A princesa e a amante do rei: a relação tensa entre Maria Antonieta e Madame du Barry!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Ao chegar à França para se casar com o herdeiro do trono em 1770, Maria Antonieta talvez nutrisse a expectativa de que ela seria o centro de todas as atenções na corte do velho rei Luís XV. Era então uma adolescente de 14 anos, muito vivaz e bem-humorada, alienada daquele mundo de conspirações e intrigas abrigado pelo palácio de Versalhes. Extasiada com a faustosa recepção que os franceses lhe fizeram por onde quer que sua carruagem tenha passado, bem como pelo brilho das belíssimas joias que recebeu de presente de casamento, a princesa preferiu prestar pouca atenção a uma mulher loira e de belos olhos azuis, que estava constantemente ao lado do soberano. A primeira vez que esta dama apareceu oficialmente na corte foi por ocasião de um banquete que Luís XV ofereceu dias antes em homenagem à nova delfina, que fazia sua viagem até a fronteira austríaca com o reino francês. A ocasião era perfeita para apresentar a favorita à nobreza, uma vez que no banquete estariam presentes os principais príncipes e pares do reino, entre outros membros da corte. A identidade daquela mulher já era conhecida por quase todos, exceto por Maria Antonieta. Se tratava de Jeanne Bécu, mais conhecida como Madame du Barry, a amante oficial do rei Luís XV e última grande Maîtresse-en-titre da monarquia francesa.

Madame du Barry em 1769, por François-Hubert Drouais.

Após a morte de Jeanne-Antoinette Poisson, Marquesa de Pompadour, em 1764, Luís XV se viu privado da companhia de uma mulher cujo apoio emocional e psicológico lhe era tão fundamental. Por anos, a inteligente e perspicaz Madame de Pompadour foi a verdadeira força política por trás do trono, auxiliando rei no quer que fosse preciso. Uma profunda depressão se apoderou do monarca, que a partir de então não teve mais filhos ilegítimos e se entregou a uma vida de penitência e religiosidade. Mas, no início de 1768, quando a morte começava a se apoderar do corpo da rainha Maria Leszczyńska, o monarca se interessou novamente pelos prazeres mundanos. A responsável por isso era uma prostituta de luxo, conhecida pelos seus parceiros como Mademoiselle Lange, ou simplesmente Ange (anjo). Seu nome verdadeiro era Jeanne Bécu, nascida em 19 de agosto de 1743, filha de uma costureira parisiense. Na juventude, Jeanne havia trabalhado como doméstica, atendente de modista e até como auxiliar de cabeleireira, para auxiliar na renda familiar. Sua beleza chamou a atenção do conde Jean-Baptiste du Barry, que a transformou numa cortesã de alto coturno. O conde ficou então sabendo das intrigas que se orquestravam em Versalhes, para arrumar uma nova amante real.

Assim sendo, Jeanne foi propositalmente colocada na frente de Luís XV, durante seu percurso a Versalhes. O monarca, por sua vez, não conseguiu deixar de notar a beleza encantadora dela. O príncipe de Ligne reportou que Ange era uma mulher “alta, bem feita, de um louro encantador, tem a testa alta, belos olhos, sobrancelhas harmoniosas, rosto oval, com covinhas nas faces que a tornam provocante como nenhuma outra”. Não obstante, o príncipe notou também que a jovem tinha “a boca pronta para o riso, a pele fina, um peito que perturba todas as outras, sugerindo a muitas evitar comparação” (apud CRAVERI, 2007, p. 343). Seguindo as instruções do conde du Barry, Ange a princípio se deixou intimidar pela figura do rei, que foi conquistado por ela de primeira. Até então, Luís XV nunca havia se relacionado com uma autêntica cortesã, desconhecendo os segredos de Eros que elas guardavam consigo. Quando o soberano fora informado sobre o passado daquela mulher, ele fez vista grossa e, para garantir o acesso de Jeanne à corte, lhe arrumou um marido. Em 1768, ela se casou com o irmão do conde du Barry, Guillaume, que recebeu um título de nobreza e depois foi convenientemente despachado para o Languedoc. No outono daquele ano, a nova condessa du Barry recebeu seus próprios aposentos em Versalhes.

