Leopoldina, Amélia e Teresa Cristina: como as imperatrizes do Brasil ajudaram a forjar a nação!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Durante séculos, o protagonismo feminino na história foi subjugado pelas estruturas patriarcais de poder, que colaboraram para invisibilizar ou demonizar a presença das mulheres no espaço público. No passado luso-brasileiro, as crônicas referentes aos reinados do período moderno se recordavam delas ora como santas, ora como loucas ou lascivas. No primeiro caso, eram exaltadas apenas por sua piedade e trabalhos filantrópicos; no segundo, como um perigo para a independência do império; no terceiro, como personalidades abjetas e extremamente sexualizadas. Não precisamos ir muito longe na busca de exemplos que se encaixam nessas três categorias. Lembremos de Dona Carlota Joaquina, infanta espanhola e soberana consorte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. Embora fosse uma pessoa de notório saber e com um acurado senso político, foi execrada por seus inimigos e entrou para a posteridade como “a rainha devassa” das Memórias de José Presas, ou a encrenqueira, como a viam os ministros de D. João VI. Há também D. Maria I, primeira mulher que governou Portugal em seu próprio nome e ficou rotulada como “a louca”. Já Dona Leopoldina, Dona Amélia e Dona Teresa Cristina permaneceram durante décadas praticamente apagadas dos arautos da história.

Leopoldina aos 18 anos, por artista desconhecido (1815).

O positivismo herdado do século XIX celebrava apenas os feitos de figuras de liderança masculina, os chamados “heróis”, como José Bonifácio, D. Pedro I, D. Pedro II, o duque de Caxias ou Marechal Deodoro. Ficavam excluídas dos compêndios de comemorações cívicas as mulheres que, ou eram lembradas por uma conduta virtuosa, ou pelo oposto. Personalidades como Xica da Silva, Dona Beija, Maria Quitéria, Joana Angélica e Domitila de Castro parecem assim transitar entre um extremo e outro. Até a década de 1960, quando o sujeito “mulher” começou a ser problematizado pelas ciências humanas, muito pouco tinha sido escrito sobre elas – exceto pelas abordagens simplistas e recheadas de juízos de valor de certos biógrafos –, até que, uma a uma, começaram a ser resgatadas do limbo e analisadas à luz das novas metodologias do fazer historiográfico. Colaborou para isso os debates em torno dos estudos de gênero e sexualidade para a escrita de uma história das mulheres e o surgimento da chamada “nova biografia”, que vê no indivíduo um ponto de partida para se alcançar o coletivo. A partir de então, as pesquisadoras e o público de leitoras passaram a procurar no passado exemplos de liderança feminina, desencadeando assim uma verdadeira desconstrução de estereótipos.

Rótulos sempre limitam as possibilidades de interpretação sobre um objeto ou alguém, conforme podemos observar na bibliografia produzida sobre as três imperatrizes do Brasil. Em Dona Leopoldina, por exemplo, ficou grudada a imagem da princesa triste, esposa traída e mulher piedosa. Por outro lado, as fontes revelam também uma pessoa muito articulada, pragmática e com erudição ímpar. Na infância e juventude, ela recebeu uma educação muito acima de outras mulheres da realeza, tornando-se uma entusiasta das ciências naturais e fluente em diversos idiomas. Seus conhecimentos na área de História, Política e Legislação foram de suma importância para o movimento de emancipação política do Brasil, que ganhou fôlego com a chegada da família real no país em 1808. Casada por procuração em Viena no dia 13 de maio de 1817 com o príncipe D. Pedro, Leopoldina trouxe consigo a experiência de quem sentiu de perto os impactos das guerras napoleônicas no continente europeu e observou os maiores chefes de Estado de seu tempo se reunindo para o Congresso de 1814, que redefiniu as políticas e fronteiras geográficas da Europa. Uma vez no Brasil, foi apenas uma questão de tempo até ela alinhar seus interesses aos dos políticos locais para arquitetar o movimento de independência, mantendo seu marido como governante do império nascente.

