The Snow Princess: conheça a trágica história de Astrid da Suécia, rainha dos Belgas!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No dia 31 de agosto de 1997, o mundo inteiro despertou com a notícia mais chocante do ano: a morte da princesa Diana, em um trágico acidente de automóvel em Paris. A comoção popular que se seguiu gerou um clima de histeria tão grande, que abalou os alicerces da monarquia britânica. Diana havia sido amada e idolatrada pelo povo, assim como a princesa Grace de Mônaco. Uma das maiores lendas de Hollywood, Grace Kelly abriu mão de sua bem-sucedida carreira de atriz para se casar com o príncipe Rainier III. Ninguém estava preparado para a sua morte, em 14 de setembro de 1982, depois que o seu carro caiu de um despenhadeiro em Monte Carlo, causando-lhe um derrame cerebral. Duas perdas terríveis, provocadas por desastres automobilísticos! Contudo, Diana e Grace não foram as únicas princesas ligadas por esse triste desfecho. Em 29 de agosto de 1935, o veículo que transportava a bela rainha Astrid dos Belgas capotou para fora de uma estrada na Suíça, vitimando-a aos 29 anos. Três mulheres ligadas pelo mesmo destino e com uma trajetória de doação e amor ao próximo bastante parecida. De sua infância dourada na Suécia até suas horas finais, a história de Astrid poderia ter saído de um livro de contos, não fosse pelo capítulo final.

Princesa Astrid da Suécia, no início da década de 1920.

Em 17 de novembro de 1905, as três fadinhas mágicas das narrativas infantis pareciam ter abençoado a bebê do príncipe Carl da Suécia e da princesa Ingebord da Dinamarca com tudo o que uma garota aristocrática poderia desejar: graça, beleza e status. A criança foi batizada com o nome de Astrid Sofia Lovisa Thyra. Era a mais nova de duas irmãs e, assim como elas, destinada a se casar com algum membro da nobreza para firmar uma importante aliança dinástica entre a sua família e a do noivo. Afinal, a pequena Astrid era aparentada com todas as famílias reinantes nas monarquias escandinavas. Pelo lado paterno, era neta do rei Oscar II da Suécia e da Noruega, que governava desde 1872. Após a sua morte, em 1907, o trono sueco passou para as mãos do príncipe herdeiro Gustav V, enquanto o reino da Noruega foi ocupado em 1905 por Haakon VII, irmão da princesa Ingebord. Pelo lado materno, Astrid também era sobrinha do rei Cristiano X da Dinamarca. Assim sendo, desde cedo ela foi vista como um elemento importante no jogo de alianças matrimoniais europeias. O que poucos imaginavam é que a filha mais jovem do príncipe Carl faria o casamento mais vantajoso dentre suas irmãs, porém com consequências trágicas para o seu futuro.

A maior parte da infância de Astrid transcorreu no palácio de Arvfurstens, em Estocolmo, onde nasceu. Ela e suas irmãs Margaretha e Märtha, e seu irmão, Carl, se divertiam entre os jardins e ciprestes da bela residência de verão da família real. Sua educação, apesar disso, foi bastante convencional e desprovida de frivolidades. Além das disciplinas básicas, a princesa aprendeu Francês, Música, Balé e frequentou o internato Sint Botvid e a escola Akerstrom-Soderstrom. O estudo da dança, juntamente com sua aplicação em esportes como natação, esqui e equitação lhe deu um porte bastante elegante e delgado. À medida em que crescia, Astrid se tornava uma jovem bela e atraente. Desde cedo, foi incentivada a se envolver em causas sociais, ajudando os mais necessitados. Embora membro da família real, a princesa trabalhou por um breve período em um orfanato de Estocolmo, cuidando das crianças. Também podia ser vista andando livremente entre as pessoas pelas ruas da capital, fazendo compras. Sua instrução foi finalizada com um curso de economia doméstica, em uma instituição especializada no preparo de moças para a futura vida de casadas. Não demoraria muito e o seu príncipe logo chegaria: Leopold, duque de Brabant e filho do rei Albert I dos Belgas.

