A filosofia de “Maleficent”: o discurso sobre o amor verdadeiro na história da vilã mais famosa da Disney

ALERTA: Esse texto contém spoilers do filme “Maleficent” (2014)!

“Era uma vez uma bela princesa, que foi amaldiçoada por uma fada má no dia de seu batizado: antes do pôr do sol, no dia em que ela completasse 16 anos, ela picaria seu dedo no fuso de uma roca e em seguida cairia no sono da morte. Somente um beijo de amor verdadeiro poderia acordá-la e então a princesa viveria feliz para sempre”. O leitor provavelmente já conhece a história da Bela Adormecida, um dos maiores clássicos infantis de todos os tempos, já reescrito sob a pena de muitos escritores ao longo dos anos. Contudo, no século XX foi possível trazer o conto para as telas do cinema em formato de animação, no intuito de encantar o público através de cenas coloridas e uma belíssima trilha sonora. É difícil encontrar hoje um adulto que, quando criança, não se tenha deixado seduzir pelos filmes da Disney, passando essa tradição para seus filhos e depois para os filhos destes. Mas tão interessante quanto os mocinhos das histórias, são os vilões e sua aparente maldade sem limites. Que fizeram eles para se aliarem às forças das trevas? Será que não tiveram antes um passado de desilusões e tristezas? Perguntas como essas se tornam cada vez mais comuns nos telespectadores de hoje em dia, que procuram sempre uma justificativa para o comportamento deste ou daquele vilão.

Pôster do filme "Maleficent" (2014), com Angelina Jolie no papel principal.

Pôster do filme “Maleficent” (2014), com Angelina Jolie no papel principal.

Seguindo esse pensamento de que ninguém é inteiramente bom ou inteiramente ruim, muitos personagens históricos, cujas vidas foram vilipendiadas ao longo dos séculos, chegaram para nós hoje investidos de uma nova roupagem, mais humanitária e compreensiva do que em tempos passados. Nesse contexto, a história dos vilões dos contos pode ser muito mais interessante do que a dos mocinhos, na maioria das vezes chatos e que representam um tipo de união quase impossível de existir na prática. O “felizes para sempre” dos finais dos contos de fadas se transformou em “felizes enquanto durar”. A bruxa má, que antes aterrorizava, já não mete mais medo. Pelo contrário. Ela se tornou alvo de interessantes releituras, como a que a Disney acabou de fazer com Malévola, a vilã de “A Bela Adormecida”. Atualmente, algumas das passagens desse grande clássico de 1959 podem parecer sem explicação aos olhos dos telespectadores, por exemplo: que motivo teria Malévola para atrapalhar tanto a vida do casal da trama? Além disso, a ideia de um amor avassalador no meio de uma floresta, despertado em apenas um encontro pode parecer ridícula aos olhos de muitos. Nesse caso, nada mais sensato do que trazer algumas novas explicações para a história, através de uma produção repleta de efeitos especiais e bons atores.

Tal como no clássico da Disney, “Maleficent” (2014), filme roteirizado por Linda Woolverton e dirigido por Robert Stromberg, também é recheado de mensagens que faz os telespectadores refletirem um pouco. A primeira das indagações a se fazer, seria: existe amor verdadeiro? De que forma podemos identifica-lo? Através de um único olhar, ou por meio de uma relação construída com o passar dos anos? A última alternativa parece a mais sensata. Essa é uma dos questionamentos mais fortes de “Maleficent”: o amor verdadeiro não nasce apenas de um encontro. Ele é uma relação de troca, onde o dar mais do que receber é fundamental. Para justificar o que acabo de dizer, utilizarei de passagens do filme. Caso você ainda não o tenha assistido, então peço que pare de ler essa resenha agora mesmo. Mas se já assistiu, ou não tem problemas com spoilers, então podemos continuar com o nosso pequeno debate. O novo filme da Disney contém em si um profundo apelo filosófico sobre a natureza da condição humana, investindo na premissa de que o bem e o mal existem dentro de cada um de nós. Duas faces de uma mesma moeda, na qual podemos ser tanto heróis como vilões. É esse o caso de Malévola.

Tal como na versão de 1959, Malévola ainda é caracterizada como um demônio medieval. Moral da história: não devemos julgar pelas aparências!

Tal como na versão de 1959, Malévola ainda é caracterizada como um demônio medieval. Moral da história: não devemos julgar pelas aparências!

