A generosidade e a maldade em “Cinderella” (2015): um novo olhar através do conto de fadas na versão da Disney

ALERTA: Esse texto contém spoilers do filme “Cinderella” (2015)!

“Era uma vez uma garota muito bonita e inteligente que se casou por amor e teve duas filhas adoráveis. Tudo ia bem, até que um dia, seu marido, a luz da sua vida, morreu. Na vez seguinte, ela se casou pelo bem das filhas, mas aquele homem também lhe foi tirado. Então ela foi condenada a olhar todos os dias para a adorada filha dele. Ela esperava casar uma de suas lindas e estúpidas filhas com um príncipe, mas ele foi atraído por uma garota com sapatinhos de cristal e, por causa disso, ela viveu infeliz para sempre”. A leitora e o leitor certamente já conhecem a estória de Cinderela, mas será que já a ouviram contada através dos lábios da madrasta má? Duas versões de uma mesma narrativa. Qual delas é a mais confiável? Com frequência, nos contos de fadas aprendemos que as portas da felicidade se abrem para aqueles cujo coração é corajoso e gentil. Já para os malvados, resta uma vida de tristeza e solidão. Mas seria a coragem e a gentileza atributos tão facilmente encontradas nos dias de hoje? E o amor à primeira vista? Seria ele real ou apenas um fruto do nosso desejo de que a vida fosse diferente: com um pouquinho mais de paixão, felicidade e magia? Essa fórmula se tornou tão característica do mundo de faz-de-conta que é quase impossível concebe-la em um plano que extrapole os limites da verossimilhança. Mas ainda bem que existem os livros e o cinema, que tornam esse universo encantado acessível para nós, conforme podemos observar na nova versão de “Cinderella” (2015).

O longa-metragem gira em torno do conflito de duas mulheres completamente diferentes. Enquanto o escudo de Ella era a bondade, a arma de sua madrasta, Lady Tremaine, era o rancor.

O longa-metragem gira em torno do conflito de duas mulheres completamente diferentes. Enquanto o escudo de Ella era a bondade, a arma de sua madrasta, Lady Tremaine, era o rancor.

“Querida Ella, você tem mais bondade em seu dedo mindinho do que muitas pessoas têm no corpo todo. Tenha coragem e seja gentil”. Para muitos de nós, é difícil acreditar que uma garota que perdeu a mãe quando criança, depois o pai e permaneceu confinada numa casa com uma madrasta e duas irmãs postiças que não paravam de lhe atormentar, consiga passar por todas as adversidades com um sorriso nos lábios, acreditando que o mundo e as pessoas poderiam ser bem melhores do que parecem ser. Ella, ou Cinderella (personagem da nova versão dos estúdios Disney para o clássico infantil que vem encantando gerações ao longo de décadas), é o estereótipo de uma garota submissa e ingênua, cuja felicidade consiste em servir aos outros, por mais que para isso tenha que abrir mão do próprio conforto e liberdade. Sua infância dourada ganhou nuvens cinzas no dia em que se tornou completamente órfã e então passou a assumir a identidade de uma empregada doméstica (Cinderella, como passaram a chama-la dentro de casa), em detrimento do luxo no qual viviam a madrasta e suas filhas. Pessoas como Ella estão cada vez mais raras hoje em dia, de modo que se torna quase patético, se não irônico, conceber que tal modelo de virtuosidade exista. No entanto, seria esse o momento de jogarmos tudo pro alto e continuarmos descrentes quanto à generosidade desinteressada dos seres humanos? Acredito que não!

“Coragem”, “generosidade” e “magia”. O novo filme da Disney gira em torno desses três conceitos: “onde há generosidade, há bondade, e onde há bondade, existe mágica”. Em outras palavras, coisas boas acontecem para quem é bom, enquanto coisas ruins para quem é mau. Ella era uma moça tão pura e ingênua, a ponto de sua inocência causar inveja na madrasta, uma mulher que fez uma série de escolhas erradas para proteger as filhas e a si mesma, na busca de uma futuro brilhante que jamais chegaria para ela. O longa-metragem enfatiza o conflito de duas mulheres completamente diferentes. Enquanto o escudo de Ella era a bondade, a arma de sua madrasta, Lady Tremaine, era o rancor. Lily James, atriz que interpreta a personagem principal, conseguiu fazer um ótimo trabalho, personificando nas telas a verdadeira essência de uma princesa encantada da Disney. Em quase nada difere da versão animada do filme, lançada em 1950: a mesma alegria, compaixão para com os fracos, beleza, feminilidade e, acima de tudo, simplicidade. Como no conto de fadas original, era de se esperar que nossa querida gata borralheira triunfasse e vivesse feliz para sempre ao lado do príncipe. No mundo real, porém, seu êxito seria um tanto quanto questionável. Sendo assim, o foco desta presente análise não será Cinderela, mas outra personagem: a madrasta. A história por trás dos motivos que a teriam levado a proceder de tal forma é a chave para entender seu comportamento com relação à enteada.

