Vilã ou heroína? – as representações de Ana Bolena

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Ana Bolena é uma das personagens mais controversas da história inglesa e talvez uma das mulheres mais interessantes do mundo. Sua vida até hoje permanece um mistério para muitos pesquisadores, devido às várias lacunas factuais não preenchidas pela historiografia. Não sabemos, por exemplo, a data exata de seu nascimento, ou qual de seus retratos melhor a representa (todos, ou nenhum?). Decapitada em 19 de maio de 1536, ela passara a ser uma espécie de não ser depois de sua morte. Uma geração depois, as coisas mudam e ela já era a mãe da monarca reinante. Esse fascínio que Ana exerce nas pessoas, ressalta a biógrafa Antonia Fraser, é explicável pelo fato de que nela observamos a trajetória de uma garota desconhecida que de repente salta para a fama ou notoriedade. Pouco tempo depois sua estrela cai, até que ela é resgatada por escritores como Shakespeare e mais recentemente por romancistas e cineastas, transformando-a de concubina a ícone da cultura popular.

Ana Bolena (ilustração de Kyle Lambert).

Ana Bolena (ilustração de Kyle Lambert).

Mas porque Ana Bolena é tão fascinante? Susan Bordo, autora de um belíssimo ensaio cultural sobre a rainha Ana, responde essa pergunta afirmando que não devemos pensar além do óbvio: a história de sua ascensão e queda é tão instigante, de roteiro inteligente, que pouco se diferencia de um filme da vida real. Neste enredo, observamos o longo sofrimento de uma esposa na pós-menopausa; a infidelidade de um marido apaixonado por uma mulher mais jovem e sexy; um momento de glória para a amante. De repente a paixão e o desejo acabam e então o círculo se fecha em torno da protagonista, culminando no seu derradeiro fim. Essa fórmula, por sua vez, fora amplamente aproveitada por romancistas ao longo de mais de 200 anos. Desde Francis Hackett até Philippa Gregory, a imagem de Ana Bolena sofreu uma profunda transformação, sempre acompanhado as principais correntes ideológicas ao longo dos anos.

De prostituta a rainha, de vilã a heroína, as representações de Ana variaram de acordo com os séculos e os escritores. Garrett Mattingly, por exemplo, em sua célebre biografia sobre Catarina de Aragão lançada em 1942 usara de palavras pouco lisonjeiras para descrever a mulher que suplantara a filha dos reis católicos no posto de rainha da Inglaterra. Contudo, o posicionamentodeste autor pode ser explicado devido ao fato de que até o final da Segunda Guerra Mundial (1945), Ana Bolena ainda era vista com hostilidade por parte de alguns pesquisadores. Com o término do conflito, ela retorna para o campo literário e historiográfico sob uma perspectiva mais delicada e mesmo favorável às suas atitudes como mulher e soberana. Mas o que possibilitou essa transformação da imagem da segunda esposa de Henrique VIII, que de concubina, passa a ser encarada como um exemplo de força e coragem para a sociedade ocidental?

Mais uma vez, para responder essa pergunta talvez não precisemos ir além do que está nítido: a partir da década de 1960, a mulher emerge como objeto de estudo nas ciências humanas e particularmente na história. Até então, ela atuava na família, geralmente confinada em casa ou, como diz a historiadora Michelle Perrot (2013, p. 17), ela era “invisível”. Na primeira Epístola a Timóteo (2, 12-14), estava escrito: “Que a mulher conserve o silêncio, diz o apóstolo Paulo. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, caiu em regressão”. Aquelas que quebrassem a ordem natural das coisas, tal como Ana Bolena fizera em meados do século XVI, seriam uma espécie de abominação para os países cristãos, dando assim margem a todo tipo de acusação, inclusive de bruxaria. O próprio Henrique VIII, quando queria se livrar da segunda esposa, afirmara que teria sido seduzido àquele casamento através sortilégios e, portanto, sua união não era válida aos olhos de Deus.

"Queen Anne Boleyn", romance histórico de 1939 escrito por Francis Hackett.

“Queen Anne Boleyn”, romance histórico de 1939 escrito por Francis Hackett.

