O Natal da família real: a rainha Vitória e a popularização das tradições natalinas no século XIX!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

O Natal costuma ser uma das festas mais aguardadas de fim de ano. Meses antes de sua comemoração, as lojas já começam a se preparar com artigos de enfeite disponíveis para venda; propagandas nos jornais, televisão e internet são efusivamente veiculadas. Comercialmente falando, talvez seja o feriado mais rentável para as indústrias. Contudo, poucos sabem que muitas das tradições natalinas foram popularizadas no período vitoriano e até hoje são comuns em diversos locais. Uma delas é a famosa árvore de Natal, com seus ramos de pinheiro ou abeto iluminados e bolas coloridas pendentes. Embora a prática remonte ao período medieval, quando os povos germânicos decoravam seus templos e o interior de suas casas com flores e arbustos, ela acabou se espalhando para outras partes do continente europeu. Na Inglaterra, credita-se à rainha Charlotte a introdução da árvore enfeitada com presentes dispostos em sua base. Porém, foi com o príncipe Albert que o costume invadiu os lares dos ingleses, através do comércio. Litogravuras da família real reunida em torno de um abeto decorado com velas eram publicadas em jornais e vendidas no formato de cartões postais, que podiam ser facilmente transportados por viajantes de vários lugares do mundo.

O período vitoriano é conhecido pela criação de regras de etiqueta, que definiram os papeis sociais que homens e mulheres deveriam desempenhar. Um código de conduta rígido, de acordo com a moral burguesa vigente em meados do século, era o que se exigia das famílias de classe média e alta. Havia, inclusive, um tipo de literatura que era muito valorizada pelo seu caráter pedagógico: os manuais de etiqueta, que ensinavam aos leitores a reprimirem seus instintos naturais em nome do “bom tom”. Nesse contexto, a rainha Vitória (cujo nome batiza o período que se estende de 1837 a 1901), em muitos sentidos corporificou esse estilo de vida, adotado até mesmo em alguns países abaixo dos trópicos. Ela pode não ter sido a primeira mulher a se casar de branco, mas sem dúvidas foi por sua causa que essa cor se tornou a mais popular entre as noivas a partir de então. Sendo assim, a soberana foi um catalizador para muitas das tradições veiculadas na época. A árvore de Natal foi uma delas. Todos os anos, Vitória e Albert instalavam árvores decoradas no salões do castelo de Windsor, que podiam ser tanto artificiais, quanto verdadeiras, e reuniam seus filhos em torno de uma delas. Dependendo do seu tamanho, os lustres do castelo precisavam ser removidos, para melhor acomodar o enfeite.

Gravura da família real celebrando o Natal em Windsor foi publicada no “Illustrated London News” em 1848.

Em 1848, uma gravura da família real celebrando o Natal em Windsor foi publicada no Illustrated London News, ajudando assim a cristalizar a nossa percepção da festividade como um aconchegante evento familiar, que foi apropriada pelo cristianismo. Contudo, a celebração do Natal é bem mais antiga do que se imagina, encontrando raízes no antigo festival pagão de Inverno. Nessas ocasiões, abetos eram usados tanto pelos romanos quanto pelos vikings nos seus rituais ancestrais. Na Renânia, durante a Idade Média, é que elas foram associados pela primeira vez à Árvore do Paraíso, da história de Adão e Eva no livro de Gênesis. Montadas originalmente no dia 24 de dezembro, as árvores eram decoradas com guloseimas para representar as maçãs do Jardim do Éden. Dessa forma, o ícone acabou sendo incorporado à religião cristã, embora sua prática fosse mais comum no norte da Europa. Na Grã-Bretanha, a comemoração do Natal chegou a ser abolida por Oliver Cromwell durante os anos da Guerra Civil, por ser vista pelos puritanos como um símbolo da idolatria papista. Com a restauração de Carlos II, a tradição foi retomada, mas sem muita adesão por parte dos súditos. Foi só com o príncipe Albert e a rainha Vitória que a celebração natalina obteve um verdadeiro renascimento.

