfis de mulheres que tomaram nas mãos as rédeas do próprio destino!

EUFRÁSIA TEIXEIRA LEITE

Eufrásia Teixeira Leite. Óleo de Lawlis Duray, 1887. Museu Casa da Hera.

Você talvez não conhece a mulher do retrato, mas com certeza já leu sobre ela. Trata-se de Eufrásia Teixeira Leite, aqui pintada aos 30 anos de idade. Foi uma investidora financeira e filantropa brasileira, dona de uma das maiores fortunas do Império. “Era uma mulher rica, muito rica, milionária” e poderia “comprar” o marido que bem quisesse. Assim o autor a descreveu:

Como acreditar que a natureza houvesse traçado as linhas tão puras e límpidas daquele perfil para quebrar-lhe a harmonia com o riso de uma pungente ironia? […] Os olhos grandes e rasgados, Deus não os aveludara com a mais inefável ternura, se os destinasse para vibrar chispas de escárnio. […] Para que a perfeição estatutária do talhe de sílfide, se em vez de arfar ao suave influxo do amor, ele devia ser agitado pelos assomos do desprezo?

O leitor e a leitora certamente já leu os trechos acima. Eles pertencem ao romance “Senhora”, de José de Alencar. Ao comparar texto e pintura, nos deparamos com uma grande coincidência, percepção essa que se torna mais aguçada quando descobrimos que Eufrásia foi a possível inspiração do romancista para compor uma das maiores heroínas da literatura brasileira: Aurélia Camargo.

Ela viveu de forma extraordinária para os padrões de seu tempo, tomando nas mãos as rédeas de seu próprio destino. Nascida em Vassouras no ano de 1850, era a filha mais nova de Joaquim José Teixeira Leite (1812-1872), que fez fortuna em cima de juros de empréstimos a fazendeiros, como também pelo transporte e exportação de grãos. No Brasil, Eufrásia Teixeira Leite “investiu em setores de ponta do desenvolvimento econômico da época, como as estradas de ferro; exploração de jazidas de ouro, diamantes, carvão, ferro e petróleo; manufaturas agroindustriais; portos, energia elétrica, transportes urbanos”, além de possuir ações de bancos e títulos na dívida pública de cidades e estados (QUEIROZ, 2013, p. 39). Ao morrer, em 1930, deixou todos os seus bens para os pobres e associações de caridade em Vassouras. Esse dinheiro foi utilizado para criação de hospitais, escolas e outras instituições.

MARIA FELIPA DE OLIVEIRA

Maria Felipa de Oliveira, a heroína negra da Independência do Brasil, conforme imaginada pela artista Filomena Modesto Orge.

A figura da escravizada Maria Felipa de Oliveira, natural da Ilha de Itaparica, na Bahia, é envolvida por muito mistério, uma vez que não restaram vestígios documentais contemporâneos de sua existência, exceto a narrativa oral, que foi passada adiante ao longo das gerações. Exercendo a função de marisqueira, Maria Felipa teria liderado um grupo de aproximadamente 200 mulheres, incluindo índias, caboclas e negras libertas e escravizadas, contra as tropas portuguesas na Província da Bahia, em 1823. A tradição popular nos conta que ela e seu grupo queimou várias embarcações inimigas, diminuindo assim seu poderio naval. Em seguida, ela teria participado da luta corpo-a-corpo contra os exércitos portugueses, surrando seus oponentes usando folhas de cansanção como arma. Maria Felipa é geralmente descrita como uma mulher alta e corpulenta, em decorrência do trabalho braçal, e descendente de negros escravizados da região do Sudão. Ela aparece como personagem nas obras dos escritores Ubaldo Osório Pimentel e Xavier Marques, autor de “O Sargento Pedro”. Com efeito, a maioria das informações a seu respeito provém desses dois relatos ficcionais, o que coloca um pouco em dúvida a veracidade de tais acontecimentos. Não obstante, artistas se esforçaram ao longo dos anos para imaginar como seria o seu rosto e sua vestimenta, enquanto cantigas populares a louvavam em seus versos. Porém, o fato do nome de Maria Felipa de Oliveira ter sobrevivido na memória nacional até hoje é um bom indício de que ela não só existiu, como também de que outras mulheres negras tiveram uma participação relevante na luta pela emancipação política do país. Em 26 de julho de 2018, ela foi declarada Heroína da Pátria Brasileira, pela Lei Federal nº 13.697.

