“Le Temps Viendra” | A religiosidade de Ana Bolena – Parte I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto.

O hábito de escrever nas páginas de um livro pode parecer vulgar para algumas pessoas, mas quando o “infrator” se trata de uma personalidade histórica, a coisa pode mudar um pouco de sentido: numa sala do castelo de Hever, permanece aberto um pequeno livro de orações que oferece maior interesse ao cômodo, especialmente pelo fato de conter numa de suas páginas a assinatura da antiga proprietária, Ana Bolena. Não menos interessante que o desenho da esfera armilar que acompanha a firma da rainha, o visitante poderá ler a inscrição “Le temps viendra” (os tempos virão), abreviação do provérbio francês que diz: “virá o dia em que pagaremos por tudo” (IVES, 2010, p. 277). Acima da inscrição, uma ilustração do dia do juízo final toma quase todo o espaçamento da página, fazendo uma clara referência à passagem do livro do Eclesiastes (12:13): “Deus fará dar contas, no dia de juízo, de tudo o que está oculto, quer seja bom, quer seja mal”. Mas até que ponto esse fato ilustra a concepção religiosa da mulher que esteve no centro do movimento reformista na Inglaterra? É isso que observaremos no seguinte texto.

Margarida de Valois, rainha de Navarra (por: Jean Clouet).

Margarida de Valois, rainha de Navarra (por: Jean Clouet).

A religiosidade de Ana Bolena, por muito tempo, tem sido alvo de debates entre vários estudiosos. Era protestante ou católica? O fato dela não ter deixado qualquer documento escrito expressando suas crenças só dificulta ainda mais a questão. Catarina Parr (sexta esposa de Henrique VIII), por exemplo, expressou sua fé protestante e conhecimentos doutrinários em muitos trabalhos de sua autoria, especialmente no livro Lamentation of a Sinner (BERNARD, 2010, p. 96). Entretanto, alguns elementos podem ajudara esclarecer um pouco mais esse assunto, como o patronato que Ana concedeu a escritores protestantes, notadamente William Tyndale e Simon Fish, e seu empenho na tradução e difusão da bíblia na língua inglesa. Contudo, para entender a ação religiosa da rainha, precisamos olhar além do cisma entre a Igreja da Inglaterra e a de Roma, e retroceder alguns anos em sua história, quando ela era uma jovem promissora na corte de França a serviço de Cláudia, esposa de Francisco I. Ali, Ana Bolena teria entrado em contato com grandes pensadores e também com uma das mulheres mais importantes de sua geração, Margarida de Valois, irmã do rei.

A futura rainha de Navarra fora uma grande patrona das letras, de poetas e filósofos, além de uma das maiores entusiastas da reforma da Igreja em França, mesmo quando o protestantismo ainda dava seus primeiros passos na Europa. Conforme diz ABREU (2003, p. 224) muitos teólogos e humanistas faziam parte do círculo de amizades de Margarida, a exemplo de Erasmo, Lefèvre d’Étaples, Rabelais, Melanchthon, Bucer, Calvino e o poeta Clément Marot, que contribuíra de maneira significativa para causa protestante naquele país. Sob esse ponto de vista, muitos escritores assumiram que a personalidade responsável pela religiosidade de Ana Bolena fora a irmã do rei Francisco. Na opinião de alguns, como Nicholas Sander, a “infecção” passara de Margarida para Ana, e desta para a Inglaterra. Porém, ressalta IVES (2010, p. 278), Ana nunca fizera parte do círculo da duquesa e, em suas cartas, ela aparece mais como uma visitante do que como uma discípula.

Assinatura de Ana Bolena em seu livros de orações com o desenho da esfera armilar.

Assinatura de Ana Bolena em seu livro de orações com o desenho da esfera armilar.

Com efeito, é possível dizer que a figura excêntrica de Margarida de Valois exercera uma forte influência sob a personalidade de Ana Bolena, o que pode ser comprovado pela correspondência entre ambas e pelo esforço que a segunda esposa de Henrique VIII empreendeu, depois de rainha, para encarnar diante dos olhos dos súditos o modelo de soberana cristã representado por Margarida. Não obstante, muitas das obras que Ana colecionava provinham de autores e/ou editores protegidos pela rainha de Navarra, e tanto uma quanto a outra tinham o mesmo hábito de expressar suas crenças em belos manuscritos, como podemos observar através da inscrição em seu livro de orações: “Le temps viendra / je Anne Boleyn”. Ainda de acordo com IVES (2010, p. 278), é possível que Ana possuísse uma cópia da obra de Margarida publicada em 1531, intitulada Le Miroir de l’âme pécheresse, e que teria sido esse mesmo exemplar utilizado em 1545 por sua filha, Elizabeth, para um trabalho de tradução, destinado à madrasta, Catarina Parr.

Teria sido durante sua estadia em França que Ana Bolena fora introduzida a uma prática religiosa que se concentrava numa experiência espiritual nutrida pela leitura pessoal da Bíblia. Todavia, não existem provas de que ela tivesse entrado em contato “com doutrinas religiosas mais extremistas, que visassem um cisma com a Sé de Roma” (ABREU, 2003, p. 225). Nesse caso, poderíamos dar confiança à observação de Eustace Chapuys, que a descreveu como “mais luterana do que o próprio Lutero”? Para BERNARD (2010, p. 95), o problema com a mente do embaixador imperial é que para ele romper com Roma significava uma evidência de luteranismo. Não obstante, em seus relatos o diplomata vendia a imagem de Ana como a da mulher responsável pelo repúdio de Catarina de Aragão e pela introdução da “heresia protestante” na Inglaterra. A despeito das alegações hostis de Chapuys, não podemos ignorar o fato de que Ana possuía livros de Simon Fish e William Tyndale que, por sua vez, eram influenciados por Martinho Lutero.

