A rainha-mãe Idia: uma das soberanas mais lendárias do reino do Benin!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No século XVI, o reino do Benin (atual Nigéria), passava por uma forte crise dinástica. Os dois filhos do Oba (rei) Ozolua disputavam pela sucessão do trono, após a morte de seu pai. Um deles, chamado Arhuaran, controlava a importante cidade de Udo, enquanto o outro, conhecido como Esigie, era o líder da cidade de Benin, centro político e cultural do reino, localizada a 30 km de Udo. A rivalidade entre os dois irmãos desencadeou uma intensa guerra civil, que enfraqueceu o território enquanto potência regional. Nesse contexto de lutas fratricidas, os povos Igalas, que viviam nas proximidades do rio Benue, enviaram guerreiros para tomar o controle das cidades e aldeias enfraquecidas ao norte do Benin. Tal estado de decadência só foi interrompido quando Esigie finalmente derrotou Arhuaran e se estabeleceu como soberano, restaurando em seguida a unidade e a força de seus domínios. Ao seu lado, atuando como conselheira política, encontrava-se a rainha Idia, a quem se credita o sucesso de muitas das vitórias de seu filho. Embora a história não disponha de tantas informações sobre a sua vida, sabe-se que ela era famosa por seu conhecimento medicinal e poderes místicos, que supostamente teriam garantido o sucesso de Esigie no campo de batalha.

Máscara cerimonial em marfim da rainha-mãe Idia, conservada no Metropolitan Museum (séc. XVI).

Casada ainda muito jovem, Idia não teve outros filhos além de Esigie, primogênito do Oba Ozolua. Assim, para gerar mais herdeiros, seu marido tomou outras esposas e concubinas, com as quais teve mais descendentes, entre eles Arhuaran. Entretanto, o papel de Idia como mãe do filho mais velho lhe deu desde cedo uma posição de destaque no reino. Com a morte de Ozoula, ela imediatamente usou sua influência para assegurar o apoio dos chefes locais à reivindicação de Esigie ao trono, aconselhando-o nas muitas batalhas travadas contra as forças de Arhuaran e os povos Igalas. Para honrar a sua progenitora pelo papel que desempenhou na guerra de sucessão, o novo Oba lhe deu o posto de Iyoba, que significa “rainha-mãe”. Essa posição conferiu a Idia muitos privilégios políticos na corte, incluindo o direito de manter o seu próprio séquito, independente da casa do rei. As prerrogativas concedidas a Idia como mãe do soberano abriram assim um precedente para que futuras Iyobas pudessem exercer autoridade no reino do Benin. Uma prova do prestígio da rainha-mãe pode ser comprovada pela sua máscara cerimonial, esculpida em marfim, cuja finalidade religiosa era livrar o reino de seus inimigos e de espíritos malignos.

Outra representação da cabeça da rainha-mãe Idia. Acreditava-se que a estatueta tinha poderes contra espíritos ruins.

Com efeito, as Iyobas eram vistas como figuras de proteção e bem-estar para os Obas e, consequentemente, para seu reino. Na coleção do Metropolitan Museum, por exemplo, existe uma série de máscaras cerimonias representando as rainhas-mães do reino do Benin. Acredita-se que uma delas, datada do século XVI, reproduza as feições de Idia. Segundo a descrição do artefato no site da Instituição:

Epítome da arte africana, este pingente era usado como peitoral pelo rei de Benin em ocasiões cerimoniais. Representa a Idia, a Iyoba (rainha-mãe) e conselheira do Oba (rei) Esigie, um dos grandes reis de Benin do século XVI, e faz parte de uma série de retratos comemorativos de grande requinte. As feições acentuadas da rainha são emolduradas pela elegante decoração entalhada de seu colar e tiara, composta por dois tipos de padrões em miniatura, que são atributos de poder: os comerciantes portugueses que trouxeram grande prosperidade ao reino e os peixes da água pantanosa ou peixes protópteros, cuja vida em dois elementos distintos, água e lama, é uma metáfora da identidade semidivina dos reis de Benin.

Na máscara cerimonial de Idia, podemos observar também duas hastes de ferro entre seus olhos, que fazem referência ao seu poder metafísico e curativo. A rainha-mãe usufruía na corte de um status político similar ao de um chefe-sênior, tendo também o direito de encomendar a fabricação de peças de arte, tanto para seu uso pessoal, quanto para fins religiosos.

Altar (tableau) da rainha-mãe e suas protegidas.

Não obstante, algumas representações de Idia feitas em latão fundido (chamadas de ikegobo – altares portáteis – e urhoto – retábulos retangulares) a mostram usando uma camisa de contas de coral, rodeada pelo seu séquito feminino, que carrega os símbolos do seu poder político e espiritual. Essas mulheres eram atendentes protegidas pela rainha-mãe, destinadas a se casarem com seu filho, o futuro Oba. Da mesma forma como acontecia com os reis, depois de mortas as Iyobas eram imortalizadas através de suas máscaras cerimoniais, com presas de marfim esculpidas nas laterais. Esigie governou o reino do Benin por 46 anos, de 1504 a 1550, e sua mãe ficou conhecida como a Iyoba mais lendária da história daquele povo, lembrada por ter criado um exército próprio para ajudar o filho a tomar o trono, assim como por seus dons místicos. Após a morte de Idia, consta que Esigie costumava utilizar a máscara dela em seu peitoril durante rituais sagrados, para invocar a sua proteção. Até o século XVII, ainda eram fabricadas estatuetas reproduzindo as feições da Iyoba. Em 1897, Benin foi subjugado pelas forças britânicas durante a fase do imperialismo na África e muitos dos seus tesouros, incluindo as representações da rainha Idia, foram parar em museus europeus.

Referências:

BORTOLOT, Alexander Ives. Women Leaders in African History: Idia, First Queen Mother of Benin. In: Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000 – Acesso em 26 de março de 2021.

CLARKE, Christa. Queen Mother Pendant Mask (Iyoba) (Edo peoples). 2006 – Acesso em 26 de março de 2021.

SHARKEY, Heather J. A famous queen mother of Benin. 2019. – Acesso em 26 de março de 2021.

Um comentário sobre “A rainha-mãe Idia: uma das soberanas mais lendárias do reino do Benin!

  1. Esse museu deveria devolver as máscaras para o Governo Nigeriano. Acho uma falta de respeito roubar representações culturais dos países. O colonizador, ainda, saqueia e expõem coisas que não lhes pertence. Acho uma falta de respeito com os africanos.
    Tirando esses detalhes, gostei muito desse blog.Parabéns!

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