Para muitos, a ideia de amor é a aquela onde há uma conjunção entre duas almas apaixonadas. Esse tipo de sentimento, caracterizado como amor romântico, é o que existia entre Malévola e Stefan na juventude de ambos. Durou? Infelizmente não. A cobiça pelo mundo material acabou por afastá-lo dos braços dela. Quando ele retorna, é com a intenção de mata-la. Não conseguindo finalizar o ato, Stephan rouba de sua amiga aquilo que ela tinha de mais precioso: suas asas; um símbolo de sua liberdade.  É interessante perceber que em muitos relacionamentos atuais, o individualismo fala alto: o “eu” vem antes do “tu”, que por sua vez vem antes do “nós”. Corrompida pelo ódio, Malévola, tal como um anjo caído, decidiu se vingar de Stephan, lançando uma terrível maldição sobre a filha recém-nascida do mesmo. Mas também não teria sido Malévola vítima de seu próprio poder? Relembremos então, caro leitor, a cena do batizado da princesa, onde a “vilã” lança em Aurora um feitiço tão poderoso que nenhum poder na terra poderia desfazê-lo. Ela disse: “a princesa crescerá em graça e beleza e amada por aqueles que a conheçam”. Se considerarmos que Malévola foi incapaz de desfazer o feitiço, anos mais tarde, significa então que ela mesma não estava imune a ele.

Dessa forma, a protagonista acabou também sucumbindo ao charme da princesa, por mais que ela tentasse evitar. Com o tempo, ela se tornou uma espécie de mãe que Aurora não conheceu, apesar de não manter contato direto com a princesa por muito tempo: assistiu a pequena crescer e se tornar um jovem alegre e feliz, um tipo raro de ser humano que foi criado longe da cobiça de seus iguais e que por isso sabia respeitar a natureza e todos os seres que nela habitavam. É possível que a própria Malévola tenha se identificado em Aurora, quando ela era uma jovem fada órfã e protetora de um reino encantado, onde todos viviam em equidade, sem rei ou rainha que os governasse. O reino dos Moors era uma utopia para os homens que, imbuídos pelo seu desejo de ganância, não compreendiam a beleza de uma existência pacífica e feliz. Entre esses dois extremos, existia Malévola, que graças ao seu contato com um humano, descobre o quão perversos eles podiam ser. Ao se proclamar rainha do reino onde vivia, a “vilã” se reconhece como superior e, portanto, mais digna de usar uma coroa do que seu amigo traidor.

Sharlto Copley no papel do rei Stefan, um homem ambisioso que foi capaz de trair sua amiga para conquistar a coroa.

Sharlto Copley no papel do rei Stefan, um homem ambisioso que foi capaz de trair sua amiga para conquistar a coroa.

Numa recente crítica feita ao filme, André Forastieri usou o conceito de misandria, ou em outras palavras, o ódio ou desprezo pelos homens, para explicar a suposta mensagem antimasculina que o enredo contém. Longe de pensar assim, acredito que “Malévola” demonstra o desejo dos poderosos de possuírem aquilo que não têm. Nesse caso, a história está cheia de exemplos de reis que dizimaram populações para se apropriar de suas riquezas e condenaram a diversidade alheia como algo bizarro e demoníaco.  Durante o século XIX, por exemplo, a Inglaterra e outros países da Europa partiram em busca de novas colônias na África e na Ásia para comercializarem seus produtos, usando como discurso o caráter “civilizatório” de sua missão. Resultado: passaram em cima de culturas com séculos de tradição motivados por interesses econômicos e expansionistas. Podemos trazer esse quadro para o contexto do filme: o rei Henry queria se apropriar do tesouro dos Moors, usando como justificativa as adversidades existentes entre os reinos, além da diferença física. Afinal, não foram poucos soldados que gritaram “demônio” durante a cena da primeira batalha. Essa é outra mensagem significativa no enredo do filme: o preconceito por aquilo que é diferente.

Desvencilhar-se dessas amarras sociais é ainda um grande problema para muitos, especialmente dentro de uma população ainda bastante conservadora como a brasileira. Tornou-se comum relacionar o “outro” àquilo que não é igual e por isso passível de desconfiança. Em “Maleficent”, o rei Henry ridiculariza Malévola por ser uma criatura com asas e chifres. Assim como no clássico de 1959, a caracterização da “vilã” como um demônio medieval se faz notável. Era um ser temível pela sua aparência para os humanos, mas belo dentro de seu próprio reino; um ser com o coração puro. Lição de moral que aprendemos com essa passagem: não se deve julgar pela aparência! Derrotado na batalha e em seu orgulho, para o rei dos humanos era preferível passar sua coroa para quem o vingasse do que para a filha. Esse aspecto no filme lança luz sobre muitos momentos na história. Por exemplo: na França monárquica, a lei sálica do século XIV impedia que mulheres assumissem o trono. Quando o rei Luís XII, que não tinha filhos, morreu em 1515, ele não foi sucedido por sua filha mais velha, Cláudia, mas sim pelo marido desta, Francisco I.

Sam Riley como o corvo Diaval, que além de companheiro, ajuda Malévola na busca pela redenção.

Sam Riley como o corvo Diaval, que além de companheiro, ajuda Malévola na busca pela redenção.