Henrique VIII, por artista desconhecido.

Henrique VIII, por artista desconhecido.

Em Obedience of a Christian Man, Tyndale condenava certas doutrinas, ritos e dogmas da Igreja Católica, tais como a adoração de imagens, os milagres, a confissão, a penitência e a absolvição. Além do mais, ele defendia a difusão da Bíblia em vernáculo, sob a alegação de que “Deus dera aos filhos de Israel a lei pelas mãos de Moisés em sua língua materna”, acrescentando também que “todos os profetas haviam escrito em sua língua materna”. Nesse sentido, ele não via razão para que a Bíblia fosse composta em latim (ABREU, 2003, p. 226). Acredita-se que fora Ana Bolena quem recomendara a leitura da obra de Tyndale a Henrique VIII, que após o término da mesma teria exclamado: “esse livro é para ser lido por mim e todos os príncipes”. Afinal, em Obedience, Tyndale denunciava a legitimidade do pode papal, assim como enfatizava a autoridade dos governantes seculares, um argumento que servia às intenções do rei durante os anos do processo de anulação de seu casamento com Catarina de Aragão.

Teria sido Ana Bolena quem também fizera chegar às mãos de Henrique o livro de Simon Fish, Supplicattion for the Beggars, onde o autor confrontava a opulência do clero com a indigência dos destituídos. A julgar pelas intenções do rei de espoliar o clero inglês, é possível supor que a análise desta obra teria reforçado a atitude do monarca. Retha Warnicke (1998, p. 110) argumenta que o esforço que Ana empreendia no estudo de obras religiosas não ortodoxas pode ser entendido, ao menos em parte, pela vontade que ela tinha de agradar o rei, apresentando-lhe livros que ele certamente gostaria de ler, visto que Henrique VIII enxergava a si próprio como um teólogo amador. Com efeito, era uma forma dela também fazer a leitura das mesmas, para assim discuti-las com o rei. De acordo com um de seus capelães, William Latimer, Ana “debatia as escrituras” com o rei enquanto tomavam a refeição. Para agradar ao monarca, em 1532 ela informara a Nicholas Hawkins, diácono de Ely que estava fora em uma missão diplomática, de que o rei estava interessando em obter trabalhos que discutissem o poder papal.

Ana Bolena (montagem de Renato Drummond Tapioca Neto).

Ana Bolena (montagem de Renato Drummond Tapioca Neto).

O próprio Henrique também não era contra a difusão da Bíblia em vernáculo. Em 1524 ele havia sugerido que não havia problema em ler as sagradas escrituras em qualquer língua, exceto na versão de Lutero (WANICKE, 1998, p. 110). Entretanto, mesmo que o rei tivesse explorado a possibilidade de traduzir a Bíblia para o inglês, ele relutava em permitir que seus súditos, mesmo estudantes universitários, lessem livros considerados heréticos. É lógico que isso não impediu que obras dessa natureza entrassem no país e é provável que Ana Bolena soubesse dos riscos que estava correndo ao consumir esse tipo de literatura. Assim como o soberano, ela acreditava que as escrituras deveriam ser lidas em vernáculo, e após Henrique assumir uma postura contrária à autoridade papal, surgiu uma possibilidade para que diversos grupos de protestantes o apoiassem em seu desafio à supremacia de Roma. Nesse aspecto, Ana se transformava numa peça fundamental para aqueles que não mais suportavam o despotismo da Igreja Católica e rogavam por uma reforma religiosa na Inglaterra.

Referências Bibliográficas:

ABREU, Maria Zina Gonçalves de. A reforma da Igreja em Inglaterra: acção feminina, protestantismo e democratização política e dos sexos. – Coimbra: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

BERNARD, G.W. Anne Boleyn: fatal attractions. – London: Yale University Press, 2010.

IVES, Eric W. The life and death of Anne Boleyn: ‘the most happy’. – United Kingdom: Blackwell Publishing, 2010.

WARNICKE, Retha M. The rise and fall of Anne Boleyn: family politics at the court of Henry VIII.UK: Cambridge University Press, 1998.

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4 comentários sobre ““Le Temps Viendra” | A religiosidade de Ana Bolena – Parte I

  1. Ótimo texto! Muito bom!
    Parabéns pelo blog. Ele tem um ótimo conteúdo.
    Só uma correção.
    Em Obedience of a Christian Man, Tyndale condenava certas doutrinas, ritos e dogmas da Igreja Católica, tais como a adoração de imagens, os milagres, a confissão, a penitência e a absolvição.
    Os católicos não adoram imagens e sim veneram imagens. Venerar é um respeito, por aquelas pessoas. Só adoramos a Deus.

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  2. A igreja nunca proibiu a Bíblia em língua vernácula como os protestantes alegavam.Existiram Bíblias em línguas vernáculas muito antes de existir Lutero.
    A igreja só passou a proibir por causa dos cátaros que a deturpavam.

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