Da mesma forma que as antigas amantes titulares, Madame du Barry não demorou em se envolver na política, instigada por seu antigo protetor, Jean-Baptiste. O objetivo do conde, juntamente com seu aliado, o marechal Richelieu, era afastar o duque de Choiseul da pasta do Ministério das Relações Exteriores. Jeanne seria, portanto, o instrumento utilizado para acarretar a queda do duque, responsável pela aliança franco-austríaca que culminou com o casamento entre Maria Antonieta e o delfim Luís Augusto. Madame Campan, camareira-mor de Antonieta, relembrou que a nova delfina se sentiu ultrajada quando foi posta pela primeira vez diante da maîtresse:

As festas que decorreram em Versalhes, por ocasião do casamento do delfim, tiveram muito brilhantismo. A delfina compareceu no palácio à hora de preparar a sua toilette, depois de ter pernoitado em La Muette, onde Luís XV a tinha ido receber e onde o mesmo soberano, cego por um sentimento indigno de um soberano e de um pai de família, obrigara a jovem princesa, bem como a família real e as damas da corte, a cear ao lado de madame du Barry. […] Algo que magoou a delfina, mas esse foi um sentimento que dissimulou em público, com enorme dignidade (2008, p. 29).

O relado de Madame Campan pode parecer bastante parcial aos nossos olhos. Porém, ela é a melhor fonte de que dispomos sobre os sentimentos de Maria Antonieta com relação a Madame du Barry. Segundo a camareira-mor da rainha, Jeanne ficou enciumada com a adoração que Luís XV passou a demonstrar pela esposa de seu neto e começou então a fazer piada da aparência dela: “a favorita não deixava de acentuar a irregularidade nos traços de Maria Antonieta; criticava as palavras que se citavam dela; e troçava da predileção mostrada pelo soberano” (CAMPAN, 2008, p. 30). A amante se referia pejorativamente à delfina pelo apelido de La Petite Rousse, uma referência aos cabelos louro avermelhados da princesa.

Luís XV, atribuído a Louis-Michel van Loo.

Com efeito, no jantar oferecido em La Muette, no pavilhão de caça de Luís XV, Maria Antonieta perguntou em sigilo ao sobrinho de Madame de Noailles, o duque d’Ayen, “quais [eram] as funções daquela mulher na corte?”. O duque então lhe respondeu que Madame du Barry estava ali para “Divertir o rei”. “Bem, nesse caso, serei sua rival!”, replicou a jovem delfina, sem entender a natureza da insinuação da fala do nobre (apud WEBER, 2008, p. 49). À medida em que Antonieta demonstrava indiferença para com a amante titular, Du Barry se sentia cada vez mais ofendida. Para a cabala de nobres e cortesãos que se agruparam em torno dela, os chamados dubarrystas, a filha da imperatriz Maria Teresa da Áustria era uma ameaça à influência da favorita. Os partidários do duque de Choiseul, por outro lado, não tardaram em fazer insultos à amante do rei, o que fez de Jeanne um ponto de referência para os inimigos do ministro, como o já citado marechal de Richelieu, o duque de Aiguillon e o partido devoto, que queria se vingar do duque por ter expulsado os jesuítas do país. Entretanto, o que o clã Choiseul não levou em consideração era o fato de que antagonizar com a Maîtresse-en-titre era o mesmo que criticar publicamente o comportamento do rei, uma lição que a própria Maria Antonieta aprenderia algum tempo depois.

