O resgate da memória da Imperatriz D. Leopoldina

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Nascida em Viena, no dia 22 de Janeiro de 1797, Carolina Leopoldina de Habsburgo-Lorena descendia de uma das casas reinantes mais nobres da Europa. Quando criança recebeu uma educação primorosa. Desde cedo, a arquiduquesa demonstrou seu interesse pela botânica e mineralogia. Era uma cientista amadora. Aos 19 anos, foi enviada ao Brasil para se juntar ao seu marido, o príncipe D. Pedro. Foi neste país que a filha dos césares demonstrou a capacidade de suas faculdades mentais ao ser protagonista do processo de emancipação política do Brasil, tornando-se soberana consorte do nascente império. Infelizmente, sua vida foi curta, tendo falecido aos 29 anos, mas legou aos brasileiros o testemunho de sua alma caridosa, sua competência e poder como mulher. Contudo, poucos são aqueles que ainda hoje se lembram de D. Leopoldina e de suas qualidades intelectuais e políticas, o que se constitui num exemplo vivo de uma Nação que pouco se recorda de sua história e dos personagens que nela atuaram.

D. Leopoldina, por Jean Françoise Badoureau

D. Leopoldina, por Jean Françoise Badoureau

Segundo Pierre Nora, presenciamos hoje um momento de ruptura com o passado, atrelado a um sentimento de memória esfacelada, “mas onde o esfacelamento desperta ainda memória suficiente para que se possa colocar o problema de sua encarnação” (1985, p. 7). Existe uma enorme variedade de documentos e testemunhos ligados a primeira Imperatriz do Brasil, entre os quais, suas cartas de 1822 (endereçadas ao seu marido, D. Pedro, ao ministro José Bonifácio, seu pai, o Imperador Francisco I da Áustria, sua irmã, Maria Luísa, entre outros) que não deixam dúvidas quanto ao seu protagonismo no processo de emancipação política do Brasil. Entretanto, poucos são os pesquisadores que se debruçaram sobre este acervo. A melhor biografia já escrita sobre a soberana é a que lhe dedicou Carlos H. Oberacker Jr., lançada em 1973. Desde então, poucos livros dignos de nota¹ sobre a primeira esposa de D. Pedro I, foram publicados.

Para além das palavras, existem os monumentos, como a cripta Imperial, que abriga os despojos humanos do primeiro imperador do Brasil e suas duas mulheres, Leopoldina e Amélia, localizada no bairro do Ipiranga, na cidade de São Paulo. Há também o paço de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro, lugar onde a Imperatriz residiu desde que chegou ao país em 1817. Em frente ao palácio, há uma estátua da soberana, erguida em 1997 para comemorar o bicentenário de seu nascimento. Enfim, existe mais de um lugar onde se possa evocar a memória de D. Leopoldina, simbólicos de sua existência e contribuição ativa para a formação da identidade nacional. Porém, o que falta por parte da maioria dos brasileiros é o interesse em resgatar a imagem desta grande mulher. “Se habitássemos ainda nossa memória”, diz Pierre Nora, “não teríamos necessidade de lhe consagrar lugares” (1985, p. 8).  Não fossem tais vestígios de D. Leopoldina que teimam em se deixar apagar pelo tempo, talvez não mais se pudesse alcança-la no turbilhão de acontecimentos que marcam a história nacional.

Estátua da Imperatriz D. Leopoldina, erguida em frente ao Palácio de São Cristóvão, por ocasião do bicentenário do nascimento da soberana, em 1997.

Estátua da Imperatriz D. Leopoldina, erguida em frente ao Palácio de São Cristóvão, por ocasião do bicentenário do nascimento da soberana, em 1997.

Com efeito, “os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais” (NORA, 1985, p. 13). Por exemplo: se o 7 de setembro, dia em que D. Pedro I declarou que o Brasil estava politicamente emancipado de Portugal, não fosse considerado feriado nacional, quem, além dos historiadores e alguns poucos interessados, se lembraria do acontecimento em si? Arrisco ainda a dizer que se o dia 15 de novembro não fosse feriado nacional, poucos também se lembrariam de que foi nesta data, em 1889, que a República foi proclamada, apesar de ainda vivermos sobre a égide do regime republicano. Nesse caso, é preciso consagrar um dia de celebração no calendário nacional para cada um desses acontecimentos, do contrário quase ninguém se recordaria deles.

