100 anos do assassinato dos Romanov: os últimos governantes da Rússia Imperial – Parte I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Há exatos 100 anos, a Rússia sepultava de vez os resquícios do feudalismo e da velha monarquia absolutista, juntamente com os corpos daqueles que outrora foram a figura de proa desse sistema: a família imperial. Por mais de 300 anos, os Romanov haviam governado aquele país de proporções continentais e contribuído, ora para a grandeza da nação russa, ora para o seu declínio. É interessante perceber como até os dia de hoje seu nome está ligado a fatos controversos da história, que suscitam em uns paixões avassaladoras, piedade ou mesmo o ódio de outros. Essa aura de disfarçada inocência emana das muitas fotografias e relatos da família em sua intimidade. Cinco moças jovens e belas, um garotinho hemofílico, uma mãe cadeirante e precocemente envelhecida, sob as ordens de um pai com aparência austera. Aos olhos do leigo, passariam facilmente por uma família burguesa da virada do século, cuja vida fora ceifada de forma brutal. Um século depois e o mundo se volta novamente para as figuras de Nicolau Romanov, Alexandra Feodorvna, Olga, Tatiana, Maria e Anastásia Nikolaevna, e Alexei Nikolaevich. As vítimas da tragédia em Ecaterimburgo permanecem bastante vivas no imaginário popular. Relembremos agora seus últimos instantes de vida, que antecederam a fatídica madrugada do dia 17 de julho de 1918.

Foto dos Romanov em 1914, digitalmente colorida por Olga Shirnina.

O cativeiro da família imperial havia começado pouco mais de um ano antes, com a derrubada do regime czarista pela assim chamada Revolução de Fevereiro. Primeiro permaneceram encerrados no Palácio Alexandre, em Tsarskoye Selo. Em seguida, foram despachados num trem para Tobolsk (antiga capital da Sibéria), para onde costumavam ser enviados os presos políticos durante os tempos da autocracia. Ali, viveram por quase 10 meses em segurança, na antiga casa do governador, sob os cuidados do governo menchevique. Várias tentativas de resgate para a família imperial foram negociadas com seus parentes na Europa, especialmente com o rei George V, primo carnal tanto de Nicolau II quanto de Alexandra. Todas elas, infelizmente, foram abortadas com a tomada do poder pelos bolcheviques em outubro de 1917 e a consequente saída da Rússia da Primeira Guerra Mundial, através do armistício com a Alemanha. A partir de então, o destino dos Romanov era cada vez mais incerto. Muitos, como Trotsky, eram a favor do julgamento público de Nicolau. Mas havia uma ala dentro do partido bolchevique, comandada por Lenin, que era pela execução do ex-czar. Afinal, submeter o monarca deposto a um julgamento era o mesmo que reconhecê-lo inocente até que se provasse o contrário. Algo especialmente danoso para a imagem cruel de “Nicolau, o Sanguinário”, construída pelos adeptos da Revolução.

A situação dos Romanov piorou consideravelmente a partir do dia 30 de abril de 1918, quando Nicolau, Alexandra e Maria foram movidos para a casa Ipatiev, em Ecaterimburgo. Aquela cidade abrigava a ala mais radical dos bolcheviques. Ao chegar, Nicolau precisou ser protegido de uma turba que queria lincha-lo, aos gritos de “enforquem-no já!”. “Aqui há surpresas desagradáveis todos os dias”, escreveu a grã-duquesa Maria às suas irmãs em Tobolsk. Todas as janelas da casa, exceto uma, foram lacradas e os vidros pintados com tinta branca, para que nada do lado de fora fosse visto. Além do mais, foram ameaçados com tiros caso se aproximassem demais da janela que ficava aberta para deixar o ar entrar. O prédio era guarnecido por uma dupla paliçada de madeira, vigiada dia e noite por um pelotão, que tinha autorização para atirar em qualquer um que tentasse entrar ou sair da casa sem permissão. Aos prisioneiros, era permitido passear pelos jardins da casa apenas uma hora por dia. “É difícil escrever algo agradável. Há pouco disso aqui”, completou a princesa em carta para as outras. Só em 20 de maio que o restante da família, composto por Olga, Tatiana, Anastásia e Alexei se reuniram aos seus pais e irmã. Eles habitavam os apartamentos do andar superior, enquanto seus carcereiros permaneciam no térreo e tinham livre acesso a qualquer um dos cômodos.

Fotografia da casa Ipatiev, em Ecaterimburgo, tirada em 1928.