ISABEL DE ORLÉANS E BRAGANÇA, CONDESSA DE PARIS

Retrato pintado de Madame, a condessa de Paris, Isabel de Orléans e Bragança.

Em 13 de agosto de 1911, nascia no Château d’Eu (Normandia, França), a princesa Isabel de Orléans e Bragança, futura condessa de Paris. Batizada em homenagem à sua avó paterna e madrinha, a princesa Isabel do Brasil, a bebê era filha primogênita do príncipe Pedro de Alcântara com Elisabeth de Dobrzensky. Durante a infância, Isabel foi educada em Paris, para onde seus pais haviam se mudado desde o ano de 1924. Parte do programa educacional da princesa contemplava viagens pelo continente, visitando seus parentes em diferentes países. Na década de 1930, porém, seu pai decidiu fixar residência no Palácio do Grão Pará, em Petrópolis, após a revogação do decreto que bania a família imperial do Brasil. Isabel chegou a frequentar o colégio Notre-Dame-de-Sion, embora por um curto período, uma vez que logo estaria noiva de seu primo em terceiro grau, o príncipe Henrique de Orléans, herdeiro do extinto trono da França. Os dois se casaram em 8 de abril de 1931, na Catedral de Palermo, na Sicília. A princesa tinha 19 anos na ocasião e seu marido, 22.

Juntos, Isabel e Henrique foram pais de 11 crianças, incluindo o futuro Henrique, duque da França e conde de Paris. Com a morte do sogro de Isabel, João, duque de Guise, ela e seu marido se tornaram os próximos pretendentes do ramo Orléans à extinta Casa Real francesa, cujo último rei havia sido Luís Felipe, destronado em 1848. O casal chegou a frequentar o Brasil em algumas ocasiões, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, em busca de refúgio. De volta à França na década de 1950, Isabel se dedicou à atividade de escritora. Entre seus livros, encontra-se uma biografia da rainha Maria Amélia, de quem ela herdara uma belíssima coleção de diamantes e safiras (que Isabel doou mais tarde para o Museu do Louvre), um romance sobre Maria Antonieta e sua autobiografia, intitulada “De todo o meu coração”. Infelizmente, seu casamento resultou em desavenças que foram resolvidas com a mudança do casal para casas separadas, em 1970. Ela sobreviveria ao marido por quatro anos, antes de falecer em 5 de julho de 2003, em Chérisy, na França, aos 91 anos.

BEATRICE WOOD

Beatrice Wood, a inspiração para a personagem Rose, de “Titanic”.

Beatrice Wood, a artista da vida real que inspirou a criação da personagem Rose DeWitt Bukater, no filme “Titanic” (1997), de James Cameron. Embora não seja uma sobrevivente de um dos naufrágios mais trágicos da história, Beatrice foi uma mulher que, assim como Rose, nasceu no seio de uma rica família americana, mas que acabou se emancipando por meio de seu talento. Natural de São Francisco, na Califórnia, Beatrice se mudou com a família para Nova York em 1906, quando ela tinha 13 anos. Devido à sua predisposição para as artes, seus pais concordaram em deixá-la estudar em Paris, onde teve aulas de Encenação na Comédie-Française e de Arte na Académie Julian. Porém, com o início da Primeira Guerra Mundial em 1914, ela foi forçada a retornar para os Estados Unidos, aos 21 anos. De volta à América, Wood fez parte da French Repertory Company, em Nova York, atuando em mais de 60 produções ao longo de dois anos. Logo em seguida, ela enveredou pelo Desenho, mas se destacou mesmo na escultura e principalmente na cerâmica. Atualmente, seus trabalhos se encontram em exposições permanentes no Instituto Smithsonian, no Metropolian Museum of Art, no Museum of Modern Art, entre outros. Com efeito, é nesse ponto em que sua trajetória se mistura com a de Rose DeWitt Bukater. Igualmente nascida nos Estados Unidos, a personagem embarca no Titanic de volta para a América. Após o naufrágio, Rose ingressa na carreira de atriz e depois na de ceramista, tal como fizera Wood quando regressou de Paris. Mais tarde, James Cameron confessou que concebeu o papel interpretado por Kate Winslet depois de ler uma biografia sobre Beatrice. Ela faleceu em 12 de março de 1998, no ano seguinte ao lançamento de “Titanic”.

