De traidor a herói: a construção da imagem de Tiradentes

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Herói e mártir da Inconfidência Mineira para uns, falso ídolo e figura insignificante para outros, o culto a Tiradentes resistiu a séculos de história e de muita controvérsia. Até hoje, persistem inúmeros debates acerca de sua aparência física (ele tinha cabelos grandes como nas telas de Décio Villares ou curtos?), sua personalidade, convicções, e o mais importante: qual o seu verdadeiro papel na Inconfidência? Perguntas como essa fazem ferver o imaginário popular e acrescentam ainda mais dúvida à figura daquele alferes da 6ª Companhia do Regimento dos Dragões. Contudo, o foco desta presente análise não se pauta em tais discussões e sim em como a representação do homem Joaquim José da Silva Xavier ganhou contornos de heroísmo e passou a representar a história brasileira em muitas fases: desde a proclamação da república, passando pelo Estado Novo, golpe militar de 1964, até os dias atuais. Esse “totem cívico”, como diz o historiador José Murilo de Carvalho (2004, p. 68), passou a operar uma espécie de unidade mística entre os cidadãos, na qual todos podiam se identificar.

Tiradentes esquartejado (tela de Pedro Américo).

Tiradentes esquartejado (tela de Pedro Américo).

A participação daquele que viria a ser conhecido como o Tiradentes no processo da Inconfidência Mineira ainda é bastante dúbia. De acordo com a lenda propalada desde o século XIX, ele fora vitimado pelos seus próprios companheiros, arcando com todas as responsabilidades por uma conspiração que não chegara a se concretizar de fato. No domínio dos símbolos ele é imbatível: quem, por exemplo, ao fechar os olhos e ouvir a palavra “Tiradentes” não se recorda automaticamente da tela pintada por Pedro Américo, com as partes do corpo de Joaquim José esquartejadas e expostas no cadafalso como num altar, ao lado do crucifixo, numa clara alusão a cristo? É esse Tiradentes transfigurado em mito de que muitos se lembram: a do homem pobre e injustiçado, que pagou pelo preço de seus supostos companheiros de classe alta, como o próprio Tomás Antônio Gonzaga. Mas quando se consolidou essa imagem? Quando Joaquim se transforma em herói nacional? Relembrar a transfiguração do homem em mito é, por assim dizer, fazer uma viagem não à Inconfidência, mas ao processo de proclamação da república no Brasil.

Nesse caso, nosso ano é 1893, quando republicanos e positivistas disputavam por uma figura que pudesse ser eleita para representar o novo regime. O mais óbvio deles seria o próprio Marechal Deodoro, que, moribundo e mal se segurando na sela, se colocou à frente da tropa e marchou até o Quartel General. Para quê mais heroicidade? Mas contra Deodoro pesavam seu incerto republicanismo, suas supostas convicções monárquicas e mesmo sua semelhança física com D. Pedro II. No outro vértice, estava Benjamin Constant, com seu republicanismo inatacável. Mas o problema com Benjamin é que ele não tinha imagem de herói. Nem sequer fora líder popular ou militar. Melhor seria optar por Floriano Peixoto, que resistiu tenazmente à Revolta da Armada no Rio de Janeiro e à revolta Federalista no sul do país, ganhando assim a simpatia tanto de civis quanto militares. “Mas, se não dividia civis e militares, dividia os militares (Exército contra Marinha) e os civis (jacobinos contra liberais)”, diz José Murilo de Carvalho (2004, p. 56).

Que figura então deveria ser utilizada para apaziguar os ânimos dos civis, militares e mesmo dos adeptos da monarquia recém-deposta? Abusca pelo herói, por sua vez, foi acabar parando onde poucos poderiam imaginar. Para Carvalho:

Embora fosse viva na memória popular, a Inconfidência era tema delicado para a elite culta do Segundo Reinado. Afinal, o proclamador da independência era neto de D. Maria I, contra quem se tinham rebelado os inconfidentes. O bisneto da rainha louca governava o país. O Brasil era uma monarquia governada pela casa de Bragança, ao passo que os inconfidentes tinham pregado uma república americana. Não era fácil exaltar os inconfidentes, e Tiradentes em particular, sem de alguma maneira condenar seus algozes e o sistema político então vigente (CARVALHO, 2004, p. 59).

Não obstante, outras figuras históricas competiam com a do alferes, como a de Bento Gonçalves, presidente da república do Rio Grande do Sul, e principalmente a de Frei Caneca, herói de duas revoltas: uma pela independência, e a outra contra o absolutismo de D. Pedro I.

Busto idealizado de Tiradentes, por Décio Villares.

Busto idealizado de Tiradentes, por Décio Villares.

Ainda de acordo com Carvalho (2004, p. 67), uma das causas que podem ter levado à vitória de Tiradentes deveu-se à sua posição geográfica. Para o historiador, ele “era o herói de uma área que, a partir da metade do século XIX, já podia ser considerada como o centro político do país – Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo”. O fato de Bento Gonçalves não ter atraído muitos adeptos pode ser explicado pela posição peculiar que o Rio Grande do Sul ocupava no cenário nacional e a suspeita de separatismo ligada à revolta farroupilha. Quanto à Frei Caneca, o Nordeste de fins do século XIX era uma região em decadência econômica e política, além do que a “Confederação do Equador também apresentaria tintas separatistas que a maculavam como movimento nacional” (idem.). Apesar de a Inconfidência Mineira pretender libertar somente três capitanias, isso se devia mais a uma espécie de estratégia do que a uma pretensão separatista: uma vez libertadas Minas, Rio e São Paulo, as outras poderiam segui-las sem grandes dificuldades.

