A Imperatriz Exploradora: Dona Leopoldina e o seu apoio à pesquisa científica no Brasil!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Um dos traços mais marcantes da passagem da imperatriz Dona Leopoldina na História do Brasil, foi seu apoio, não apenas à causa da emancipação política, como também à investigação científica no país. Educada em Viena de acordo com um sistema de ensino que incluía não apenas as disciplinas básicas do currículo, como também Botânica, Mineralogia, Física e Astronomia, Leopoldina era quase uma cientista amadora. Leitora voraz dos clássicos da literatura grega e alemã, ela também adorava passar o tempo absorvida pelas páginas das obras de Henry Koster e Thomas Lindley, aprendendo sobre suas viagens pelas matas a florestas brasileiras. Certa vez, ela chegou a fazer uma brincadeira com o seu pai, o imperador Francisco I da Áustria, de que, caso permanecesse solteira, gostaria de ser chefe do gabinete de mineralogia. Uma vez no Brasil, a princesa trouxe consigo uma imensa curiosidade e fascínio pelas possibilidades de estudo que a fauna e flora locais representavam. Gostava de fazer incursões pelas cerras da província do Rio de Janeiro, catalogando plantas e espécies de animais, que eram depois remetidos para a coleção real da Áustria. Até o fim de seus dias, Dona Leopoldina encontrou no estudo das plantas e dos minerais um consolo para a difícil situação vivida no seu casamento, sentindo-se muitas vezes sozinha nesse amor pela erudição.

Dona Leopoldina em Funchal, na Ilha da Madeira, por artista desconhecido (1817).

Com o tempo, a imperatriz viria a exercer forte influência na renovação dos Estudos de História Natural no Brasil, contribuindo para a criação do Museu Nacional. Desde que desembarcou no país em 5 de novembro de 1817, ela coadunou com o pensamento da Missão Artística e Científica, de que as riquezas da fauna e da flora do país deveriam ser catalogadas e divulgadas para o mundo. Graças aos seus apelos ao sogro, D. João VI, ela conseguiu a aprovação de um decreto, datado de 6 de junho de 1818, para que Tomás Antônio de Vilanova Portugal fundasse no país o Museu Real. Na Fazenda Imperial de Santa Cruz, por exemplo, ela mantinha um posto zootécnico, no qual animais domésticos eram cuidadosamente criados. Já nas salas do Paço da Quinta da Boa Vista, eram mantidas nas prateleiras de seu escritório uma vasta coleção de livros sobre mineralogia, incluindo a coleção de rochas trazidas consigo da Europa. Muitas delas haviam sido adquiridas nas viagens da princesa pelo continente ou enviadas por amigos. Essa coleção foi aos poucos aumentando, à medida em que Leopoldina se arriscava pelas florestas da região, para coletar material destinado ao seu pequeno gabinete de História Natural. Ali, ela passava horas e horas estudando com a sua lupa cada um dos seus pequenos tesouros, com uma expressão quase infantil no rosto.

Conforme dito anteriormente, o interesse da imperatriz pelas Ciências Naturais remonta ao período de sua juventude, quando era educada por Rochus Schüch, o famoso mineralogista e metalurgista que a acompanhou na sua viagem ao Brasil como membro da Missão Científica da Áustria. Durante a rota para o Novo Mundo, a comitiva da princesa fez uma pequena parada em Funchal, na Ilha da Madeira, para se reabastecer. Leopoldina foi recebida com entusiasmo pela população local e escreveu uma carta para a irmã, Maria Luísa, datada de 10 de setembro de 1817, na qual descrevia maravilhada as belezas naturais do lugar:

… as montanhas são magníficas, as mais baixas como as montanhas de Brüll, calvas no cume, cobertas de floresta no sopé; os cumes e encostas são cheios das mais lindas quintas (casas de campo); camélias, passiflora, iúca, jambo, magnólias e muitas outras plantas, que somente conheci em estufas, crescem aqui selvagemente aos milhares, minha boa e velha irmã; queria achar para ti sementes durante toda a viagem, pois és meu único pensamento, porém no momento não se consegue nenhuma; mas talvez possa te mandar algumas daqui a algum tempo. Ontem fui ao interior da ilha, oito horas a cavalo, no meu Schnürl, que além de bonito é extremamente manso, mas nada vi tão pitoresco como aquelas regiões; o parque do Carvalhal é magnífico e muito mais bonito que o aviário com os pássaros brasileiros com suas penas maravilhosas (apud KANN, 2006, p. 311).