Lady Tremaine (Cate Blanchett) e suas filhas: Drisella (Sophie McShera) à esquerda e Anastasia (Holliday Grainger) à direita.

Lady Tremaine (Cate Blanchett) e suas filhas: Drisella (Sophie McShera) à esquerda e Anastasia (Holliday Grainger) à direita.

Com efeito, caso você ainda não tenha assistido ao filme e tem problemas com spoilers, então aconselho que pare a leitura por aqui. Do contrário, vamos dar prosseguimento à nossa jornada pelo mundo mágico de “Cinderella” (2015) e tentar compreender as mensagens por trás do filme. Partindo do pensamento de que as estórias infantis contém uma representação da realidade, é preciso, entretanto, analisá-las no contexto histórico no qual se inserem. Apesar da estória de Cinderela ser antiga e ter sofrido variações ao longo dos anos, a nova versão cinematográfica do clássico trás no seu enredo um profundo apelo contemporâneo, especialmente no que se refere à questão da mulher como chefe da casa. A madrasta de Ella, com a morte do segundo marido, se viu numa situação bastante complicada: sem dinheiro, como então sustentar a casa, as filhas e a enteada, especialmente numa época onde o trabalho das mulheres da classe média-alta não era bem visto pela sociedade? Para poupar despesas, Lady Tremaine foi forçada a dispensar toda a criadagem, contraindo em seguida dívidas e mais dívidas. A solução para sair daquela situação era apenas uma: casar suas filhas com bons partidos e assim livrar-se dos débitos. Casamentos arranjados ainda eram muito comuns até o final do século XIX, principalmente entre as casas reais europeias. A intenção por trás de tais acordos, espécie de contrato social, era manter ou elevar o status econômico da família. Nessa perspectiva, o desfecho para os problemas da madrasta de Ella estava claro. Faltava apenas uma coisa: o noivo!

Quem em todo o reino se casaria com uma das filhas bobalhonas de Lady Tremaine, Anastasia e Drisella (interpretadas por Holliday Grainger e Sophie McShera, respectivamente)? Aparentemente, ninguém. Então eis que surge uma grande oportunidade: o rei dará um grande baile e todas as donzelas do reino estavam convidadas. A razão aparente do evento era encontrar uma noiva para o príncipe. Mas que feliz oportunidade para o trio de golpistas?! Infelizmente, para Ella, a situação não era das melhores: confrontada com a madrasta, a gata borralheira tem seu vestido de gala rasgado e é abandonada em casa com as seguintes palavras: “você não irá ao baile”! Em tese, uma camponesa simples como Ella não poderia causar a mínima ameaça às glamorosas filhas de Lady Tremaine, exceto com uma ajuda especial. Acredito que o leitor e a leitora já devem imaginar a que tipo de socorro eu me refiro: uma fada madrinha, figura icônica que está presente em diversos contos de fada, ajudando príncipes e princesas a encontrarem o amor verdadeiro. No desenho da Disney de 1950, a fada é uma velhinha simpática e atrapalhada, mas nesta releitura temos ninguém menos que Helena Bonham Carter no papel da salvadora de Ella. A escolha da atriz certamente frustou alguns fãs, especialmente por Helena ter ficado marcada pelos filmes de Tim Burton, ou por seu papel na saga “Harry Potter” como a comensal da morte, Bellatrix Lestrange. Porém, ela empresta às cenas um quê de comédia bastante característico de uma fada atrapalhada, como no caso da estória de Cinderela.

Helena Bonham Carter como a fada madrinha.

Helena Bonham Carter como a fada madrinha.