A biografia de Dona Leopoldina começou a ser revisitada por ocasião do aniversário de 150 anos da independência, com uma série de publicações importantes, das quais a de maior destaque foi o ensaio que lhe dedicou o pesquisador Carlos H. Oberacker Jr., até hoje considerado o estudo mais aprofundado sobre a vida da imperatriz. Através das páginas de A Imperatriz Leopoldina: Sua Vida e Sua Época (1973), a veia política da soberana ganhou contornos em alto relevo, a despeito do papel de mulher depressiva com que muitos a enxergavam. Em 1997, por exemplo, ano do bicentenário da imperatriz, o Museu Nacional lhe dedicou uma grande exposição, com a inauguração de uma estátua nos jardins do Palácio. Dos retratos pintados posteriormente, sobressai-se a magnífica tela de Georgina de Albuquerque, na qual a esposa de D. Pedro I lidera a sessão do Conselho de Estado em 2 de setembro de 1822, quando ela, José Bonifácio e outros ministros deliberaram pela emancipação do país. Na ocasião, Bonifácio teria dito: “ela deveria ser ele!”. O embaixador austríaco, o barão de Mareschal chegou a compará-la com sua bisavó, a imperatriz Maria Teresa (a Grande). Era muito querida pela população, que sabia de seu empenho em prol da causa da independência e sua dedicação às famílias pobres do Rio de Janeiro.

Dona Leopoldina presidindo sessão do Conselho de Estado, por Georgina de Albuquerque. Na tela, José Bonifácio discursa para a princesa regente sobre a separação do Brasil de Portugal.

Com a publicação em 2006 do livro Cartas de Uma Imperatriz, a participação de Dona Leopoldina na política nacional ficou anda mais evidente por meio de suas próprias palavras. De lá para cá, diversas produções sobre a primeira imperatriz do Brasil começaram a ser feitas. Ela foi tema principal de exposições ocorridas no Museu Histórico Nacional e no Museu de Arte do Rio de Janeiro, apareceu como personagem na novela Novo Mundo, da rede Globo, e na série Brasil Imperial, da Amazon Prime, além de sujeito de novas biografias, que analisam a personagem à luz de documentações recém-publicadas. Infelizmente, a mesma abundância de material não se verifica quando procuramos por maiores informações sobre as mulheres que a sucederam no posto de imperatriz consorte. Dona Amélia de Leuchtenberg, por exemplo, há muito tempo carece de um novo estudo sobre sua vida. As publicações mais antigas datam da primeira metade do século XX, como os livros de Maria Junqueira Schmidt (1927) e Lygia Lemos Torres (1947). Apesar disso, ela tem sido abordada em palestras e artigos recentes, escritos pela pesquisadora Claudia Thomé Witte, que atualmente está trabalhando em um nova biografia sobre a segunda imperatriz, com material inédito colhido em arquivos europeus.

Contudo, recaiu sobre Dona Amélia a imagem de esposa compassiva, eternamente enlutada pela morte do marido e depois da única filha, a princesa Maria Amélia. Por outro lado, os registros apontam para uma perspectiva diferente. A história das imperatrizes do Brasil, assim como de outras personalidades femininas de destaque no período imperial, deve ser escrita sob um prisma multiangular e não por uma via de mão única. A filha de Eugénio de Beauharnais com a princesa Augusta da Baviera encarou seu futuro como soberana do novo império com a mesma seriedade de sua predecessora. Aprendeu a geografia do país com ninguém menos que Friederich von Martius, naturalista que estivera no Brasil e catalogara muitas das peculiaridades do território, como sua fauna, flora e costumes locais. Aportando no Rio de Janeiro em 1829 com apenas 17 anos, ela logo tratou de reorganizar o funcionamento do Paço e criar um ambiente mais próximo de uma corte real. Em sua homenagem, D. Pedro I fundou a Ordem da Rosa, uma das comendas mais importantes do Império, que tinha como divisa a frase “Amor e fidelidade”. Dona Amélia foi um marco divisor de águas na vida de seu marido e de seus enteados, órfãos de mãe desde a morte da imperatriz Leopoldina.

Retrato da imperatriz Dona Amélia de Leuchtenberg, por Friedrich Dürck (c. 1830).

