Os primeiros anos do reinado da jovem rainha Vitória

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A despeito de uma celebração de coroação gloriosa, que marcaria a gênese de um dos períodos mais distintos da história inglesa, o início do reinado da rainha Vitória não foi tão dourado quanto o brilho de sua coroa. Na verdade, quando ela começou a reinar os efeitos do Sistema Kensington, ao qual fora submetida quando criança, se fizeram sentir. Ela era quase desconhecida por seus súditos e por algumas das figuras mais poderosas do mundo político britânico. Não obstante o fato de ser jovem e inexperiente, pesava sob Vitória a questão do gênero, uma vez que muitas pessoas naquele período olhavam com desconfiança para uma mulher que assumisse um cargo preferível aos homens. Sendo assim, a filha do duque de Kent se constituía num prato cheio para aqueles que acreditavam que conseguiriam domina-la. Contudo, qualquer tentativa nesse sentido esbarrava no caráter forte e obstinado da soberana, traço que ela carregará consigo até o fim dos seus dias. Além disso, Vitória contaria nesses primeiros anos com o forte apoio do primeiro ministro, Lorde Melbourne, que a introduziria nos meandros da política britânica e se tornaria numa das figuras mais importantes da primeira fase do seu longo reinado.

A rainha Vitória, aos 18 anos de idade, por Edmund Thomas Parris.

A rainha Vitória, aos 18 anos de idade, por Edmund Thomas Parris.

Poucas horas após receber a notícia da morte de seu tio, o rei Guilherme IV, em 20 de junho de 1837, Vitória se reuniu às 11:30 da manhã com seu Conselho Privado, para presidir a sua primeira sessão. Que impressão a jovem teria causado nos seus conselheiros? Nas palavras de seu principal biógrafo, Lytton Strachey, a grande assembleia “viu as portas serem abertas e uma garota pequena e muito esbelta, trajando luto completo, entrar sozinha na sala e se dirigir ao seu assento com extraordinárias dignidade e graça” (2001, p. 79). Strachey diz que os lords e notáveis, bispos, generais e ministros de Estado que estavam presentes no recinto viram na moça um semblante, se não bonito, pelo menos atraente: cabelos louros e proeminentes olhos azuis; um nariz pequeno e ligeiramente curvado, sob uma boca que, ao se abrir, revelava os dentes de cima; um queixo pequeno e uma tez muito clara. Os políticos ouviram a declaração feita pela monarca recém-entronada com bastante atenção. Sua voz era alta e resoluta e lia com clareza cada palavra do seu discurso. Então, terminada a cerimônia, os membros do Conselho Privado observaram a pequena figura se levantar e sair da sala sozinha, da mesma forma como havia entrado momentos antes.

Felizmente, a impressão que a jovem causara na reunião fora bastante favorável. Alguns políticos elogiaram a sua postura e autoconfiança, outros a sua seriedade. Porém, a fato mais positivo que pesou na opinião do Pequeno Conselho foi o interesse que Vitória demonstrou em se transformar numa soberana responsável. Após uma série de reinados escandalosos, como os de George IV e Guilherme IV, que fizeram ruir o prestígio da família real e da instituição monárquica, parecia aos olhos dos políticos que aquela moça de 18 anos, até então praticamente desconhecida, viera para curar as feridas deixadas por seus antecessores. Não demorou muito e a rainha decidiu reorganizar sua vida. Uma das primeiras medidas tomadas por ela foi mandar retirar sua cama do quarto da mãe. A partir daquele dia, as duas se veriam cada vez menos. O Controlador Geral da duquesa, Conroy, seria mais tarde demitido com uma aposentadoria, e nunca mais apareceria diante da rainha. A outrora criança introspectiva, a quem quase se permitia quase nada, tomou de uma vez por todas o comando de sua vida e não estava disposta a ceder sua autonomia recém-conquistada a quem quer que fosse.