Grande entusiasta das decorações de Natal tradicionais de sua terra, Albert fez muito para introduzir o costume no Reino Unido, especialmente o uso da famosa árvore (embora, como vimos, não tenha sido ele a inventar a prática da decoração de abetos e pinheiros, conforme alguns acreditam). Desde os tempos dos primeiros reis Hanôver, no início do século XVIII, que algumas das celebrações germânicas de final de ano começaram a ser difundidas dentro do país. Dizem que foi a esposa de George III, Charlotte de Mecklenburg-Strelitz, quem primeiro decorou ramos de teixo com velas e doces, no castelo de Windsor em 1800. Até o casamento de Vitória e Albert em 1840, as comemorações natalinas na Grã-Bretanha foram estimuladas principalmente por mercadores alemães imigrantes, que começaram a importar árvores de Natal para a região de Manchester para uso particular, na década de 1820. Enquanto isso, a rainha Adelaide de Saxe-Coburg-Meinigen, esposa do rei William IV, deu continuidade à prática iniciada na corte pela rainha Charlotte. E foi assim a pequena princesa Vitória de Kent entrou em contato pela primeira vez com uma árvore decorada, em 1832. Sua mãe também costumava montar uma todos os anos em seus apartamentos no palácio de Kensington.

O primeiro cartão de Natal foi introduzido na Inglaterra em 1840. O acadêmico real, John Calcott Horsley, projetou um cartão em 1843, com os dizeres “Feliz Natal e Feliz Ano Novo”, contendo a ilustração de uma família sentada ao redor de uma mesa com a ceia natalina.

Após o nascimento de seus dois primeiros filhos, Vicky e Bertie (futuro rei Eduardo VII), a rainha Vitória e o príncipe Albert sentiram a necessidade de criar um ambiente mais aconchegante para sua família, que ficava maior a cada ano. Saudoso das tradições de sua terra, Albert teria sugerido à esposa que adotassem o costume alemão de decorar uma árvore. Um abeto do parque do castelo de Windsor foi cortado para esse propósito e depois enfeitado com fitas, velas e ameixas. Ocasionalmente, o casal também montavam árvores um para o outro, colocando-as sobre as mesas de suas salas de estar privadas. Todo o tipo de bugigangas podiam ser encontradas nos seus galhos, desde brinquedos para os filhos, frutas douradas e nozes. Até mesmo enfeites fabricados começaram a ser usados, como pingentes de vidro e anjinhos. Assim sendo, o abeto decorado acabou se tornando o símbolo natalino por excelência, penetrando no lar dos ingleses, por mais modesto que este fosse. Durante a década de 1840, Albert promoveu o uso generalizado de árvores de Natal na Grã-Bretanha, apresentando-as ele mesmo nas escolas e quartéis do exército. Isso sem falar na tradicional ceia natalina, cuja inspiração veio de diferentes culturas, a exemplo da culinária francesa.

Com efeito, a comida desempenhou um papel cada vez mais significativo nas celebrações de Natal. O peru assado, por exemplo, foi introduzido pela primeira vez na Inglaterra durante o reinado de Henrique VIII, embora seu consumo na festa não fosse difundido até o ano de 1800, pelo príncipe regente. Havia também o pudim de ameixa, que atualmente conhecemos como pudim de Natal. Conforme ressalta a rainha Vitória no seu diário:

No jantar, havia todos os pratos de Natal, dos quais geralmente tínhamos que comer um pouco primeiro do frio rosbife, que estava no grande aparador todo enfeitado […] tortas de caça da Irlanda e outros – peru recheado – cabeça de javali – de que Albert gostava tanto – tortas de carne moída etc. etc.