CONDESSA DE BARRAL

Luísa Margarida de Barros Portugal quando jovem, por artista desconhecido.

O século XIX também é conhecido por romper tradições do passado sob uma máscara de romantismo, que, por sua vez, é o traço que define esse período. As concepções acerca de moralidade e religiosidade são concentradas especialmente na figura da mulher. Com efeito, ela deveria personificar a donzela dos romances, inalcançável em sua pureza, e sempre à espera de um cavaleiro garboso que a conquistasse. Era preciso, então, muita coragem e astúcia para enfrentar com os estereótipos daquela época, e exemplos disso não nos arautos da História. Sem dúvida, uma das personalidades que mais se destacaram nesse aspecto foi a da baiana Luísa Margarida de Barros Portugal, mais conhecida pelo seu título de nobreza: condessa de Barral. De menina criada em engenhos na Bahia, a futura condessa de Barral receberia de seu pai, D. Domingos, uma instrução e estímulo para os estudos raro de se ver entre outras famílias abastadas da época. A educação dela, de acordo com Mary Del Priore, seria importantíssima para a formação da mulher culta e agradável que Luísa um dia seria.

Enquanto outras damas eram treinadas para as tarefas domésticas, a condessa se destacava pelos seus dotes intelectuais. Não obstante, só o fato de ela ter contrariado as ordens paternas e se casado com o homem que queria já a destaca de outras jovens do mesmo status, que não podiam se rogar tal privilégio. Seria na Europa que a condessa passaria a acumular todos os dotes tão fascinantes em uma mulher da aristocracia. A própria descrição que Del Priore faz de sua biografada só faz confirmar ainda mais essa imagética: para além de uma inteligência aguçada, a Barral possuía um conjunto de características físicas, tais como os cabelos volumosos e escuros, pés pequenos, ou, como a própria autora salienta, “olhos de veludo” e “um sorriso enigmático de Gioconda”. Sua experiência, acompanhada de excelentes credenciais, conquistou para si um lugar importante no seio da família imperial do Brasil, como preceptora das princesas Isabel e Leopoldina, filhas do Imperador D. Pedro II.

MARY THOMAS

“Eu sou a rainha Mary”, estátua dedicada à escravizada Mary Thomas.

A memória do colonialismo é um fator que precisa ser revisitado nos países colonizadores europeus, problematizando as querelas sociais que eles deixaram em nações da América, Ásia e África. Recentemente, movimentos como o “Black Lives Matter” vêm tocando na ferida, expondo os inúmeros preconceitos e dilemas resultantes do processo de colonização e escravidão. Em 2018, duas artistas, Jeannette Ehlers e La Vaughn Belle, inauguraram a primeira estátua dedicada a uma mulher negra na Dinamarca. Batizada como “Eu sou a rainha Mary”, o monumento tem 23 pés de altura e presta um tributo a Mary Thomas, que juntamente com outras duas líderes femininas, iniciou uma revolta em 1878 que ficou conhecida como “Fogo Ardente”. Cinquenta plantações e a maior parte da cidade de Frederiksted, em St. Croix, foram queimadas, na que foi chamada de “a maior revolta trabalhista da história colonial dinamarquesa”. Mary Thomas foi julgada por seu papel na rebelião e transportada através do Atlântico para uma prisão feminina em Copenhague. A artista dinamarquesa Jeannette Ehlers, que se uniu a Belle para criar o monumento “Queen Mary”, disse: “noventa e oito por cento das estátuas na Dinamarca representam homens brancos”. Henrik Holm, curador sênior de pesquisa da Galeria Nacional de Arte da Dinamarca, disse em um comunicado: “é preciso uma estátua como esta para tornar o esquecimento menos fácil. É preciso um monumento como esse para lutar contra o silêncio, a negligência, a repressão e o ódio”.

