100 anos do assassinato dos Romanov: os últimos governantes da Rússia Imperial – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Era meia noite do dia 17 de julho de 1918, quando Yakov Yurovsky, responsável pela guarda da família imperial russa, subiu as escadas da casa Ipatiev, em Ecaterimburgo, para acordar os seus ilustres hóspedes. Foi recebido pelo dr. Botkin, que lhe perguntou o motivo daquela visita em horário tão inoportuno. Yurovsky respondera que a situação na cidade estava ficando muito instável: “torna-se necessário levar a família lá para baixo. Será perigoso ficar no andar de cima caso haja tiroteio nas ruas”, foi a justificativa dada pelo algoz. No seu bolso, uma Mauser de cano longo e cabo de madeira, com dez balas no pente. De acordo com ele, os presos teriam que descer ao porão para permanecer em segurança. Em seguida, ordenou ao dr. Botkin que acordasse o restante das pessoas. Quarenta minutos foi o tempo que eles levaram para se arrumar e descer, sendo que as jovens princesas levavam consigo as joias da família, costuradas nas suas roupas íntimas. Yurovsky os esperava junto à porta, para conduzi-los por uma escada em direção ao pátio interno. Primeiro desceu o ex-imperador Nicolau, de 50 anos, carregando nos braços o hemofílico Alexei, de 14. Em seguida, veio a imperatriz, que andava com dificuldades por causa das dores que sentia no nevo ciático. Atrás dela vinham as filhas e, por último, o dr. Botkin e os demais membros da criadagem.

No meio do percurso, os prisioneiros tentavam especular junto a Yurovsky o real motivo daquela transferência de andar. Imaginavam que o exército tcheco finalmente estava às portas de Ecaterimburgo. “Bem, vamos sair deste lugar”, disse Nicolau, tentando parecer otimista para o restante da família. Ao ser perguntado sobre os objetos de uso pessoal, Yurovsky respondeu que “não serão necessários neste momento” e que “nós os pegaremos mais tarde e os traremos aqui para baixo”. As únicas coisas que carregavam consigo eram almofadas, levadas por duas das princesas, além do cachorrinho spaniel King Charles, que vinha no colo de Anastásia. Demidova também carregava consigo uma almofada, que continha no seu interior uma caixa de joias, com ordens de jamais a perder de vista. Tempos mais tarde, Yurovsky recordou que não havia detectado no rosto das vítimas qualquer sinal de hesitação ou suspeita: “não houve lágrimas, não houve choro, nem perguntas”. Depois de descerem as escadas, foram conduzidos ao porão onde o massacre teria lugar. Vendo o cômodo vazio de móveis, Alexandra disse: “O quê? Não tem cadeiras? Não podemos nos sentar?”. Yurovsky então ordenou que duas cadeiras fossem trazidas. Um dos encarregados de cumprir a ordem sussurrou para o outro: “o herdeiro precisa de uma cadeira… claro que ele quer morrer sentado”.

Ilustração contemporânea, que idealiza as vítimas de Ecaterimburgo dispostas em fileiras no sótão da casa Ipatiev.

Com efeito, duas cadeiras foram trazidas para o cômodo. Uma para Alexandra e outra para Alexei. As meninas acomodaram as almofadas que traziam nas costas da mãe e do irmão, enquanto Yurovsky arrumava as vítimas, como se estivessem posando para uma fotografia: “por favor, você fique aqui e você aqui, isso mesmo numa fileira”, disse ele, colocando-os de costas para a parede. Os 11 prisioneiros foram dispostos em duas fileiras: no centro da primeira estava Nicolau, ao lado da cadeira do filho; na outra, Alexandra, sentada numa cadeira perto da parede, com as filhas atrás de si. Os demais permaneceram atrás da cadeira de Alexei. Uma vez enfileirados, Yurovsk mandou chamar não um fotógrafo, mas em vez disso onze homens armados com revólveres. Um a um, os membros do pelotão atravessavam as portas do porão e se posicionaram na direção de cada uma das vítimas. O chefe deles permaneceu de frente para o monarca deposto, com uma mão no bolso da Mauser e a outra segurando um papelzinho, que leu em voz alta e clara: “Em vista do fato de que seus parentes europeus continuam a atacar a Rússia Soviética”, começou ele, olhando diretamente para Nicolau, “a diretoria do Soviete Regional dos Urais decidiu que vocês devem ser mortos…” (apud RAPPAPORT, 2010, p. 259).

