Entre a memória e a literatura: um diálogo com a obra “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881)

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Publicado em 1881, Memórias Póstumas de Brás Cubas é considerada uma das principais produções de Machado de Assis. A obra é narrada por uma personagem já falecida, que decide contar suas memórias sob uma perspectiva cronológica invertida, que vai da morte ao nascimento, remetendo assim a um deslocamento entre o tempo e o espaço daquilo que é narrado. As memórias de Brás Cubas são escritas através da supervisão do autor da obra, que confere coexistência ao protagonista da trama: Machado de Assis, um dos cânones da literatura brasileira, que povoou a mente de gerações de leitores com obras de um profundo apelo psicológico e com personagens complexas. A obra foi lançada num período bastante conflituoso da história do Brasil, marcado pela decadência do regime monárquico e a ascensão de movimentos republicanos, além de ter inaugurado uma nova forma na nossa tradição literária. Os romances de Machado se tornaram tão populares que, através das décadas, se transformaram em memória da Nação brasileira. Graças aos seus personagens, ele povoou o imaginário coletivo com enredos marcados pelo seu caráter irônico e debochado.

Entre as obras de maior destaque do autor estão Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. A primeira delas, entretanto, oferece-nos uma ótima contribuição para se entender mais acerca dessa relação dialógica entre a memória e a literatura. No primeiro capítulo, intitulado “Óbito do autor”, o narrador assim diz:

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que assim o escrito ficaria mais galante e novo (ASSIS, 2004, p. 12).

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Machado de Assis

Ao se classificar como “defunto autor”, Cubas arroga para si maior liberdade para contar sua vida, uma vez que, devido à sua condição de morto, não poderia sofrer punições sociais pelo que viesse a escrever. Desde as primeiras páginas da obra, a personagem deixa claro que, quem lembra, o faz através de uma percepção íntima, ressaltando assim o caráter voluntário do discurso. Com efeito, no texto memorialístico, seja ele de cunho autobiográfico ou não, o escritor ficcionaliza o sujeito de que fala e a vida deste, utilizando-se da memória seletiva para ressaltar ou apagar determinados aspectos da vida do mesmo. A partir do momento em que as memórias associam lembrança, imagem e imaginação, elas podem ser produtoras de ficcionalidade, estando dessa forma vulneráveis ao engano dos sentidos.

A obra apresenta o narrador em duas temporalidades: a de quando está morto e, portanto, com uma noção de todas as escolhas que já fez, e a de quando está vivo e sujeito à indeterminação do futuro. Como vê a vida sem mais participar dela, Cubas supostamente examina os fatos com maior nitidez do que quando não estava vivo. Não obstante, as memórias, estariam próximas da impressão pessoal que o narrador/personagem tem das suas vivências, embora o espaço temporal entre aquilo que foi vivido e aquilo que está sendo contado altere substancialmente estas impressões que restaram do passado. Brás Cubas estabelece um compromisso com o leitor, no qual pretende manter uma certa fidelidade aos acontecimentos, embora faça uma escolha arbitrária e subjetiva dos fatos rememorados. A memória é assim manipulada de forma a servir as necessidades da personagem. Segundo Ricoeur, as manipulações da memória “devem-se à intervenção de um fator multiforme que se intercala entre a reivindicação de identidade e as expressões públicas das memórias” (RICOEUR, 2007, p. 95).

A experiência das personagens em Machado de Assis é caracterizada pela fragmentação de suas identidades, que não encontram um elemento unificador. Ao escrever suas memórias, Brás Cubas seleciona, apaga ou ressalta certos aspectos de suas vivências passadas, criando um simulacro de sua existência. O narrador exerce assim uma função de editor das próprias lembranças, ficcionalizando-as. Por não temer represálias ou a opinião pública, ele pode falar livremente:

Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nitidamente extenso, e, aliás, desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote e adeus (ASSIS, 2004, p. 11).

O que está em questão aqui é a existência de um narrador despojado de quaisquer convenções sociais além daquelas que o tornam inteligível aos seus leitores de então. Sem ser limitado por conveniência ou regras que castram o objeto histórico que pretende criar através de suas memórias, nas quais “só entra a substância da vida” (ASSIS, 2004, p. 56), ele pode escrever o que quiser, contando sua estória de acordo com sua vontade, debochando de si mesmo e também dos outros.

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Ao se classificar como “defunto autor”, Cubas arroga para si maior liberdade para contar sua vida.

