A Vênus da Renascença – Conheça a história de Simonetta Vespucci, a musa de Botticelli

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Ao som da palavra “Renascimento”, conseguimos evocar uma série de imagens e nomes, que aprendemos ainda quando alunos de colegial. Quem não conhece a Monalisa, de Leonardo Da Vinci, possivelmente o retrato mais famoso do mundo? Ou a estátua de David, esculpida por Michelangelo, o mesmo artista que pintou os afrescos da capela Sistina, na Basílica de São Pedro? Famosos também são escritores e dramaturgos como Erasmo, Thomas More, Shakespeare, entre outros. O retrato do casal Arnolfini, de Jan van Eyck, e as Madonas pintadas por Rafael, estão entre as telas mais conhecidas. Quem não se recorda, contudo, do “Nascimento de Vênus”, a obra-prima de Sandro Botticelli? A deusa do amor e da beleza esteve presente no imaginário de muitos mestres da renascença. A divindade concentrava em si características contrastantes, tais como pudicícia e luxúria, virtude e pecado, combinações irresistíveis para a época. Reconhecida facilmente em qualquer lugar, a Vênus de Botticelli é a expressão máxima do arquétipo de beleza feminina valorizada no Renascimento. Seu rosto foi pintado em mais de uma tela pelo artista. Porém, poucos sabem que a modelo usada para o quadro não é uma personagem mitológica como a deusa que representa, mas uma mulher real, que foi muito cortejada por pintores na segunda metade do século XV. Convido-o agora, caríssimos leitor e leitora, a conhecer a história de la bella Simonetta, a musa de Botticelli.

"O Nascimento de Vênus", por Sandro Botticelli, 1485. Museu Uffizi, Florença.

“O Nascimento de Vênus”, por Sandro Botticelli, 1485. Museu Uffizi, Florença.

Atualmente, o rosto da Vênus de Botticelli aparece estampado nos mais variados produtos, desde livros, discos, camisetas, canecas, reproduções, entre outros. Em termos comerciais, acredito que ela perca apenas para a Monalisa. Todavia, enquanto a identidade da mulher no retrato pintado por Leonardo ainda permanece um mistério, a mulher por trás da Vênus é demasiado conhecida entre os círculos de estudiosos da arte. Possivelmente nascida em janeiro de 1453, Simonetta Cattaneo era membro de uma nobre família genovesa, filha de um certo Gaspare Cattaneo Della Volta e sua esposa, Catocchia Spinola. A maior parte de sua vida, porém, permanece desconhecida. Possivelmente nasceu em Gênova, cidade de origem dos Cattaneo, embora os românticos argumentem (sem provas) que tenha sido em Porto Venere, o lendário lugar que, de acordo com a mitologia, Vênus teria nascido. Sem dúvidas, um prenúncio apropriado para o quadro que iria imortalizar Simonetta. Por outro lado, não há motivos para duvidar que tenha recebido um ensino convencional para as garotas de sua época, aprendendo os rudimentos da educação, junto ao canto, a música e a dança, a arte de saber agradar e de se fazer agradável, além das tarefas mais ligadas ao sexo feminino, como corte e costura e o comando da casa.

Como membro de uma família nobre, era esperado que Simonetta contraísse matrimônio com um partido que gozasse do mesmo prestígio e posição social que a sua, ou talvez mais elevada. Aos 15 anos, ela já havia alcançado uma idade casadoura, com a qual muitas mulheres se tornavam esposas. Foi nesse período que ela chamou a atenção do florentino Marco Vespucci (ou Vespúcio), um parente do famoso navegador Américo Vespúcio. Marco também era de família nobre e possuía fortes conexões com os Médici, um dos clãs mais proeministes de Florença. Os pais da jovem ficaram muito satisfeitos com a proposta de casamento e então decidiram enviar sua filha para lá. Naquele período, Florença era um dos mais importantes centros culturais e econômicos da Europa. Foi ali que os mais proeminentes poetas, pintores e humanistas da renascença criaram um cânone de beleza feminina. De acordo com Umberto Eco:

A mulher renascentista usa a arte da cosmética e dedica-se com atenção à cabeleira (é uma arte requintada, sobretudo em Veneza, tingindo-a de um louro que muitas vezes tende ao ruivo. Seu corpo é feito para ser exaltado pelos produtos da arte dos ourives, que também não objetos criados segundo cânones de harmonia, proporção e decoro. O Renascimento é um período de empreendimento e atividade para a mulher, que na vida de corte dita leis na moda e adequa-se ao fausto imperante, sem esquecer, no entanto, de cultivar a própria mente, participante ativa das belas artes e com capacidades discursivas, filosóficas e polêmicas (ECO, 2013, p. 196).