Para Pierre Nora, esse crescente esquecimento da memória nacional pode ser explicado pelo fato de que nós não mais habitamos em nosso passado. “O que nós chamamos de memória é, de fato, a constituição gigantesca e vertiginosa do estoque material daquilo que nos é impossível lembrar” (NORA, 1985, p. 15). O indivíduo sente maior afinidade com aquela história vivida, da qual ele fez parte, do que naquela que ele entra em contato a partir dos livros. O sociólogo Maurice Halbwachs aprofunda ainda mais essa questão:

Se a condição necessária para que exista a memória é que o sujeito que lembra, indivíduo ou grupo, tenha a sensação de que ela remonta a lembranças de um movimento contínuo, como poderia ser a história uma memória, se há uma interrupção entre a sociedade que lê essa história e os grupos de testemunhas ou atores, outrora, de acontecimentos que nela são relatados? (HALBWACHS, 2013, p. 101).

Nesse sentido, como poderíamos entrar em sintonia com pessoas que viveram a quase 200 anos, sendo que, aparentemente, não mais nos identificamos com elas? De minha parte, penso que esse esquecimento é uma forma de desrespeito, uma vez que se hoje o Brasil se configura como um dos maiores países da América Latina, foi por causa da atuação de determinados agentes, como a própria Imperatriz D. Leopoldina.

Dentro de uma modernidade cada vez mais acelerada, na qual o conceito de identidade nacional é insuficiente para classificar os habitantes de cada país, o papel do historiador é de suma importância, uma vez que a memória histórica² está morrendo com o passar dos anos. Nas palavras de Eric Hobsbawm:

A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tornam-se mais importantes do que nunca… (HOBSBAWM, 2012, p. 13).

Pierre Nora agrava ainda mais esse quadro ao afirmar que hoje “tudo o que é chamado de clarão de memória é a finalização de seu desaparecimento no fogo da história”. Portanto, “a necessidade de memória é um necessidade de história” (1985, p. 14).

Capa da edição n° 107 da Revista de História da Biblioteca Nacional.

Capa da edição n° 107 da Revista de História da Biblioteca Nacional.

Como então chegar a uma reconstituição da memória da Imperatriz Leopoldina num quadro social cada vez mais desinteressado pelo seu passado coletivo e que, como o próprio Eric Hobsbawm afirmou, vive numa espécie de presente contínuo? Daí a necessidade de se criar conferências e/ou feiras, como a exposição que o Museu Histórico Nacional está para inaugurar no dia 14 de outubro desse ano.  Nesse ponto, o crucial é descentralizar tais eventos, tornando-os acessíveis não apenas a uma classe social favorecida, mas a todas as pessoas que tenham interesse em manter contato com a vida e a obra de uma das personagens mais ilustres de nossa história. Pela mulher que foi, pela fibra e a coragem que demonstrou frente aos infortúnios do destino, a vida de D. Leopoldina pode inspirar muitos brasileiros. Apesar de ser austríaca, a filha dos césares adotou o Brasil como pátria do coração e lutou com as armas que podia pela felicidade da Nação.

Sendo assim, olhando os fatos por esse ângulo, podemos afirmar que esse resgate da memória da Imperatriz Leopoldina é uma necessidade do presente, por parte de determinados indivíduos preocupados de que a vida desta mulher seja esquecida pelos atuais habitantes da Nação brasileira. Entretanto, o fato de se criar exposições, erguer monumentos, escrever biografias e romances, não é suficiente para que esse resgate transcorra da maneira esperada. É preciso contar com a vontade do público para o qual estas ações se dirigem. Mas a julgar pelo interesse dos brasileiros na história de seu país, essa perspectiva me parece bem desanimadora. Há tempos que D. Leopoldina necessita de uma boa biografia, para além da que lhe dedicou Carlos H. Oberacker Jr. Por outro lado, também existem as fontes. Elas tanto falam como emanam da própria soberana, através das centenas de cartas que escreveu durante toda a sua vida e que são prova de sua intelectualidade e amor pelas coisas que fazia.

Fôlder de divulgação da exposição "Com a palavra, D. Leopoldina", organizada pelo Museu Histórico Nacional.

Fôlder de divulgação da exposição “Com a palavra, D. Leopoldina”, organizada pelo Museu Histórico Nacional.