O primeiro conflito que ganhou notoriedade ao redor da imagem de Tiradentes teve lugar no ano de 1862, durante a inauguração da estátua de D. Pedro I na Praça da Constituição (atual Praça Tiradentes). Em outras palavras: pretendiam erguer um monumento ao neto de Maria I no mesmo lugar onde o inconfidente havia sido enforcado por ordem da rainha. Para Carvalho, essa luta entre Pedro I e Tiradentes logo se tornaria num símbolo da batalha entre o regime monárquico e o republicano. D. Pedro era o herói da monarquia e, portanto, um fato que deveria ser ultrapassado pelo novo sistema de governo. É nesse contexto que, em 1890, o dia de 21 de abril é declarado como feriado nacional, juntamente com o dia 15 de novembro. Era preciso, então, riscar a simbologia monárquica e substitui-la às pressas pela republicana. Contudo, alguns desses símbolos persistiram como é o caso das cores da bandeira (o verde da casa dos Bragança e o amarelo dos Habsburgo) e mesmo o hino nacional, acrescentado apenas de algumas alterações: o verde da bandeira passou a representar as matas do país e o amarelo a sua riqueza, enquanto o hino recebeu a sua segunda estrofe.

O embate entre República e Monarquia: moeda de 1972 com as efígies de Tiradentes (esquerda) e D. Pedro I (direita).

O embate entre República e Monarquia: moeda de 1972 com as efígies de Tiradentes (esquerda) e D. Pedro I (direita).

Outro marco importante na luta pela construção do mito de Tiradentes foi à publicação da obra de Joaquim Norberto de Souza Silva, História da Conjuração Mineira, em 1873. Trabalhando por um período de 13 anos em documentação até então inédita, Norberto chegou à conclusão de que a imagem de Joaquim José como o mártir que tinha morrido com o grito de “viva a liberdade!” nos lábios era bem diferente daquela que os registros apontavam. Segundo o historiador, não fora como patriota que Tiradentes morrera, mas sim como “um frade”. Seu “inabalável” patriotismo teria sofrido um revés enquanto ele esteve preso e submetido aos interrogatórios dos padres franciscanos. Na reclusão, o alferes foi tomado por um forte fervor religioso, trocando assim a glória do patíbulo pelo sacrifício. Apesar dos vários protestos dos republicanos, a interpretação de Norberto é interessante porque ao desqualificar Tiradentes como rebelde, ele automaticamente repousava a liderança da Inconfidência nas mãos de Tomás Antônio Gonzaga. Dessa forma, “o herói deixava de ser uma pessoa do povo para se encarnar num representante da elite, deixava de ser um enforcado para se tornar num simples exilado” (CARVALHO, 2004, p. 64).

Mas porque não conciliar a imagem de patriota com a de religioso e transformar Tiradentes numa espécie de “Cristo da multidão”, como Luís Gama se referiu em seu artigo publicado em 1888? É aí que as artes plásticas assumem seu ponto mais relevante. Como se sabe, não sobrou qualquer imagem contemporânea de Tiradentes e há parcas descrições de sua aparência física, até que em 1890, o pintor positivista Décio Villares produziu uma litogravura do busto de Joaquim José com uma corda no pescoço, barba e cabelos longos que davam um ar de serenidade ao retratado. Era a própria imagem do Cristo ocidentalizado da maioria dos quadros. Outras telas ainda seriam produzidas com o mesmo efeito, fazendo referência ao martírio de Tiradentes da mesma forma que os artistas europeus fizeram (e ainda fazem) com a imagem de Jesus. Com isso, o patriota se transformou em místico, e sua coragem não vinha de seu fervor cívico, mas do religioso.

Imagem idealizada de Tiradentes, por Décio Villares.

Imagem idealizada de Tiradentes, por Décio Villares.

Sob essa perspectiva, ele se mostrava numa figura interessante inclusive para monarquistas, tornando-se assim num herói mais do que republicano, e sim nacional. Mais tarde, os governos militares iriam além, ao declararem Tiradentes como patrono cívico da nação brasileira, em 1965. Apesar das críticas recentes ao seu papel na história do país, sua imagem idealizada ainda continua a resistir contra a esse ataque à sua memória, e é provável que continue resistindo por ainda muito mais tempo. Por fim, finalizo essa pequena análise sobre a escolha da figura de Joaquim José da Silva Xavier como herói nacional com as palavras do historiador José Murilo de Carvalho (2004, p. 68): Tiradentes “não antagonizava ninguém, não dividia as pessoas e as classes sociais, não dividia o país, não separava o presente nem do passado nem do futuro”. Antes disso, “ligava a república à independência e a projetava para o ideal de crescente liberdade futura. A liberdade ainda que tardia”.

Referências Bibliográficas:

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da república no Brasil. – Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2004.

FARACO, Sérgio. Tiradentes: a alguma verdade (ainda que tardia). – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

MICELI, Paulo. O mito do herói nacional. – São Paulo: Contexto, 1988.

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Um comentário sobre “De traidor a herói: a construção da imagem de Tiradentes

  1. Bom…simplesmente este artigo me ajudou a descobrir a outra “face” de Tiradente,eu estou a estudar Tiradentes a um bom tempo…e sempre quis saber a opnião de todos sobre ele,para mim ele não foi um “heroi” ele foi apenas um certo alguém,que se rebelou contra o governo.E sendo assim do nada se tornou uma ícone da imdenpedencia!Se fosse assim eu me tornaria um heroi ao me rebelar a presidencia.

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