Como editor de sua própria vida, Brás Cubas pretende melhorar o seu passado usando a ironia como figura de linguagem preferencial. O autor das memórias são se recorda dos fatos exatamente como eles aconteceram, e sim como ele acha que ocorreram. Ao evocar as lembranças, ele tenta organizar as imagens de uma forma coerente com o seu propósito. Suas recordações são assim moldadas pelos vários grupos do qual fez parte na vida, seja o familiar, o acadêmico ou o profissional. Sendo assim, a obra resultante disso extrapola os limites do pessoal, uma vez que coletivo é quem conduz a pena do escritor. De acordo com Maurice Halbwachs, para se recordar e reconstituir determinado acontecimento, é preciso que o nosso pensamento não deixe de concordar, em certo sentido, com os pensamentos dos outros membros do grupo.  “É preciso que esta reconstituição funcione a partir de dados ou de noções comuns que estejam em nosso espírito e também no dos outros, porque elas estão sempre passando destes para aqueles e vice-versa” (HALBWACHS, 2013, p. 39). Para Halbwachs, só se pode falar em memória coletiva a partir do momento em que evocamos um evento que teve lugar na vida de um ou mais grupos dos quais fazemos parte.

Quando se refere ao grupo familiar, por exemplo, Brás Cubas o faz de modo quase indiferente, uma vez o “defunto autor” não mais se identificava com seus parentes, como o pai, que nas palavras do filho era um homem de “bom caráter”, “varão digno e leal”, para em seguida ser descrito como alguém que recorreu à “inventiva” e à “falsificação”, sendo também um pouco “pachola”. É particularmente curiosa a descrição que o narrador/personagem faz das origens de sua família, ressaltando seu caráter imaginário e fictício:

Como esse apelido Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, alegava meu pai, bisneto de Damião, que o dito apelido fora dado a um cavaleiro, herói das jornadas da África, em prêmio de façanha que praticou, arrebatando trezentas cubas aos mouros. […]. Primeiramente entroncou-se na família daquele meu famoso homônimo, o capitão-mor, Brás Cubas, que fundou a vila de São Vicente, onde morreu em 1592 e, por esse motivo, é que me deu o nome de Brás. Opôs-se-lhe, porém, a família do capitão-mor e foi então que ele imaginou as trezentas cubas mouriscas (ASSIS, 2004, p. 15).

O mito da origem era um recurso utilizado por muitas famílias economicamente abastadas para reafirmar a nobreza de seu sangue, dentro de uma sociedade hierarquizada como a do Brasil monárquico. Machado de Assis faz assim uma crítica a esse costume, que objetivava à construção de uma memória do grupo familiar que validasse o status econômico de seus portadores. De acordo com Paul Ricoeur: “Apoiado na narrativa dos ancestrais, o vínculo de filiação vem se enxertar na imensa árvore genealógica cujas raízes se perdem no solo da história. E quando, por sua vez, a narrativa dos ancestrais recai no silêncio, o anonimato do vínculo geracional prevalece sobre a dimensão carnal do vínculo da filiação” (2007, p. 406).

Em Memórias póstumas de Brás Cubas, observamos a narrativa de um aristocrata “acanalhado”

Em Memórias póstumas de Brás Cubas, observamos a narrativa de um aristocrata “acanalhado”

Quando descreve sua infância, Brás Cubas rememora uma série de acontecimentos que, quando menino, não lhe faziam muito sentido, uma vez que diziam mais respeito ao universo dos adultos do que ao seu. Dessa forma, eventos como a ascenção e queda de Napoleão Bonaparte, não tinham muito significado para si, exceto o adereço que usaria na festa de comemoração pela derrocada do imperador dos franceses. Escrevendo sobre tais eventos muitos anos depois, Cubas os reveste de um novo significado, moldado pela ótica de um homem que faleceu aos 64 anos de idade. As lembranças por ele evocadas “distribuem-se e se organizam em níveis de sentido, em arquipélagos, eventualmente separados por abismos” (RICOEUR, 2007, p. 108). Da mesma maneira, o relato de seu nascimento foi reconstituído graças ao testemunho daqueles que estavam presentes na ocasião, visto que o narrador não poderia reter qualquer memória disso. A partir do relato de outros membros do grupo familiar, ele foi compondo as imagens de sua primeira infância para depois escrever tal como ele as compreendeu.

Para orientar suas recordações e dar uma espécie de sentido às mesmas, o narrador toma como ponto de referências os marcos temporais políticos da época, como a independência do Brasil (1822), o período regencial (1831-1840) ou golpe da maioridade (1840). Cada um desses períodos conheceu um Brás Cubas diferente:

– Mas, dirás tu, como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo e exprimi-la depois de tantos anos?

Ah! Indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior e que será corrigida também, até a edição definitiva que o editor dá de graça aos vermes (ASSIS, 2004, p. 65).