Na ilha da Madeira, em meio àquela pitoresca vegetação, Leopoldina se deixou retratar em trajes de excursão, com um chapéu de palha na cabeça, tendo ao fundo a belíssima vegetação, as “camélias, passiflora, iúca, jambo, magnólias e muitas outras plantas”, descrita por ela à sua irmã. Dois dias depois, ela escreveu novamente, desta vez para o pai, reforçando o deslumbrando que os ilhéus e o ambiente em questão lhe proporcionou:

De lá fui para o interior da ilha, que é montanhosa, mas muito cultivada; parece um verdadeiro paraíso para o caminhante, e tem-se vontade de ajoelhar e admirar o Todo-Poderoso em sua onipotência; imagine, querido papai, magnólias, jambos, todas as passifloras, iúca e goiabeiras crescem selvagemente nos rochedos; além disso milhares de plantas, que nunca vi em estufas e por cujas sementes procurei, para seu querido terraço, mas infelizmente até agora não encontrei nenhuma; espero porém conseguir algumas, especialmente uma planta vermelha como uma […] e que cheira a baunilha (apud KANN, 2006, p. 312).

Durante os nove anos em que permaneceu no Brasil, Leopoldina remetia constantemente ao pai e à irmã mais velha espécies de plantas e animais incomuns na vegetação e na fauna austríaca. Assim, o Brasil se descortinava aos poucos para o continente europeu, principalmente devido aos relatos de viajantes e paisagistas que acompanharam a comitiva da princesa ao país.

Vista do Rio de Janeiro, por Thomas Ender.

Antes de sua chegada, ela ocupava o tempo aprendendo mais sobre este reino abaixo dos trópicos, a partir de obras como a de Joaquim José Lobo da Silveira, Skizze von brasilien [Croquis do Brasil], que continha a descrição da história geográfica e populacional da antiga colônia, sua administração e os produtos que se encontravam na região. Leu muito também de Alphonse de Beauchamp, historiador francês que escreveu Histoire du Brésil, além das obras Histoire de Portugal e o Jornal Lusitanico. O conhecimento advindo dessas leituras lhe permitiu concluir precipitadamente, em 1816, que o Brasil era “um país magnífico e ameno, terra abençoada que tem habitantes honestos e bondosos” (apud KANN, 2006, p. 249). A impressão que tais relatos de viajantes deixou sobre a princesa parecia se confirmar com a primeira visão que ela teve da província do Rio de Janeiro, antes do desembarque:

Com a ajuda divina, cheguei muito feliz e saudável no Rio de Janeiro, após uma travessia de 84 dias, da qual me despedi no penúltima dia com uma tempestade bastante violenta; a entrada do porto é estreita e acho que nem a pena nem pincel podem descrever a primeira impressão que o paradisíaco Brasil causa a qualquer estrangeiro; basta dizer-lhe que é a Suíça com o mais lindo e suave céu; na entrada da baía há três belos fortes, além de vários grupos de ilhas; ao longe vislumbram-se montanhas cobertas de palmeiras e muitas outras espécies de árvores… (apud KANN, 2006, p. 313).

A despeito de sua subsequente inadequação ao clima tropical e aos costumes da família real e da população, Leopoldina manteve intacta a sua admiração pelo paisagístico Brasil. Chegando aqui acompanhada de cientistas, cronistas e pintores, tais como o botânico Heinrich W. Scott, o paisagista Thomas Ender, além dos naturalistas Johan Emmanuel Pohl, Johan Baptiste von Spix e Carl Friedrich von Martius, a princesa, assessorada por estes homens letrados, criou o seu próprio gabinete de mineralogia. O jornal Correio Brasiliense, na sua 106º edição de março de 1817, disse que a passagem destes “muitos homens de letras, artistas e considerável número de trabalhadores” era “um dos melhores presentes, que a princesa podia levar para o Brasil” (apud NEVES, 2016, p. 77).

Com efeito, muitos dos exemplares de animais (vivos ou empalhados) e plantas remetidos para a Áustria eram capturados pela própria princesa, a exemplo de um lagarto que era saboreado na culinária típica local, inclusive por sua sogra, Carlota Joaquina. Leopoldina enviou uma exemplar empalhado do espécime para a Europa. Em carta ao pai, datada de 7 de dezembro de 1817, ela dizia que passeava muito, acrescentando que Thomas Ender pintara algumas “paisagens maravilhosas para o senhor, querido papai, que são muito fieis”. Embora conhecesse muito pouco da cidade do Rio de Janeiro, já que D. João VI e D. Pedro preferiam lhe poupar os horrores da escravidão escancarando pelos logradouros da capital, ela tinha permissão apenas para caminhar pelos campos. Sempre que dava, aproveitava a oportunidade para enviar plantas e “alguns animais empalhados dos arredores de São Cristóvão”, uma vez não resistiriam ao tempo da viagem caso fossem transportados com vida. Em 18 de junho de 1823, quase um ano após a proclamação da Independência do Brasil por D. Pedro I, a imperatriz escreveu para Maria Luísa uma carta, na qual descrevia um de seus muitos passeios exploratórios pelas matas e florestas da província:

… acabo de retornar de uma pequena excursão pelos caminhos de São Paulo, por onde cavalguei, em três dias, mais de 35 milhas alemãs; nunca vira caminhos tão ruins, rochedos da altura de um homem, que o cavalo saltava de um lado para outro, pontes (se é que pode chama-las assim) sobre um abismo da largura de um pé; um suíço me assegurou que aquelas regiões, que estão a seis mil […] acima do nível do mar, se assemelham muito ao cantão de Berna. Trouxe pássaros muito belos e um grande crocodilo, que aqui é chamado de jacaré; em breve receberás uma linda coleção de pássaros e plantas para teu museu… (apud KANN, 2006, p. 422).