Como o duque apoiava secretamente a oposição parlamentar, tendo em vista uma reforma na monarquia, buscando ao mesmo tempo uma revanche contra a Inglaterra pela perda do Canadá na Guerra dos Sete Anos, não foi difícil para os dubarrystas derruba-lo do poder. Em face disso e do seu antagonismo à amante real, Luís XV demitiu Choiseul e expediu uma ordem de exílio contra ele na véspera do natal de 1770. Maria Antonieta perdia assim um grande aliado na corte, o político responsável pelo seu casamento com Luís Augusto. A delfina parecia incapaz de adotar uma visão pragmática sobre a posição de Madame du Barry em Versalhes, a despeito do fato de que ela estava ali apenas para “divertir o rei”. A primeira impressão de que se tem registro de Maria Antonieta sobre a maîtresse provém de uma carta datada de 9 de julho de 1770, na qual a princesa descreveu du Barry como “a criatura mais estúpida e impertinente que se pode imaginar”, ressaltando ainda que sentia pena do rei, pela “fraqueza” que ele tinha por ela (apud FRASER, 2009, p. 110). Instigada pelas filhas de Luís XV, Adelaide e Vitória, chamadas de mesdames tantes, a delfina passou a se orgulhar de sua conduta ao não dar qualquer reconhecimento formal à favorita. O erro de sua atitude acabaria gerando um incidente diplomático que ameaçou a estabilidade da aliança franco-austríaca.

Segundo Antonia Fraser (2009, p. 110), havia pelo menos três razões que justificavam a hostilidade de Maria Antonieta para com Madame du Barry: a primeira delas seria de natureza religiosa e moral, com base nos ensinamentos da Igreja Católica que ela recebeu em Viena. Aos 14 anos, quando chegou em Versalhes, a jovem ignorava a natureza do desejo extraconjugal, ou fato de que seu pai, o imperador Francisco Estêvão, possuiu amantes; o segundo motivo consistia na repulsa que lhe era instigada pelas tias de seu marido, movidas por interesses particulares; a terceira causa se devia à insegurança da personalidade da própria delfina, fazendo com que ela se abrigasse num tipo de obstinação que costuma ser o refúgio dos fracos. Antonieta teve apenas uma pequena vitória sobre du Barry quando conseguiu convencer o rei a permitir que a irmã do duque de Choiseul, a duquesa de Gramont, retornasse do exílio por razões médicas. Entretanto, a favorita não era uma mulher de natureza rancorosa. A queda de Choiseul também pode ser explicada pelas próprias ciladas políticas tramadas pelo duque e não tanto pela insistência de Jeanne. Ela inclusive pediu para que um retrato da delfina fosse colocado nos seus aposentos, apesar de Maria Antonieta se recusar a lhe dirigir a palavra.

Maria Antonieta como delfina da França, por Joseph Ducreux (1769).

Em grande parte estimulada por mesdames tantes, a guerrinha entre a princesa e a amante do rei seguia seu curso. A delfina culpava du Barry pelo exílio de Choiseul e também não perdia a oportunidade de difamar a imagem da favorita. “Madame la dauphine está ouvindo maus conselhos” (apud LEVER, 2004, p. 47), suspirava Luís XV, diante da atitude altaneira da esposa de seu neto frente aos novos ministros da Coroa, presumivelmente protegidos por Jeanne Bécu. A situação evoluiu para um status bastante delicado quando o destino da aliança franco-austríaca dependia da neutralidade benevolente do rei no momento em que a Áustria, a Prússia e a Rússia ameaçavam dividir a Polônia. O aborrecimento do monarca com a obstinação da delfina preocupou bastante a imperatriz Maria Teresa e o embaixador austríaco, o conde Mercy-Argenteau. Antonieta se recusava a pedir uma audiência com o avô de seu marido ou a falar com Madame du Barry, mesmo que brevemente, a fim de pacificar aquela situação. A imperatriz então encaminhou uma forte reprimenda à filha, instando-a a acabar de vez com isso. De sua parte, Maria Antonieta se defendeu dizendo o seguinte: “Podes estar certa de que não necessito orientação de ninguém em matéria de decoro” (apud LEVER, 2004, p. 48), fazendo saber à mãe também de todas as intrigas que vinha tendo que enfrentar em Versalhes.