Alguns deles, inclusive, aproveitavam para espiar os momentos íntimos dos Romanov, em particular das princesas, causando verdadeiro horror à imperatriz Alexandra, que adoeceu bastante nestes últimos dias, acometida de fortes dores no nevo ciático. As horas eram preenchidos por uma monotonia sem igual. Nicolau se entregava à leitura dos grossos volumes da obra de Tolstoi e de uma biografia do seu ancestral, o czar Paulo, enquanto as mulheres se dedicavam aos trabalhos de agulha. Com alguma dificuldade, os guardas da casa, comandados por Yakov Yurovsky, autorizaram as irmandades religiosas locais a enviarem ovos, manteiga e creme para a ceia da família, muito embora quase toda essa comida fosse apreendida para degustação pessoal dos carcereiros. No dia 14 de julho, um sacerdote local, padre Ivan Storozhev, recebeu permissão para celebrar o ofício religioso junto à família. Seria ele uma das últimas pessoas do mundo exterior a ver os Romanov antes do fuzilamento. Quando o prelado começou a entoar a tradicional oração para os mortos, a família se colou de joelhos e começou a recitar os cânticos em uníssono. Ao final da missa, receberam o pão sacramental e se dirigiram ao altar improvisado para beijar a cruz. Antes de Storozhev se virar para ir embora, as princesas aproveitaram da proximidade para lhes agradecer em sussurros pelo grande peso que retiraram das costas.

Com efeito, o futuro da família imperial já tinha sido determinado por Moscou dois dias antes, em conversas entre Lenin e Sverdlov no Kremlin. Poucos duvidavam que os Romanov sairiam com vida da “casa do propósito especial”, como era vulgarmente chamada a casa Ipatiev. Até hoje, porém, persistem dúvidas se Lenin queria a execução apenas do czar ou de todos os membros do clã. O que se sabe é que Ecaterimburgo estava prestes a ser tomada pelo exército branco, de modo que seria quase impossível movê-los de lá com segurança para outra cidade. Ficaria ao encargo dos Sovietes Urais escolher a hora e o lugar mais adequado para as mortes. A data foi então fixada para o dia 16. Tudo o que Yurovsky precisava era de uma ordem direta vinda do Kremlin para colocar o seu plano em prática. Anos mais tarde, o chefe do comitê de execução disse que começou a fazer seus preparativos no dia 15, “pois tudo precisava ser feito o mais rápido possível. Decidi usar homens no mesmo número de pessoas a ser executadas, reunindo-os… explicando a tarefa. Cabe dizer que não é fácil organizar uma execução, ao contrário do que alguns pesam”. Apenas dois atiradores se recusaram a participar do massacre, por lhes faltarem coragem e disposição para atirar nas princesas.

Iakov Yourovsky

O 78° dia dos Romanov na casa Ipatiev, em 16 de julho, foi para eles mais uma data monótona e sem qualquer novidade. Alexandra escreveu que a manhã havia sido cinzenta, porém com uma tarde ensolarada. “Alexei teve um leve resfriado, mas todos saíram por meia hora”, contou a imperatriz. Todos estavam absolutamente calmos e sem qualquer suspeita dos preparativos que estavam sendo feitos para sua morte. Não só a família deveria ser liquidada, como também os quatro membros de sua comitiva que permaneceram ao seu lado: o médico da família, dr. Botkin; a criada Demidova; o cozinheiro Karithonov; e o lacaio Trupp. Nenhum dos presos deveria sobreviver para testemunhar o que estava prestes a acontecer ali dentro. Em reunião no quarto 3 do hotel Amerika, o comitê de execução decidiu que a alternativa mais viável para pôr termo à vida do grupo seria leva-los a um cômodo pequeno no porão da propriedade, porém grande o suficiente para acomodar 11 pessoas, de onde eles não tivessem como escapar e o som dos tiros pudesse ser minimizado. O quarto escolhido tinha 7,5 por 6,5 metros, com teto abobadado, paredes de pedra cobertas de estuque e piso de madeira. Uma porta dupla dava acesso ao recinto. Na outra extremidade, outra porta dava para um depósito lotado com mobílias, mas fora fortemente trancada. Não havia para onde fugir.

Enquanto Yakov Yurovsky esperava avidamente um telegrama de Moscou, os Romanov se sentavam para almoçar às 13h. Por volta das 15h, Nicolau, Olga, Anastásia, Maria e Alexei saíram para dar seu último passeio no maltratado jardim da casa. “Nada fora do comum com eles”, relatou um dos guardas, Mikhail Letemin. Alexandra permaneceu nos seus aposentos fazendo rendas, ao som da voz de Tatiana, que lia para a mãe os textos do profeta Amós e Abdias. A alguns quilômetros dali, Yurovsky e Beloborodov faziam inspeções na estrada da floresta Koptaky, preparando o local para onde os corpos das vítimas seriam enviados após a execução. Cansados de esperar por uma autorização de Lênin, um telegrama foi enviado a Moscou às 18h, dizendo o seguinte: “Faça saber que, por razões militares, o julgamento acordado por Philip [Goloshchekin] não pode ser protelado. Não é mais possível esperar”. A palavra “julgamento” aqui empregada era nada mais que um código utilizado pelos Sovietes do Urais para se referir à execução. Não se sabe se a resposta de Lenin chegou a tempo ou se foi enviada, pois as linhas diretas para Moscou estavam paralisadas. O fato é que eles já possuíam uma autorização para dar cabo nos prisioneiros desde o início daquele mês.

