“Meu nome é Elizabeth”: como Elizabeth II soube de sua ascensão ao trono do Reino Unido?

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No entardecer do 6 de fevereiro de 1952, o estado de espírito da jovem rainha Elizabeth II era de desalento. Poucas horas antes, ela ficara sabendo da morte de seu pai, o rei George VI do Reino Unido. Foi assim, perdida em seus pensamentos e cheia de luto, que o príncipe Philip fez o único registro fotográfico de sua expressão naquele momento. O monarca de quase 57 anos, que havia demonstrado uma espírito incansável para o trabalho social durante os anos da Segunda Guerra Mundial, morreu na madrugada do dia 6 de fevereiro de 1952, em decorrência de um enfarte nas coronárias. Sua saúde já estava bastante debilitada há alguns anos e nesse ínterim o rei passara por três procedimentos cirúrgicos. O último deles, ocorrido em setembro de 1951, foi para remover um pulmão comprometido pelo câncer. Em decorrência disso, o soberano delegou muitas de suas funções oficiais para sua presuntiva herdeira, como uma tour pelo Canadá e pelos Estados Unidos. Em 31 de janeiro de 1952, pai e filha estiveram juntos pela última vez no aeroporto, quando ela e o príncipe Philip subiram à bordo do avião que os levaria para uma viagem de cinco meses pelo Quênia. O rei George ficou ali parado, assistindo a nave decolar até se tornar um ponto no céu e desaparecer. Nunca mais veria a filha!

Matéria do jornal “Coventry Evening Telegraph”, de 6 de fevereiro de 1952, anunciando a morte de George VI. O “Hartlepool Northern Daily Mail” relatou o falecimento do soberano nos seguintes termos: “O rei George VI está morto. Toda a Nação e Império ficaram pasmos com a notícia que veio de Sandringham às 10h45 de hoje. Anunciou que o rei, que se retirou para descansar ontem à noite com sua saúde normal, faleceu pacificamente durante o sono esta manhã. Ele estava em seu 57º ano e no seu 16º ano de reinado.

Seis dias depois da viagem da princesa, a criadagem do palácio de Sandringham se deparava com uma triste cena: a rainha Elizabeth Bowes-Lyon corria desesperadamente para o quarto de seu marido, onde o corpo inerte dele jazia sobre a cama como se ainda estivesse dormindo. Beijando-lhe a testa pela última vez, a viúva do rei deu ordens para que fosse feita uma vigília em torno de seu cadáver. Em seguida, solicitou que “Lilibet” fosse informada do ocorrido o quanto antes. “A Rainha tem que ser informada”, disse ela, reformulando sua primeira frase. A jovem que partira de Londres aos 25 anos como princesa, retornaria agora como soberana. O estribeiro, Sir Harold Campbell, saiu às pressas para telegrafar ao grupo real, que estava do outro lado do mundo. Como não conseguiu fazer contanto com quaisquer um deles, devido a uma tempestade tropical que emudeceu as linhas telefônicas no Quênia, Sir Harold então contatou a empresa Reuter, responsável pelo serviço de notícias, pedindo para que a mensagem fosse transmitida à comitiva da princesa. Ela o príncipe Philip, porém, haviam passado a noite em Treetops, um posto remoto de observação da selva africana. Ali, eles contemplaram embevecidos a fauna e flora local, antes de retornar para o Sagana Royal Lodge ao entardecer.

Como Elizabeth e Philip estavam quase incomunicáveis, um repórter da Reuter que recebeu a notícia de Londres conseguiu localizar o secretário privado da princesa, Martin Charteris. “Lembro-me de ele ter procurado um cigarro com as mãos a tremer, antes de conseguir me dizer que o rei tinha morrido”, recorda-se Charteris. Este, por sua vez, transmitiu a informação para Michael Parker, ajudante de campo do príncipe Philip. “Mike”, disse Charteris, “o pai da nossa patroa faleceu. Sugiro que não diga nada à senhora, pelo menos até a notícia ser confirmada”. A declaração formal do falecimento de George VI foi emitida pela Corporificação de Radiodifusão Britânica às 10h45 do dia 6. As multidões pararam nas ruas e o serviço de informações de rádio de Londres se manteve em silêncio pelo resto do dia. Chovia bastante e os motoristas estacionaram seus carros no meio das avenidas para se juntar ao luto nacional. Na Austrália, um membro do Parlamento lamentou a morte do soberano: “Perdemos um grande indivíduo”. Já nos Estados Unidos, a Câmara dos Representantes dispensou a sessão e lavrou um voto de condolências. “Ele foi um grande homem. Valia por dois do seu irmão Ed”, disse o presidente Truman.