Outra tradição singular inventada no século XIX consistia na prática de cada membro da família mexer um pouco a massa do pudim de Natal, como símbolo de união. Em seguida, surgiu também na mesa o biscoito francês e o bolo decorado com frutas, dos quais a rainha Vitória gostava especialmente. Os famosos Twelfth Cakes da rainha eram elaboradamente decorados, com cenas reproduzidas no topo. Elas podiam variar de um piquenique a uma cena de caça. Após a ceia, a família se reunia para as canções natalinas, tradição essa que foi importada da França e logo incorporada ao Natal inglês.

Árvore de Natal da rainha Vitória no Castelo de Windsor em 1850. Aquarela de James Roberts.

Não obstante, a família real manteve o antigo costume dos Doze Dias, que abarcavam todo o período festivo, com a árvore iluminada na véspera do Natal, no dia 25, no dia de ano novo, estendendo-se até o décimo segundo dia do calendário. Todos os principais elementos que marcavam a festa estavam ali, como a encenação de pantomimas, a troca de presentes, a ceia e a casa toda decorada para reunir a família e seu círculo próximo de parentes e amigos. A rainha Vitória, por sua vez, ficava muito contente com a tradição alemã, seguindo-a à risca nos seus mínimos detalhes. Em 24 de dezembro de 1850, ela escreveu no seu diário:

A geada acabou em uma manhã crua e maçante. Albert estava fora atirando, enquanto eu caminhava com as crianças. Saímos à tarde e a achamos crua e úmida. Começamos dando nossos presentes à pobre Lady Lyttleton, uma pulseira contendo os retratos de nossos cinco filhos mais novos e duas gravuras das crianças. Em seguida, demos presentes aos nossos servos pessoais etc., e estávamos ocupados arrumando as mesas. […] Um pouco depois das 6, todos nós nos reunimos e meu amado Albert primeiro me levou para minha árvore e mesa, coberta por tantos presentes, realmente muito, muito magníficos. […] O presente do querido Albert, que tem um valor infinito para mim, é uma miniatura da minha amada Louise em um fecho de pulseira em esmalte azul escuro fosco, com uma cruz preta, cravejada com estrelas de diamantes, tudo muito lindo e projetado pelo próprio querido Albert. Também recebi presentes encantadores da querida mamãe. Todas as três meninas trabalharam comigo em alguma coisa. As sete crianças foram então levadas para sua árvore, pulando e gritando de alegria sobre seus brinquedos e outros presentes; os meninos não conseguiam pensar em nada a não ser nas espadas que demos a eles e Bertie em alguma armadura que, por mais que reclamasse, a beliscou!

Quando jovem, a princesa Vitória adorava outra tradição britânica: a pantomima, gênero que se originou como uma espécie de representações temporais sem falas, exclusivamente através de gestos, expressões faciais e movimentos. Baseadas na commedia dell’arte italiana, elas foram introduzidas na Inglaterra pelo rei Eduardo IV no final do século XV. Vitória gostou bastante de Harlequin e Jack Frost, quando a assistiu em Drury Lane em janeiro de 1839. Depois de casada e mãe, ela levava suas crianças regularmente para assistir às pantomimas encenadas no Royal Lyceum na época do Natal, durante as décadas de 1840 e 1850.

Entretanto, a rainha e o príncipe Albert não merecem totalmente o crédito pela popularização das tradições natalinas, conforme as conhecemos hoje. Muito disso também se deve à Charles Dickens, que me 1843 publicou “A Christmas Carol”, ou “Um conto de Natal”, como é mais conhecido aqui entre nós. O texto narra a história de um homem velho e avarento, chamado Ebenezer Scrooge, que abomina o período natalino e faz de tudo para infernizar o seu empregado Bob Cratchit, um homem pobre e pai de quatro filhos. Na noite da véspera de Natal, Scrooge tem um inesperado encontro com três espíritos, que lhe apresentam cenas de sua vida no passado, no presente e o que o futuro sombrio estava lhe reservando, caso ele persistisse na sua avareza. Após as três visões, o velho homem amanheceu no dia 25 de dezembro como uma pessoa renovada, mais feliz e generoso para com os mais necessitados, incluindo o pobre Bob e sua família. Dessa forma, o sentido do Natal vitoriano, como uma “época de boa vontade para todos os homens”, foi interpretado por muitos na Grã-Bretanha oitocentista e no resto mundo como um momento ideal para a realização de obras de caridade (conforme o exemplo da personagem de Dickens), visando a obtenção de um lugar no paraíso.