Com efeito, o noivo era sobrinho-neto do rei Leopold II dos Belgas, famoso pelas atrocidades que cometeu contra os africanos no Congo, durante a fase de expansão dos novos impérios coloniais na segunda metade do século XIX. Ele faleceu apenas dois anos depois de a princesa Astrid nascer, sendo então sucedido pelo seu irmão Albert, que ficou popularmente conhecido como “o rei cavaleiro”. Após a Primeira Guerra Mundial, o Tratado de Versalhes confirmou o Congo como possessão ultramarina da Bélgica. Demoraria mais de quatro décadas até a região se libertar das amarras do colonizador e se tornar a República Democrática do Congo. Era para essa família que a filha do príncipe Carl da Suécia estava destinada a entrar pelo casamento. Outras uniões haviam sido cogitadas antes, como com o príncipe de Gales, Edward, e o príncipe Olav da Noruega. Mas, à medida em que suas irmãs mais velhas iam se casando, a questão do matrimônio da mais nova se tornou crucial. Em 1919, Margretha desposou o príncipe Axel da Dinamarca, enquanto Märtha, que era a favorita da mãe, estava destinada ao príncipe Olav. O quadro se agravou em 1922, quando a queda da bolsa de valores de Nova York atingiu diretamente os investimentos da família.

Fotografia do casamento de Astrid e Leopold na Suécia.

Como consequência, a princesa Ingebord se viu forçada a vender suas joias e propriedade para salvar a família da falência. Por outro lado, não era incomum até o início do século XX que as famílias aristocráticas utilizassem suas filhas para aumentar suas posses através do casamento. Nesse caso, a bela Astrid deveria ser envolvida em algum matrimônio vantajoso, que trouxesse novamente riqueza e prestígio para a sua Casa. Depois de completar 20 anos, em 1925, seus pais começaram a procurar um noivo que fosse portador de uma considerável fortuna. Nesse contexto, o príncipe Leopold dos Belgas parecia ser o candidato ideal. Unindo o útil ao agradável, ele e Astrid se sentiram mutuamente atraídos. Membros da criadagem afirmavam que os dois se encontraram em segredo durante meses, com Leopold disfarçando de mordomo. Em público, o casal não fazia questão de esconder sua paixão e podia ser visto andando sempre de mãos dadas e se beijando ternamente, o que foi considerado um escândalo para os padrões morais vigentes na época. Pondo em prática o que aprendeu na escola preparatória para moças, Astrid gostava de passar seu tempo cozinhado para o príncipe, que adorava especialmente a sua salada de endívia.

Em 1926, o anúncio do casamento foi feito simultaneamente pelo rei Gustav V na Suécia e pelo rei Albert em Bruxelas. Algumas complicações atrasaram as negociações, especialmente de ordem religiosa, uma vez que Astrid era luterana, enquanto Leopold era católico. Embora tenha considerado se converter à fé do futuro marido, Astrid foi aconselhada a tomar essa decisão apenas quando se sentisse convicta disso. Uma dispensa papal foi então emitida, autorizando a união entre um príncipe católico e uma princesa protestante, contanto que os filhos do casal fossem doutrinados na religião do pai. Em 4 de novembro, teve lugar a cerimônia civil, oficiada na sala do trono do palácio de Estocolmo. Para a ocasião, ela usou um vestido branco enfeitado com pérolas e o mesmo véu de rendas de Bruxelas que pertenceu à sua mãe. A lista de convidados incluía os reis Albert I dos Belgas, Gustaf V da Suécia, Christian IX da Dinamarca e Haakon VII da Noruega, além dos príncipes e princesas reais pertencentes às respectivas dinastias. De acordo com uma matéria publicada no Washington Post, “em todos os lugares havia vestidos e joias lindas e uniformes brilhantes”. Os presentes de casamento incluíam dezenas de joias, oferecidas pelo povo de Estocolmo.

Depois da cerimônia civil na Suécia, Astrid chegou à Bélgica no dia 9. Uma multidão se acotovelava pelas ruas de Bruxelas para ter uma visão de sua nova princesa. No dia seguinte, teve lugar a cerimônia religiosa, na Catedral de São Miguel e Santa Gudula. Após o tradicional atraso da noiva (que demorou além da conta), Astrid desceu da carruagem estacionada nos pórticos da Catedral, usando um segundo vestido branco e o mesmo véu de rendas de Bruxelas de sua mãe. Um colar de diamantes era a única joias que enfeitava seu colo, antes que o príncipe Leopold colocasse no seu dedo uma aliança cravejada de pedras preciosas. Mais uma vez, a lista de convidados era extensa, reunindo todas as principais famílias dos reinos escandinavos, que desfilavam uma profusão de joias com o poder de obliterar a visão dos passantes. 21 tiros de canhão foram disparados em meio à população, aglomerada em torno do edifício. A nova duquesa de Brabant recebeu de presente de casamento do governo belga a Tiara das Nove Províncias, confeccionada pelo joalheiro Van Bever em platina e diamantes (roubados) extraídos do Congo Belga. Conforme reportou o The New York Times, “o diadema é feito de modo que possa ser desmontado sem dificuldade e transformado em pulseiras, anéis, colares ou broches, caso a moda mude ou sua forma deixe de agradar”.

