Agora é oficial: Elizabeth II se torna a monarca que por mais tempo ocupou o trono do Reino Unido

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No dia 24 de março de 1603 falecia a rainha Elizabeth I da Inglaterra. Seu reinado fora um dos mais prósperos da história inglesa e até aquela data o mais longo também. A filha de Henrique VIII com Ana Bolena havia governado por aproximadamente 45 anos (1558-1603) e provado aos seus súditos que uma mulher era tão capaz de suportar o peso de uma coroa quanto qualquer homem. O tempo de reinado de Elizabeth foi superado por George III (conhecido como “o rei louco”), que ocupou o trono por 60 anos (1760-1820). Essa configuração perdurou até o dia 23 de setembro de 1896, quando a rainha Vitória escreveu a seguinte frase no seu diário: “hoje é o dia no qual eu reinei por mais tempo do que qualquer outro soberano inglês”. Vitória faleceu em 1901 e reinou por exatamente 23226 dias, 16 horas e 23 minutos. Ainda hoje, ela permanecia como a monarca que ocupou o trono por mais tempo, pelo menos até às 17:30 do horário de Londres (13:30 no Brasil), quando foi superada pela sua trineta, Elizabeth II. A atual soberana do Reino Unido quebrou o recorde da própria ancestral e aos 89 anos esbanja boa disposição e coragem aos olhos do mundo.

Elizabeth II aos 7 anos de idade, por Philip de László (1933).

Elizabeth II aos 7 anos de idade, por Philip de László (1933).

No seu famoso livro “A Era dos Extremos”, o historiador Eric Hobsbawm descreveu o século XX como um período em que as transformações e os acontecimentos se sucederam de forma bastante acelerada, dando ao período uma sensação de brevidade bastante contrária ao século XIX, definido pelo mesmo autor como “longo”. Elizabeth II reinou durante metade do século XX e quando menina vivenciou acontecimentos que tiveram um grande peso na formação do seu caráter: viu o tio, Eduardo VIII, renunciar à coroa pelo amor de uma mulher. Emocionada, acompanhou a luta de seu pai, George VI, para superar a gagueira; quando moça, prestou serviço durante a Segunda Guerra; casou-se com o homem que queria; conheceu a maternidade e finalmente o peso da coroa, o qual ela suporta até os dias de hoje. Muitos a consideram como apenas uma mera entidade representativa do governo britânico, algo como a figura de proa de uma grande embarcação. Na verdade, a importância de Elizabeth II vai muito além disso. Estando no centro do palco, poucos como ela conseguiram suportar o turbilhão de acontecimentos do século passado e saíram com integridade física e mental para deixar para nós o seu testemunho.

Fotografia digitalmente colorida de Elizabeth II em sua coroação, em 2 de junho de 1953.

Fotografia digitalmente colorida de Elizabeth II em sua coroação, em 2 de junho de 1953.

Entretanto, como talvez fosse de se esperar numa ocasião como essa, nenhuma celebração oficial será efetuada para o marco desta data. Hoje, a rainha fez uma aparição pública para inaugurar uma nova linha férrea na Escócia e foi recebida com muito carinho pelas pessoas de lá. Durante um breve discurso, Elizabeth revelou que esperava superar o recorde de sua tataravó, Vitória. Ela disse que:

Muitos, incluindo você a primeira-ministra (da Escócia, Nicola Sturgeon), observaram um significado diferente para este dia, embora não seja um (significado) que eu tenha aspirado. Inevitavelmente uma vida longa envolve muitas etapas, a minha não é exceção, mas agradeço a todos aqui e no exterior por suas mensagens tocantes.

A fala da soberana ressalta a pouca importância que ela dá para o fato, uma vez que para ela esse marco apenas simboliza a culminância de uma vida longa, em contraste com a do seu pai, George VI, que morreu cedo e cujo reinado fora mais curto.

Moeda de prata no valor de 20 libras contendo as efígies da soberana desde a sua coroação.

Moeda de prata no valor de 20 libras contendo as efígies da soberana desde a sua coroação.

Para comemorar a data, na semana passada a casa da moeda do Reino Unido lançou uma moeda de prata no valor de 20 libras (aproximadamente 120 reais), onde aparece as cinco efígies da rainha que estamparam moedas britânicas desde a sua coroação, em 2 de junho de 1953. Além de soberana do Reino Unido, Elizabeth II reina em outros 15 países, incluindo o Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Jamaica. Andrew Gimson, autor do livro “Kings and Queens: Brief Lives of the Monarchs since 1066” disse que o reinado de Elizabeth “será recordado como um feito impressionante, [por] permanecer de maneira segura no trono ao longo de um período de tremendas mudanças sociais e econômicas”. Após a morte do rei saudita Abdullah, aos 90 ano, atualmente ela é a soberana com mais idade no mundo, embora não seja a que exerce a função de monarca por mais tempo, perdendo apenas para o rei da Tailândia Bhumibol Adulyadej, que subiu ao trono em 1946 e hoje possui 87 anos de idade.

Foto de Elizabeth II tirada hoje pela manhã estação de Newtongrange, na Escócia.

Foto de Elizabeth II tirada hoje pela manhã estação de Newtongrange, na Escócia.

Com efeito, Elizabeth II constitui hoje a mais pura representação da tradição de um passado que, a pesar dos pesares, ainda resiste ao caráter transformador (e destruidor) do presente. Ela não deve ser lembrada apenas como a soberana que por mais tempo ocupou o trono do Reino Unido. Como sua homônima do século XVI, Elizabeth personifica a força feminina dentro de uma sociedade misógina, especialmente a inglesa da primeira metade do século passado. Nela, os dois corpos do soberano (o privado e o público) se fundem em um só. Afinal, não é qualquer um que consegue manter as obrigações de Estado e administrar uma família tão numerosa. Depois de ter aguentado várias crises que abalaram a estabilidade e o prestígio da monarquia (como a morte da princesa Diana), Elizabeth II permanece como uma monarca muito querida aos olhos do público e não dá sinais de que pretende abdicar trono, quebrando assim mais um tabu dentro da sociedade ocidental: de que idade avançada não é parâmetro para se medir competência!

Fontes: G1 e EBC

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