Segundo Eco, o belo no século XV deveria imitar a natureza em sua perfeição, “segundo regras cientificamente estabelecidas”, ou como contemplação de um grau de perfeição sobrenatural, não perceptível com a visão” (2013, p. 176),  A mulher ideal para os artistas da renascença, portanto, era um ser quase inalcançável. Porém, quando Simonetta foi apresentada ao seio da sociedade florentina, os artistas ficaram absorvidos pela sua encantadora beleza, entre eles Sandro Botticelli, que a elegeria musa de sua arte. Afinal, a jovem possuía muitas das características físicas femininas valorizadas no período.

Retratos de duas jovens desconhecidas, pintados por Botticelli na década de 1480. É possível que as telas representem a mesma pessoa: Simonetta Vespucci.

Retratos de duas jovens desconhecidas, pintados por Botticelli na década de 1480. É possível que as telas representem a mesma pessoa: Simonetta Vespucci.

Simonetta Vespucci era o que podemos chamar de It Girl do Renascimento, aquelas garotas que tinham algo que as destacavam entre as demais. Sua beleza encantou não só artistas, como também homens importantes no cenário político, a exemplo de Lourenço de Médici, il Magnifico, que louvou a aparência dela nos seguintes termos: “a pele alva, mas não pálida; a postura grave, mas não orgulhosa, e doce, mas não frívola; a elegância de seus movimentos; a beleza de suas mãos (TINAGLI, 1997, p. 67 apud SAMYN, 2014, p. 122). O status da jovem como a it Girl, a dama do momento, foi confirmado num torneio de justa ocorrido em 1475, quando Juliano de Médici, irmão de Lourenço, portou um estandarte com o perfil de Simonetta caracterizada como a deusa Palas Atena. Abaixo do busto, podia-se ler a inscrição em francês La Sans Pareille (A Sem Par). Aquele torneio, porém, não só confirmou a emergência da esposa de Marco Vespucci na sociedade florentina, como também sua ascensão como musa das artes, uma vez que o banner ostentado por Juliano com o rosto idealizado da jovem foi pintado por ninguém menos que Sandro Botticelli.

Botticelli reproduziria postumamente as feições de uma certa dama, que condiz com as descrições físicas de Simonetta, em muitos das suas telas, conforme podemos observar nas imagens acima, pintadas pelo artista na década de 1480, ambas respectivamente catalogadas como “retratos de uma jovem mulher”. É possível que se tratem da mesma pessoa, nesse caso, Simonetta Vespucci. De acordo com Henrique Marques Samyn:

A tradição artística resguardaria um espaço privilegiado para Simonetta nas criações de um dos mais importantes artistas do Renascimento, conquanto destinado a sofrer um longo eclipse por séculos após sua morte: Sandro Botticelli. A relação entre Simonetta e Botticelli – tanto o homem quanto o artista – é obscura a ponto de haver suscitado especulações sobre sua presença em todas as obras maiores do pintor florentino, e mesmo infundadas narrativas românticas sobre um amor não correspondido; não obstante, é o rastro de uma tradição que elevaria Simonetta a uma posição abstrata e modelar, a ponto de gerar um corpus de produções artísticas que adquiriu um sentido singular precisamente por encerrar fantasmáticas figurações da bella (SAMYN, 2014, p. 122).

Os retratos das duas jovens pintadas por Sandro Botticelli são interessantes, pois apresentam a mulher da renascença despida de toda aquela idealização de beleza que o artista iria imprimir em outras obras mais famosas, como “O Nascimento de Vênus” e “A Primavera”. Um quadro pré-rafaelita, pouco conhecido, pintado por Eleanor Fortescue-Brickdale em 1922, romantiza o momento em que Juliano e Lourenço de Médici introduzem a esposa de Marco Vespucci no estúdio de Botticelli, para que o estandarte de Atena fosse pintado (ver imagem abaixo). Para pintar Simonetta, Eleanor usou como base o retrato póstumo da jovem como Perséfone, da autoria de Piero di Cosimo, executado na década de 1490.

Esquerda: Juliano de Médici leva Simonetta Vespucci ao estúdio de Botticelli (Eleanor Fortescue-Brickdale, 1922). Direita:

Esquerda: Juliano de Médici leva Simonetta Vespucci ao estúdio de Botticelli (Eleanor Fortescue-Brickdale, 1922). Direita: Simonetta como Perséfone, por Piero di Cosimo (c. 1490).

