O fim de uma Era: a morte da rainha Vitória!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em janeiro de 1901, o clima entre os residentes da Osborne House era de grande apreensão. Aos 81 anos, a rainha Vitória minguava a olhos vistos. Meses antes, sua memória mostrava cada vez mais sinais de debilidade, com tendência para a afasia, quando a capacidade de comunicação do indivíduo apresenta distúrbio. De tempos em tempos, porém, ela recobrava a lucidez e se dedicava com afinco à papelada de Estado. Como a catarata lhe turvava a visão, a monarca precisava do auxílio de suas filhas Beatrice e Helena como intérpretes. No dia 2 de dezembro de 1900, o Dr. Reid, seu médico pessoal, escreveu para Bertie, o príncipe de Gales: “Ela já não é o que era. Começo a recear que ela não resista”. Ainda incrédulos, os filhos da soberana pensavam que a vitalidade da mãe retornaria em breve. Afinal, seu corpo pequeno e robusto já havia suportado grandes provações no passado! Só que, dessa vez, o quadro clínico da rainha, agravado pela idade avançada, era nada esperançoso. Vitória sentia dificuldades para dormir e se alimentar, queixando-se constantemente de dores, que eram tratadas com uso de opiáceos. Cinco dias depois, o Dr. Reid novamente escreveu para informar de que ela estava se comportando de maneira “nervosa, lamurienta e infantil”.

“O pior para mim”, contou a soberana no seu diário, “é não [me] contarem nada”. Quando foi examinada apropriadamente, já em seu leito de morte, o Dr. Reid constatou que as dores de Vitória eram nenhum pouco “imaginárias”. Durante os últimos 20 anos, ela padeceu de uma penúria terrível, com um prolapso uterino e uma hérnia do ventre, provavelmente causadas pelos sucessíveis partos e pelo ganho de peso. Isso explicava os problemas que a rainha tinha para se locomover desde 1883, quando passou a precisar do apoio de uma bengala após levar uma queda. Ela suportou muitas dessas dores em silêncio contrito, mantendo por fora a casaca da soberana infatigável. Em 14 de dezembro, como de costume, Vitória se dirigiu ao Mausoléu em Frogmore, onde estava sepultado o príncipe Albert, a quem ela logo se juntaria. No dia seguinte, partiu para Osborne, na expectativa de que ali pudesse recuperar as forças. Lady Jane Churchill, sua dama de companhia, ficou assustada com o aspecto físico de sua senhora durante a viagem: “Dir-se-ia moribunda”, lastimou. Mas nem a própria Lady Jane teve um destino melhor. Na véspera de Natal, chegou à rainha a notícia de que sua companheira de anos havia falecido durante o sono, em decorrência de uma parada cardíaca.

Rainha Vitória à época de seu Jubileu de Diamante, por Bertha Müller.

Aos poucos, todos aqueles que Vitória mais amou haviam partido: sua mãe, a duquesa de Kent, seu terno marido, o príncipe Albert, dois de seus filhos, Alice e Leopold, seu neto Albert Victor, o amigo e Primeiro-Ministro Lord Disraeli e o fiel criado John Brown. Essas sombras do passado turvavam seus pensamentos e a faziam sonhar com uma época mais feliz. Nem mesmo as luzes do natal, que ela tanto adorava ver acesas nos ramos dos pinheiros e abetos, tiveram o poder de desperta-la do seu estado de letargia. Um pouco de caldo, leite quente e alguns biscoitos eram as únicas refeições que tomava. Logo ela, que sempre fora uma amante da boa cozinha! À sua filha mais velha, Vicky, que também estava doente e não podia estar presente naquele momento delicado, a soberana pediu para que lhe escrevessem:

“Não tenho estado muito bem, mas nada que possa preocupar-te e o meu pulso não está mal. Consegui sair um pouco quase todos os dias. As tuas irmãs escreveram-te a contar-te as novidades daqui, sem qualquer espécie de interesse. Espero poder escrever-te eu própria da próxima vez” (apud ALEXANDRE e DE L’AULNOIT, 2001, p. 457).

Na virada do século, em 1 de janeiro de 1901, ela se sentia levemente melhor. Na companhia do filho Arthur, a rainha visitou o hospício militar na Ilha de Wight e no dia seguinte concedeu a Ordem da Jarreteira ao general Roberts, insistindo para que o cerimonial fosse cumprido à risca, apesar de seu grave estado de saúde. “Mais um ano começa e estou me sentindo tão mal e indisposta que mal ingresso nele”, anotou a soberana no seu diário.