Sem conseguir compreender direito as palavras que acabavam de ser lidas, talvez por susto, talvez por incredulidade (ou os dois), Nicolau virou para a sua família e depois voltou seu olhar de espanto novamente para Yakov: “O quê? O quê?”, gaguejou o ex-czar. O restante dos presos permaneceu petrificado em face da sentença. “Então vocês não vão nos levar a lugar algum?”, disse o dr. Botkin, que já tinha pressentido instantes antes na sua carta ao irmão que não escaparia da casa Ipatiev com vida. Sua fala foi interrompida pela voz do czar, o rosto embranquecido de pavor: “Não estou compreendendo. Leia de novo”. Yurovsky então continuou a leitura do papel, de onde havia parado:

… em razão do fato de os tchecoslovacos estarem ameaçando a capital vermelha nos montes Urais – Ecaterimburgo – e porque o carrasco coroado [Nicolau] talvez escape da corte do povo, a diretoria do Soviete Regional, atendendo à vontade da Revolução, decretou que o ex-czar Nicolau Romanov, culpado de incontáveis crimes sangrentos contra o povo, deve ser morto… (apud RAPPAPORT, 2010, p. 259).

Como que por instinto, a czarina e sua filha mais velha, Olga, fizeram o sinal da cruz, enquanto os demais sibilavam algumas palavras incoerentes de protesto. Imediatamente, Yakov Yurovsky sacou a arma do bolso, deu um passo à frente e atirou à queima-roupa no peito de Nicolau. Os outros atiradores, alguns deles chamados Ermakov, Kudrin, Medvedev e Nikulin seguiram o exemplo e também atiraram no czar, dando um banho de sangue no jovem Alexei, sentado ao lado do pai.

Ilustração moderna, que idealiza o momento em que Yakok Yurovsky dá um passo à frente e atira no peito de Nicolau.

O que aconteceu em seguida foi uma carnificina tão violenta, que saiu até mesmo do controle dos seus arquitetos. Cada executor havia recebido instruções sobre em quem deveriam atirar, preferencialmente mirando no coração, afim de evitar maiores sofrimentos. Em vez disso, o que deveria ser uma execução rápida se transformou num verdadeiro massacre. Ermakov disparou sua Mauser contra a cabeça da czarina, enquanto uma rajada de balas atingia o dorso dela. Olga foi morta por uma única bala na cabeça. Em seguida, Botkin, Trupp e Karitonov também foram mortos, os corpos frisados por balas. Atirando para qualquer lado, o esquadrão levantou uma grande nuvem de fumaça, de modo que era quase impossível enxergar as posições do restante das vítimas. A mistura do odor da pólvora com sangue e fluidos corporais (fezes, urina e vômitos) tinham o poder de asfixiar qualquer um ali dentro. Em meio às tosses e vômitos da equipe, Yurovsky interrompeu o tiroteio, para que pudessem respirar um pouco do fresco ar noturno. Ao retornar, a fumaça tinha esmaecido e o barulho agonizante das vítimas indicava que o trabalho ainda não estava completo: Alexei, Tatiana, Maria, Anastásia e Demidova ainda estavam vivos, para espanto de seus algozes. No dizer de Yurovsky, a sobrevivência das vítimas indicava que “o céu estava contra nós”.

