Entre a Dama de Ferro e a Princesa do Povo: os desafios de Elizabeth II na quarta temporada de “The Crown”!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

O momento mais aguardado pelos fãs da famosa série da Netflix, “The Crown”, parece finalmente ter chegado. No dia 15 de novembro de 2020, os telespectadores poderão sentir as tensões vividas pela rainha Elizabeth II do Reino Unido na década de 1980, quando duas outras personagens surgiram no cenário britânico para disputar consigo o centro dos holofotes. De um lado, Margaret Thatcher, a primeira mulher na história do parlamentarismo inglês a assumir o cargo de Premiê; do outro, a esposa do príncipe Charles, Lady Diana Spencer. Enquanto Thatcher entrou para a história como a Dama de Ferro, conhecida por suas políticas neoliberais, Diana chamou a atenção da mídia nos quatro cantos do mundo, como a princesa de contos de fadas que viveu uma drama público. Entre as duas, figurava a soberana de 50 anos, segurando nas costas o peso da Instituição que lhe foi legada com a morte do seu pai, em 1952.

Na última temporada de “The Crown”, despedimo-nos de Elizabeth II (interpretada por Olivia Colman) celebrando o seu Jubileu de Prata em 1977, quando seu reinado completou 25 anos. As décadas de 1960 e 1970 foram fases de grande instabilidade no reinado de Elizabeth, marcadas pelo agravamento dos setores republicanos no Partido Trabalhista, enquanto no resto da Comunidade de Nações surgiam movimentos de caráter separatista. Em meio à instabilidade política, uma grave recessão econômica colaborou para que a monarquia fosse vista como um regime ultrapassado e a rainha como uma mulher incapaz de se adequar a um mundo em rápida transformação. Os gastos da Lista Civil com a Casa Real foram alvo de intensa especulação por parte do contribuinte e as tentativas fracassadas da realeza de recuperar a popularidade dos anos Pós-Guerra (como o documentário de 1969, intitulado “Família Real”) tiveram o efeito oposto.

Olivia Colman como Elizabeth II na quarta temporada de “The Cronw”.

Nesse cenário caótico, as comemorações do Jubileu de Prata de Elizabeth II foram uma espécie de camuflagem para os escândalos protagonizados pela princesa Margaret e o conde de Snowdon, assim como uma estratégia midiática do governo de James Callaghan para fazer parecer que a situação permanecia estável sob o cetro da rainha. Na terceira temporada, ficamos sabendo um pouco mais sobre a vida alguns membros marginalizados da realeza, como a princesa Alice de Battenberg, mãe do príncipe Philip, assim como o desfecho da história do duque e da duquesa de Windsor. Alguns acontecimentos, porém, passaram batidos pela produção, como o casamento da princesa Anne com Mark Philips em 1973. A cronologia dos eventos retratados também foi adulterada, a exemplo da gravação do documentário sobre a família real, que aconteceu em 1969 e não em 1967, quando a mãe de Philip se mudou de Atenas para a Inglaterra. A princesa Alice faleceu no mesmo ano em que as câmeras da BBC e da ITV foram admitidas no interior do Palácio de Buckingham.

Apesar de ser baseada em fatos reais, o roteiro de “The Crown” combina registros primários com situações verossímeis e diálogos imaginados para deixar a trama mais atrativa aos olhos do telespectador. Sendo assim, não devemos esperar algo diferente na quarta temporada, cujo enredo abarca o final dos anos 1970 e metade da década de 1980. Nela, o público certamente vai se despedir de alguns personagens, como Louis de Mountbatten (Charles Dance), que foi assassinado em 1979 enquanto navegava pelos mares da República da Irlanda pelo IRA. Outra que deve deixar a trama é a duquesa de Windsor, Wallis Simpson, que faleceu em 1985. Por outro lado, segundo algumas informações vazadas pela equipe de produção, a atriz Claire Foy, que interpretou Elizabeth nas primeiras duas temporadas da série, deve retornar para alguma(s) cena(s) de flashback.