Vários anos depois, Ana Bolena ainda permanecia como um mau exemplo a ser seguido e sua morte brutal servia de lição para aquelas que ambicionassem algo maior do que lhes era permitido, como mais tarde provaram sua prima, Catarina Howard, sua cunhada Jane Rochford, a rainha da Escócia, Mary Stuart, e quase três séculos mais tarde, Maria Antonieta, última rainha da França. Todas essas mulheres pagaram com a própria vida por crimes que supostamente haviam cometido em decorrência de uma conduta duvidosa. Desse modo, a herança de Ana Bolena viria para assombrar aquelas que transgredissem as normas sociais de suas respectivas épocas. A Revolução Francesa (1789), contudo, fora um momento onde a mulher tivera maior espaço para lutar por seus direitos. A partir daí, as portas estavam abertas para que mais de um século depois o movimento feminista ganhasse adeptas (e também adeptos) em todo o mundo.

Sendo assim, como em quase todo movimento que busca na história elementos que legitimem sua luta, o feminismo resgatou do silêncio mencionado por Perrot personagens antes tidas como vis e diabólicas, a exemplo de Cleópatra, Maria I Tudor, Catarina de Médici, Margarida de Valois (a popular rainha Margot), Maria Antonieta e a própria Ana Bolena. Nesse caso, um dos veículos mais utilizados para que esse resgate se tornasse possível fora a literatura. Romances como os de Jean Plaidy, Muder Most Royal (1949), e Norah Lofts, The Cuncubine (1963), ganharam rapidamente o gosto do grande público, especialmente por trazer para o leitor uma Ana diferente daquela mulher perversa e mal intencionada que é retratada nos despachos do embaixador imperial Chapuys, e que fora ratificada posteriormente por algumas biografias, como a de Garrett Mattingly.

Na segunda metade do século XX, personagens dependentes e passivas já tinham deixado de ser apreciadas pelo público de leitoras de classe média. Conta-nos Susan Bordo (2013, p. 165):

A Ana da ficção não é mais produzida no século XX como uma maligna com ódio no sangue. Em vez disso, ela é uma jovem mulher de temperamento forte, com qualidades pessoais que são bastante atraentes, mas que, quando desencadeada sua elevação, mostraram-se perigosas para ela.

Depois do período de Guerras, Ana Bolena retornara para o mundo da ficção com mais força e independência que antes. Não era mais a concubina e sim a heroína injustiçada, que pagou com a própria vida por crimes que não cometeu. Nesse sentido, a ideologia feminista constituíra-se num fator decisivo para que romancistas e depois biógrafos reinterpretassem o papel da rainha Ana tanto como mulher quanto como soberana dentro da sociedade inglesa do século XVI.

"The Life and Death of Anne Boleyn", considerada a melhor biografia de Ana Bolena lançada até então, escrita por Eric Ives.

“The Life and Death of Anne Boleyn”, considerada a melhor biografia de Ana Bolena lançada até então, escrita por Eric Ives.

Dessa fase, surgem excelentes biografias que vão desde autores como Hester W. Chapman, The Challenge of Anne Boleyn (1974), a Eric Ives, The Life and Death of Anne Boleyn (2004). Através de filmes como Anne of The Thousand Days (1969) e a série televisiva The Tudors (2007-2010), Ana Bolena salta do mundo dos livros para o das telas. Sua história passa a ser mais acessível, variando de acordo com a posição de cada autor e/ou diretor. Entretanto, na maioria dessas produções, é possível vermos uma personagem romântica, mas também determinada a conseguir o que queria, representando assim um tipo de força amplamente valorizada pela mulher moderna, que não mais aceitava ficar surdinada à vontade dos homens e confinada no ambiente da casa, criando os filhos e cuidando do lar enquanto eram sustentadas pelos maridos. Com isso, a Ana do final século XX deixara de ser a vilã para se tornar num exemplo de heroína trágica para as mulheres de então.