Astrid e sua filha, Joséphine-Charlotte, nascida em 1927.

Após a lua de mel no Sul da França, o casal se mudou para uma ala no Palácio Real de Bruxelas. Como duquesa de Brabant e futura rainha, Astrid estava decidida a não levar uma vida convencional de princesa consorte. Gostava de andar entre as pessoas nas ruas da capital para ver seu marido em procissão e, sempre que podia, escapava de todo o cerimonial da corte. O povo belga, por sua vez, adorava ver a sua princesa se misturando entre eles, com uma beleza, charme e simplicidade que lhe eram características. Logo em seguida, vieram os filhos. A primeira herdeira do casal nasceu em 1927 e foi batizada de Joséphine-Charlotte, futura grã-duquesa de Luxemburgo. Depois de visitarem as Índias Orientais Holandesas (atual Indonésia) e se fixarem no castelo de Stuyvenberg, em Laeken, a duquesa deu à luz em setembro de 1930 ao príncipe Baudouin, que acabaria sucedendo ao pai como rei dos Belgas. Decida a dar aos filhos uma educação mais despojada de todos os protocolos reais, Astrid cozinhava pessoalmente para eles e, sempre que podia, dispensava os empregados para aproveitar a intimidade da vida em família. Apaixonado pela esposa, Leopold apoiava todas as suas decisões. Os membros mais conservadores da corte, porém, desaprovavam essa conduta.

Embora Astrid fosse amada pelo povo da Suécia e da Bélgica como “terna, compreensiva e profundamente humana”, dentro dos muros do palácio a realidade era outra. A resposta da princesa para tudo isso era continuar quebrando uma barreira após a outra daquele universo de regras antiquadas. Dizem que um dia ela levou as crianças para passear sem escolta na movimentada Avenida Louise, em Bruxelas, sendo repreendida por um dos membros da corte. “Mas eu sou uma mãe como qualquer outra, ou não sou?”, foi a resposta dada na ocasião. Em 1930, ela finalmente se converteu ao catolicismo, o que deixou a família de seu marido muito contente. O rei Albert teria declarado que “agora toda a família está unida na mesma religião”. A um amigo de infância, a princesa declarou: “Minha alma finalmente encontrou sossego”. Dois anos depois, ela e Leopold deixaram os filhos sob os cuidados dos avós na Suécia para fazerem uma viagem pelo Congo Belga, de onde retornaram algum tempo depois. A situação estava nesse pé quando, em 17 de fevereiro de 1934, o rei Albert I morreu, em decorrência de um acidente ocorrido em Marche-les-Dames, enquanto praticava montanhismo. A partir desse dia, Astrid e seu marido se tornaram os novos soberanos da Bélgica.

Na época da morte de seu sogro, a nova rainha estava grávida do seu terceiro filho, a quem batizou em homenagem ao falecido rei. Ele acabaria sucedendo ao seu irmão Baudouin como rei Albert II. No seu papel de soberana, Astrid se dedicou de corpo e alma às causas sociais, algo que ela já fazia nos seus tempos de princesa na Suécia. Preocupava-se principalmente com crianças abandonadas e mulheres desamparadas. Através de uma carta, que ficou conhecida como o “Apelo da Rainha”, ela organizou em 1935 um mutirão para arrecadar roupas, dinheiro e alimentos para os pobres. O trabalho social colocou Astrid em contato ainda mais estreito com o povo belga. A soberana gostava de visitar abrigos e assentamentos para os pobres no país, onde ouvia suas necessidades. Interessada em trazer outras mulheres para a sua cruzada, ela reuniu um grupo para ser treinado nos cuidados básicos com a saúde das crianças. Seu apoio também se estendeu às garotas, matriculando-as em escolas de corte e costura, para que aprendessem uma profissão e fossem capazes de gerar sua própria renda. Entre as Instituições que recebiam o patrocínio da rainha, destacavam-se as Irmãs de São Vicente de Paulo e a Fédération des Foyers Belges, uma organização de caráter liberal.