Todavia, os vestígios da passagem da segunda esposa de D. Pedro I pelo Brasil se cristalizaram em poucos lugares, devido ao pouco tempo em que ela permaneceu entre nós. A imaginação histórica se recorda dela como a “imperatriz cor de rosa”, destacando apenas sua feminilidade, consoante com o ideal de recato construído durante o século XIX. De volta à Europa após a abdicação do marido, ela deu à luz a única filha que teria com D. Pedro, então duque de Bragança. Em seguida, usou os contatos de sua família com os antigos oficiais de seu pai, buscando apoio para a causa de D. Maria II contra o tio, D. Miguel, na disputa pelo trono de Portugal. Com a morte do marido, em 1834, Dona Amélia se tornou uma mulher economicamente emancipada, usufruindo assim de uma liberdade que era pouco concedida às damas aristocráticas de seu tempo. Embora pranteasse a perda de D. Pedro, ela focou suas atenções na educação da pequena filha do casal, que teve excelentes professores portugueses e bávaros, tornando-se fluente em vários idiomas e se formando em Física no gabinete da Universidade de Munique. Infelizmente, a doença levou a jovem princesa Maria Amélia muito cedo, aos 21 anos, falecendo de tuberculose na Ilha da Madeira, em 1853.

A perda da única filha foi um duro golpe para a imperatriz-viúva, que apesar da tristeza fez construir em memória da princesa um hospital para tuberculosos e pacientes em situação de carência. As atividades filantrópicas passaram a ser o maior consolo que Dona Amélia poderia encontrar após a morte de sua família. Ela jamais voltou a se casar e dispôs de seus bens da forma como melhor entendeu. Antes de falecer aos 60 anos, em 1872, ela se reencontrou com seu enteado, D. Pedro II, em 1871, quando o imperador fazia sua primeira viagem pela Europa. Na ocasião, ele estava acompanhado de sua esposa, Dona Teresa Cristina. A história se lembra da terceira imperatriz do Brasil por epítetos nada lisonjeiros, como “a imperatriz silenciosa”. Alguns pesquisadores, inclusive, lhe atribuíram adjetivos bastante pejorativos, descrevendo-a como uma mulher feia, limitada intelectualmente e de modos reclusos. Mais uma vez, a documentação aponta para uma versão bem diferente acerca da vida de Dona Teresa. Nascida em Nápoles no dia 14 de maio de 1822, a futura soberana cresceu em uma região que na antiguidade era conhecida como Magna Grécia. Não obstante, no golfo de Nápoles, encontrava-se o sítio arqueológico de Pompéia, com seus edifício bem preservados, dando para a posteridade um testemunho das habitações do antigo império romano.

Bebendo dessa rica fonte cultural, Dona Teresa Cristina representava aos olhos dos brasileiros a latinidade transplantada para a América. Ela importou para o país diversas peças de Pompéia e Herculano, que hoje compõe o acervo de muitos museus brasileiros. Foi chamada por isso de “a imperatriz arqueóloga”. Amante da ópera italiana, dizia-se que a própria soberana possuía uma voz belíssima, encantando aqueles que tinham a oportunidade de escutá-la cantando. Assim como D. Pedro II, era uma amante das ciências e principalmente das inovações tecnológicas, como a fotografia. Em diversos registros fotográficos, ela pode ser observada posando na companhia dos livros que lhe eram tão caros, testemunhando assim sua erudição e apreço pelo conhecimento. Todavia, seu protagonismo permanece ensombreado pelo marido, sempre exaltado nos livros por epítetos como “o monarca cidadão” e “o magnânimo”. Desconhecemos, por exemplo, a influência que ela exerceu na imigração italiana para o Brasil, assim como Dona Leopoldina havia feito com a imigração alemã em seu tempo de vida. Ambas as soberanas – primas em primeiro grau, uma vez que eram netas de Fernando I das Duas Sicílias – foram chamadas pelos seus contemporâneos de “mãe dos brasileiros”, graças aos seus trabalhos de caridade em benefício de famílias pobres.

Teresa Cristina por José Correia de Lima, c. 1843.

Com efeito, atitudes filantrópicas eram não só bem-vistas, como também esperadas de uma soberana consorte. Assim, elas traduziam uma imagem positiva para o governo de seus maridos. O patrocínio concedido a instituições, a pesquisadores e a artistas eram outras das tarefas em que a esposa de um monarca se dedicava. Nesse quesito, tanto Leopoldina quanto Teresa Cristina obtiveram êxito. Sobre a terceira imperatriz do Brasil, foram dedicados nos últimos anos duas ótimas biografias, escritas por Rogério da Silva Tjäder (2015) e pelo professor Anielle Angelo Avella (2014), que ajudaram a preencher uma grande lacuna historiográfica. Assim, eles colocaram em evidência “uma das personagens que mais contribuíram à formação da identidade de nosso país e ao desenvolvimento das relações culturais, sociais e políticas entre o Brasil e a Itália”. Antes disso, a história de Dona Teresa Cristina se limitava ao casamento por procuração com D. Pedro II em 1843, marcada pela anedota de que o imperador teria sido enganado por um retrato lisonjeiro da noiva. Concordando com o matrimônio com base em uma tela que em pouco correspondia à aparência real da retratada, ele teria ficado bastante frustrado. Explicações pejorativas como essa só tendem a acrescentar mais argumentos aos estereótipos construídos sobre Dona Teresa.