Matéria de 6 de fevereiro de 1952 do “Portsmouth Evening News”, anunciando a morte de George VI e o retorno da nova rainha, que estava na África.

Edição de 7 de fevereiro de 1952 de “Birmingham Daily Gazette”, anunciando a ascensão de Elizabeth II, com a chamada “Vida Longa à Rainha Elizabeth”.

O duque de Windsor, que por sua vez estava em Nova York com a duquesa, recebeu uma mensagem de Winston Churchill, aconselhando-o a retornar à Inglaterra sem a sua esposa, que não era bem-vinda. Chegando lá, ele se instalou na Marlborough House, onde vivia sua mãe, a rainha-viúva Mary de Teck. Enquanto isso, no Quênia, Michael Parker correu até o quarto do príncipe Philip para acordá-lo com a terrível notícia. “Era seu dever dizer à rainha”, relembra Parker:

Provavelmente o pior momento de sua vida. Tudo o que conseguiu dizer foi, ‘Isto vai ser um golpe terrível’. Levou-a para fora, para o jardim, e caminharam lentamente para cima e para o relvado, enquanto ele falava e falava e falava com ela… Nunca senti tanta pena de alguém em toda a minha vida. Ele não era da espécie de pessoas que mostravam as suas emoções, mas podia subtender-se pelo seu rosto – como ele modificou as feições do rosto. Nunca o esquecerei. Ele parecia como se lhe tivessem despejado metade do mundo em cima… o resto de nós pôs-se em ação e numa hora saímos daquele local (apud KELLER, 1997, p. 102).

Aparentemente, a nova soberana tentou ao máximo controlar suas emoções diante das pessoas, à medida em que caminhava lentamente de volta para o Sagana Royal Lodge. Chegando lá, Martin Charteris entrou com um envelope contendo uma série de documentos que requeriam a assinatura da monarca, referentes à sua tomada de posse. “Eu fiz o que tinha que fazer”, recordou Charteris. “Dirigi-me a ela: ‘A única pergunta que tenho a lhe fazer nessa ocasião é: como deseja ser chamada quando estiver no trono?’”. Ao ouvir o questionamento, a rainha respondeu: “Oh, pelo meu nome próprio, é claro. Elizabeth. Que mais?”. “Certo”, Elizabeth”, disse Charteris. “Elizabeth II”.

Anos depois, o secretário se recordou da reação da rainha quando soube de sua ascensão: “Estava apenas ali, de postura ereta, um pouco mais corada do que o costume. Simplesmente à espera do destino”. Já o príncipe Philip pareceu mais desconcertado, uma vez que a entronização de sua esposa mudaria completamente a vida do casal. “Não queria aquilo de forma alguma”, disse Martin Charteris, uma vez que a alteração de status ia “lhe retirar a estabilidade emocional que finalmente encontrara”. Em seguida, o secretário pediu à imprensa para que respeitassem a privacidade da rainha naquele momento tão difícil e para que não tirassem fotografias enquanto ela se preparava para partir. Naquele tempo, os jornalistas tinham uma deferência muito maior para com a família real e, portanto, se abstiveram de fazer qualquer registro. Ficaram na beira da estrada, segurando suas câmeras desligadas com a mão esquerda e erguendo a direita à altura do coração, em sinal de solidariedade. No trajeto poeirento que levava até o aeroporto, o povo do Quênia se alinhou ao longo de quase quarenta milhas. Africanos, indianos e europeus, todos juntos, abaixaram a cabeça em silenciosa reverência.