O Dr. Reid, em consenso com outros médicos, chegou à conclusão de que Vitória estava em um estado de “degeneração cerebral”. Ela deu um passeio na manhã de quarta-feira, dia 11 de janeiro, e no dia seguinte o lorde Chamberlain declarou: “A sua voz era tão distinta como habitualmente e a sua inteligência estava intacta”. No domingo, sua filha Helena leu para ela os despachos diplomáticos, depois de ambas darem um passeio e assistirem ao serviço religioso. Mas esse foi apenas seu último gesto de esforço antes de sucumbir de vez à enfermidade. Aquela calmaria que geralmente antecede a tempestade. Na segunda-feira, dia 16, seu médico ficou tão preocupado com o estado de saúde da rainha que mandou prevenir a todos os príncipes e princesas da iminente morte da soberana. “Surgiram sintomas inquietantes que despertam considerável preocupação. Isso é confidencial”, escreveu o Dr. Reid para o kaiser Guilherme II da Alemanha, neto de Vitória. Os jornais publicaram no dia 19 um boletim oficial, informando a todos os súditos que “a rainha está sofrendo de grande prostração física, acompanhada de sintomas que geram preocupação”. Dois dias depois, o príncipe de Gales, seu irmão Arthur e o kaiser Guilherme chegaram em Osborne ao meio dia de 21 de janeiro.

Litogravura representando os filhos e netos da rainha Vitória, em volta do seu leito de morte.

Com efeito, já faziam 6 dias que as páginas do diário, que Vitória mantinha religiosamente preenchidas desde 1832, recebiam sequer uma única linha escrita. Em seu constante estado de sonolência, ela se esquecia da passagem das horas e perguntava ao médico se estava melhor. “Sim, Vossa Majestade”, respondia Reid, para não perturbar ainda mais seu estado de confusão. Entre um lampejo de lucidez e outro, ela declarou: “Gostaria de viver um pouco mais, pois ainda tenho algumas coisas para acertar. Arrumei a maioria das coisas, mas ainda sobraram algumas, e quero viver um pouco mais”. A luta pela sobrevivência naquele corpo pequeno e frágil era algo bastante comovente. Durante toda a sua vida, Vitória fora uma mulher incansável, com uma vontade que era capaz de dobrar homens com a envergadura do chanceler Otto von Bismarck e do Primeiro-Ministro Lord Gladstone. Mesmo diante da morte do seu marido, quatro décadas atrás, ela já manifestava esta sede por viver: “Ela apelou a mim dessa maneira tocante, com grande confiança, como se pensasse que eu poderia prolongar a sua vida”, escreveu o Dr. Reid naquela ocasião.

Não obstante, a vontade ferrenha da rainha também se manifestava na recusa de ver seu neto, o kaiser. Ela simplesmente não conseguia lhe perdoar o apoio da Alemanha na Guerra dos Bôeres contra a Inglaterra. Enquanto o príncipe de Gales convencia o sobrinho a esperar um pouco mais, antes de entrar no quarto da avó, as princesas Helena, Louise e Beatrice faziam vigília constante sobre o leito da mãe. Encarniçadamente, Vitória se agarrava à vida. “Não posso deixar de admirar sua determinação em não desistir da luta enquanto puder”, escreveu o Dr. Reid. Compadecido da situação do imperador, o médico permitiu que ele entrasse no quarto da avó, mas sem se fazer anunciar, pois isso a deixaria em estado agitado. Na tarde do dia 22 de janeiro, ela pareceu finalmente ter se reconciliado com Guilherme, quando Reid disse: “Vossa Majestade, o vosso neto, o imperador, está aqui. Veio ver-vos, porque estais muito doente”. Com um leve sorriso nos lábios, Vitória agradeceu a visita com um aceno de cabeça, murmurando que “o imperador é muito bom”. Às 16h00, foi emitido um boletim oficial, informando que “a rainha está lentamente declinando”.

Fotografia postmortem da rainha Vitória, cercada por retratos do príncipe Albert em Osborne House.

Tal como uma sentinela, o kaiser permaneceu postado em um dos lados do leito da enferma e o Dr. Reid do outro, à medida em que as pessoas entravam e saiam silenciosamente do quarto. Enquanto isso, uma enorme tempestade irrompia do lado de fora. Guilherme colocou o braço direito atrás do travesseiro da avó, amparando-a em posição semierguida. Ela permaneceu assim por quase duas horas, quando então deu seu último suspiro. Bertie, agora rei Eduardo VII, que estava sentado na ponta da cama de frente para a mãe, foi quem lhe fechou os olhos pela última vez. A rainha morreu pacificamente às 18 horas e 30 minutos daquele dia 22 de janeiro de 1901. Conforme ressalta Julia Baird:

