Coleção de Livros Didáticos da editora LeYa aborda a história das mulheres

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

“Uma história sem as mulheres”, já dizia a historiadora Michelle Perrot, parece hoje em dia algo impossível. Contudo, ainda é uma realidade que muitos meios de informação ainda não atribuem a elas o lugar devido de agentes de sua própria história, apesar da massiva produção que tem sito feita nesse sentido durante as últimas décadas. Escrever uma história das mulheres é ao mesmo tempo uma tentativa de arrancá-las do silêncio no qual que a sociedade as confinou, uma vez que, em primeiro lugar, elas são menos vistas no espaço público, ficando mais reservadas à esfera privada, da família e da casa. Por muito tempo, a invisibilidade das mulheres fez parte da ordem social. Ora, nesse sentido, é comum pensar: se eram pouco vistas, então é por isso que pouco se falava delas! Mas a questão é muito mais profunda do que podemos imaginar. Personagem que até a década de 1960 permaneceu praticamente marginalizada pela história (quando fatores científicos, sociológicos e políticos possibilitaram a ascenção do objeto “mulher” na área das ciências humanas), o silêncio sobre a história das mulheres se estende até mesmo às fontes. Daí a problemática de se construir um relato das mesmas.

Na capa do 1° ano, vemos estampada na fronte ninguém menos que a rainha Elizabeth I da Inglaterra (1533-1603).

Na capa do 1° ano, vemos estampada na fronte ninguém menos que a rainha Elizabeth I da Inglaterra (1533-1603).

Infelizmente, a maioria dos debates acerca desse tema de estudo fica praticamente confinada ao universo acadêmico, sendo pouco difundido fora dos muros das Universidades, particularmente dentro do ensino básico das escolas brasileiras. Boa parte dos Livros Didáticos, principalmente os de história, quando abordam o objeto de estudo “mulher”, o trata de maneira superficial, preferindo dar espaço para aquele velho discurso histórico pautado em conteúdos que de tão discutidos em sala de aula, já se tornaram enfadonhos para professoras e professores e entre os próprios estudantes. Sendo assim, o diferencial seria justamente dar relevância àqueles outros agentes “excluídos da histórica”, como bem os definiu Michelle Perrot: operários, mulheres e prisioneiros. No início do século XIX, o historiador Michelet inovou ao fazer do povo o seu objeto de estudo, tirando do narrado o protagonismo das classes sociais dominantes. Se hoje já observamos uma crescente preocupação por parte dos Livros Didáticos em tratar as massas populares como agentes de sua própria história, como então identificar entre elas a presença da mulher? Sem dúvida esse é um desafio e tanto para os profissionais da educação que se debruçam sobre tal assunto.

De um total de 7 coleções de Livros Didáticos de História do ensino médio a serem adotados pela rede pública que eu avaliei esse ano, constatei que em 6 delas o papel da mulher foi tratado de forma quase insignificante. Uma, entretanto, me reclamou bastante atenção: a coleção “Oficina de História” (2013), desenvolvida pelos historiadores Flávio de Campos e Regina Claro, e publicada pela editora LeYa. De início, o fator que me provocou tamanha curiosidade foi às próprias capas dos livros. Em cada uma delas, o indivíduo notará a presença de três mulheres que representam fases distintas da história ocidental. Começando pelo material do 1° ano, que aborda do surgimento do homem à formação dos Estados Absolutistas, vemos estampada na fronte ninguém menos que a rainha Elizabeth I da Inglaterra (1533-1603). Num universo povoado por faraós, reis e imperadores, porque não trazer a figura de uma soberana pintada justamente no ato de sua coroação? Elizabeth foi uma das figuras femininas mais fortes de seu tempo, sendo também a madrinha do renascimento inglês, popularizado pelo chamado teatro elisabetano, que teve nomes marcantes como o de William Shakespeare.

A capa do livro do 2° ano, traz na capa um recorte do famoso quadro de Eugène Delacroix, “A liberdade guiando o povo” (1830).

A capa do livro do 2° ano, traz na capa um recorte do famoso quadro de Eugène Delacroix, “A liberdade guiando o povo” (1830).