Entretanto, as diferenças entre Francisco I da França e o rei Stefan são muitas: o primeiro chegou ao trono pelo direito de sangue, enquanto o segundo, filho de camponeses, conquistou a coroa e a mão da filha do rei traindo sua amiga de outrora, mesmo sem ter direito hereditário ao trono. Com o passar dos anos, Stefan se tornaria um homem obcecado pelo seu desejo de vingança, enquanto Malévola reaprendia aos poucos a beleza e a simplicidade da vida graças ao contato com Aurora. Tendo perdido os pais cedo, talvez a instinto materno da “vilã” por aquela garotinha que crescia também sem pais tenha sido maior do que seu rancor pelo passado. É a bondade e a simplicidade de Aurora que redime Malévola e a transformam novamente em heroína da história. Muitas pessoas acabam fazendo coisas certas pelos motivos errados! Embora fosse um ser encantado, a protagonista do filme não podia ignorar suas características humanas. Ela as adquiriu a partir de seu contato com um menino que queria roubar apenas uma joia, mas acabou levando muito mais do que isso. Desiludida, Malévola perdeu sua crença no amor, até que outra humana lhe provou o contrário.

Quanto ao príncipe Philip e as três fadas mágicas, eles não tem a mesma importância que tinham no clássico de 1959. Na primeira versão, o mocinho vence a bruxa má graças à ajuda de Fauna, Flora e Primavera. Em “Maleficent” a batalha entre o bem e o mal ocorre dentro da própria protagonista. Já a princesa Aurora, ela tem um papel muito mais relevante nessa reedição do conto. Sem ela, Malévola não teria recuperado suas asas e a crença que tinha no amor. Não poderia deixar de falar também no corvo Diaval. Ele acaba se tornando um companheiro para sua senhora, além de ter também uma função muito importante na redenção da protagonista. Aliás, a existência de Diaval juntamente com a do príncipe Philip prova que o filme não passa uma mensagem de misandria, visto que esses personagens masculinos não são caracterizados como perversos. Só o rei Stefan que recusa a salvação. Enlouquecido pelos anos de mágoa e frustração, a única coisa que realmente importava para ele era se vingar da ex-amiga, mesmo que para isso tivesse que dar a própria vida. No final, a ambição se transformou em doença e loucura e foi isso que consumiu o monarca e o impediu de ter o seu desfecho feliz.

Elle Fanning como a princesa Aurora, personagem que nessa versão do clássico tem um papel muito mais importante: mostrar que o amor verdadeiro existe!

Elle Fanning como a princesa Aurora, personagem que nessa versão do clássico tem um papel muito mais importante: mostrar que o amor verdadeiro existe!

“O ser humano nasce bom, porém a sociedade o conduz à degeneração”. A máxima rousseauniana pode muito bem ser empregada a esta nova adaptação de “A Bela Adormecida”. A cobiça dos homens corrompeu Stefan, impedindo que ele encontrasse a verdadeira felicidade. Por pouco não consumiu também a alma de Malévola. Mas a redenção só vem para os braços daquele que a procura. Ao abdicar de sua coroa, a protagonista passa sua autoridade não para um ser mágico, mas para uma garota que era tanto humana quanto encantada. Para aqueles que acreditam em amor à primeira vista, não se desespere. Talvez ele ainda exista, embora seja um pouco difícil de ser encontrado no perfil individualista da sociedade contemporânea. O amor verdadeiro pode não residir na união entre duas almas apaixonadas, como querem os românticos, mas num simples relacionamento de amizade, na ternura de quem cuida e no carinho daquele que retribui. Existe tanto a bondade quanto a maldade dentro de cada um de nós. O ponto chave é saber equilibrar esses dois extremos, como provou Malévola em sua relação com Aurora. Afinal, o beijo de amor não veio dos lábios do príncipe encantado, mas de alguém que foi tanto vilã quanto heroína; uma personagem na qual todos nós podemos nos identificar.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História – UESC

Confira o trailer de “Maleficent” (2014):

Bibliografia Consultada:

DEL PRIORE, Mary. História do amor no Brasil. – São Paulo: Contexto, 2012.

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. Tradução de Marcos Santarrita. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Texto também disponível no site Literatortura!

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4 comentários sobre “A filosofia de “Maleficent”: o discurso sobre o amor verdadeiro na história da vilã mais famosa da Disney

  1. Caramba, eu tinha planejado ler e comentar algo, mas… não resta nada a comentar. Assisti o filme no sábado e ainda não tive tempo para digerir todos os pormenores, mas seu artigo me proporcionou uma visão ainda mais ampla das mensagens escondidas no roteiro (:
    P.S. Essa versão do conto é ainda melhor que a “original”.

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  2. Faço minhas as palavras da Rayssa. O que mais gostei foi a mensagem do amor verdadeiro… no momento em que Aurora adormeceu, sabia que o beijo que a acordaria seria o de Malévola pelo desenrolar do filme. Os roteiristas da Disney mesmo estão nos últimos filmes quebrando essa utopia de príncipe encantado montado em seu cavalo branco para te fazer feliz para sempre… acho isso muito dígino! É um fator a menos para alienar a cabeça das menininhas… rs

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