Mas, o que teria acontecido? Em fato, as balas ricochetearam nas joias costuradas nas roupas íntimas das jovens e na almofada de Demidova, servindo assim como uma espécie de escudo. Elas se encolhiam nos cantos das paredes, assustadas e cobrindo a cabeça com as mãos. Ermakov, o mais sedento entre os executores, juntamente com os demais, investiu com a baioneta contra o torso das princesas, perfurando-as com violência e sucessivamente. Yurovsk então se aproximou e deu o tiro de “misericórdia” na cabeça de Tatiana e de Maria. Incrédulo, o líder do pelotão de execução percebeu que o jovem Alexei ainda continuava vivo. Sem conseguir compreender a “extraordinária vitalidade” do garoto doente (que também tinha joias costuradas no interior de suas vestes), Yakov observava enquanto Nikulin descarregava um pente inteiro de balas contra o rapaz. Um tiro na cabeça ceifou de vez a vida do herdeiro do trono russo. A última a permanecer viva foi Demidova, que lutou contra a baioneta de Ermakov, protegendo-se dos golpes com a almofada que Alexandra lhe dera. Não demorou muito e ela também recebeu sua estocada fatal. Ao todo, fora necessário mais de 20 minutos para matar os Romanov e seu séquito. Atiradores experientes teriam levado cerca de 30 segundos para completar o serviço. Nem mesmo o spaniel King Charles conseguiu sobreviver. Seu corpinho permaneceu misturado em meio ao dos donos.

O cenário da execução: a parede do sótão na casa Ipatiev, onde os Romanov foram mortos.

Quando o massacre terminou, as portas do porão foram abertas para que o ar da noite diminuísse o odor nauseabundo do lugar. Sangue corria por todas as partes, formando grandes poças no chão. Yurovsk, que fora médico, sentiu os pulsos de cada uma das vítimas, contemplando-as com o horror. Mesmo para ele, que vira muitas mortes na sua profissão, a coisa fora mais horrível do que imaginara. Em seguida, ele ordenou que todos os pertences de valor dos mortos fossem recolhidos de seus corpos retorcidos e inertes. Os braceletes de ouro da czarina foram brutalmente removidos, bem como o de suas filhas. O pior veio quando os cadáveres foram arrastados pelo assoalho de madeira e jogados na carroceria do caminhão Fiat, estacionado do lado de fora. Ao colocar o corpo de uma das garotas, possivelmente Anastásia, perceberam que ainda existia vida nela. “Quando deitaram uma das filhas na maca, ela gritou e cobriu o rosto com os braços”, disse um dos executores, Strekolin. Seu colega Ermakov, vendo que era impossível perfurar o tórax da jovem com a baioneta, sacou uma pistola de sua cintura e atirou na cabeça da princesa. O destino escolhido para os corpos era uma mina abandonada a vinte quilômetros de Ecaterimburgo, conhecida como Poço de Ganin, de três metros de profundidade, numa área pantanosa conhecida como Quatro Irmãos.

Avançando no escuro da noite por uma estrada lamacenta e cheia de buracos, o caminhão não conseguiu completar o trajeto. Foi preciso retirar a carga e transporta-la para cinco carroças que estavam ali perto. Terminada a troca, o cortejo macabro seguiu em direção ao seu destino. Porém, naquela escuridão, ficava muito difícil encontrar o local combinado. Só com a aurora foi que conseguiram se localizar melhor. Ao chegar ao Poço de Ganin, Yurovsky ordenou que todos os corpos fossem despidos. Nesse momento, encontraram as joias que estavam costuradas nas vestes das filhas do czar. Ao todo, foram coletados cerca de oito quilos em diamantes, cintos de pérolas e vários colares. As joias foram então colocadas em sacos e os restante, incluindo roupas e acessórios, foi queimado em duas fogueiras. Os corpos jaziam nus no chão, com os rostos terrivelmente desfigurados pelas coronhadas dos rifles. Mesmo assim, isso não impediu que os cadáveres das quatro grã-duquesas e de sua mãe fossem violados. Um dos homens falou: “Senti a imperatriz, ela estava quente”, enquanto o colega completava seu pensamento: “agora posso morrer em paz, porque agarrei a … da imperatriz” (a palavra no meio da frase, recolhida de um depoimento, estava riscada). Uma vez despidos, os corpos foram jogados no interior da mina, cuja entrada fora detonada por várias granadas. Eram 10 da manhã quando o trabalho estava concluído.