“Bibbidi-Bobbidi-Boo”, ao som dessas três palavrinhas, a mágica do filme acontece. De gata borralheira, Ella se transforma numa belíssima princesa com sapatinhos de cristal, usando um vestido que está dando o que comentar nas redes sociais e fóruns da internet. A nível de curiosidade, o conceito para o vestido de Cinderella foi inspirado nos retratos da realeza europeia da segunda metade do século XIX, quando a imperatriz Sissi da Áustria encantava toda a Europa por sua beleza e trajes que ainda hoje são de tirar o fôlego. Nenhuma soberana seria melhor do que Sissi para emprestar a Ella todo o encanto e requinte da chamada Era Romântica. A protagonista tem então o seu momento e ofusca todas as outras donzelas do baile, incluindo suas irmãs postiças. Ao toque da última badalada da meia-noite, o feitiço foi quebrado e ela voltou a ser novamente a gata borralheira. Esperando encontrar novamente o príncipe e revelar a ele quem ela era de verdade, mais uma vez a madrasta se interpõe no caminho. Nesse encontro, Lady Tremaine revela que a tratava daquela forma pois a enteada era jovem, inocente e boa, enquanto ela não era mais nada daquilo. O conflito de opostos está mais do que evidente nessa cena. A madrasta personifica para o telespectador o drama de uma mulher outrora bela e inteligente, que observa os anos passarem e com eles sua juventude. Enquanto isso, a filha de seu falecido marido floresce a cada dia que passa, apesar dos maus tratos a que era submetida.

Não pretendo defender as atitudes da madrasta. Porém, após ficar viúva duas vezes e sem um marido, ela teve que fazer sua própria sorte, tomando o caminho que, a priori, lhe pareceu mais vantajoso. Ser uma mulher no século XIX nunca foi fácil, ainda mais para uma com três bocas para alimentar. Sendo assim, não é de se admirar que Lady Tremaine desdenhasse de sentimentos como “amor” e “bondade”. Mas assim como Ella, a madrasta era corajosa. Apostou todas as suas fichas nas filhas, lutou até o fim, mas perdeu o jogo. Contudo, uma personagem como a madrasta perderia sua intensidade sem uma atriz adequada para lhe interpretar. Nesse caso, a escolha da produção foi mais do que certeira: a vencedora do Oscar 2014, Cate Blanchett. Embora o elenco do filme seja composto por estrelas notáveis, Cate é o maior destaque da produção. Suas expressões são tão espontâneas e a postura tão impecável que ela praticamente personifica aos olhos do telespectador como uma dama da alta burguesia europeia agia naquele período. De gostos extremamente refinados e uma mente astuta, a madrasta de Ella é a maior personagem feminina da trama. No mundo real, uma dama inteligente como Lady Tremaine poderia facilmente vencer os obstáculos e conseguir o que queria. Mas, como já disse, estamos falando de um conto de fadas e não seria justo roubar do jovem casal de namorados o seu “felizes para sempre”.

O vestido do baile usado por Ella foi feito inspirado em retratos da realeza do século XIX, como podemos observar no quadro da Imperatriz Sissi.

O vestido do baile usado por Ella foi feito inspirado em retratos da realeza do século XIX, como podemos observar no quadro da Imperatriz Sissi.

Ella e o se apaixonam no primeiro encontro, sem nem mesmo saberem nada a respeito um do outro. O interessante nesse aspecto é que a Disney resolveu desenterrar a velha fórmula do amor à primeira vista, indo contra a ideologia de filmes recentes como “Frozen” (2013) ou “Malévola” (2014), que, por sua vez, romperam com essa ideia. Fora dos limites da ficção, um encontro na floresta dificilmente resultaria em um sentimento mais profundo. Porém, essa versão de Cinderella, que de inovadora tem muito pouco, procurou manter-se fiel ao desenho de 1950, exceto pelo fato de que dessa vez a produção decidiu colocar como pano de fundo um contexto histórico. Em 1998 a 20th Century Fox lançou uma versão do clássico intitulada “Para sempre Cinderela”, estrelado por Drew Barrymore e Anjelica Huston. A trama se passava na França renascentista e trazia inclusive personagens como Leonardo da Vinci. Diferentemente dessa versão, muito bem adaptada no tempo e no espaço, diga-se de passagem, “Cinderella” (2015) confunde o telespectador por não delimitar o marco temporal no qual o enredo se encaixa. Os trajes de gala masculinos seguem o padrão da primeira metade do século XIX, enquanto os femininos se encaixam na segunda. Não obstante, a produção misturou a moda feminina de três décadas distintas: 1860, 70 e 80, o que pode ser verificado a partir dos vestidos usados por Cate Blanchett e suas filhas.