No ano passado, ela foi assunto em diversas revistas e matérias de telejornais, graças ao excelente trabalho feito pela arqueóloga e historiadora Valdirene do Carmo Ambiel, que junto com sua equipe, estudou e conservou os remanescentes humanos de D. Pedro I e das Imperatrizes Leopoldina e Amélia, sepultados na cripta imperial, dentro do Monumento ao Centenário da Independência. Esse ano, ela já foi capa da edição n° 107 da Revista de História da Biblioteca Nacional e tema de uma palestra organizada pelo mesmo periódico. No dia 14 desse mês, o Museu Histórico Nacional irá inaugurar a exposição “Com a palavra, D. Leopoldina: Imperatriz do Brasil”. Com a mais nobre das intenções, o Museu pretende mostrar a primeira soberana do Brasil não como coadjuvante da história nacional, e sim como protagonista desta, contando para isso com a ajuda de muitas outras instituições, entre elas a escola de samba Imperatriz Leopoldinense. Tal atitude pode ser um grande avanço nesse processo de resgate da memória de D. Leopoldina, salvando seu passado do esquecimento e ao mesmo tempo prestando um valioso serviço tanto para o presente, quanto para as próximas gerações.

Notas:

¹ Entre eles, cabe destacar o livro de Johanna Prantner, Imperatriz Leopoldina do Brasil (1997); D. Leopoldina: cartas de uma Imperatriz (2006), organizado por Bettina Kann e Patrícia Souza Lima; e também 200 anos Imperatriz Leopoldina, lançado em 1997 pelo IHGB por ocasião do bicentenário do nascimento da soberana.

² O termo “memória histórica” é contestado por Maurice Halbwachs em seu livro “A Memória Coletiva”, pois em sua opinião memória e história se diferenciam em mais de um ponto. Diz o sociólogo que “em geral a história só começa no ponto em que termina a tradição, momento em que se apaga ou se decompõe a memória social” (2013, p. 100-1).

Referências Bibliográficas:

200 anos Imperatriz Leopoldina. Vários autores. – Rio de Janeiro: IHGB, 1997.

AMBIEL, Valdirene Do Carmo. Estudos de Arqueologia Forense Aplicados aos Remanescentes Humanos dos Primeiros Imperadores do Brasil Depositados no Monumento à Independência. 2013. 235 f. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – MAE, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2013.

HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. Tradução de Beatriz Sidou.  2ª ed. São Paulo: Ed. Centauro, 2013.

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. Tradução de Marcos Santarrita. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução de Bernrado Leitão. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1994.

NORA, Pierre. Entre a memória e a história: a problemática dos lugares. In: Projeto História, n° 10, p. 7-28, dez. 1993.

OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, sua vida e época: ensaio de uma biografia. – Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973.

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8 comentários sobre “O resgate da memória da Imperatriz D. Leopoldina

  1. Como habitualmente, bom texto! O casamento de um filho de um rei exilado numa longínqua américa com uma das filhas da casa real mais poderosa da europa foi um excelente feito diplomático que custou grande parte da fortuna pessoal ao Marquês de Marialva, D. Pedro de Meneses de Sousa Coutinho. Foi necessário recrear na corte austríaca o mito da riqueza e do ouro do brasil – já em decadência há duas gerações – e para tal D.Pedro inundou Viena de festas e presentes, muitos dos quais pagos do seu próprio bolso. Quanto à jovem e letrada Dª Leopoldina devemos ao «bom selvagem» de Rousseau e ao seu interesse por mineralogia e botânica essa sua curiosidade pelo «Novo Mundo» o qual em grande parte a dececionaria.

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  2. Meu amigo Renato Drummond: parabéns pelo blog “Rainhas Trágicas”!! Um espaço belíssimo que dignifica a participação das mulheres e glorifica o período monárquico, tanto na História Geral como na História do Brasil.

    Sou acadêmico de História, mas não conhecia nada sobre D. Leopoldina! Mas eu tive a sorte de achar o livro “Leopoldina e Pedro I: a vida privada na Corte”! O Livro é tão bonito que me despertou a vontade de saber cada vez mais sobre a nossa primeira Imperatriz.

    Fiz agora um blog sobre História e variedades e, para oferecer minha modesta contribuição à memória da Imperatriz, fiz um post com vários detalhes sobre o livro: http://www.blogofcabral.blogspot.com

    Abraço, Cabral =)

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