O príncipe Philip, duque de Edimburgo, fez o único registro fotográfico da esposa nesse momento difícil, enquanto ela tomava sua refeição,

Na viagem de regresso a Londres, o silêncio era quase absoluto. “A rainha levantou uma ou duas vezes durante a viagem, e quanto voltou para seu assento, aparentava ter chorado”, relembrou John Dean. Era a primeira vez, desde 1714, que um monarca britânico era proclamado estando no exterior. O príncipe Philip, duque de Edimburgo, fez o único registro fotográfico da esposa nesse momento difícil, enquanto ela tomava sua refeição[1]. A imagem foi divulgada pela primeira vez em 2012 pelo príncipe de Gales, numa filmagem que celebrava o Jubileu de Diamante de sua mãe.  “Olhando para trás, para o início de seu reinado, você percebe como ela era jovem quando subiu ao trono. Ela e meu pai eram pais novos, acabando de estabelecer um lar com os filhos e ela não esperava ser colocada em seu novo papel”, disse Charles. Mais tarde, ele acrescentou: “A morte de seu amado pai com apenas 57 anos deve ter sido um choque terrível”. A imagem em questão foi feita pela mesma câmera que Elizabeth usou para filmar os animais da selva africana. Sem que soubesse, ela fez o registro de seus últimos dias como princesa. Recusou-se a vestir roupas de luto até o último momento, quando o avião então aterrissou e um grupo de políticos, com Winston Churchill entre eles, lhe aguardava.

Logo depois, uma equipe subiu até o avião para preparar a nova soberana adequadamente para as exéquias de seu pai. Por questão de protocolo, Philip agora deveria andar quatro passos atrás da esposa em público. Assim, ela desceu do avião desacompanhada, em direção ao Primeiro-Ministro, que a recebeu contendo as lágrimas. Após cumprimenta-lo, a rainha Elizabeth II foi conduzida até a Clarence House, onde a rainha Mary de Teck, toda vestida de preto, estava à sua espera. “A sua velha avó e súdita deve ser a primeira a lhe beijar as mãos”, disse a viúva do rei George V. De lá, a nova soberana partiu para Sandringham, ao encontro de sua mãe e irmã para ver o cadáver de seu pai. Em um pronunciamento à rádio BBC, o Primeiro-Ministro, Winston Churchill, saudou a nova monarca da seguinte forma: “Famosos foram os reinados das nossas rainhas. Alguns dos maiores períodos da nossa história transcorreram embaixo de seus cetros. Agora nós temos uma segunda rainha Elizabeth, que também ascendeu ao trono com 25 anos, e nossos pensamentos são transportados de volta há 400 anos para a magnífica figura que governou e, de muitas formas, corporificou e inspirou a grandeza e geniosidade da era elisabetana”.

Foto de Elizabeth II desembarcando em Londres publicada no jornal “The Sphere”, em 16 de fevereiro de 1952.

Notas:

[1] Na imagem, a rainha está vestida de preto e usando seu colar de pérolas. Ao contrário do que já disseram, Elizabeth trazia na sua bagagem roupas de luto. A rainha Mary de Teck, depois de perder o marido e sepultar dois de seus filhos, declarou que o preto deveria ser usado pelas mulheres da Casa Real apenas em deveres fúnebres. Sendo assim, era costume adicionar um traje nessa cor na bagagem da realeza, para o caso de um imprevisto. “Por isso é que foi possível à nova rainha regressar da África tropical, apropriadamente vestida, com um vestido preto liso, casaco e chapéu”, disse John Dean, que a acompanhava na viagem.

Referências Bibliográficas:

HARRIS, Paul; ECCLES, Louise. Lost in thought and empty with grief: The historic picture taken hours after Princess Elizabeth learned her father had died… and she was to become Queen. 2012. – Acesso em 06 de fevereiro de 2021.

HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos: o breve século XX. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

KELLEY, Kitty. Os Windsor: radiografia da família real britânica. Tradução de Lina Marques et. al. Sintra, Portugal: Editorial Inquérito, 1997.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MEYER-STABLEY, Bertrand. Isabel II: a família real no palácio de Buckingham. Tradução de Pedro Bernardo e Ruy Oliveira. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2002.

STAVELEY-WADHAM, Rose. The King Is Dead, Long Live The Queen – The Newspapers of 6 February 1952. 2019. – Acesso em 06 de fevereiro de 2021.

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