Atualmente, a terceira imperatriz do Brasil aparece como personagem na novela Nos Tempos do Imperador, de Thereza Falcão e Alessandro Marson. Através dos capítulos da trama da rede Globo, o público pôde conhecer um pouco mais acerca da personagem, sobre sua sensibilidade artística manifestada pelos trabalhos artesanais no Jardim das Princesas e seu interesse pela arqueologia. Nesse sentido, a ficção, a despeito de sua falta de compromisso com a veracidade dos fatos, pode ser uma interessante porta de entrada para aqueles que buscam se aprofundar mais os acontecimentos adaptados para a tela da TV, procurando nos registros historiográficos os fatos por trás da narrativa inventada pelos roteiristas. Certamente, Dona Leopoldina, Dona Amélia de Leuchtenberg e Dona Teresa Cristina precisam ser analisadas e vistas de acordo com o importante papel que desempenharam na política do país e nos reinados de seus cônjuges. Ao contrário das interpretações reducionistas que foram cristalizadas no imaginário coletivo ao longo das décadas, elas possuem uma narrativa maravilhosa para contar. Foram mulheres de caráter determinado, que assumiram suas obrigações com elevado grau de seriedade e deixaram em seu rastro um rico testemunho de seu amor pelo Brasil.

Referências Bibliográficas:

AVELLA, Aniello Angelo. Teresa Cristina de Bourbon: uma imperatriz napolitana nos trópicos 1843-1889. Rio de Janeiro: EdUFRJ, 2014.

CALMON, Pedro. História de Pedro II.  Rio de Janeiro: José Olympio, 1975, vol 1.

CARVALHO, José Murilo de. Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. D. Leopoldina: cartas de uma imperatriz. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.

MAGALHÃES, Aline Montenegro; MARINS, Álvaro; BEZERRA, Rafael Zamorano. (Orgs.). D. Leopoldina e seu tempo: sociedade, política, ciência e arte no século XIX. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2016.

OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, sua vida e época: ensaio de uma biografia. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973.

PERROT, Michelle. Os excluídos da História: operários, mulheres e prisioneiros. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

PRANTNER, Johanna. Imperatriz Leopoldina do Brasil. Tradução de Hanns Pellischek e Elena Dionê Borgli. Petrópolis: Vozes, 1997.

SCOTT, Joan. Gênero, uma categoria útil de análise histórica. In: Educação e Realidade, Porto Alegre, vol. 20, nº 2, p. 71-99, jul./dez. 1995.

SCHMIDT, Maria Junqueira. A segunda imperatriz do Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1927.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

TJÄDER, Rogerio da Silva. Sua Majestade Imperial D. Thereza Christina Maria de Bourbon e Bragança, “a mãe dos brasileiros”. 2ª ed. Vassouras: PC DUBOC, 2015.

TORRES, Lygia Lemos. A imperatriz dona Amélia. São Paulo: typ. Elvino Pocai, 1947.

WITTE, Cláudia Thomé. Amélia, a imperatriz de Luto. Revista História Viva, São Paulo, p. 40-45, abril de 2013.

4 comentários sobre “Leopoldina, Amélia e Teresa Cristina: como as imperatrizes do Brasil ajudaram a forjar a nação!

  1. Quanto mais conheço sobre as nossas imperatrizes brasileiras, me apaixono por suas histórias, especialmente por D.Leopoldina.
    Amo saber que foram mulheres inteligentes e fortes a frente ao seu tempo, mostrando assim que as mulheres podem exercer cargos políticos sim

    Curtir

  2. É muito bom sabermos sobre a vida das mulheres que ajudaram a construir o país.As mulheres de hoje precisam saber que somos importantes na construção de uma nação.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s