D. MARIA ADELAIDE DE BRAGANÇA

D. Maria Adelaide de Bragança van Uden na sua juventude e pouco antes de morrer, em 2012.

A infanta D. Maria Adelaide de Bragança van Uden, última neta sobrevivente do rei D. Miguel de Portugal e, portanto, sobrinha-neta do imperador D. Pedro I do Brasil. Nascida em Saint Jean de Luz, na França, em 31 de janeiro de 1912, D. Adelaide era filha do infante Miguel Januário de Bragança com Maria Teresa de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg. Tendo vivido a maior parte de sua vida em Viena, na Áustria (onde se casou em 1945 com Nicolaas Johannes Maria van Uden), D. Maria Adelaide foi um exemplo de força e coragem durante a Segunda Guerra Mundial. Trabalhando como enfermeira e assistente social, ela prestava auxílio às vítimas dos locais atingidos por bombardeios. Mulher de fibra, ela integrou o movimento de resistência anti-alemã na Áustria. Por sua militância, foi perseguida pela Gestapo, capturada e condenada à morte. Sua vida foi salva do fuzilamento apenas por intervenção do então presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar, com a alegação de que ela era uma cidadã portuguesa.

Depois de ter sido exilada na Suíça, onde se reuniu com seu irmão, Maria Adelaide finalmente chegou à Portugal em 1949. Raquel Ochoa, em matéria para o site Público PT, ressalta que Adelaide “teve outros atos heroicos”, a exemplo do seu trabalho “como assistente social em prol das populações desfavorecidas” na margem sul do Tejo, desenvolvido de “forma discreta”. “Ela percebeu que através da discrição não era notada nem perseguida, além de, por educação, não gostar de fazer alarde do que faz”. Na terra de seus antepassados, Adelaide deu continuidade ao seu trabalho social, criando a Fundação Nun’Álvares Pereira. À frente da instituição, ela atuava junto a famílias em situação de carência, residentes em locais pobres, como Trafaria e Monte da Caparica. Quando ela completou 100 anos, o presidente Aníbal Cavaco Silva a agraciou com a Ordem do Mérito. Infelizmente, ela faleceu poucas semanas depois em sua casa, na Quinta do Carmo, em 24 de fevereiro de 2012.

CATHERINE DUCHEMIN

Catherine Duchemin, primeira mulher na história da França a ingressar na Academia Real de Pintura e Escultura.

Retrato da artista Catherine Duchemin, pintado no século XVII por autor desconhecido (anteriormente atribuído a Sébastien Bourdon). Muito antes de mulheres como a renomada pintora Élisabeth-Louise Vigée-Le Brun quebrarem barreiras de gênero no mundo das artes da França, podemos dizer que Catherine abriu um precedente para que outras artistas pudessem exercer suas profissão com respeito e dignidade. Nascida em Paris durante o início do reinado de Luís XIV, Catherine cresceu em um ambiente que estimulou desde cedo sua criatividade. Afinal, ela era filha de ninguém menos que o escultor Jacques Duchenin, com sua esposa, Elizabeth Hubault. Em 1657, ela contraiu matrimônio com outro mestre da escultura, Girardon. Contudo, foi através da pintura que a arte de Catherine floresceu. Suas telas geralmente representam cenas da natureza. Pela qualidade indubitável do seu trabalho, em 14 de abril de 1663 ela se tornou a primeira mulher na história da França a ingressar na Academia Real de Pintura e Escultura. Apesar disso, pouco mais se sabe sobre sua vida. Ela e Girardon tiveram 10 filhos e seus quadros podem ser atualmente apreciados em várias galerias na França. Na tela em destaque (recém adquirida pelo Palácio de Versalhes), Catherine olha com uma expressão serena para o observador, enquanto se dedidiva à atividade que acabaria imortalizando seu nome nas artes.