A partir daí, Ana Bolena faz sua entrada triunfal no século XX, celebrizada por uma porção livros, filmes, séries de TV e peças de teatro. Ultimamente, tem-se verificado um grande aumento na rede de blogs dedicados a ela e ao período em que vivera. A quantidade de informações que tem sido veiculada sobre a segunda esposa de Henrique VIII não para de cessar. É interessante notar que mesmo o rei tendo se empenhado em apagar dos registros a memória de sua ex-consorte ao mandar destruir retratos, objetos e documentos referentes à mesma, o fascínio que ela exerce na mente das pessoas, mesmo naquelas que não simpatizam com sua história, é tanto que ultrapassou as barreiras do tempo, da literatura, do sexo, das mídias, etc. Vilã ou heroína, é inegável que Ana Bolena fora uma mulher incrível, e a julgar pelo caminhar das coisas é provável que sua fama esteja longe de chegar ao fim.

Referências Biliográficas:

BORDO, Susan. The creation of Anne Boleyn: a new look at England’s most notorious queen. – New York: Houghton Mifflin Harcourt, 2013.

CHAPMAN, Heste W. The Challenge of Anne Boleyn. New York: Coward, McCann &Geoghegan, 1974.

FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. 2ª edição. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

HACKETT, Francis. Henrique VIII. Tradução de Carlos Domingues. – São Paulo: Pongetti, [1950].

IVES, Eric W. The life and death of Anne Boleyn: ‘the most happy’. – United Kingdom: Blackwell Publishing, 2010.

MATTINGLY, Garrett.Catalina de Aragón. Tradução de Ramón de La Serna – Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1942.

PERROT, Michelle. Minha História das Mulheres. Tradução de Angela M. S. Corrêa. 2ª edição. São Paulo: Contexto 2013.

WATT, Ian. A ascensão do romance. Tradução de HildegardFeist.- São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

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7 comentários sobre “Vilã ou heroína? – as representações de Ana Bolena

  1. Ótimo artigo Renato, como sempre! Meu fascínio com a Ana Bolena começou justamente com sua representação “vilã” do filme A Outra. Eu sempre fico fascinada pelos vilões na literatura e no cinema, pois acho que os vilões acabam tendo mais camadas de personalidade que os mocinhos. Então logo após o filme fui atrás de vários artigos sobre a Ana e meu fascínio só aumentou. De irmã traíra, ambiciosa e sedutora, ela se transformou para mim em uma mulher inteligente, de temperamento forte, mãe zelosa, sedutora, ambiciosa, porém não era uma pessoa ruim, porém não era uma santa, possuía os seus pecados, ou seja Ana Bolena se transformou para mim em uma mulher comum. E é justamente isso que me fascina nela, Ana sou era uma mulher comum como qualquer outra, porém que mudou os rumos da história e até hoje fascina para o bem ou para o mal! Bjs, ansiosa pelos próximos artigos!

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    • Muito Obrigado, Camila.
      Sim, Ana Bolena foi uma mulher de carne e osso como qualquer um de nós, mas que teve fibra e coragem suficiente para lutar pelo que queria. Nem no momento de sua morte ela vacilou.
      Espero que você continue acompanhando o nosso especial.
      Abraço!

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  2. Simplesmente sou apaixonada por história, principalmente entre a idade média e contemporânea, porém tenho um fascínio especial por Ana Bolena, por ela ser ambiciosa e conseguir fazer o rei mais poderoso da Europa romper com a Igreja Católica a maior potência do mundo ocidental, mesmo que isso tenha tido um preço, esse preço ajudou a eterniza-la.

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  3. A primeiro vez em que ouvi falar em seu nome foi quando eu tinha 15 anos. Depois em uma viagem, comprei o meu primeiro livro sobre ela ( Ana Bolena ) e depois os anos passaram eu comprei todos os livros possíveis sobre ela e os Tudors, além de quase todos os filmes que contavam a sua trágica história. Sempre fui tão ligada à essa rainha que sem causa alguma, a minha filha nasceu no dia 19 de Maio, data de sua morte.
    Fascinante rainha, um ícone da história ocidental que para sempre será lembrada.

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  4. Desde os meus 15 anos sou influenciada pela história de Ana Bolena. Comprei todos os livros possíveis e todos os filmes e seriados existentes. Sempre foi muito forte o seu fascínio sobre mim que a minha filha ( sem causa provocada ) nasceu no mesmo dia em que Ana morreu, 19 de Maio.
    Para mim e para tantas pessoas, Ana Bolena é uma das mais importantes rainhas e personalidades da história mundial.

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