Algumas fontes sugerem que Simonetta teria se tornado amante de Juliano, embora não exista prova concreta de que tal relacionamento tenha existido. Contudo, ser amásia de um membro da proeminente casa dos asMédici não poderia ser considerada um demérito. Pelo contrário. Embora Simonetta fosse casada, um suposto envolvimento com Juliano seria politicamente benéfico para os Vespucci, reforçando assim suas conexões já existentes com a família mais poderosa de Florença. Na opinião de Samyn, “a recepção de Simonetta Vespucci pelos Médici e pela sociedade florentina deve ser considerada a partir de expectativas tributárias de preceitos patriarcais, consoante os quais eram atributos de primordial valor para as mulheres no ambiente cortesão sua capacidade de inspirar beleza e prazer” (2014, p. 123). Em todo caso, a estrela de Simonetta não brilhou por muito tempo. Em 1476, um ano depois do famoso torneio de justa, ela faleceu, provavelmente vítima de tuberculose. Partiu com a idade de 22 anos, deixando para trás um porção de admiradores, que lhe renderiam singela homenagem, idealizando sua beleza de forma mítica nas artes.

Simonetta Vespucci apareceria postumamente em telas de Piero di Cosimo, eternamente bela e jovem. Contudo, foi nas obras de Botticelli que ele ficou mais conhecida, especialmente em “O Nascimento de Vênus”, pintado 9 anos após a morte da musa. A aparência de Simonetta foi bastante idealizada, para se adequar aos padrões estéticos de beleza feminina no Renascimento. Vênus aparece nua, soprada por Zéfiro, o vento do ocidente, enquanto uma ninfa se prepara para cobrir seu corpo luxuriante com um manto. Curiosamente, é possível que o rosto de Simonetta também tenha sido usado como base para o perfil da ninfa, embora não se tenha comprovação disso, assim como não se pode afirmar com certeza que a esposa de Marco Vespucci tenha sido a modelo utilizada para pintar a deusa do amor. Alguns historiadores da arte argumentam que, dizer que Botticelli teria se inspirado em apenas uma mulher para criar tantos quadros, é subestimar demais a sensibilidade do artista. O rosto de Vênus aparece numa das três graças de “A Primavera”, de 1482 (clique aqui), como também em “Calúnia de Apeles”, de 1496 (clique aqui), “Madonna del Magnificat”, pintado em 1483 (clique aqui), entre outros. Destaca-se também o famoso “Vênus e Marte”, finalizado 1483.

Vênus e Marte, de Sandro Botticelli (1483). National Gallery, Londres.

“Vênus e Marte”, de Sandro Botticelli (1483). National Gallery, Londres.

Pouco tempo depois da morte da esposa, Marco Vespucci se casou novamente. Em 28 de abril de 1478, aniversário de dois anos do falecimento de Simonetta, Juliano de Médici foi assassinado. Quanto a Sandro Botticelli, ele jamais esqueceria o rosto da musa que brilhou naquele torneio de 1475, reproduzindo as feições dela em suas obras (inclusive em outras telas de Vênus) até morrer, em 1510. Botticelli foi sepultado aos pés túmulo de Simonetta Vespucci, na igreja de Ognissanti, conforme desejo do próprio artista. Para algumas pessoas, isso é prova suficiente da devoção de Sandro por sua musa inspiradora. Como a deusa mitológica do amor, La Bella Simonetta ficou encantada no imaginário artístico. Sua beleza idealizada têm sido admirada como uma obra-prima do Renascimento, inspirando outros pintores ao longo dos séculos. Até hoje, Vênus permanece como padrão de estética feminina que, apesar das concepções modernas de beleza, simbolizada pelas top-models super magras, continua arrancando suspiros de homens e mulheres ao redor do mundo.

Referências Bibliográficas:

BURKE, Peter. O Renascimento. Tradução de Rita Canas Mendes – Lisboa: Texto de Grafia, 2008.

ECO, Umberto. História da Beleza. Tradução de Eliana Aguiar. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2013.

CLEGG, Melanie. Simonetta Vespucci. 2009. Acesso em 27 de novembro de 2016.

SAMYN, Henrique Marques. O fantasma de Simonetta: para uma crítica feminista de retratos do quatrocentos. Expressão – CAL – UFMS – n. 1 e 2 – jan./dez. 2014, pp. 121-132.

Simonetta Vespucci: Renaissance It Girl. 2015. Acesso em 27 de novembro de 2016.

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