Nessa passagem, Machado de Assis compara o autor de memórias à função de editor da própria vida, corrigindo as lembranças passadas evocadas no presente em consonância com o estado de maturidade da personagem no momento em que ela escreve sua obra. O trecho acima ressalta a constatação de que existem dois sujeitos no romance: aquele que viveu os acontecimentos no passado e aquele que os recorda no presente.

O tempo histórico em Machado de Assis é marcado pelas contorções do tragiocômico e pelo impulso da imaginação: “viva pois a história, a volúvel história que dá para tudo; e, tornando à ideia fixa, direi que é ela que faz varões fortes e os doidos; a ideia móbil, vaga ou furta-cor que faz os Cláudios” (ASSIS, 2004, p. 16). Da mesma forma como a memória pode ser manipulada a serviço daquele que se lembra, a história é alterada de forma a servir aos propósitos daquele que a escreve. No quarto capítulo da obra, Machado entra de acordo com o pensamento de Halbwachs, ao sugerir que a narrativa histórica, tal como nos é passada na escola, pouco se relaciona com as nossas vivências, visto que “nenhum de nós pelejou a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confissão de Augsburgo”. Em seguida, o autor ressalta que os acontecimentos que foram inseridos na história universal diziam respeito aos mais grupos hegemônicos da sociedade, em detrimento de seguimentos menos favorecidos: “quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há, muitas vezes, várias outras bandeiras modestamente particulares que se hasteiam e flutuam à sombra daquela…?”  (ASSIS, 2004, p. 17),

memorias-postumas-martinDiante da mulher amada, Virgília, e com a morte a lhe bater na porta, Brás Cubas teve um delírio onde foi conduzido a uma reflexão sobre a efemeridade do tempo: “imagina tu, leitor, uma redução dos séculos e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas”( (ASSIS, 2004, p. 24). Aqui a suposta memória pública é filtrada pela memória individual do narrador, sob um ponto de vista negativo. Através da imaginação literária, Machado de Assis repensa a transitoriedade do tempo, de forma bastante humorada e ficcionalista. O entrelaçamento dos séculos históricos que o narrador presencia no seu devaneio se confundem com a própria época em que a obra está contextualizada, assim como a época na qual o leitor entra em contado com aquilo que Brás Cubas comunica: “bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da eternidade”  (ASSIS, 2004, p. 25-26).

Em Memórias póstumas de Brás Cubas, observamos a narrativa de um aristocrata “acanalhado”, que modifica as lembranças ao seu bel prazer, sem se importar com o julgamento do leitor. Dessa forma, Machado de Assis inaugurava um novo paradigma na nossa tradição literária. Como diz Luís Filipe Ribeiro, “Brás Cubas entroniza-se como o primeiro mau-caráter da nossa literatura, produzido pela sua própria narrativa” (2008, p. 305). Ao escrever suas memórias, o narrador/personagem recompõe seu passado, ficcionalizando o sujeito que viveu os acontecimentos de que narra, pois, o espaço de tempo entre o vivido e o narrado altera de forma significativa as impressões que restaram do passado. Na qualidade de editor da própria vida, o narrador captura apenas o essencial da existência, deixando de lado fatos que ele não considera relevantes para o seu relato. Nesses usos que a literatura faz do domínio da memória, realidade e ficção se misturam para criar um painel vivo e colorido do tempo vivido, através da ótica do escritor. Apesar de suas especificidades, essas duas áreas do conhecimento, aliadas à história, transmitem um simulacro da realidade, atribuindo ao passado um caráter dinâmico e mutável, a depender da significação que o tempo presente lhe dá.

Referências Bibliográficas

ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. – Barueri (SP): Editorial Sol 90, 2004.

CALHEIROS, Carina de Aquino. Narrativa e os usos da Memória na Literatura e na História. In: RANGEL, Marcelo de Melo; et.al. Caderno de resumos & Anais do 6° Seminário Brasileiro de História e Historiografia – O giro linguístico e a historiografia: balanço e perspectivas.  – Ouro Preto: EdUFOP, 2012, p. 1-9.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Beatriz Sidou. – São Paulo: Centauro, 2003.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. – Campinas: UNICAMP, 1994.

RAMOS, Danielle Cristina Mendes Pereira. Memória e Literatura: contribuições para um estudo dialógico. In: Linguagem em (Re)vista, ano 06, n° 11/12. Niterói, 2011, p. 92-104.

RIBEIRO, Luis Felipe. Mulheres de papel: um estudo do imaginário em José de Alencar e Machado de Assis. – 2ª edição. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. – Campinas: Editora da Unicamp, 2007.

 

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