LILY ELSIE

Fotografia da atriz Lily Elsie, digitalmente colorida por Klimbim.

Por séculos, mulheres artistas eram vistas pela sociedade como sinônimo de promiscuidade. Cantoras, pintoras, escultoras eram constantemente vítimas de misoginia e confundidas nas ruas com prostitutas. Sendo assim, uma mulher artista precisava vencer as barreiras do preconceito duas ou mais vezes, para que pudesse ser valorizada por seu talento e sua obra. Um desses nomes que, no início do século XX, conseguiu transpor tais obstáculos foi a atriz Lily Elsie, um dos maiores nomes do teatro na Inglaterra eduardiana. Nascida em 8 de abril de 1886, Lily começou sua carreira bem cedo, nos anos 1890, participando de peças infantis, comédias e musicais. A fama nacional, contudo, só veio em 1907, por seu papel em “The Merry Widow”. Conhecida por seu charme e beleza nos palcos, ela se tornou uma das mulheres mais fotografadas do início do século XX. Em 1920, ela se afastou do teatro para viver uma existência mais reclusa ao lado do marido, na vila de Redmarley D’Abitot. Sua última atuação foi na peça “The Truth Game”, de Ivor Novello, em 1929. No ano seguinte, Lily e seu marido, o rico Major John Ian Bullough, se divorciaram. Depois disso, seu estado de saúde declinou gradativamente, agravado pela hipocondria e por problemas psicológicos. A atriz faleceu no dia 16 de dezembro de 1962, aos 76 anos de idade.

PRINCESA ALICE DE BATTENBERG

A princesa Alice de Battenberg aos 18 anos e pouco antes de morrer, em 1969.

Aos 18 anos, em 1903, a bela princesa Alice de Battenberg se uniu em matrimônio com o príncipe André da Grécia e da Dinamarca. A noiva, porém, sofria desde o nascimento com surdez congênita, o que não foi impedimento para que ela desenvolvesse incríveis habilidades de leitura labial em mais de um idioma. Juntos, Alice e André tiveram cinco filhos, quatro meninas e um garoto. Este último, batizado de Philip, mais tarde se casaria com a herdeira do trono britânico, a atual rainha Elizabeth II. A felicidade da família, porém, foi interrompida quando as bombas da Primeira Guerra Mundial mudaram todo o panorama geopolítico europeu. Em 1921, eles foram forçados a partir da Grécia e buscar asilo na França. A princesa se dedicou aos seus trabalhos de caridade, convertendo-se à fé Ortodoxa. Acreditava que podia falar com Deus e passar sua mensagem aos mais necessitados. Seu marido, porém, tomou o comportamento da esposa como indício de esquizofrenia e a internou num sanatório na Suíça, onde foi examinada por Freud.

Aos 45 anos, Alice foi submetida a um tratamento brutal, com aplicação de raios-x nos ovários para agilizar sua menopausa e choques elétricos para tratar sua suposta histeria. Abandonada pela família, ela vagou pela Europa central, enquanto André vivia com a amante em Mônaco. Tampouco compareceu ao casamento das filhas, que se uniram a homens associados com o nazismo. Em vez disso, Alice deu abrigo a judeus que fugiam da Gestapo em seu apartamento em Atenas e contrabandeou remédios e alimentos para refugiados, colocando sua vida em grande risco. Após o término do conflito, já viúva, ela tomou o hábito de abadessa e fundou na Grécia a irmandade de Marta e Maria, cuja missão era prestar auxílio a pobres e doentes. Levou sua responsabilidade com afinco até o ano de 1967, quando foi forçada a deixar ao país em decorrência de um golpe militar. Foi então viver no Palácio de Buckingham, onde faleceu tranquilamente dois anos depois, aos 84 anos. Reconhecida postumamente como Heroína do Holocausto e Justa Entre as Nações, o corpo da princesa Alice encontrou seu descanso final na Igreja de Santa Maria Madalena, em Jerusalém.

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