Apesar de sua inexperiência, Vitória contou com a orientação de duas importantes figuras. Uma delas foi o seu tio Leopold, rei dos belgas. A muito que este soberano assumira diante dos olhos da filha de sua irmã a figura de pai, vaga desde a morte do duque de Kent. Em carta à sobrinha, datada de 27 de junho de 1837, ele passava os seguintes concelhos:

Minha querida criança […], devo evocar agora um assunto de importância vital para o vosso conforto, quero falar dos hábitos de trabalho que ides contrair. A melhor coisa é consagrar a isso certas horas; se vos ativerdes a esse programa, levareis vossa tarefa a bom termo facilmente. Creio que faríeis bem de dizer a vossos ministros que, no momento, estareis pronta a receber os que desejam ver-vos entre onze horas e uma e meia […]. Acrescentarei ainda um concelho. Uma decisão importante nunca deveria ser tomada no mesmo dia em que um problema vos fosse apresentado. Desde que não se trate de um caso de urgência, adoto como regra jamais me deixar forçar a tomar uma decisão imediata. Não é fazer justiça a si mesmo de décider les affaires sur le pouce […] (apud MUHLSTEIN, 1999, p. 26).

Leopold exortava a sobrinha a adquirir um método de trabalho. Para ele, a organização era a chave do sucesso. No primeiro ano do reinado de Vitória, as cartas entre ela e o rei dos belgas são quase profissionais e nos dão hoje uma pista para se compreender o pensamento de um grupo bastante restrito: o dos monarcas constitucionais.

A jovem rainha Vitória presidindo sua primeira sessão com seu Concelho Privado.

A jovem rainha Vitória presidindo sua primeira sessão com seu Concelho Privado.

A outra personalidade que marcou os primeiros anos do reinado da jovem rainha Vitória foi o primeiro-ministro, Lorde Melbourne. Ele rapidamente percebeu que a monarca necessitava de orientação e concelhos para dar conta de suas inúmeras responsabilidades. Assim, Melbourne assumiu os deveres de mentor e de secretário particular de Vitória, instruindo-a na Constituição britânica, na condução dos trabalhos governamentais e sobre o significado das correntes políticas. Nas palavras de Deirdre Shearman, foi com o auxílio do primeiro ministro que a rainha aprendeu a se impor à “opressiva burocracia real e – muito importante – ajudou-a a sair do isolamento do palácio de Kensington para o brilhante mundo da sociedade humana’ (1988, p. 24). Consequentemente, Lorde Melbourne ganhava um lugar cada vez mais especial na afeição de sua pupila, que passou a se referir ao mesmo nas suas correspondências como “o querido Lorde M”. Essas novas experiências dotaram Vitória de mais confiança para se apresentar a um mundo que desejava conhece-la. Ela abriu sessões do parlamento, participou de festas oficiais, recebeu o apelo de hóspedes e suplicantes.

O tio de Vitória, Leopold, rei da bélgica (por: George Dawe).

O tio de Vitória, Leopold, rei da bélgica (por: George Dawe).

Sendo assim, com poucos meses no trono, Vitória não tardou em demonstrar suas inclinações ao partido do primeiro-ministro, os whigs, em detrimento do partido oposto, os tories. Todavia, por ser uma soberana constitucional, chefe de Estado, era esperado que a rainha mantivesse neutralidade quanto às questões da instância governamental, especialmente no que dizia respeito à mudança de ministério. Infelizmente, não foi assim que Vitória reagiu. Durante o final de 1838 e início de 1839, o partido dos whigs perdeu grande parte de sua força dentro do Parlamento, de modo que em breve o Lorde Melbourne seria obrigado a renunciar, uma vez que de acordo com o sistema inglês de então, o primeiro-ministro se mantinha no governo enquanto seu partido possuía a maioria de representantes eleitos na Câmara dos Comuns. No momento em que ele perdesse essa vantagem, deveria colocar o seu cargo à disposição do monarca reinante, que por sua vez apontaria um novo primeiro-ministro entre os membros do partido que passou a ser majoritário. Em maio de 1839, Melbourne apresentou sua renúncia à Vitória que, desolada, anotou no seu diário: “Oh, toda a minha felicidade se foi! Aquela vida feliz e pacífica está destruída, e o querido e gentil Lorde Melbourne não é mais meu ministro”.