O livro do 2° ano, por sua vez, que foca sua análise no contexto das revoluções liberais ocorridas na Europa e na América, entre outros assuntos, traz na capa um recorte do famoso quadro de Eugène Delacroix, “A liberdade guiando o povo” (1830), focando na figura da própria liberdade, ou seja, a mulher, símbolo da república francesa. “Vestida de branco, seios nus, boné frígio sobre os cabelos castanhos, brandindo a bandeira tricolor da Revolução”, a jovem retratada é nenhuma outra senão a Marianne em combate (PERROT, 1998, p. 19). Já no terceiro volume da coleção, que se estende do início do século XX até os dias atuais (englobando inclusive o governo da presidenta Dilma Rousseff), observamos na capa um pôster de uma campanha russa de 1925, trazendo justamente a figura de uma operária (ou seria uma dona de casa?), ser que merece destaque como agente histórico e que no volume em questão foi resgatada do silêncio da esfera privada para ser porta-voz do período entre Guerras Mundiais, marcado por profundas tempestades ideológicas.

Assim, a coleção “Oficina de História” (2013) traz em suas capas três diferentes tipos de mulher: a da nobreza, centrada na figura da rainha Elizabeth I; a idealizada, nesse caso, a Marianne; e a mulher do povo, representada pela operária russa. Para além do profundo apelo iconográfico das capas, os conteúdos dos livros não deixam a desejar. Como ficou exposto na carta de apresentação escrita pelos autores, o objetivo da coleção é trazer uma “História plural, repleta de olhares cruzados e por vezes antagônicos”. Flávio de Campos e Regina Claro (mestres em História Social pela USP) trazem para o aluno e o professor justamente esses temas referentes aos “excluídos da história”, aliados a textos complementares, questões bastante discursivas, sem deixar de abordar, contudo, aqueles conteúdos mais tradicionais, só que incrementados com uma brilhante análise iconográfica, especialmente no que se refere às imagens femininas.

No terceiro volume da coleção,  observamos na capa um pôster de uma campanha russa de 1925, trazendo justamente a figura de uma operária (ou seria uma dona de casa?)

No terceiro volume da coleção, observamos na capa um pôster de uma campanha russa de 1925, trazendo justamente a figura de uma operária (ou seria uma dona de casa?)

De textos como “Mulheres no teatro do Mundo”, (vol. 1, p. 274) ao iluminismo do século XVIII com “As mulheres e as ideias ilustradas” (vol. 2, p 74), chegando às “Mulheres na política” (vol. 3, p. 82), a coleção “Oficina de História” (2013) da editora LeYa permeia por uma gama variada de temas, com destaque também para a cultura afro-brasileira e a história africana, que não é analisada em apenas um capítulo, mas de forma contínua e ao longo dos conteúdos, estacionando nos “desafios, esperanças e paradoxos” da África em pleno século XXI (vol. 3, p. 256-60). Grandes personalidades femininas, como Olga Benário, Eva Perón e mesmo as seis esposas do rei Henrique VIII da Inglaterra (1491-1547), também foram contempladas pela coleção, demonstrando como as mulheres, especialmente as do povo, merecem ser estudadas em toda a sua relevância dentro do contexto do ensino das escolas brasileiras. As fontes para uma história das mulheres existem. Elas tanto falam sobre como também emanam delas próprias. Com efeito, a grande barreira ainda é encontrar profissionais que estejam dispostos a trabalhar o objeto de estudo “mulher” em sala se aula, atribuindo a elas não apenas o lugar de meras coadjuvantes nos acontecimentos, e sim de importantes protagonistas no palco de sua trajetória.

Bibliografia:

CAMPOS, Flavio de; CLARO, Regina. Oficina de História. – São Paulo: Leya, 2013, vols. I, II e III.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. Tradução de Angela M. S. Corrêa. – 2. ed. – São Paulo: Contexto, 2013.

_. Mulheres públicas. Tradução de Roberto Leal Ferreira. – São Paulo: UNESP, 1998.

_. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Tradução de Denise Bottmann. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

Texto escrito para o Causas Perdidas

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