Contudo, em 1 de janeiro de 1772, a delfina finalmente capitulou. Na festa de Ano Novo, o palácio estava apinhado de nobres e cortesãos. Muitos se dirigiam à Maria Antonieta para prestar seus respeitos à futura rainha da França. No meio deles, a princesa fez uma observação soberba em direção a Madame du Barry: “Há muita gente hoje aqui em Versalhes!”. Em seguida, ela se retirou e ralhou em particular com o marido, dizendo que aquelas seriam suas últimas palavras à Maîtresse-en-titre. A partir de então, a atitude da delfina em relação a Jeanne passou a ser mais cautelosa. No verão, em Compiègne, ela cumprimentou ligeiramente a favorita, enquanto conversava com a duquesa de Aiguillon. O rei, por sua vez, ficou contentíssimo com essa mudança de atitude e passou a redobrar suas atenções para com a delfina. “Os meus deveres aqui às vezes são difíceis de cumprir”, escreveu Antonieta à mãe, sobre os eventos dos últimos meses (apud FRASER, 2009, p. 121). Dois anos depois, no dia 4 de maio, os primeiros sinais da varíola começaram a aparecer no corpo de Luís XV, então com 64 anos. Como o rei não podia se confessar ou receber o Último Sacramento enquanto mantivesse uma amante, ele se viu obrigado a manda-la embora. No dia 5, Jeanne partiu para sempre de Versalhes e foi para Rueil, no castelo do duque de Aiguillon.

Dois dias depois da morte do rei, em 12 de maio, uma carta régia expedida pelo novo monarca, Luís XVI, confinava Madame du Barry no convento de Pont-aux-Dames. A rainha contou a novidade de forma exultante para a sua mãe: “O rei se limitou a mandar a criatura para o convento e a expulsar da corte quem quer que porte esse nome escandaloso” (apud CRAVERI, 2007, p. 354). No ano seguinte, porém, Jeanne foi autorizada a deixar o claustro e residir a pelo menos 30 quilômetros de Versalhes. Luís XVI também lhe restituiu todas as sua propriedades, rendas e joias, que ela havia recebido do falecido monarca. Assim, Madame du Barry se instalou definitivamente em Louveciennes, onde iniciou uma nova vida como mulher emancipada. No entanto, aquele “nome escandaloso” voltaria mais tarde para assombrar Maria Antonieta em 1785, quando um alvoroço provocado pela compra de um caríssimo colar de diamantes, originalmente desenhando para du Barry, manchou indelevelmente a reputação da soberana. De acordo com o relato de Madame Campan, durante as fases mais críticas da Revolução, Jeanne Bécu mandou dizer à Antonieta “que não havia em França mulher alguma mais penetrada de dor do que ela mesma por causa de tudo o que a soberana sofria” (2008, p. 45). Com efeito, em 8 de dezembro de 1793, a última grande Maîtresse-en-titre da França enfrentou o mesmo destino que a sua rainha: a morte pela guilhotina!

Referências Bibliográficas:

CAMPAN, Madame. A Camareira de Maria Antonieta: Memórias. Tradução de Carlos Vieira da Silva. Lisboa: Aletheia, 2008.

CRAVERI, Benedetta. Amantes e rainhas: o poder das mulheres. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta: biografia. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

GONCOURT; Edmond e Jules de. A du Barry. Tradução de Modesto de Abreu. Rio de Janeiro: Casa Editora Vecchi Ltda., 1948.

LEVER, Evelyne. Maria Antonieta: a última rainha da França. Tradução de S. Duarte. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

WEBER, Caroline. Rainha da moda: como Maria Antonieta se vestiu para a Revolução. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

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