Com efeito, o destaque dessa temporada certamente vai para as duas mulheres que disputaram a atenção dos olhos do mundo com Elizabeth nos anos 1980: Margaret Thatcher e Diana, princesa de Gales. O enredo deve explorar as tensões na relação entre a Primeira Ministra e a rainha. Enquanto seus Premiês anteriores geralmente eram homens mais velhos e experientes, pela primeira vez a soberana teve que lidar semanalmente com outra mulher em posição de liderança e com a mesma idade que a sua. De acordo com depoimentos de funcionários do palácio e políticos da época, a convivência entre elas foi descrita como “difícil”. Elizabeth era criticada pelo Partido Conservador por colocar a Comunidade de Nações acima dos interesses da Inglaterra e aparecer ao lado de chefes de Estado oriundos de países comunistas. Thatcher, entretanto, sempre tratou a rainha com bastante deferência.

Gillian Anderson como a Primeira Ministra, Margaret Thatcher.

Para interpretar a famosa “Dama de Ferro”, foi escalada a atriz Gillian Anderson, cuja caracterização ficou bastante convincente. Seu governo foi marcado pelos choques dados para revitalizar a economia; pela Guerra das Malvinas; bem como por uma política neoliberal, que lhe angariou vários opositores, entre eles o príncipe de Gales. Nessa mesma época, Elizabeth e o seu pessoal também foram alvos de ataques do IRA. O quarto da rainha no Palácio de Buckingham chegou a ser invadido por um homem, que apareceu com uma mão ensanguentada a lhe pedir cigarros. Se tais eventos serão dramatizados nessa temporada, é algo que teremos que esperar até o dia 15 de novembro para descobrir. No trailer divulgado pela Netflix no mês de agosto, Olivia Colman aparece fardada para o Trooping the Color, dizendo: “algo tão importante como a monarquia, simplesmente não pode falhar”.

Em 2019, Colman ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz em série dramática, pelo seu papel como Elizabeth II. Esta será a última temporada em que a veremos na pele da personagem, uma vez que os produtores da série já noticiaram que vão substituí-la na quinta temporada por Imelda Stauton. Não só Colman deverá deixar o elenco, como também os demais atores serão substituídos. Entre eles, Emma Corrin, escolhida para interpretar a jovem princesa Diana. Elizabeth Debicki, atriz de “Guardiões da Galáxia”, foi anunciada no mês passado como a nova intérprete da esposa do príncipe Charles nas duas últimas temporadas da série. A história completa de “The Crown” certamente se estenderá até o ano de 2002, quando a rainha comemorou o seu Jubileu de Ouro (50 anos de reinado).

Por falar em Diana Spencer, o público já pode sentir um pouco do gosto da turbulenta vida da princesa de Gales a partir do trailer liberado pela produtora. Assediada for fotógrafos e aclamada pelo público, a trajetória de Diana foi documentada pela imprensa como poucos membros da família real antes dela. Nas fotos de bastidores das gravações, é possível ver alguns detalhes da caracterização de Emma Corrin no papel. Embora os modelos usados pela atriz não sejam recriações perfeitas das roupas da princesa (haja vista que muitas delas estão sob a patente de estilistas e grifes famosas), as versões da série ficaram muito boas e bastante fieis ao estilo de Diana no início dos anos 1980. Ela rapidamente foi eleita como um ícone da moda e ditou tendências em várias partes do mundo, não apenas em casamentos (a exemplo do vestido de noiva com mangas bufantes, criado pelos Emannuels), como também em cortes de cabelo, chapéus e demais acessórios.

Emma Corrin como a princesa Diana.

Escrito por Peter Morgan (do premiado “The Queen” – 2005), o roteiro de “The Crown” segue bastante fiel à maioria dos acontecimentos que marcaram o longo reinado de Elizabeth II. Contudo, como produto da ficção, suas representações devem ser tomadas como representações do real e não como verídicas. Como em qualquer outra série baseada em fatos históricos, ela combina elementos reais com imaginários para criar um discurso verossímil e assimilável por uma gama diversificada de público. Por outro lado, através do show as pessoas puderam ter um contado mais estreito com o cotidiano do palácio de Buckingham, as disputas políticas e os dramas vividos por uma família real em decadência, tentando sobreviver em um mundo onde o estatuto de alteza parece estar cada vez mais relegado ao passado.

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