Astrid, rainha dos Belgas.

Numa época em que o movimento sufragista fazia importantes avanços na Europa e na América, lutando por maior participação das mulheres na política, Astrid se destacou na Bélgica ao conceder audiências às defensoras do direito feminino, tais como a como a baronesa Marthe Boël, que era presidente do Conselho Nacional das Mulheres Belgas. No mês de maio, as atenções da rainha se voltaram para o consumo exagerado de bebida alcoólica por parte da população e então ela organizou a famosa “Semana no Leite”, um esforço para encorajar os súditos de seu marido a ingerir bebidas mais saudáveis (um relatório detalhado sobre a regulamentação das leis do leite em outros países lhe foi entregue pelo cortesão Gatien du Parc). Por todo o seu envolvimento junto ao povo e às causas sociais, por sua devoção ao marido e aos filhos, Astrid acabou se tornando a soberana mais popular na história da monarquia belga. Infelizmente, a rainha não desfrutaria de muito mais tempo junto ao povo. Em agosto de 1935, ela e seu marido foram passar as férias na sua residência de verão, Villa Haslihorn, em Genebra. Joséphine e Baudouin acompanharam os pais, enquanto o príncipe Albert foi deixado sob os cuidados de suas babás, por ser considerado ainda muito novo.

No dia 28, os dois maiores retornaram para Bruxelas, ficando apenas seus pais em Villa Haslihorn. Na manhã seguinte, os soberanos fizeram a sua última caminhada pelas belas montanhas e vales, antes de retornar para casa. Enquanto Leopold dirigia pela estrada, Astrid estava sentada no banco do carona, com um mapa nas mãos. Era cerca de 9h30 quando a rainha apontou para algo fora do percurso, fazendo com que seu marido desviasse a atenção do volante. O conversível Packard One-Twenty saiu da estrada, descendo uma ladeira escarpada até colidir com uma árvore, em Küssnacht am Rigi, perto do Lago Lucerna. O impacto da batida foi tão grande que o corpo da rainha foi atirado para fora do carro, chocando-se com outra árvore. O rei saiu levemente ferido, mas sua esposa não resistiu, falecendo naquele mesmo dia, aos 29 anos. A última cena de que as testemunhas se lembram foi de ver o soberano segurando o corpo ensanguentado da mulher contra o peito, gritando desesperadamente pelo seu nome. A morte da rainha Astrid dos Belgas gerou verdadeira comoção popular. Milhares de pessoas compareceram ao seu funeral, tomadas por um misto de tristeza e incredulidade de que algo tão horrível pudesse acontecer com ela.

Em sua dor profunda e convencido de que fora o responsável pelo o acidente, Leopold III ordenou que o conversível Packard One-Twenty fosse lançado nas profundezas do lago Lucerna, próximo do local onde sua esposa perdeu a vida. Por fim, o corpo de Astrid encontrou repouso na Igreja de Nossa Senhora de Laeken, onde hoje também se encontra sepultado seu marido, o rei Leopold III e sua segunda esposa Lilian, princesa de Réthy. Uma capela em memória da rainha foi construída no local do acidente, enquanto estátuas comemorativas foram erguidas por todo o país. Atualmente, dois de seus netos são monarcas reinantes: Phillipe dos Belgas e Henri, Grão-duque de Luxemburgo. Em seu tempo de vida, Astrid havia sido adorada como ícone da moda e patrona das causas humanitárias. Se dedicou com um zelo especial à sua família, desafiando todos aqueles que queriam lhe impor um código de conduta a ser seguido. Quem dera ela tivesse mais tempo para continuar defendendo os ideais que tanto acreditava, quebrando os protocolos arcaicos da realeza… Em termos políticos e sociais, ela foi a verdadeira precursora no século XX para as princesas Grace de Mônaco e Diana de Gales, igualmente envolvidas em trabalhos comunitários.

Referências Bibliográficas:

ARANGO, E. Ramón. Leopold III & the Belgian Royal Question. Baltimore, Maryland: Johns Hopkins Press, 1961.

HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos: o breve século XX. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

MASON, Dancy. Tragic Facts About Astrid Of Sweden, The Snow Princess. – Acesso em 13 de janeiro de 2021.

THE COURT JEWELLER. Belgian royal brides: queen Astrid of Belgium. 2015. – Acesso em 13 de janeiro de 2021.

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