As aves coloridas do país exerciam imenso fascínio para a mente da imperatriz, assim como os outros animais da nossa fauna, muitos dos quais acabaram parando na coleção do Museu Brasileiro em Viena, bem como no Museu de História Natural e no Museu de Etnologia, que guardavam os materiais coletados pela expedição que acompanhou Leopoldina ao Brasil, incluindo a coleção Natterer, a coleção Loretto, entre outras menores.

A Imperatriz D. Leopoldina, desenhada de costas por Charles Landseer, enquanto andava a cavalo pelas trilhas da vegetação carioca.

Em 2 de abril de 1821, a princesa enviou para a irmã “tantos animais e pássaros quanto possível”, acrescentando também que Emmanuel Pohl se encarregava de levar “um leão, que é mestiço de pantera e leão, e um pássaro raro da China, um muar que dá cri, um zebu dos tártaros e muitos outros animais” (apud KANN, 2006, p. 377). Não obstante, remetia-lhes minerais raros, adquiridos nas suas excursões, em companhia do seu antigo mestre Hany, com quem havia aprendido a ciência da mineralogia na Áustria. Tais passeios, além de se constituírem em uma ótima distração para a soberana, também aguçavam o seu interesse pelas Ciências Naturais. Em 12 de dezembro de 1824, por exemplo, ela narrou para Maria Luísa uma curiosa expedição pela floresta cariosa, na qual chegou a se perder pelas trilhas:

Há algumas semanas fiz uma pequena viagem; numa linda manhã me perdi na floresta, onde me arranhei toda nos espinhos das mimosas, nas folhas cortantes dos juncos e nas raízes das árvores e plantas […] e quase caí mais de trinta vezes, ora para frente, ora para trás; além disso estava acompanhada, não pelo canto encantador e gracioso do rouxinol, mas pelo rugido das onças, porcos-espinhos e pelo grunhido dos grandes macacos barbados; por vezes ainda tive a sorte de encontrar um negro ou nativo, chamado de caboclo, como vieram ao mundo; mais rastejei do que andei, para subir numa montanha mais alta do que a nossa Anninger de Brüll e finalmente observar de cima a cidade bíblica do tamanho de […] porém jurei nunca mais fazer um passeio pitoresco daqueles, pois suava tanto que deixava poças atrás de mim e meus braços e pernas doeram mais de três dias das duas milhas em que mais fiquei pendurada no ar, nos galhos das árvores, do que andei no chão (apud KANN, 2006, p. 435).

Aos amigos na Europa, Leopoldina encomendava não apenas livros sobre literatura, política e Ciências Naturais para o seu escritório, como também espécies de conchas que faltavam à sua coleção, conforme pedido escrito à inglesa Maria Graham em 10 de outubro de 1824. Em troca, ela oferecia aos seus fornecedores os objetos de História Natural do Brasil que eles desejassem. Um ano depois, encomendava à amiga uma balança mineralógica fabricada por William Cary, “para saber o peso das pedras preciosas” e dizia que estava impaciente para que o Sr. Gordon organizasse de vez o seu gabinete de Mineralogia. Infelizmente, poucos documentos referentes aos primeiros tempos do Museu Nacional, que fazem referência a dona Leopoldina, sobreviveram. Sabemos, por exemplo, que duas peças de fósseis que foram trazidas pelo Dr. Frederico Sellow (antigo contratado de D. João VI), certamente foram transferidas do gabinete particular da imperatriz. Ao morrer de forma prematura, em 11 de dezembro de 1826, a soberana deixou para trás uma grande quantidade de livros, minerais e plantas, que formaram o acervo inicial do Museu Nacional (terrivelmente destruído em um incêndio no dia 2 de setembro de 2018). Assim sendo, Dona Leopoldina contribuiu, direta ou indiretamente, para uma importante renovação dos estudos científicos no Brasil.

Referências Bibliográficas:

SCHUBERT, Mons. Guilherme (Coord.). 200 anos Imperatriz Leopoldina. Rio de Janeiro: IHGB, 1997.

KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. D. Leopoldina: cartas de uma imperatriz. – São Paulo: Estação Liberdade, 2006.

MAGALHÃES, Aline Montenegro; MARINS, Álvaro; BEZERRA, Rafael Zamorano. (Orgs.). D. Leopoldina e seu tempo: sociedade, política, ciência e arte no século XIX. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2016.

OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, sua vida e época: ensaio de uma biografia. – Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973.

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