O mundo estremeceu à notícia da morte da rainha. Milhares de telegramas afluíram a Osborne. Em Londres, atores abandonaram o palco no meio da peça. O trânsito parou. Em Nova York, a bolsa de valores interrompeu suas atividades por um dia. Na Nova Guiné, tribos rememoraram a Mãe sagrada e divina que pairara sobre elas. Na África do Sul, na Austrália, no Canadá, na Índia e nos mais remotos extremos do imenso Império Britânico, as pessoas pararam e rezaram. Vitória se transformara numa divindade materna arquetípica, atravessando fronteiras culturais e religiosas. Os mulçumanos em Londres rezaram pela “Soberana do maior número de Verdadeiros Fiéis do mundo. Segundo o vice-rei indiano, Lord Curzon, os indianos a consideravam quase uma santa. Um aristocrata bengali, o marajá Bahadur Sir Jotindra Mohum Tagore, declarou que ela era como “a Grande Mãe Universal, que é venerada como a Adya-Sakti de nossa mitologia [hindu]”. Na Pérsia, Vitória era “o anjo bom que nos salvou da destruição” (BAIRD, 2018, p. 417).

Com a morte da rainha Vitória, toda uma Era chegava ao fim, embora alguns historiadores argumentem que o período vitoriado tenha se estendido até o ano de 1914, quando a Europa foi sacudida pelas bombas da Primeira Guerra Mundial. Mas, no início de 1901, quando o corpo da rainha era delicadamente arrumado em seu leito com flores e folhas de palmeira, esse futuro era algo que poucos seriam capazes de prever. Os fios que teciam a intricada teia política do continente pararam de trabalhar por um breve momento, enquanto a mulher que de muitas formas corporificou toda uma época, repousava delicadamente no seu caixão. Parecia que ela estava dormindo em sono leve e calmo. Na cabeceira, podia-se ver uma foto do príncipe Albert, cuja memória ela nunca parou de enaltecer.

Apenas quatro anos antes, Vitória havia dado instruções sigilosas ao seu médico sobre como seu corpo deveria ser preparado para a sepultura. Elas incluíam uma longa lista de objetos que seriam inseridos dentro de seu caixão: em suas mãos, ela queria que fossem encaixados anéis do príncipe Albert, de sua mãe, de sua irmã Feodora, de Louise e de Beatrice. O mais controverso dos pedidos, que gera especulações até hoje, foi para que “um anel de casamento simples, de ouro”, que pertencera à mãe de John Brown (que Vitória usava desde que ele morrera, em 1883), fosse adicionado às outras peças. Pequenos retratos do fiel servidor, juntamente com outros do príncipe Albert, foram escondidos entre as flores do ataúde. Reid também recebeu orientação para que um cacho de cabelos de Brown fosse atado com gaze na mão da rainha. Mais peças, como um xale feito por sua filha Alice e o molde da mão de Albert também foram depositados. Por fim, o corpo da soberana foi vestido com um longo traje de seda, com a Ordem da Jarreteira atravessando seu busto. O cabelo foi cortado para melhor encaixar seu véu de casamento, emoldurando por flores brancas. Era como se, ao morrer, Vitória desejasse que todos tivessem de si a visão da eterna noiva apaixonada pelo seu príncipe.

Interior do Mausoléu em Frogmore.

De Osborne, o corpo da rainha seguiu de estação até Londres, onde um longo cortejo guiado pelo kaiser percorreu as ruas da capital no dia 1 de fevereiro. Em meio ao silêncio das multidões, “Londres parecia uma cidade morta… A gente se sentia como se tivesse trapaceando nas cartas”, disse o romancista Maurice Baring. A mudez era interrompida apenas pelo som dos cascos dos cavalos que arrastavam o ataúde, pelo rufar dos tambores e pelo tinir das espadas. A rainha manifestara o desejo de que, em vez do tradicional preto do luto, as residências fossem enfeitadas com panos brancos e cor de malva. “Todos choram e as persianas das casas estão abaixadas. É um luto real, pessoal”, escreveu Josephine Butler. Em seguida, o comboio se dirigiu para o castelo de Windsor, para um breve serviço religioso na capela de São Jorge. No dia 4, o ataúde foi finalmente depositado no Mausoléu construído em Frogmore quatro décadas antes, para repousar ao lado do corpo do príncipe Albert. Uma efígie tumular esculpida em mármore apresenta a rainha com feições mais jovens. Seu rosto se encontra inclinado para o do marido, como se na morte eles finalmente pudessem se reencontrar.

Referências Bibliográficas:

ALEXANDRE, Philippe; DE L’AULNOIT, Béatriz. Victoria: a última rainha (1819 – 1901). Tradução de Fátima Gaspar e Carlos Gaspar. 2ª ed. Lisboa, Portugal: Bertrand, 2002.

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

LONGFORD, Elizabeth. Queen Victoria: born to succed. New Yor:  Haper & Row, 1964.

MUHLSTEIN, Anka. Vitória: retrato da rainha como moça triste, esposa satisfeita, soberana triunfante, mãe castradora, viúva lastimosa, velha dama misantropa e avó da Europa. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

STRACHEY, Lytton. Rainha Vitória. Tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro: Record, 2001.

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