Por recomendação do duque de Wellington, a rainha indicou a contragosto para o cargo de primeiro-ministro Sir Robert Peel, um proeminente tory. Contudo, mesmo afastado do governo, Lorde Melbourne continuou a manter contado com Vitória, aconselhando-a a explicar a Peel que, por ser jovem e pouco acostumada com questões políticas, não estava habituada à troca de ministros e, portanto, precisava do apoio de uma criadagem com a qual já estava familiarizada. Porém, a rainha não conseguia separar suas ações políticas dos sentimentos pessoais e logo entrou em atrito com o novo primeiro-ministro, recusando o pedido dele para que algumas de suas damas de companhia, anteriormente selecionadas por Lorde Melbourne, fossem demitidas, uma vez que eram casadas com poderosos políticos da oposição. Vitória se sentiu indignada e argumentou que as tarefas das camareiras eram de ordem pessoal e que em momento algum discutia política com elas. Na opinião da rainha, Sir Robert Peel era “frio e esquisito” e não fazia questão de esconder sua antipatia por ele. Diante da recusa em demitir suas damas de companhia, acompanhada com a resposta de Vitória de que “a rainha da Inglaterra não se submeterá a tal imposição”, Peel renunciou ao cargo de primeiro-ministro, pois estava convencido de que não poderia exercê-lo nessas circunstâncias.

O primeiro-ministro, Lorde Melbourne, por Sir Thomas Lawrence.

O primeiro-ministro, Lorde Melbourne, por Sir Thomas Lawrence.

A deixa de Sir Robert Peel foi o momento perfeito para Lorde Melbourne agir. Ele reuniu o gabinete e submeteu a questão aos seus membros, explicando que “a jovem rainha, solitária em sua posição, ficara chocada e sentira-se insultada por ter o primeiro-ministro tentando ditar ordens em assuntos estritamente domésticos” (SHEARMAN, 1988, p. 29). Melbourne ainda leu algumas cartas da soberana, nas quais ela lamentava que o incidente tivesse terminado em tal confusão. “Lorde M” teve êxito em sua argumentação e conseguiu granjear para a rainha não só a simpatia de todos, como também a garantia de que nenhuma de suas damas seriam demitidas. Como consequência, ele foi reinstalado no seu antigo cargo, apesar de os whigs ainda serem minoria no Parlamento. Refletindo sobre esse episódio alguns anos mais tarde, Vitória disse que “eu era então muito jovem e talvez agisse diferente se me visse novamente diante de tal situação”. O ano de 1839 fora bastante difícil para ela, que aprendeu que seu cargo também envolvia pressões e controvérsias, para além do brilho dos grandes bailes que frequentava. Com efeito, ela já contava naquela época 20 anos, idade em que muitas moças já estavam casadas. Era preciso encontrar o consorte ideal para a rainha e o eleito já estava em vias de ser escolhido: Albert de Saxe-Coburgo, que seria o homem mais importante na vida de Vitória.

Referências Bibliográficas: 

MUHLSTEIN, Anka. Vitória: retrato da rainha como moça triste, esposa satisfeita, soberana triunfante, mãe castradora, viúva lastimosa, velha dama misantropa e avó da Europa. Tradução de Maria Lúcia Machado. – São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SHEARMAN, Deirdre. Rainha Vitória. Tradução de Achille Picchi. – São Paulo: Nova Cultural, 1987.

SITWELL, Edith. Vitória: rainha da Inglaterra. Tradução de Solena Benevides Viana e Jaime de Barros. – Rio de Janeiro: José Olympio, 1946.

STRACHEY, Lytton. Rainha Vitória. Tradução e prefácio de Luciano Trigo. – Rio de Janeiro: Record, 2001.

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3 comentários sobre “Os primeiros anos do reinado da jovem rainha Vitória

    • Olá, Betina. Aceitamos a sua proposta de parceria. Basta que você adicione o link do Rainhas Trágicas no seu blogroll que retribuiremos o favor.

      Abraço,
      Renato

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