Aos olhos dos leigos, esses pequenos detalhes citados no parágrafo anterior podem passar quase despercebido, mas no de especialistas, nem tanto. Voltando ao assunto do relacionamento entre Ella e o príncipe, o tipo de sentimento que melhor o define é o amor romântico, entendido como a conjunção de duas alma. É um amor, portanto, idealizado, herança da chamada Era Vitoriana. Através do primeiro encontro, seguido pela primeira dança (uma das cenas mais belas do filme, é preciso dizer), o príncipe Kit, interpretado por Robb Stark Richard Madden, tem a convicção de que a princesa misteriosa (Ella), é a mulher com a qual ele quer passar o resto de seus dias, repudiando assim a pretendente oferecida pelo grão-duque (Stellan Skarsgard). Contudo, os casamentos na realeza eram antes de tudo assuntos de Estado. Casava-se não por amor, mas por política. Esse ponto ficou bastante claro em “Cinderella”, assim como outra peculiaridade existente entre as casas reais: o casamento morganático, ou seja, quando um rei, príncipe ou princesa, se unia em matrimônio com alguém de posição inferior, seja um membro da baixa nobreza ou uma pessoa que nem sequer pertencia a ela. Por exemplo: em 2011, o mundo presenciou um tipo de união bem parecida, protagonizada pelo príncipe da Inglaterra, William, e a plebeia Kate Middleton. Dessa forma, o ato cometido por Kit, embora pouco frequente, não era algo inusitado, visto que a história possui vários exemplos desse tipo de união.

Lily Jame como Ella, e Richard Madden como o príncipe Kit.

Lily James como Ella, e Richard Madden como o príncipe Kit.

Diante do que foi até aqui exposto, percebemos que o novo filme da Disney, longe de apresentar uma estória puramente ficcional ao público, possui alguns elementos de realismo. Sendo assim, cabe-nos perguntar: até que ponto realidade e fantasia se misturam para criar um quadro colorido e representativo da nossa sociedade? Se indivíduos gananciosos como o grão-duque, e rancorosos como a madrasta existem, porque também não existiriam pessoas como Ella?! No início deste texto, falei que pessoas como a nossa gata borralheira estavam cada vez mais difíceis de se encontrar. Porém, elas existem e podem estar bem do nosso lado, embora quase não as notemos. Para identifica-las, não precisamos de uma fada madrinha e sim de uma arma tão poderosa quanto a “coragem” e a “generosidade”: o bom senso. Se encararmos os seres humanos diferentemente do que parecem ser, então encontraremos um pouco de Ella em cada uma. Nesse universo de faz-de-conta que é a vida real, ninguém é inteiramente bom ou inteiramente mal. A dualidade existe dentro de todos. Só cabe a nós sabermos lidar com ela. As palavras têm mais poder do que imaginamos. São capazes de transformar príncipes em sapos e camponesas em princesas (Ella em Cinderella). Basta nos aceitarmos como somos, imperfeitos, então sempre haverá lugar para o perdão, como Ella mesmo provou no desfecho do filme.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História – UESC

Mestrando em Memória: Linguagem e Sociedade – UESB

Confira abaixo o trailer legendado do filme Cinderella (2015): 

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5 comentários sobre “A generosidade e a maldade em “Cinderella” (2015): um novo olhar através do conto de fadas na versão da Disney

  1. As mulheres belas devem ter alguma paciência e pagar um «imposto»: aturar os «chato» (maçantes). Isto tudo, claro, dentro dos limites do razoável. A Cinderella estava a pagar um «imposto» excessivo, embora ela fosse excecionalmente bela. Os conceitos de «beleza» e «bondade» também têm naturalmente a sua evolução histórica. Ver «História da Beleza» de Humberto Eco, tradução portuguesa Difel 2004.

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  2. As histórias de amor clássico que todo mundo se lembra. Uma produção que se destaca para o negócio. Sem dúvida, Cinderela é um filme que vai fazer você lembrar sua infância, e os caracteres que você sonhou quando você era uma criança. Esta incrível.

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