Apenas enquanto jantavam, foi que a família imperial deve ter percebido que alguma coisa de incomum estava acontecendo. Yurovsky entrara na sala de jantar para os informar de que o garoto Leonid Sednev, ajudante de cozinha e parceiro de brincadeiras de Alexei, seria levado embora. Alexandra registrou no seu diário o seguinte:

Todas as manhãs o comissário vem aos nossos aposentos. Hoje, finalmente, depois de uma semana, trouxeram de novo ovos para Bebê [Alexei]. De repente, vieram buscar Leshka [Leonid] Sednev para visitar o tio e dizem que ele fugiu. Imagino se é verdade e se voltaremos a ver o menino. Joguei bezique com N[icolau]. Às dez e meia fui para a cama (apud RADZINSKY, 1992, p. 428).

Dr. Botkin

Na mesma reunião no hotel Amerika, foi decidido que não havia necessidade de fuzilar o rapaz Sednev junto com os outros presos. Ele foi removido dali para o outro lado da rua, num lugar próximo o suficiente para que ele pudesse ouvir o barulho da casa, diga-se de passagem. As pessoas na sala de jantar ficaram muito preocupadas, apesar das garantias de Yurovsky de que nada aconteceria ao garoto e que em breve ele seria devolvido. Às 20h, soou o toque de recolher na cidade, que se encontrava oficialmente em estado de sítio. Ninguém tinha permissão de passar na frete da casa Ipatiev. Do lado de fora, um caminhão era estacionado o mais próximo possível da entrada do porão. Seu barulhos deveria ajudar a abafar o som dos tiros e dos gritos. Quando o relógio bateu 22 horas, aconteceu a mudança regular de guardas, enquanto Nicolau e Alexandra jogavam cartas e os demais membros da família se entregavam à leitura. O dia começara a escurecer naquele horário e a temperatura oscilava em torno de 15° C, conforme relatou a imperatriz na última página do seu diário.

Depois das costumeiras orações, a família se retirou para o seu quarto. Só o dr. Botkin permaneceu na sala, escrevendo uma carta para seu irmão, Sasha:

É minha última tentativa de escrever uma carta verdadeira – ao menos daqui –, embora acredite que essa cláusula seja completamente supérflua. Não creio que eu esteja destinado a escrever a partir de qualquer outro lugar – meu confinamento voluntário aqui não é tão limitado pelo tempo como o é minha existência terrena. Em essência, já estou morto, morto para os meus filhos, para os amigos, para o trabalho […]. Estou morto, mas não enterrado, ou enterrado vivo – seja lá o que for: as consequências são praticamente idênticas. Meus filhos talvez tenham esperanças de algum dia nos vermos de novo nessa vida, porém eu pessoalmente não me entrego a esta esperança e olho a realidade nos olhos (apud RAPPAPORT, 2010, p. 144 e 152).

Pelo tom da missiva, percebemos como o médico da família não nutria qualquer esperança de sair vivo do cativeiro. E tinha razão. Ao terminar de escrever sua derradeira e última carta, Botkin se retirou para dormir. As luzes do quarto de Nicolau e Alexandra se apagaram às 23:30. O sono, porém, foi curto. Instantes depois, foram despertados com ordens de se dirigirem ao porão. Aparentemente, seriam movidos para outro lugar. Ou pelo menos foi o que lhes disseram. Era madrugada do dia 17 de julho de 1918, a última em que os Romanov passariam com vida.

Leia a segunda parte, clicando aqui!

Referências Bibliográficas:

MASSIE, Robert. K. Nicolau e Alexandra: o relato clássico da queda da dinastia Romanov. Tradução de Angela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

_. Os Romanov: o fim da dinastia. Tradução de Angela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

MONTEFIORE, Simon Sebag. Os Romanov: 1613-1918. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

RADZINSKY, Edvard. O último czar: a vida e a morte de Nicolau II. Tradução de Vera Maria Marques Martins. São Paulo: Nova Cultural, 1992.

RAPPAPORT, Helen. As irmãs Romanov: as vidas das filhas do último tsar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016.

STEINBERG, Mark; KHRUSTALËV, Vladimir. A queda dos Romanov. Tradução de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.

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