Cena do Príncipe Albert conduzindo um trenó puxado por dois cavalos, no qual estão sentadas três figuras, provavelmente a Rainha Vitória, a Duquesa de Kent e a Princesa Real (c. 1845).

Em 1842, por exemplo, segundo o The Times a rainha Vitória ordenou que “todo adulto pobre da cidade de Windsor” recebesse “4 libras de carne, 2 libras de pão, 1 libra de pudim de ameixa, um saquinho de batatas e duas canecas de cerveja”. Prática essa que se repetiria por todos os anos. Em 25 de dezembro de 1850, a soberana escreveu no seu diário:

O retorno desta época abençoada deve sempre preencher a pessoa com gratidão e com a mais profunda devoção a Nosso Senhor e Salvador! Queira Deus que todos possamos ver o feliz retorno deste grande Festival. Caminhamos com as crianças até os canis, onde eu dei os bons e pequenos brinquedos do McDonalds e outras coisas como vestidos. O dia estava lindo, mas quase ameno demais para o Natal! Serviço às 11. Fui várias vezes para olhar meus lindos presentes. As árvores foram iluminadas à noite e as crianças estavam brincando alegremente.

O último Natal que a família real passou reunida com o príncipe Albert foi o de 1860. Fazia muito frio e nevava, conforme registrou a própria Vitória no seu diário: “Este querido Festival já voltou, e este ano com um verdadeiro clima de Natal, neve no chão e geada forte”. Apesar disso, um dos cavalheiros da corte comentou com alegria sobre o espírito de informalidade que reinava no castelo de Windsor. “Nunca vira felicidade tão real”, disse ele ao ver a rainha, o príncipe e seus filhos tão próximos das pessoas comuns. O mais especial naquela visão era “a realeza pondo de lado seu status e se tornando, em palavras, atos e ações uma de nós mesmos – sem formas e sem vestígio de cerimônia”. Com a morte de Albert em 14 de dezembro de 1861, o Natal perdeu parte de seu atrativo para a monarca, passando a ser um momento doloroso e cheio de saudosas recordações de tempos mais felizes. Mas, à medida em que seus netos e bisnetos iam nascendo, Vitória aos poucos foi reencontrado a antiga alegria dos primeiros natais em família, quando ela e seu adorado príncipe reuniam todos em volta de uma árvore iluminada para celebrar o que ela considerava “como sempre, uma noite tão alegre e feliz com todas as crianças”. Enfim, uma “época abençoada”!

Referências Bibliográficas:

ALEXANDRE, Philippe; DE L’AULNOIT, Béatriz. Victoria: a última rainha (1819 – 1901). Tradução de Fátima Gaspar e Carlos Gaspar. 2ª ed. Lisboa, Portugal: Bertrand, 2002.

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018

Christmas at Windsor Castle – From Queen Victoria’s journal. – Acesso em 24 de dezembro de 2020.

HOBSBAWM, Eric J. A Era do Capital. Tradução de Luciano Costa. 21ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

LONGFORD, Elizabeth. Queen Victoria: born to succed. New Yor:  Haper & Row, 1964.

RAPPAPORT, Helen. The Victorian Christmas. – Acesso em 24 de dezembro de 2020.

The reinvention of Christmas under Queen Victoria. – Acesso em 24 de dezembro de 2020.

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