Os crânios de cinco dos membros da família imperial, desenterrados em 1991. Da esquerda para a direita: Nicolau, Alexandra, Olga, Tatiana e, possivelmente, Anastásia. Note que em alguns é visível a marca de buracos de bala e, em outros, a face foi parcialmente destruída pelas coronhas dos rifles.

Infelizmente, os despojos das vítimas estavam longe de encontrar repouso naquela tumba parcialmente submersa. Como não confiava em Ermakov e em outros membros que participaram do massacre, Yakov Yurovsky decidiu transportar os cadáveres da família imperial secretamente para outro lugar. À meia-noite e meia do dia 18 de julho, um pequeno grupo, composto por homens da Cheka, supervisionou a remoção das vítimas até a superfície. No dia seguinte, foram levados para uma nova cova, num lugar chamado de Prado dos Porcos. Dois dos menores (Alexei e Maria, possivelmente) foram separados dos demais e queimados a 60 metros de distância, onde foram depois enterrados, numa débil tentativa para despistar os investigadores. Os outros nove corpos foram sepultados numa cova de 1,80m por 2,50m, com pouco mais de meio metro de profundidade. Era 19h quando foram jogados de qualquer jeito na cavidade e mergulhados em ácido sulfúrico para que não fossem reconhecidos. Uma camada de cal virgem foi jogada por cima e depois uma cobertura de lama e galhos, para disfarçar o local do sepultamento. Esse seria o seu lugar de descanso por quase 8 décadas, até que, no ano de 1991, com a queda do comunismo na Rússia, foram novamente desenterrados.

A notícia da morte dos Romanov correu o mundo no dia 21 de julho de 1918, embora o governo bolchevique tentasse abafar o caso. Nos Estados Unidos, o New York Times e o Washington Post, seguidos pelo Times de Londres publicaram que Nicolau havia sido fuzilado, mas que o restante da família ainda permanecia em cativeiro. Essa mentira foi responsável pela aparição de inúmeros impostores ao longo do século XX, que reivindicavam a identidade dos príncipes, entre os quais a polaca Anna Anderson, que se dizia Anastásia, foi a mais famosa. Nesse caso, a ciência prestou um grande auxílio à história das vítimas de Ecaterimburgo. Uma vez desenterrados, os restos mortais de Nicolau Romanov e sua família foram submetidos a testes de DNA em mais de um laboratório, em diferentes países. No ano de 2007, os remanescentes de Alxei e sua irmã foram finalmente encontrados. Apesar das recentes tentativas da Igreja Ortodoxa em contestar a autenticidade dos ossos, não resta dúvida de que pertenceram à última família da Rússia Imperial, canonizada no ano de 2003. Onde antes ficava a casa Ipatiev, local do crime, existe hoje uma Igreja que recebe milhões de fiéis e admiradores de várias partes do mundo. No local da cova original, lírios florescem anualmente, exalando um leve perfume para todos aqueles que passeiam por lá.

Sepultura original dos Romanov, nas proximidades de Ganina Yama.

Leia a primeira parte, clicando aqui!

Referências Bibliográficas:

MASSIE, Robert. K. Nicolau e Alexandra: o relato clássico da queda da dinastia Romanov. Tradução de Angela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

_. Os Romanov: o fim da dinastia. Tradução de Angela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

MONTEFIORE, Simon Sebag. Os Romanov: 1613-1918. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

RADZINSKY, Edvard. O último czar: a vida e a morte de Nicolau II. Tradução de Vera Maria Marques Martins. São Paulo: Nova Cultural, 1992.

RAPPAPORT, Helen. As irmãs Romanov: as vidas das filhas do último tsar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016.

STEINBERG, Mark; KHRUSTALËV, Vladimir. A queda dos Romanov. Tradução de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.

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